Gleide Davis

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  • As relações religiosas como arma ideológica de dominação

    Nós, pessoas negras e adeptos de religiões afro, vivenciamos todos os dias, sutilmente e brutalmente, os impactos da intolerância religiosa na nossa carne e na nossa mente. Entendendo que esse assunto é tão urgente como qualquer outra demanda política, porque se trata da nossa sobrevivência na sociedade como sujeitos dotados do direito de ir, vir e existir, falar sobre o ódio às religiões afro no Brasil é fazer política em prol de mais da metade da população do país.

    A intolerância religiosa é qualquer negação, seja moral, política ou intelectual dos aspectos de uma religião e da cultura que esta carrega consigo.

    A negação da religião cristã (entende-se como cristã, qualquer religião que tenha Jesus Cristo na centralização de sua cultuação) no Brasil é praticamente inexistente. Por se tratar de uma religião que se insere numa cultura dominante trazida pelos povos europeus no período que antecede e durante a escravidão, o cristianismo foi muito utilizado para modificar as relações culturais entre os indígenas e posteriormente entre os escravizados. Sendo disseminada como uma religião superior, cujo Deus tinha um propósito de “limpar” os pecados e trazer a verdadeira salvação para os povos considerados “sujos” e “primitivos” (indígenas e negros). Esta religião causou um impacto cultural negativo para as culturas indígena e africana, tem em vista que o processo de embranquecimento cultural, causou uma enorme dificuldade para a realização própria de seus cultos, sem que esses, sejam carregados de uma cultura embranquecida e colonizadora.

    A negação da cultura afro-brasileira é originada por esses princípios históricos aqui mencionados. A mistura religiosa (sincretismo) imposta brutalmente pelos europeus causou ao candomblé e a umbanda um lado negativo que lhes foi delegado pela cultura cristã no Brasil. A imposição das entidades (exus e pombagiras) como algo sombrio e demoníaco foi uma das caracterizações que tornaram as religiões afro-brasileiras perseguidas até os dias atuais. Causando na população negra, um afastamento cultural e identidário, e ainda pior, uma enorme perseguição social e política em todos os espaços ao qual este grupo se propõe a (tenta) ocupar.

    O fato é que, historicamente o racismo tem o seu papel na opressão contra as religiões afro. Não à toa, temos um enorme histórico de terreiros apedrejados e queimados em diversos estados do Brasil, assim como diversos sacerdotisas e sacerdotes que foram brutalmente assassinados em nome da religião. Não é difícil ouvir ou ler relatos de pessoas que perdem vagas de emprego, relacionamentos amorosos, que são expulsas do convívio familiar, acadêmico e social, que sofreram hostilização em um determinado espaço por estarem utilizando algum adereço, fio de contas ou contraeguns, que são elementos utilizados por pessoas que cultuam a religião afro. A livre acessibilidade e até mesmo a ascensão social dos indivíduos segue prejudicada, primeiramente pela sua condição racial, em segundo lugar por serem negros que se enegrecem culturalmente pela sua religião.

    A arma ideológica do racismo é o genocídio. E o genocídio engloba o apagamento cultural causado pela intolerância religiosa do candomblé e umbanda no Brasil. Estes estão intimamente ligados quando o indivíduo é negro. Porque a acessibilidade de indivíduos brancos dentro e/ou fora das religiões afro, permanece intacta. É preciso refletir em como nossos corpos seguem mortos diariamente, não apenas fisicamente, mas ideologicamente, religiosamente e psicologicamente falando. Debater politica racial, é reconhecer que o primeiro passo para a nossa emancipação enquanto indivíduos e cidadãos sociais, é a nossa reconstrução humana, e para isso, a nossa identidade cultural precisa ser edificada e protegida, primeiramente por leis efetivas e em segundo lugar, pelo avanço da consciência de todas as pessoas que queiram ou não se inserir diretamente na cultura afro-brasileira.

