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O empresariado está rachado? Tensões burguesas diante do fascismo brasileiro

Josué Alencar e Paulo Skaf
Karim Kahn/Fiesp

À esquerda, Josué Alencar, filho do ex-vice de Lula e atual presidente da FIESP, organizou o Manifesto pela Democracia. À direita, Paulo Skaf, ex-presidente da entidade e linha de frente do bolsonarismo, está à frente da carta pela renúncia de Josué.

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Acompanhamento sistemático da ação organizativa, política, social e ideológica das classes dominantes no Brasil, a partir de uma leitura marxista e gramsciana realizada no GTO, sob coordenação de Virgínia Fontes. Coluna organizada por Rejane Hoeveler.

Por Gabriel Kannan

Hoje, a grande burguesia alemã oscila, divide-se. A questão de saber qual dos dois métodos ela precisará empregar para resolver a crise social atual absorve as suas divergências. A social-democracia afasta de si uma parte da grande burguesia por causa dos seus resultados duvidosos e de grandes compromissos complementares (impostos, lei de seguridade social, salários). A intervenção cirúrgica do fascismo apresenta-se a uma outra parte da grande burguesia como muito arriscada e sem consonância com a situação. Em outras palavras, o capital, em seu conjunto, oscila na apreciação da situação (TROTSKY, 1930, 31).

Às vésperas da tomada do poder pelos nazistas, Trotsky observou que a burguesia alemã oscilava entre dois métodos para resolver a crise: se, por um lado, se afastava da social-democracia por conta dos seus compromissos com salários, previdência e impostos, por outro via as ações fascistas como “muito arriscadas e sem consonância com a situação” (TROTSKY, 1930, 31). Terrivelmente, a mesma observação pode ser feita à burguesia brasileira nesse período que atravessamos de fechamento gradual do regime de democracia blindada em que vivemos nas cascas que ainda sobraram. Ao mesmo tempo em que o empresariado se sentou à mesa com Bolsonaro para articular reformas trabalhistas, previdenciárias e tributárias – e celebrou a destruição desses direitos em uma escala que nenhum outro governo foi capaz de entregar – manifestou desconfortos com os ataques do presidente ao STF e ao Congresso.

Avaliamos que as frações burguesas, mesmo que unificadas em torno da retirada de direitos, estão tensionadas entre, de um lado, aquelas que querem manter algum verniz democrático do regime, que discursam retoricamente em defesa das instituições, da pauta ambiental e da representatividade de mulheres, negros e negras e LGBTQIA+ e apostam mais no apassivamento das lutas populares, a que chamaremos aqui de pretensos cosmopolitas (retoricamente defensores da igualdade e convivência entre os povos do mundo); e, de outro lado, aquelas propriamente fascistas, que apoiam abertamente o aprofundamento das investidas golpistas e o acirramento da repressão no campo e na cidade, apostando mais na aniquilação dos movimentos populares.

Neste texto, buscamos identificar algumas destas fissuras internas nas movimentações e posicionamentos do empresariado brasileiro para podermos cravar uma alavanca nestas fissuras e rachá-las, enfraquecendo o ativo apoio empresarial a Bolsonaro e desestabilizando as ofensivas golpistas que o bolsonarismo planeja caso seja derrotado neste dia 30 de outubro.

Aprofundou e tornou ainda mais nítidas essas tensões a carta recém-organizada por Paulo Skaf (presidente da FIESP de 2004 a 2021 e linha de frente no apoio a Bolsonaro) pedindo a renúncia do novo presidente da FIESP Josué de Alencar (filho do ex-vice de Lula José Alencar de 2003 a 2010, foi presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), que ao contrário da maior parte das entidades empresariais, não aderiu ao golpe de 2016; foi também nomeado por Lula presidente do Fórum de CEOs Brasil–Estados Unidos como representante das mega empresas brasileiras que compunham o Fórum).

Essa tensão já havia sido abertamente declarada em julho de 2022, quando Josué anunciou o Manifesto pela Democracia, chamado por Bolsonaro de uma carta pró-Lula (PODER360, 28/07/2022). A falta de apoio da própria entidade ao Manifesto deixou nítida a existência de fissuras: dos 131 sindicatos que compõe a FIESP, apenas 18 assinaram, ou seja, 14% (PODER360, 05/08/2022), e a própria CIESP, entidade irmã, também se recusou a assinar (FOLHA, 08/08/2022). Além delas, as Confederações Nacionais da Indústria (CNI), do Comércio (CNC) e dos Serviços (CNS) também não assinaram, argumentando, nas palavras do presidente da CNS Luigi Nese, que “não existe nenhuma prova de que alguém quer minar a democracia” (ESTADÃO, 29/07/2022). Por outro lado, a FEBRABAN, que teve intensos embates internos quando discutiu se apoiaria a carta pela democracia do ano passado (2021), decidiu assinar (VALOR, 28/07/2022).

