Por que os professores universitários da Argentina estão há um mês em greve

Por: Ana Laura Horbach*, direto da Argentina.

Após as grandes mobilizações em defesa da legalização do aborto na Argentina, os docentes das universidades federais estão há mais de um mês em greve, em defesa dos investimentos na educação pública e por reajuste salarial. Mais de 50% da categoria aderiu à greve, em 57 universidades nacionais, em toda a Argentina, em oposição às políticas privatistas do governo de Mauricio Macri (Partido Proposta Republicana – coalizão Cambiemos). A luta por uma educação pública, laica e de qualidade ganhou apoio também dos estudantes e tomou as ruas de Buenos Aires nesta quinta-feira, 30, em um grande ato.

Os professores protestam contra a queda nos salários e no nível de vida. Recusam o reajuste anunciado pelo governo, de 15%, referente à 2017. Para se ter uma ideia, a inflação na Argentina já chegou a quase 20% apenas neste mês de agosto e, de acordo com as informações do Banco Central, pode chegar a 31,6% até o final de 2018. Nesta semana, o dólar alcançou os 40 pesos argentinos. Por este motivo os professores pedem 30% de reajuste e uma cláusula de reposição automática da inflação sobre os salários. No entanto, as negociações têm sido infrutíferas: o governo alterou a proposta apenas para 19% de aumento, apresentados no dia 23.

Assembleia Interfaculdades na Universidade Nacional de Cuyo, em 29 de agosto.

Assembleia Interfaculdades na Universidade Nacional de Cuyo, em 29 de agosto. Foto: Ana Laura Horbach

Na greve, os estudantes se somaram às mobilizações docentes contra os cortes na educação. Denunciam a perda de 36% no orçamento das universidades públicas no último ano e que afetou, principalmente, o Programa Nacional de Bolsas Universitárias (PNBU). Na Universidad Nacional de Cuyo (UNCuyo), a terceira maior do país, além da paralisação das atividades docentes, de treze unidades de ensino, cinco estão ocupadas por estudantes.

Somados a tudo isso, Macri anunciou, na última semana, um novo acordo financeiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI) de pagamento adiantado dos juros da dívida para garantir o programa de empréstimos ao país para 2019. Essa medida tem precedente histórico e põe em alerta toda a população argentina que em 2001 viu a economia colapsar após os sucessivos empréstimos do FMI feitos pelo ex-presidente Carlos Menem (1989 – 1999) e que se seguiram no governo De la Rúa (1999 – 2001) que, longe de resolver o problema da crise econômica, aprofundaram a pobreza e o desemprego e motivaram uma das maiores mobilizações sociais da história recente da Argentina, o Argentinazo. A marcha desta quinta-feira teve o lema “dinheiro para a educação, não para o FMI”.

Apesar da derrota que o projeto de lei pela legalização do aborto sofreu no Senado argentino, a campanha #AbortoLegalYa  culminou em manifestações multitudinárias nas ruas de todo o país e segue ecoando na luta pela educação. Para além das pautas econômicas, a reivindicação pela efetivação do Estado laico e por uma educação feminista está presente, principalmente, na voz da juventude que se somou à luta dos professores.

*Ana Laura Horbach é estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e está em Mendoza.

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