  • Bolsonaro e a desmoralização da cidadania

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    2018 tem sido um ano conturbado já no seu início. Sendo um ano de eleições, a tendência é que a correlação de forças se mostre cada vez mais latente. Isso também se revela pelo fato de que o ano passado foi marcado por diversos retrocessos aos poucos direitos conquistados pelos trabalhadores, mulheres, pessoas negras e oprimidas de forma geral.

    Nessa brincadeira de cabra cega que tem sido a política nacional, Bolsonaro e a ditadura militar representam o mesmo lado da corda. Grandes marcadores da ignorância, do fascismo e da violência, que tentam se esconder se apoiando em apelos populares como a corrupção, a moral religiosa e o patriotismo. Entretanto, na realidade, nada do que ele se apoia, se sustenta de fato.

    Um candidato que se mostra indiferente ao genocídio da população jovem e negra, pois, para ele, a população “de bem” deve andar armada para combater a violência de forma eficaz. Sabemos quem Bolsonaro considera como população de bem e sabemos que, para ele, jovens negros amarrados em postes, representam a união da sociedade cansada de ser roubada. Bolsonaro subalterniza a cidadania de pessoas negras adolescentes. Para ele, essas são pessoas de quinta categoria, que merecem morrer porque furtaram. Não se questiona a pobreza, a falta de oportunidade, a desigualdade social e o inchaço do desemprego no país como despontador da violência.

    Bolsonaro ainda julga justo que mulheres ganhem menos, ainda que trabalhem sob a mesma carga horária que um homem, sob a justificativa de que mulheres engravidam, então rendem menos. Isso não tem qualquer apoio científico para justificar tal afirmação. Ele também é um forte apoiador de empresas que queiram fatiar a Petrobras em mil pedaços, retirando-a da posse do nosso país. Ora, não seria ele um candidato que se orgulha de ser patriota? Quem Bolsonaro considera digno de cidadania e respeito de fato, num país em que mais de 50% da população é feminina e, ou negra?

    Se um candidato se julga um grande defensor do “cidadão”, mas exclui a maior parcela da sociedade brasileira do que ele julga ser “de bem”, ele não só se contradiz com o que julga ser correto, como não consegue mascarar seu discurso excludente e fascista, demarcado por seus interesses pessoais e manipuladores de ideais que subjugam qualquer pessoa que não seja branca, homem e dono de grandes empresas que possam lucrar com a venda da floresta amazônica, por exemplo. Projeto o qual o mesmo defende com unhas e dentes.

    Precisamos do poder da consciência para apontar as contradições de alguém que julga defender muito, mas não consegue lutar por nada que esteja longe do seu próprio umbigo. Bolsonaro não representa ninguém de fato, ele apenas utiliza seu pequeno eleitorado como fantoche para tentar ter poder o suficiente para impor um coronelismo doentio que desmoraliza e ridiculariza a cidadania.

    Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
  • O 8M e a romantização da exploração

    Gleide Davis

    Por Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Neste último 8 de março, fomos surpreendidos com as modalidades de conveniência ao conservadorismo ao se ver a quantidade de reprodução de machismo nas “homenagens” que algumas empresas deram às mulheres. O McDonald’s separou os funcionários por gênero e colocou lojas onde só houvessem mulheres e outras onde só houvessem homens. Houve até mesmo homenagem ao símbolo do feminismo na logo de um site pornô.

    O McDonald’s é amplamente conhecido por ser uma empresa de alta demanda de demissões e contratações em um curto período de tempo. Pois além de oferecerem uma compensação salarial muito abaixo do cargo desenvolvido em empresas de médio e pequeno porte, são as que mais exploram a mão de obra de seus funcionários. Temos relatos na internet de que ter vida social (estudar, se relacionar) e trabalhar nesta empresa é impossível.

    A homenagem que fazem ao colocar apenas mulheres para trabalhar em uma determinada loja mostra que não há o mínimo de preocupação com as condições de trabalho e remuneração dessas mulheres. Ao contrário, as expõem a qualquer tipo de salubridade, dando a entender que local de igualdade não é equilibrar o que é privilégio masculino e transformam em direito para todos, mas que igualdade é um patamar onde todos se dão muito mal em relação à salubridade e péssimas condições de saúde.