O desequilíbrio desta balança é refletido pelas pesquisas eleitorais, que uma semana antes do primeiro turno, apontavam que 62% dos empresários declaravam voto em Bolsonaro contra 24% que declaravam voto em Lula (UOL, 23/09/2022). O crescimento de 326% das denúncias de assédio de empresários bolsonaristas aos empregados em relação às eleições de 2018 (de 212 para 903 denúncias até agora) (CORREIO BRAZILIENSE, 21/10/2022) também demonstra o intenso ativismo empresarial na campanha suja de Bolsonaro.

A FIERGS, FIESC e FIEP também lançaram nota conjunta defendendo Bolsonaro no segundo turno, além de outros sindicatos menores do empresariado gaúcho, como Farsul (agricultura), FCDL (lojistas), Federasul (entidades empresariais) e Fecomércio (ZERO HORA, 19/10/2022), ou do empresariado paulista, como a FAESP (agricultura e pecuária) (FAESP, 04/10/2022).

De acordo com um dos diretores da FIESP, Silvio Valdissera (presidente do Sindinstalação, das indústrias de instalações elétricas, hidráulicas e de gás), a oposição a Josué já tem 80 dos 112 sindicatos com direito a voto. De fato, neste dia 21 de outubro, a carta foi entregue com 78 assinaturas, mais do que o necessário para destituir Josué (ESTADÃO, 21/10/2022). Ele também comunicou que já convocaram uma assembleia que pode votar a destituição de Josué, a qual deve ocorrer em até 30 dias (PODER360, 20/10/2022). Ou seja, é o tempo necessário para aguardar o resultado das eleições e, se for preciso, reposicionar a FIESP. Ao mesmo tempo, a publicização da polêmica é uma forma deste setor do empresariado de deixar nítido que apoia Bolsonaro, inclusive para o próprio, que pode considerar Skaf para um recriado Ministério da Indústria e do Comércio.

Até agora, apenas duas entidades que compõe a FIESP, Abrinq e Abiplast, que já demonstravam insatisfação com o governo Bolsonaro, se pronunciaram contra as movimentações de Skaf (FOLHA, 19/10/2022). Por outro lado, alguns representantes do grande capital estão se posicionando a favor de Lula, sobretudo após o apoio de Simone Tebet. A candidata no primeiro turno se juntou com Marina Silva (Rede), Armínio Fraga e representantes das famílias acionistas do Itaú Bracher, Salles e Setubal para organizar um jantar com 670 empresários, dos quais 70 gravaram declarações de apoio. Dentre os presentes, estavam representantes dos bancos Itaú, Bradesco, Santander, Safra, BMG, Morgan Stanley e Cielo e das indústrias do Grupo Ultra, Siemens e Suzano. Destes, figuras como José Setubal (Itaú), Pedro Passos (Natura), Pedro Wongtschowski (Ultra, armazenamento e distribuição de combustíveis), João Nogueira Batista (conselheiro da petroquímica Braskem) e Marcello Britto (ex-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio – ABAG) gravaram declarações (G1, 18/10/2022). Outros nomes do grande capital, como Horácio Lafer Piva, da Klabin (celulose), também já haviam declarado apoio (ÉPOCA, 21/10/2022). Como veremos, esse grupo que reúne conglomerados como Itaú, Natura, Klabin e Suzano foram importantes propulsores dos manifestos empresariais que criticaram pontualmente as políticas do governo Bolsonaro.

Que fatores influenciam tais tensões? A apuração do Globo avaliou que “Skaf tem tentado se aproveitar de um sentimento de insatisfação por parte de dirigentes de sindicatos de menor porte filiados à Fiesp, que se queixam de falta de interlocução com Josué” (GLOBO, 19/10/2022), bem como o Estadão ouviu das sempre anônimas fontes que “o que tem gerado insatisfação é a mudança na estrutura de poder na entidade (…) a federação trouxe de volta à Fiesp grandes industriais que tinham se afastado ao longo da gestão de Skaf. Skaf está aliciando os sindicatos patronais pequenos para derrubar Josué” (INFOMONEY, 19/10/2022). Segundo o Estadão, a maioria das 77 assinaturas da oposição são de “sindicatos de papel”, com pouco peso econômico (ESTADÃO, 21/10/2022).

