A polêmica do vestiário croata: Nacionalismo ou apologia ao passado fascista?

Por: Gabriel Santos, para o Lateral Esquerda

A seleção da Croácia venceu a Inglaterra por 2 a 1 e garantiu pela primeira vez um lugar na final de uma Copa do Mundo. Com uma campanha surpreendente, os croatas chegaram a final após passar por três prorrogações. Nesse caminho até a final, a seleção croata também gerou diversas polêmicas, por conta de manifestações de alguns de seus jogadores em referência a movimentos de extrema-direita, ultranacionalistas e até fascistas.

Ainda na fase de grupos da Copa, após vencerem a Argentina de Messi por 3 a 0, o zagueiro Dejan Lovren, do Liverpool, gravou um vídeo no vestiário onde ele e outros jogadores cantam a música “Bojna Cavloglave”.

A música em questão foi composta pela banda Thompson e é conhecida como um hino dos movimentos ultranacionalistas croatas. A grande questão é que a música traz versos que eram usados pela Ustasha, uma organização paramilitar que colaborou com a invasão nazista ao país durante a segunda guerra.

Adolf Hitler e o líder fascista croata Ante Pavelic

Adolf Hitler e Hermann Goering com o líder fascista croata Ante Pavelic

A Ustasha governou a Croácia quando Hitler proclamou um Estado Croata Independente, um Estado fantoche que servia os interesses da Alemanha fascista, com um governo extremista e com um nacionalismo religioso que foi responsável por um extermínio de 700 mil judeus, sérvios e ciganos.

Na Croácia atual, diversos símbolos do antigo Estado Croata Independente foram restaurados como forma de nacionalismo durante a guerra de independência do país, no início dos anos noventa. A Ustasha, por exemplo, tinha como brasão a shahovnica, um escudo xadrez vermelho e branco, símbolo que hoje está na bandeira do país.

A música “Bojna Cavloglave” composta por Marko Percovic, da banda Thompson, foi feita durante um período onde os croatas entravam em guerra pela independência, quando muitos aspectos nacionalistas ressurgiram das sombras. Percovic não somente usou saudações da Ustasha na letra, como conhecido admirador do antigo grupo fascista. Ele já foi proibido de entrar em países como a Holanda, sob acusações de apologia ao nazismo, e em seus shows, os fãs da banda usam camisas em referência a Ustasha.

Nas quartas de finais, quando os croatas venceram a Rússia na disputa por pênaltis, um outro vídeo gerou polêmica, o zagueiro Vida e o assistente técnico Pgnjen Vulkojevic, gravaram a comemoração com dizendo “Slava Ukaini” (Glória à Ucrânia).

Para alguns, a frase pareceu somente uma saudação ao país no qual Vida e Vulkojevic viveram enquanto jogavam pelo Dinamo de Kiev. Porém, a saudação é usada desde a década de 30 por movimentos nacionalistas ucranianos. O UPA (Exército Insurgente Ucraniano) e a OUN (Organização Ucraniana Nacionalista), grupos que eram aliados dos nazistas, cometeram assassinatos de minorias polonesas e judias, foram os responsáveis por criar a saudação que é a marca do fascismo local.

A frase ganhou novas forças em 2014, com as manifestações contra o presidente Yanukovich. Nos protestos era visível a presença de diversos movimentos neonazistas e fascistas, que entoavam a plenos pulmões a saudação. Esses grupos fascistas hoje compõem o governo do país.

A seleção croata tem um histórico de polêmica relação com o fascismo. Em 2015, em um jogo contra a Itália em eliminatória para a EuroCopa, o gramado do estádio de Split apareceu com uma enorme suástica desenhada. Na época a federação croata foi multada em 100 mil euros, perdeu um ponto e teve que fazer duas partidas em portões fechados.

Dois anos antes, no jogo que garantiu a Croácia na Copa de 2014 no Brasil, o zagueiro e capitão Simunic comemorou com a torcida cantando versos da Ustasha. O zagueiro foi suspenso por 10 jogos e não jogou a Copa do Mundo no ano seguinte.

A cena de Simunic com a torcida croata virou estampas para os movimentos fascistas do país e para os saudosos da Ustasha.

O fascismo de Simunic não foi motivo de repúdio por parte da federação croata de futebol. Na época a federação cogitou levá-lo como observador técnico para a Copa, porém a ação foi vetada pela Fifa.

Qualquer atitude que exalte o nazifascismo merece ser repudiada. Não importa em qual ambiente seja. É importante não confundirmos atitudes de alguns jogadores da seleção croata com a de todo o elenco de 23 jogadores, nem com o de todo país. Apesar disso vale a denúncia de que a federação croata não combate de forma necessária saudações que remetam ao fascismo na equipe.

O governo do país, por sua vez, é um governo conservador, que promove memórias que remetem ao passado do antigo Estado croata da segunda guerra como uma espécie de nacionalismo, e combate o passado do país enquanto parte da Iugoslávia, e sua economia de tipo socialista.

Um passado que remeta a um genocídio de mais de 700 mil membros de minorias sociais não merece ser comemorado como forma de nacionalismo, um passado fascista não merece ser comemorado, mas sim combatido, ainda mais em tempos de crescimento da xenofobia e da extrema-direita por todo a Europa, em especial no Leste Europeu.

Mais sobre a cobertura da Copa do Mundo na Rússia no Lateral Esquerda:
https://esquerdaonline.com.br/a-lateral-esquerda

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