O Povo decidiu, a vaga é de Linda Brasil


Publicado em: 28 de outubro de 2026

Jan Havlik

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Em 4 de outubro, o povo de Sergipe deu seu recado. Linda Brasil (PSOL) recebeu 44.384 votos para a Assembleia Legislativa. Foi a mais votada de Aracaju, a terceira do estado e a mulher mais votada da história da Alese, com votos nos 75 municípios. Linda foi a única parlamentar trans eleita para uma assembleia legislativa estadual no Nordeste. Em relação a 2022, sua votação cresceu 54,6%.

Mesmo assim, no site do TSE, seus votos aparecem como “anulados sub judice”. A cadeira que o povo lhe deu corre o risco de ir para um candidato do PL.

O motivo não tem nada a ver com Linda nem com o PSOL. A Rede Sustentabilidade, federada ao PSOL, deixou de prestar as contas de 2018 em Sergipe, quando a federação nem existia. A Rede não lançou nenhuma candidatura no estado: todos os candidatos eram do PSOL, que estava regular. Ainda assim, o TRE-SE indeferiu por maioria o registro da federação, e o relator no TSE, ministro André Mendonça, manteve a decisão. O recurso aguarda o Plenário.

A chapa do PSOL fez 56.931 votos, acima do quociente eleitoral de 51.524. Anulá-los é punir quase 57 mil eleitores pela contabilidade de outro partido, oito anos atrás.

Uma trabalhadora que o sistema tentou expulsar

Linda nasceu em 1973 em Santa Rosa de Lima, interior de Sergipe, filha da classe trabalhadora. No colégio estadual, conheceu cedo a humilhação reservada a quem foge da norma. Mesmo assim se formou técnica em contabilidade e foi trabalhar em escritório, em Aracaju.

Quando assumiu quem era, o emprego formal se fechou. Emigrou para a Itália e, como tantas mulheres trans, foi empurrada para a prostituição. Foram cerca de cinco anos de violência; numa noite, sobreviveu a um ataque fingindo estar morta. Em 2008, voltou a Aracaju, comprou sua casa e reabriu seu salão de cabeleireira.

Depois de 20 anos longe da escola, fez o Enem sem cursinho e, em 2013, foi a primeira mulher trans a ingressar na UFS, em Letras Português-Francês. Sua luta fez a universidade regulamentar o nome social. Depois, tornou-se a primeira mulher trans mestra em Educação pela UFS. Ao mesmo tempo, ajudou a fundar a AMOSERTRANS, o cursinho EducaTrans e, em 2017, a CasAmor Neide Silva, casa de acolhimento para pessoas LGBTQIA+.

Filiada ao PSOL desde 2015, disputou sua primeira eleição em 2016, obrigada a registrar o gênero designado no nascimento. Em 2020, foi a vereadora mais votada de Aracaju. Em 2022, a primeira mulher trans na Alese. Cada eleição foi maior que a anterior.

A única oposição de esquerda na Alese

Entre 2023 e 2026, o mandato apresentou 477 proposições, com 282 aprovadas e 45 leis sancionadas. Fez 31 representações a órgãos de controle e acompanha 20 ações judiciais. Linda presidiu a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos e recebeu ao menos três ameaças de morte. No orçamento, garantiu R$ 4,1 milhões em emendas, nas LOAs de 2025 e 2026, para quilombos, povos de terreiro e territórios tradicionais.

Fez tudo isso em minoria absoluta, como a única voz de oposição de esquerda numa Assembleia dominada pelo governo. Votou contra a privatização da DESO, esteve com os professores em greve e cobrou câmeras nas fardas da polícia. Sua mandata tem as portas abertas a marisqueiras, quilombolas, povos de terreiro, sindicatos, estudantes, movimento negro e LGBTQIA+. É isso que faz uma parlamentar socialista: ser a caixa de ressonância dos oprimidos.

Três conquistas mostram o alcance desse trabalho: reconhecimento da Identidade de gênero na Constituição estadual (EC nº 59/2025); Sergipe foi o primeiro estado a proibir, em sua Constituição, a discriminação por identidade de gênero. Lei da Fibromialgia (Lei nº 9.293/2023), que garantiu direitos a quem convive com dor crônica, quase sempre mulheres trabalhadoras. E a Lei do Abril Verde (Lei nº 9.404/2024) em defesa dos terreiros, que fez de Sergipe o primeiro estado a tratar o racismo religioso em lei.

Assine o manifesto: a vaga é de Linda

O Plenário do TSE vai decidir nas próximas semanas. Mas essa luta também se ganha nas ruas, nas redes e na pressão organizada.

Lançado em 8 de outubro, o manifesto “O Povo Decidiu: a Vaga é de Linda Brasil” reuniu em 20 dias 10.334 adesões, de quase 10 mil pessoas, vindas dos 75 municípios sergipanos e de outros 24 estados e do DF. Assinaram seis parlamentares federais do PSOL (Sâmia Bomfim, Chico Alencar, Glauber Braga, Pastor Henrique Vieira, Talíria Petrone e Jones Manoel), as deputadas estaduais Renata Souza e Débora Camilo e os vereadores Júlia Casamasso e Professor Hamilton Assis. O Centro Acadêmico de Direito da UFS e a ADUFS aprovaram moções de apoio, e a ANTRA entrou na defesa.

Lula venceu a eleição e o PSOL superou a cláusula de barreira. Mas Sergipe ainda tem uma tarefa: defender um mandato da classe trabalhadora. Vereadoras e vereadores, deputadas e deputados, reitoras, artistas, lideranças de terreiro, de quilombo e de bairro: assinem o manifesto e façam circular.

Assine em: Manifesto – O Povo Decidiu: A Vaga é de Linda Brasil

O povo de Sergipe já decidiu. A vaga é de Linda Brasil!


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