Tais indicações reforçam a hipótese sobre a centralidade da tensão entre o grande e o mega capital que se aprofunda desde o processo do golpe de 2016, sendo um dos fatores a considerarmos para analisar as tensões entre os pretensos cosmopolitas e os fascistas. Enquanto o golpe era processado, já era visível a centralidade do conflito de escalas entre o “clube do bilhão e o clube do milhão” (FONTES, 28/04/2016):

[…] existe uma briga interburguesa, embora na imprensa burguesa mais direta isso não apareça. Alguns leram essa briga interburguesa como sendo a oposição entre burguesia industrial e financeira ou uma burguesia mais brasileira contra a imperialista. Eu não concordo. […] Tudo indica que a tensão burguesa hoje é de escala: massa de burguesia de menor escala, num momento de crise, briga com as suas congêneres maiores (FONTES, 27/03/2016).
[…] podemos ver uma tensão interescala, na qual são mais diretamente atingidos os empresários de escala multinacional. Primeiro o Eike, depois Odebrecht, OAS, agora JBS… Uma das coisas interessantes naquele lema ‘não vamos pagar o pato’ da FIESP me pareceu a demonstração de uma burguesia média e grande contra a megaburguesia (FONTES, 07/06/2017).

Além disso, é bom relembrar como as entidades associativas empresariais tendem a representar o capital não-monopolista, estando o monopolista sub-representado: “as estruturas representativas do setor empresarial são muito mais voltadas ao primeiro [clube do milhão] do que ao pequeno grupo de grandes empresas bilionárias” (FONTES, 28/04/2016). Dessa forma, já se considerava também a hipótese de que a FIESP, antes considerada ponta de lança da chamada grande burguesia interna, na verdade representava o pequeno e médio capital.

Evidentemente, o fracionamento da burguesia na atual conjuntura envolve outras dimensões além da escala de concentração e centralização que enfatizamos, como também suas funções e suas territorialidades (os sindicatos mobilizados por Skaf, por exemplo, além de menores, representam em sua maioria o interior do Estado), mas principalmente, envolve a dimensão do processo de formação política dessas frações. Por isso, para contextualizar estas tensões, retomamos neste texto alguns dos manifestos do empresariado brasileiro que antecederam as recentes cartas de Josué e de Skaf.

O mês de agosto de 2021, que antecedeu o 7 de setembro daquele ano – até agora ápice da ofensiva golpista do bolsonarismo – levou a uma explosão de manifestos do empresariado se posicionando contra ou a favor da democracia, os quais nos dão um mapa destas tensões que agora afloram na FIESP. Naquele mês de agosto de 2021, foram lançados, em repúdio a alguns pontos da condução do governo Bolsonaro, “A praça é dos três poderes”, “Manifesto pela democracia” e o “Manifesto eleições serão respeitadas”. Em contrapartida, outros setores do empresariado responderam em apoio ao governo, como no “Manifesto pela Liberdade”, também de agosto de 2021, ou na organização de grupos de apoio, como o Brasil 200 ou o Parlatório (este, pretensa “terceira via”). Em paralelo, quadros como Skaf organizaram reuniões articulando diversos setores empresariais a Bolsonaro, o que nos dá indícios de quais os pontos de aproximação e tensão com o governo.

A praça é dos três poderes

Paulo Skaf atou ativamente para articular o empresariado em torno do governo Bolsonaro, organizando reuniões no auge da pandemia onde não se falou sobre vacina, sempre omitindo temas como Amazônia mesmo no auge dos desmatamentos (VALOR, 17/12/2020). Em um dos encontros organizados por ele, em 15 de dezembro de 2020, as preocupações do empresariado giraram em torno da demora para passar as reformas tributária (PEC 45 do imposto único ou PEC 110 do imposto geral sobre transações financeiras) e administrativa (PEC 32 do desmonte do serviço público e fim da estabilidade). Ou seja, Skaf buscou, pressionando pelas reformas, explorar a unidade burguesa em torno do ajuste fiscal para alinhar outros setores não tão próximos ao governo.