    Em relação ao site pornô, isso se torna ainda mais esdrúxulo. É impossível pensarmos que a indústria que mais animaliza mulheres, produz cenas de sexo completamente degradantes e coloca a mulher como subserviente de um péssimo desempenho sexual masculino, pode, em alguma instância, nos homenagear de uma maneira realmente fortalecedora.

    É sobre esse tipo de “homenagem” que temos que nos atentar, no que diz respeito às indústrias da moda, beleza, e até mesmo alimentícia como nos exemplos citados. O capitalismo é patriarcal, apaga o real significado da emancipação da mulher trabalhadora, dando a ela a ideia de que a tripla jornada a torna melhor que o homem, quando na verdade nos torna ainda mais subservientes.

    É importante fazermos um levante contra toda a forma de exploração. Ser mulher também é sofrer com a transfobia e racismo. E que, a cada 8 de Março, um sentimento de indignação reacenda no coração de cada mulher que teve o seu filho assassinado; que sofreu violência física, sexual e ainda foi difamada pelo agressor; que foi presa por estar com um homem criminoso; que trabalha três vezes mais e recebe três vezes menos; que cometeu suicídio por não ter o corpo “perfeito”.

    Queremos homenagens reais sobre o que suportamos desde sempre, mas queremos mais que isso, queremos este e os outros 364 dias de igualdade salarial, diminuição da violência obstétrica, fim do extermínio e encarceramento de mulheres negras, descriminalização do aborto, fim do feminicídio e assassinato de travestis.

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  • ‘Fica calma’ e o estereótipo da negra raivosa

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Não é incomum a concepção negativa que se tem a mulheres que possuem uma postura mais “fechada”, que são mais sérias e se impõem nos debates de maneira mais incisiva. Cientistas estadunidenses fizeram um estudo de amostragem para provar que homens que se alteram numa discussão conseguem obter credibilidade no seu argumento. Ao contrário de mulheres, que ao se impor e falar mais grosseiramente serão imediatamente taxadas de loucas. Este é o mito da histeria, algo que há alguns séculos atrás já foi relacionado a um comportamento patológico atribuído exclusivamente a mulheres que fugiam do padrão “recatada e do lar” na sociedade. Essas mulheres recebiam tratamento de choque para que se enquadrassem num comportamento passivo e submisso. Estes tipos de experiências bizarras foram proibidas. No entanto, o estereótipo da histeria ainda permanece como algo silenciador e patologizante à atuação de uma mulher que carregue no seu semblante, ou nas suas ações, um comportamento que performe pouca feminilidade.

    Embora não existam quaisquer relações raciais envolvidas nesses estudos, não é raro vermos pessoas citarem mulheres negras como mal-humoradas, que estão sempre de cara fechada, que mal sorriem, ou estão sempre prontas para gritar, falar um palavrão, ou causar algum tipo de confusão. Esse estereótipo, ao contrário do que ocorre com as mulheres brancas, não precisa necessariamente apresentar algum traço em particular, ele se desenvolve automaticamente pela raça da mulher em si, e isso é fruto de uma série de características históricas que envolvem toda a população negra e a mulher em específico.

    No período da escravidão, cobrava-se das mulheres brancas da alta sociedade uma postura de leveza, calma, gentileza e pouca exaltação durante uma conversa. As mulheres negras, no entanto, não receberam essa “educação civilizatória” e se portavam como bem quiseram, gargalhavam, discutiam, se impunham e tomavam a frente dos homens em diversas situações de perigo, ou trabalho pesado.

    Nasce daí a negra raivosa. Promíscua, suja, se envolve com homens casados e não possui nenhum pudor, que não merece respeito e tem a sua condição de mulher, enquanto gente subjugada.

    “Aquele que coloca a mulher negra como perigosa, instável, dominada pelas emoções, incapaz de agir racionalmente, como alguém que merece a solidão e que não ligará para isso, pois é muito forte e não precisa do mínimo carinho, cuidado ou atenção”, afirmou Suzane Jardim.