No entanto, em agosto de 2021, quando foi colocado para debate o manifesto “A praça é dos três poderes”, que acabou ficando conhecido como o “Manifesto da FIESP”, grande parte das análises avaliaram que Skaf estava se distanciando do governo. Na época, se disse que Skaf articulou o manifesto por ter sido preterido politicamente: ele buscou apoio de Bolsonaro para se lançar ao governo paulista na eleição de 2022, mas o presidente já havia, naquele momento, optado pela candidatura do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas (FOLHA, 28/08/2021). De acordo com o empresário Luís Belmonte, bolsonarista raiz que ainda tentava coletar assinaturas para fundar o Aliança pelo Brasil, “Skaf não tem sido mais cogitado como uma opção bolsonarista como era antes” (TERRA, 04/09/2021).

No entanto, após o lançamento do manifesto “A praça é dos três poderes”, Skaf, ao contrário da postura de Josué no “Manifesto pela democracia” de 2022, não foi firme em manter o posicionamento da entidade em defesa da independência dos poderes. Sob pressão da ameaça de Bolsonaro de retirar da FEBRABAN os bancos controlados pelo governo (Banco do Brasil e Caixa Econômica), Skaf voltou atrás e suspendeu o manifesto. Ele acalmou os assessores de Bolsonaro dizendo que “o objetivo não era mandar um recado só para o Executivo, mas também para Judiciário e Legislativo”. Foi então que Paulo Guedes, que recorrentemente discursa retoricamente contra os bancos, lançou a narrativa de que foi a FEBRABAN, especialmente o Itaú e o Credit Suisse (PODER 360, 23/08/2021), que transformou o “manifesto em defesa da democracia” escrito pela FIESP em um “ataque ao governo” (G1, 30/08/2021).

Pedro Guimarães, o presidente da Caixa que almeja substituir Paulo Guedes no comando do Ministério da Economia, atuou como o “policial mau”, fazendo uma ofensiva contra o manifesto e ameaçando sair da entidade. Já o presidente do BB, Fausto Ribeiro, atuou como o “policial bom”, sentando para negociar com os bancos privados e apagando o incêndio após conseguir que a Febraban se comprometesse a não assinar o manifesto “da FIESP” nem lançar um próprio (GLOBO, 03/09/2021). Tais bancos moveram as peças muito apressadamente em direção ao xeque, e face ao contra-ataque mais ousado do governo, tiveram de recuar na próxima jogada.

A versão final oficial foi publicada dia 10 de setembro, acrescendo a frase “esta mensagem não se dirige a nenhum dos Poderes especificamente, mas a todos simultaneamente, pois a responsabilidade é conjunta” (PODER 360, 10/09/2021). O que terminou ficando conhecido como manifesto da FIESP saiu sem a assinatura da Febraban, entidade que abandonou a iniciativa quando Skaf resolveu adiar a nota para preservar Bolsonaro antes do 7 de setembro (ISTOÉ, 09/09/2021). Assim, na tática de morde e assopra, Bolsonaro, após ameaçar fraturar a FEBRABAN, contou com Skaf para assoprar as feridas e pôde assim recuar no tom, o que fez subir a bolsa de valores (FOLHA, 09/09/2021).

Manifesto pela democracia

O descontentamento com as alterações feitas por Skaf no manifesto “A praça é dos três poderes”, além de levar a FEBRABAN a não assinar, levou parte do agronegócio a lançar um manifesto em separado, o “Manifesto pela democracia”, mostrando as divergências internas do setor. Além da ABAG, seguiram o movimento entidades majoritariamente representantes da agroindústria, com grande impacto exportador, que tende a sofrer mais com danos à imagem internacional do país, como a Associação Brasileira dos Industriais de Óleos Vegetais (Abiove) e Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) (GLOBO, 30/08/2021; ABAG, 30/08/2021). 

As tensões vieram a público a partir de abril de 2020, auge dos desmatamentos na Amazônia, quando frigoríficos e empresas exportadoras passaram a pressionar pela saída do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Por outro lado, a casa do presidente da Aprosoja, Antônio Galvan, foi alvo de operação de busca e apreensão da PF na investigação sobre o financiamento dos atos de 7 de setembro (NEXO, 22/08/2021; INTERCEPT, 21/08/2021).

O apoio da CNA a Bolsonaro (CASSIANO, 12/08/2022) e a tensão interna dentro da ABAG, com o ex-presidente Marcello Brito declarando apoio a Lula (ÉPOCA, 21/10/2022; G1, 18/10/2022) mas a entidade mantendo-se neutra (ABAG, 20/10/2022) reforça a existência destas tensões no agronegócio. No entanto, como pontua Pedro Cassiano, a permanência de Tereza Cristina no governo até sua saída para a eleição como Senadora demonstrou a manutenção do apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária, que, em alguma medida, unifica as frações do agronegócio (BRASIL DE FATO, 06/09/2021). 

Manifesto eleições serão respeitadas e carta dos banqueiros

Semanas antes do manifesto “A praça é dos três poderes”, Moreira Salles, presidente do Itaú, já havia assinado o manifesto “Eleições serão respeitadas” contra as “investidas autoritárias” (FOLHA, 04/08/2021). Destacamos a seguir alguns dos nomes do empresariado que organizaram a carta, demonstrando como muitos estão alinhados às pautas chamadas pelo bolsolavismo de “globalistas”, fração burguesa que, por sua preocupação em disputar agendas da classe trabalhadora apresentando programas empresariais para apassivá-las, estamos chamando aqui de pretensos cosmopolitas.

Além de representantes do Credit Suisse (GLOBO, 05/08/2021) e Verde Asset (FOLHA, 26/08/2021), assinaram também Luiza Trajano (dona da Magazine Luiza, varejo), Sônia Hess (fundadora da Dudalina, têxtil), Chieko Aoki (dona de hotelarias), Jayme Garfinkel (dono da Porto Seguro, serviços financeiros), Guilherme Leal (dono da Natura, cosméticos), Carlos Jereissati Filho (dono da rede de shoppings Iguatemi), e Horácio Lafer Piva (que antecedeu Skaf na presidência da FIESP de 1998 a 2004 e é acionista de várias holdings multissetoriais, com destaque para a Klabin, celulose) (ÉPOCA, 21/10/2022).

Tanto Trajano como Hess e Aoki constroem Aparelhos Privados de Hegemonia que atuam na disputa e apassivamento das lutas das mulheres, enquanto Piva e Leal atuam na questão da sustentabilidade, e Garfinkel na reintegração de ex-detentos no mercado de trabalho.

A precursora deste “Manifesto eleições serão respeitadas” foi a “carta dos banqueiros”, de março de 2021, que defendeu vacina, máscaras e distanciamento social (PODER 360, 22/03/2021). Dentre os organizadores, destacamos a presença de representantes de mega capitais como Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles, do Itaú, e de Pedro Parente, da BRF, e de APHs como Sandra Rios, do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (CINDES), e Elena Landau, do Livres (economista que também já declarou voto em Lula). A carta já contava com quase 1700 assinaturas apenas quatro dias depois, com destaque para a adesão de Jorge Gerdau (FOLHA, 26/03/2021).

Manifesto pela Liberdade

Mesmo com a atenuação do Manifesto “A praça é dos três poderes”, o presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugênio, afirmou que não iria assinar o manifesto preparado pela Fiesp pois o documento seria uma crítica ao presidente Jair Bolsonaro (GLOBO, 29/08/2021). A FIESC teve a mesma postura, defendendo a “liberdade de expressão” e o “direito à livre manifestação da população” (FIESC, 27/08/2021). E a FIEMG – presidida por Flávio Roscoe (que acompanhou Bolsonaro na comitiva que visitou Trump em março de 2020 e voltou trazendo o coronavírus ao Brasil) (ESTADÃO, 17/03/2020) – em resposta ao manifesto, lançou o “Manifesto pela liberdade”, também ecoando o discurso bolsonarista em defesa dos direitos individuais e da liberdade de expressão, que, segundo a FIEMG, estavam sendo cerceados pelo Poder Judiciário. 

A FIEMG saiu em defesa dos sites investigados pelo STF por divulgar fake news, criticando a desmonetização deles (FIEMG, 01/09/2021). A cartilha bolsonarista, chamada de “novo Manifesto dos Mineiros”, fez alusão ao documento assinado por lideranças estaduais, em 1943, que exigiam o fim do Estado Novo, provavelmente numa comparação implícita de Vargas com Lula. O manifesto afirma que “é preciso pôr fim à vida estamental do aparelho do Estado com a reforma político-eleitoral, a reforma administrativa, a reforma do sistema de educação (só a educação transforma as pessoas), a reforma do sistema de segurança, a reforma orçamental e econômica, a reforma do sistema tributário” (ESTADÃO, 02/09/2021).