    Esse estereótipo não reconhece o ódio da mulher negra como uma reação legítima diante de situações injustas, ele é visto como um desejo patológico irracional da mulher negra em controlar tudo e todos ao seu redor. Ele pode ser empregado contra mulheres negras que se atrevem a questionar injustiças, maus-tratos, ou pedir ajuda. Com uma enorme ferramenta de deslegitimação e silenciamento nas suas costas, a mulher negra raivosa perde seu espaço, perde a sua autoestima e a sua capacidade de luta. Condenadas ao isolamento social, as mulheres negras acabam falando de suas dores somente para si mesmas, porque ao perderem sua voz, a capacidade de lutar por um espaço misto se esvazia.

    Pois então, que sejamos todas negras raivosas, que não percamos a nossa coragem de gritar pois, se quando apenas falamos não somos ouvidas, que gritemos. Só nós sabemos o quanto o silêncio é enlouquecedor e pode nos matar.

    Foto: Portal 6

  • Por que as contrarreformas não podem ser comparadas à escravidão

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    É inegável o abalo sistêmico que as contrarreformas Trabalhista, que já foi aprovada, e Previdenciária estão causando nas estruturas de trabalho e a relação que a classe trabalhadora tem com a sua percepção de direitos e a sua localização social.

    Não se pode minimizar os impactos que a contrarreforma Trabalhista causam para nós trabalhadoras e trabalhadores. As relações de emprego formal foram transformadas em relações claras de exploração, não deixando qualquer dúvida de que o Congresso mais conservador desde 64, em conjunto com um presidente interino e golpista, formam uma quadrilha que põe a classe trabalhadora contra a parede e de mãos para cima. O que antes se transformavam em processos nos Tribunais Trabalhistas, hoje foi legalizado como uma relação “comum” em que o empregador sempre irá levar vantagem em relação à parte mais frágil da negociação que, evidentemente, somos nós trabalhadores.

    O que não se pode ignorar, ou negligenciar, são as comparações que se tem feito em torno das contrarreformas e da escravidão do povo negro no Brasil colônia. Essas comparações são evidentemente equivocadas, tendo como princípio a negação da cidadania dos escravizados naquele período. As pessoas negras trazidas para o Brasil eram tratadas como propriedade dos senhores e sinhás de engenho, não tendo direito a manterem seus nomes de nascença, a reivindicarem seus rituais religiosos – esses que eram feitos às escondidas, sendo passíveis inclusive de tronco -, ou quaisquer aspectos culturais advindos de suas terras natais.

    A negação dos direitos civis, políticos e sociais, o não reconhecimento como “gente”, a troca de trabalho por teto e comida de maneira impositiva através da força física são gêneros que categorizam importantes diferenças entre o trabalhador atual – que por ser reconhecido pelas leis burguesas como trabalhador, já não pode se enquadrar num patamar de escravidão -, comparado ao que o povo negro sofreu.

    Dentro da categoria “classe trabalhadora” existem setores abastados em relação a outros. Não podemos hegemonizar a classe trabalhadora; não podemos colocar sob o mesmo patamar discursivo um servidor federal e uma empregada doméstica, um servente e um pedreiro. São explorações que se revelam de maneiras diferentes e que colocam as mulheres trabalhadoras e os trabalhadores negros numa escala de submissão maior do que aqueles do setor de classe média. Isso não era atribuído a qualquer escravo, pois escravos não tinham direito à moradia própria, nem acesso a qualquer remuneração que não despendesse apenas para a sua sobrevivência como qualquer maquinário de fabricação.

    Uma das informações debatidas no livro “Mulheres, Raça e Classe” da filósofa estadunidense Angela Davis, é que as mulheres escravizadas ao descobrir que estavam grávidas se matavam, ou abortavam para não gerar mais escravos.