Segundo a Folha, Salim Mattar (Localiza) foi um dos articuladores da carta (FOLHA, 01/09/2021). Pelo Twitter, o empresário disse que não participou, mas que gostaria de ter feito parte da escrita do dito manifesto, portador, segundo ele, de “excelente conteúdo” (SALIMMATTARBR, 01/09/2021). Mattar já havia dito, no 7º Fórum de Liberdade e Democracia, do Instituto de Formação de Líderes de São Paulo, que o STF é midiático e ativista, e que alguns dos seus ministros violavam o direito de liberdade de expressão. Criticou também o Congresso por “aumentar o tamanho do Estado” com a criação do Tribunal Regional Federal em Minas Gerais. No dia seguinte, no entanto, Mattar lançou, em conjunto com outros 200 empresários mineiros, uma resposta ao manifesto da FIEMG.

Instituto Brasil 200 e Grupo Parlatório

Em 16 de julho de 2021, Paulo Guedes se reuniu com duas importantes frentes empresariais na articulação das relações do empresariado com o governo Bolsonaro: o Brasil 200 e o grupo Parlatório – este último uma tentativa de articulação de uma “terceira via”. 

O Brasil 200 foi fundado para ser a linha de frente do bolsonarismo no empresariado. No entanto, depois da demissão de Moro em abril de 2020, o presidente do grupo, Gabriel Kanner, anunciou que deixava de apoiar o governo (PODER 360, 24/04/2020). Por conta disso, seu tio Flávio Rocha, o fundador do grupo, saiu, dizendo que a faxina anticorrupção já tinha sido feita (VEJA, 05/05/2020–15:33). Também manifestaram a intenção de sair Edgard Corona (Bio Ritmo), João Appolinário (Polishop), Sebastião Bomfim (Centauro), Washington Cinel (Gocil, empresa de segurança) e Alberto Saraiva (Habib’s, fast food).

Uma live de Kanner com Mourão foi considerada como um dos estopins, pois, segundo eles, Mourão estava sendo considerado dentro do Instituto como uma alternativa a Bolsonaro  (ESTADÃO, 04/05/2020). No mesmo dia, Kanner voltou atrás e manifestou apoio a Bolsonaro (VEJA, 05/05/2020–16:35). Posteriormente, quando as casas de Corona e Hang foram alvos de busca e apreensão da Polícia Federal na investigação sobre fake news contra o STF, Kanner tentou desvincular o instituto de tais métodos. Vale lembrar, mesmo assim, que foi no grupo de Whatsapp do Brasil 200 que Corona arrecadou dinheiro para a campanha de difamação (VEJA, 30/05/2020). Outro empresário do Brasil 200 é Meyer Nigri, dono da construtora Tecnisa e um dos integrantes do citado grupo de Whatsapp de empresários golpistas. Nele, Nigri atacava o TSE e defendia uma contagem paralela de votos (METRÓPOLES, 17/08/2022). 

Tal presença destaca a ascensão das médias construtoras no bloco no poder, como é o caso também da construtora bolsonarista MRV, que compõe o grupo Parlatório representada por Rubens Menin. O Parlatório, composto também por empresários como Elie Horn (Cyrela), Abílio Diniz (Carrefour) e Jorge Gerdau (que assinou a carta dos banqueiros) (VEJA, 19/06/2021; ver lista completa em FOLHA, 16/07/2021), tentou articular o lançamento de uma chapa Moro e Guedes. No entanto, Guedes disse na ocasião que uma chapa dos dois teria “zero possibilidades” de acontecer, ao que acrescentou que a Lava Jato teria cometido cometeu “excessos” e teria que pagar (PODER 360, 22/03/2021).

Um último apontamento sobre a questão do aumento da importância dos capitais não-monopolistas no governo Bolsonaro é a presença equilibrada entre grandes e mega empresas nas reuniões do empresariado com o governo. Em 7 de abril de 2021, Cinel, do Brasil 200, organizou um encontro para traçar uma “agenda positiva” sem “nada de críticas” (VEJA, 07/04/2021). Dos 65 bilionários brasileiros elencados pela Revista Forbes, apenas 9 foram convidados (dentre 19 empresários, o que corrobora a hipótese do ascenso do pequeno e médio capital no bloco no poder no governo Bolsonaro). Observemos também que dois dos empresários do “clube do bilhão” recusaram os convites: Abilio Diniz, do Carrefour, e Frederico Trajano, do Magazine Luiza, que alegaram estar em isolamento social. Vale notar que nenhuma das mulheres bilionárias brasileiras foi convidada. Dentre elas, as duas mais ricas naquele ano, Luiza Trajano e Dulce Pugliese de Godoy Bueno (proprietária da DASA) (FORBES, 25/09/2020). Também não foram convidados nenhum dos empresários que assinaram a carta dos banqueiros.