    Já o “12 anos de escravidão”, que é baseado numa história real, mostra que milhares de escravos se matavam por causa do sofrimento a que eram submetidos e quando não conseguiam, eram torturados em diversas câmaras de tortura. Em uma cena, uma escrava é presa durante um dia inteiro em um buraco com tampa de aço que ficava embaixo do sol e fazia os escravos “cozinharem” ali dentro. O motivo pelo qual ela foi presa foi por não aceitar ser violentada sexualmente pelo senhor da fazenda.

    Em relação ao Brasil, milhares de africanos sequer chegavam aqui. Isso porque eles ficavam presos num porão, sem comida e dormindo no mesmo espaço em que defecavam. Alguns morriam e só eram jogados no mar uns três dias depois.

    Este é apenas um dos aspectos mais primários que se tem deste debate para saber a respeito da escravidão, de que comparar isto com a contrarreforma Trabalhista ou Previdência é uma forma de deslegitimar o peso social e histórico que o povo negro traz consigo até hoje. O cenário político é desesperador, isso é um fato. Mas, o momento histórico é outro. Quando imigrantes europeus foram trazidos para trabalhar e foram oprimidos nas fábricas, a punição por fazer greve era o desemprego, nenhum deles foi jogado ao tronco por desobedecer seu patrão, como se fosse um animal maltratado por um dono cruel.

  • Vidas negras não são propriedade pública

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Alguns fatos que ocorreram no país, nos últimos dias, têm revelado exemplos ostensivos de impunidade e condescendência com determinados indivíduos na sociedade.

    Em Salvador, dois colégios particulares foram palco de dois episódios que revelaram crueldade, racismo, elitismo e desleixo com a população da cidade. No primeiro, os alunos fizeram uma espécie de gincana com o título “Se nada der certo”, caracterizando-se de pessoas de classes mais baixas travestidas de cargo de limpeza e fala embargada com erros de português. No segundo episódio, ainda em Salvador, alunos de um outro colégio particular se caracterizaram de Ku Klux Kan para desfilar pela escola e tirar fotos com outros alunos.

    Já em São Paulo, um adolescente teve a sua testa tatuada com os dizeres “sou um ladrão e vacilão”, após ser acusado de cometer um furto que até então não foi provado. Mas, ao contrário disso, circula um vídeo na internet com o garoto tendo a sua testa tatuada, o que comprova o crime de tortura contra ele.

    O que se assemelha em relação a esses três fatos é o ódio e a negligência com a humanidade das pessoas negras e pobres. Para determinados indivíduos brancos e de classe média alta, a população pobre e negra não tem potencialidade sobre si mesma, por isso merece ser motivo de chacota, ou terem suas vidas manipuladas a mercê de valores fascistas que se sustentam na ideia de que o Estado beneficia criminosos com os Direitos Humanos e deixa os “cidadãos de bem” em perigo.

    Nada disso é verdade. A maioria da população morta e encarcerada é negra. É também a maioria da população que ocupa cargos de limpeza, que embora honesta, é precarizada, injustiçada, mal remunerada e negligenciada em relação ao comprometimento de direitos trabalhistas.

    Ambas instituições educacionais de Salvador, que são de mensalidades que superam o salário de muitos trabalhadores da periferia e que teoricamente têm um ensino de excelente qualidade, nunca se preocuparam em realizar atividades curriculares voltadas para o debate do machismo, racismo, LGBTfobia, os impactos da precarização da educação básica e as consequências da pobreza. Mas fizeram questão de se eximirem da culpa ao serem julgados pelas atitudes elitistas e racistas do seu corpo discente e docente.

    As políticas públicas precisam deixar de ser um tapa buracos social e passar a trabalhar os olhos da sociedade para a humanidade das pessoas que residem na periferia, ou nas ruas. Criar formas de humanizar pessoas brancas e de classe média alta, que ao verem pessoas negras, agem como animais sedentos por sangue e mutilação.

    Estamos cansados de sermos negligenciados enquanto seres humanos. Nossos corpos não são propriedade pública. Queremos que todos os “Rafael Braga” recebam o mesmo tratamento que todos os “Andreas Von Richthofen” recebem quando cometem algum ato infracional.

    Foto: Reprodução

  • Rafael Braga e a ‘Guerra às Drogas’

    Por: Gleide Davis, Colunista do Esquerda Online

    Rafael Braga, negro e pobre, foi preso e condenado por supostamente produzir explosivos com água sanitária e Pinho Sol. Perseguido pela polícia posteriormente na comunidade em que vive, foi preso novamente sob a acusação de portar uma quantidade de drogas que sob quaisquer outras circunstâncias, não seria considerado tráfico.

    Condenado a 11 anos de prisão por dois crimes que não cometeu, Rafael cumpre mais uma cartilha do sistema carcerário configurado pela “guerra às drogas” que nascera nos Estados Unidos pelo então presidente Richard Nixon (1971) com um único objetivo: uma nova modalidade de caça aos negros e pobres dos centros urbanos. A guerra às drogas foi uma forma de justificar as inúmeras prisões e assassinatos recorrentes apenas nas periferias e subúrbios. Com o tráfico localizado estrategicamente nessas regiões, é muito fácil para o Estado explicar o aumento no investimento em segurança pública e a repressão ostensiva.

    De acordo com o mapa do encarceramento publicado em 2015, os jovens representam 54,8% da população carcerária brasileira. Em relação aos dados sobre cor/raça verifica-se que, em todo o período analisado (2005 a 2012), existiram mais negros presos no Brasil do que brancos. Em números absolutos: em 2005 havia 92.052 negros presos e 62.569 brancos, ou seja, considerando-se a parcela da população carcerária para a qual havia informação sobre cor disponível, 58,4% era negra. Já em 2012, havia 292.242 negros presos e 175.536 brancos, ou seja, 60,8% da população prisional era negra. Constata-se, assim, que quanto mais cresce a população prisional no país, mais cresce o número de negros encarcerados.

    Já em 2016, o mapa de violência publicado pelo IPEA demonstra que 77% das vítimas de homicídio por armas de fogo são jovens de até 21 anos, negros e pobres; e que, aos mesmos 21 anos, as chances de jovens negros morrerem por homicídios são 147% maiores do que de jovens brancos. O estudo ainda aponta que, entre 2004 e 2014, houve um crescimento de 18,2% de homicídios contra negros, e uma diminuição de 14,6% contra pessoas brancas.

    Esse crescimento desordenado de homicídios vinculados à polícia militar e direcionados apenas à população negra e periférica tem nome: genocídio. Um outro fator que está intimamente ligado à guerra contra o tráfico de drogas que foi injetado na periferia.

    Para onde caminhar?
    É inconcebível que ainda não tenhamos uma saída política imediata para casos como o de Rafael, que andemos em círculos no que diz respeito ao encarceramento e assassinatos em massa contra jovens negros.

    É preciso contra atacar as medidas racistas e genocidas da polícia e da justiça burguesa. Debater genocídio, encarceramento, antiproibicionismo e desmilitarização da PM como assuntos tão importantes quanto a situação política institucional do país. Descentralizar nossas práticas políticas das universidades e passar a direcionar nossas demandas para as comunidades, guetos e favelas do país. Ouvir o que os jovens, mulheres e LGBTs negros da periferia têm a nos dizer. Combater ostensivamente nas ruas, nos presídios e escolas públicas as repressões policiais e contribuir para uma construção coletiva de combate ao racismo institucional.

    Foto: Midia Independente

  • O 8 de março é negro em Salvador

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Neste último dia 8, mais de 1.500 mulheres se reuniram em Salvador numa passeata que demonstrou o caráter de luta da cidade mais negra do mundo fora da África. Foram diversas mulheres que ecoaram seus cantos coletivamente com pautas feministas como a cultura do estupro, liberdade sexual e violência contra a mulher. Mas, sem dúvidas, o grito que mais fortaleceu este ato foi a indignação pela Reforma da Previdência, que prevê diversos recuos em direitos das trabalhadoras e trabalhadores.