Cosmopolitas e fascistas

Analisando as tensões políticas dentro do empresariado no processo de formulação e repercussão dos manifestos “A praça é dos três poderes”, “Manifesto pela Democracia”, “Manifesto eleições serão respeitadas” e “Manifesto pela Liberdade”, bem como investigando a formação de grupos como o Brasil 200 e Parlatório, podemos observar que há um fracionamento entre os que chamamos de pretensos cosmopolitas e os fascistas. Aparentemente, a grande massa do empresariado deseja permanecer no navio do capitão Bolsonaro, como demonstra o fato da oposição bolsonarista da FIESP conquistar a maioria dos sindicatos com a carta de Skaf, bem como os posicionamentos de sindicatos como CNI, CNC, CNS, FIRJAN, FIEMG, FIERGS, FIESC, FIEP, etc.

Ao mesmo tempo, outros setores do empresariado de tendência cosmopolita articularam, principalmente a partir da pandemia, movimentos de contestações pontuais ao governo, na tentativa de construir uma “terceira via”, movimento que, como vimos, foi encabeçado por capitais monopolistas como o Itaú, Natura, Klabin e Suzano. 

A assinatura da FEBRABAN ao Manifesto pela Democracia lançado por Josué (VALOR, 28/07/2022) sugere atenção também às tensões entre as funções do capital, ainda mais porque a decisão dos bancos foi, como vimos, na contramão da CNI, CNC e CNS. O único banco que votou junto com os bancos do governo (BB e CEF) foi o Banco Votorantim (BV), da indústria mineradora dos Ermírio de Moraes. No entanto, também não podemos reduzir as tensões à conflitos entre funções do capital, afinal, como pontuamos, outros grandes bancos como o BTG, Bradesco e Safra mantiveram alinhamento a Bolsonaro ao longo do governo, por exemplo na discussão sobre o apoio ou não ao Manifesto pela Democracia de 2021.

Também podemos ver um entrecruzamento de funções na formação das frações cosmopolita e fascista o fato de outra das dirigentes dessa terceira via ser a varejista Magazine Luiza, ao passo que a maior parte dos outros varejistas, desde as eleições de 2018, terem assumido a linha de frente da campanha de Bolsonaro (BORTONE, 2019). Pudemos observar também a influência, na formação destas frações burguesas, da atuação do empresariado na construção de Aparelhos Privados de Hegemonia na sociedade civil: quadros burgueses engajados na disputa e apassivamento de agendas sociais, como as pautas ambientais e de gênero, formam parte da linha de frente dos Manifestos que contestaram pontos da condução do governo Bolsonaro e tentaram articular uma terceira via.

Ao mesmo tempo, jogando para os dois lados para estarem bem posicionados independentemente do campo vitorioso, o empresariado busca agora uma aproximação com Lula. A indústria de metalurgia da Gerdau, por exemplo, teve grande interlocução com Bolsonaro ao mesmo tempo em que participou de movimentações de oposição pontual ao governo. Gerdau, de fato, é um caso emblemático de quadro político que atua, ao mesmo tempo, em diversas frentes (FONTES, 2017, 14).

Inclusive alguns grupos alinhados ao governo Bolsonaro seguem esse movimento. Em 27 de setembro, dias antes do primeiro turno, o grupo Esfera, por exemplo, reuniu Lula com bolsonaristas como Flávio Rocha e Roberto Justus (FOLHA, 29/09/2022), que atuaram ativamente contra as medidas de isolamento social (GUIOT, 18/04/2020; BORTONE & HOEVELER, 07/04/2020), além de Michael Klein, dono das Casas Bahia, que disse que quer renovar o contrato de Bolsonaro por mais quatro anos (INFOMONEY, 10/03/2021) e Rubens Ometto, dono da indústria de açúcar e etanol Cosan, que priorizou as candidaturas bolsonaristas em suas doações (IG, 06/10/2022). 