    Indignadas e com nós em suas gargantas, mulheres marcharam pelo centro da cidade gritando “Fora Temer” e “Nem um direito a menos”, demonstrando que não há a menor dúvida de que as mulheres nordestinas, que sempre protagonizaram grandes lutas na história, não perderam sua ancestralidade e força de luta.

    Neste 8 de março, as mulheres soteropolitanas protagonizaram uma marcha de negras, indígenas e travestis. Mulheres que não negaram o sangue de justiça que circula em suas veias e que sempre lutou pela libertação de seu povo ao longo da história, marcharam em 2017 contra a precarização dos direitos das mulheres, não abaixaram suas cabeças e mostraram que a mulher nordestina não tem nada a temer.

  • A credibilidade no Brasil tem gênero, raça e classe

    Por: Gleide Davis

    Sabemos que a polarização social sempre nos permitiu ver de maneira nítida a separação racial causada pela desigualdade no Brasil. A pobreza, que é o principal braço desta desigualdade, tem abrangência não só econômica, mas também cultural, de acessibilidade e de liberdade de expressão. E, consequentemente, expressa de maneira estrutural quem irá comandar as diretrizes da sociedade como um todo.

    A centralização racial da cultura se manifesta, por exemplo, na educação. Educação esta que é totalmente eurocêntrica e determinada pela ideologia dominante que é branca. Isso faz com que o acesso à cultura seja norteado, por exemplo, pelas teorias de branqueamento da sociedade, que foram criadas por sociólogos que acreditavam na miscigenação como um fator positivo para tornar a sociedade totalmente branca e consequentemente “limpa”. Com a predominação da cultura eurocêntrica na educação, aprendemos a lidar com a arte e a filosofia criadas na Europa branca como parâmetros acadêmicos para a nossa formação social.

    As línguas Iorubá e Guarani-kaiowá, por exemplo, não são vernáculas, ao contrário da língua francesa e inglesa que são quase um sine qua non das atribuições de língua portuguesa na universidade. Com isso, a cultura dos países periféricos é tida como algo meramente cultural e nunca tem parâmetro científico, perdendo a legitimidade de construção dos indivíduos para a formação mercadológica. Podemos visualizar isso palpavelmente quando em uma situação cotidiana, uma pessoa que fala Latim não tem vantagem sobre uma que fale espanhol numa vaga de emprego.

    Por isso é que vemos pessoas negras muito mal sucedidas financeiramente em suas áreas de estudo, mesmo quando possuem uma formação acadêmica densa e um conhecimento de décadas na sua área de atuação. Não possuem a mesma credibilidade de uma pessoa branca, mesmo que esta última não tenha metade da formação acadêmica ou conhecimento de área que a pessoa negra.

    É muito natural acreditar que pessoas negras não possuem credibilidade para falar sobre determinado assunto, porque intrínseco à sua cor prevalece a ideia de que ela teve uma educação empobrecida e que, por este motivo, não merece ser ouvida com confiabilidade. Da mesma forma que diversos estudos carregados de racismo, machismo, LGBTfobia e senso comum são amplamente e inquestionavelmente aceitos como ciência. O racismo institucional aliado com o cientificismo positivista permeiam as relações sociais, ditando quem deve ter credibilidade sobre a cultura, educação, filosofia, política e até mesmo sobre denúncias na internet que são tidas como inquestionáveis pela cor do indivíduo que a faz.

    São 500 anos de silenciamento negro no Brasil. É hora dos movimentos sociais de esquerda começarem a entender a questão racial como um norteador para a superação da exploração capitalista, e, para tanto, é fundamental falar menos e ouvir mais. Nossas vivências nos custam muito mais do que “local de fala”, mas representam o conhecimento científico do povo africano ou “afro-americano” sobre a nossa valorização cultural, religiosa, filosófica, linguística, entre outros. E que devem ser encaradas com o mesmo peso acadêmico da cultura eurocêntrica para descentralizar o elitismo e racismo da academia e, assim, começarmos a traçar caminhos profundos para a superação do racismo.

    Foto: EBC

  • Um desabafo sobre a apropriação cultural e a esquerda socialista

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Um polêmica que surgiu há poucos dias sobre uma garota com câncer que supostamente teria sido abordada por mulheres negras no metrô pedindo que ela tirasse o lenço que cobria o seu cabelo, deu luz a um debate antigo nas redes sociais: a questão da apropriação cultural. Questão que vem perpassando pelo movimento negro há décadas. Materiais teóricos e debates intensos nos meios virtuais e espaços coletivos foram criados e ainda não se tem um total consenso sobre a apropriação.

    Aliás, o consenso no movimento negro mais preciso e que deve ser respeitado pela esquerda socialista é de que a apropriação cultural existe.

    No entanto, alguns militantes que se consideram marxistas se levantaram contra o tema de maneira rasa, sem se propor ao debate e, em alguns momentos, de maneira infantil e leviana. Mostrando um caráter de racismo oportunista à situação, menosprezando o acumulo teórico criado pelo movimento negro e até mesmo por militantes negros marxistas, descendo o nível da pauta a utilizações comuns trazidas de outros locais (o rock, a calça jeans, etc).

    É importante que tenhamos maturidade e que, minimamente, nos proponhamos a ler para lidar com temas tão delicados e que cercam as questões culturais no que diz respeito ao tema das opressões. No Brasil, essa modalidade de apagamento da nossa cultura, religião, culinária e adereços utilizados como forma de resistência e enfrentamento nos séculos de escravidão, se dá através da indústria da moda e da mídia, que banaliza aspectos culturais afrocentrados, desfazendo as ideias do que esses adereços trazem, banalizando esses aspectos e os diminuindo à mera utilização de moda.

    Isso apaga debates culturais importantes na história do Brasil, debates que colaboram para o enriquecimento cultural e impulsionam uma soberania eurocêntrica, trazendo, ao senso comum, a ideia equivocada de que a nossa cultura não tem nenhuma relevância histórica colaborada pelo povo negro e indígena.

    É a indústria de moda quem gera uma falsa demanda de utilização de adereços culturais, influencia o impulso da banalização de uma cultura. Mas, como poderíamos culpar pessoas nessa apropriação? É necessário entender que uma pessoa branca por si só não tem potencial de apropriar-se de toda uma extensão cultural, apenas por utilizar turbante, é impossível que uma única pessoa gere apagamento de toda uma cultura continental, ou de um povo através da utilização de um adereço.

    Muito se debate que uma pessoa colabora para o impulso da comercialização destes produtos como meramente adereços de moda, mas vejamos o quanto isso se torna improvável. É impossível que uma única pessoa influencie toda uma indústria a continuar produzindo produtos culturais como adereços sem importância, porque é justamente o contrário que acontece. Nós somos todos influenciados a consumir, somos máquina de produção e consumo do capitalismo, somos 99% da população mundial que produz dinheiro e consome para que os outros 1% enriqueçam em cima da nossa produção e consumo.

    É importante não nos esquecermos do peso racista que traz a apropriação, porque quando uma pessoa negra se utiliza de seus elementos culturais, ela é vista depreciativamente, ao passo que quando uma pessoa branca utiliza, há sempre uma perspectiva positiva com relação à atitude da mesma, fazendo com que haja higienização na utilização de adereços culturais, trazendo benefício apenas a pessoas brancas e fazendo com que pessoas negras sejam sempre preteridas por se utilizarem de sua própria cultura.

    A priori, devemos culpar socialmente o racismo que a apropriação traz como um viés de opressão contra o povo que é “dono” daqueles aspectos culturais. Mas, a ponto de partida mais amplo, devemos nos ater o quanto nós podemos andar em círculos na questão da apropriação cultural, culpar uma única pessoa pela utilização de um adereço. Pode ser uma forma ineficiente de combater o apagamento cultural gerado única e exclusivamente pela cultura dominante.

    Foto: Dete Lima trabalha com turbantes há mais de 40 anos em Salvador e pertence ao Candomblé. (Foto: André Frutuoso/ Divulgação Ilê Ayiê)