O grupo Esfera foi fundado em 2021 pelo empresário João Camargo com uma composição bastante heterogênea, juntando bolsonaristas fervorosos como Multiplan, MRV e XP com a operadora de planos de saúde Hapvida (ESTADÃO, 27/09/2022), que foi uma das maiores doadoras da campanha de Lula  (DINHEIRO, 14/10/2022), tendo financiado também as candidaturas do MDB e PSDB (VEJA, 12/07/2022). 

Outra presença significativa nesta reunião do Esfera foi a de Nabil Sahyoun, presidente da ALSHOP e do Instituto Unidos Brasil (IUB) (PODER360, 28/09/2022; FOLHA, 01/10/2022). O IUB foi fundado em 2020 por empresários majoritariamente bolsonaristas: entre seus membros, estão nomes dos empresários que participavam do grupo de Whatsapp bolsonarista “Empresários e política”, que teve mensagens golpistas contra as eleições vazadas pelo portal Metrópoles: José Peres, da Multiplan, Afrânio Barreira, do Coco Bambu, e Luiz Tissot, do Sierra (PODER360, 25/08/2022). Além deles, também fazem parte do Unidos Brasil os bolsonaristas Flávio Rocha, Alberto Saraiva (Habib’s) e o ex-PM Washington Cinel (fundador da Gocil). Portanto, a presença de Sahyoun reforça a tendência de parte do empresariado em jogar, desigualmente, pelos dois lados: mesmo alguns empresários bolsonaristas buscam agora também algum nível de interlocução com Lula (ESTADÃO, 19/08/2022).

Por fim, destacamos como o próprio fato da divisão que fizemos entre fascistas e pretensos cosmopolitas ser, de um lado, sindicatos, mais representativos do pequeno e médio capital, e de outro, nomes de grandes empresas, sugere a centralidade das tensões entre o capital monopolista e o não-monopolista. A assinatura do Manifesto pela Democracia de Josué Alencar por representantes da Votorantim – que foi escolhida para fazer a fala dos industriais no encontro com Lula organizado pela Esfera (VEJA, 28/09/2022) – do Itaú, da Natura, da Klabin e da Suzano (PODER360, 26/07/2022) demonstra o papel protagonista de alguns dos grandes conglomerados do capital brasileiro. Inclusive, há apontamentos de que Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que também participou do encontro organizado pela Esfera, possa assumir um recriado Ministério da Indústria de Lula (VEJA, 27/09/2022), bem como se cogita para Ministro de Lula Walfrido dos Mares Guia, fundador da gigante da educação Cogna (ex-Kroton) (O TEMPO, 20/09/2022).

Ao mesmo tempo, para lidar com a insatisfação do capital não-monopolista, Lula prometeu, em um encontro com pequenos e médios empresários paulistas, priorizar pequenas e médias empresas no orçamento do BNDES através da criação do Ministério da Pequena e Média Empresa – o contrário do que foi feito durante a gestão neodesenvolvimentista dos governos do PT, que priorizou a expansão das “campeãs nacionais”, um dos motivos para a revolta do empresariado de pequeno e médio porte contra os governos petistas.

Talvez agora, mais do que planejar uma nova configuração de aliança dos movimentos subalternos com alguma pretensa fração progressista da burguesia, seja imperativo, antes de mais nada, buscarmos explorar as tensões do empresariado para enfraquecer a investida golpista que virá após a derrota eleitoral de Bolsonaro. Uma frente pontual com os setores do empresariado que não desejam romper com o que resta de democracia no Brasil contra esta ofensiva do empresariado fascista não necessariamente precisa virar uma aliança para todo o governo Lula.

O ano de 2023 não será 2003, e conciliar interesses em um momento de crise e de enfrentamento ao fascismo será muito mais complicado. Para não baixar as bandeiras que empolgam a campanha de Lula – como a revogação do teto de gastos para uma forte política de investimentos na educação, saúde e moradia, a construção de uma política ambiental com protagonismo dos povos originários e movimentos camponeses, a concretização de uma nova legislação trabalhista, previdenciária e tributária, etc. – e assim impedir uma nova derrota histórica, talvez pior que a do golpe de 2016, será necessário enfrentar com muito mais força consensos burgueses em torno de colocar a conta da crise nas costas da classe trabalhadora. Pela vida das nossas próprias organizações, é fundamental manter acesa a chama destas lutas para minar a hegemonia burguesa no novo bloco no poder que se formará.