Reflexões iniciais sobre o vitorioso levante eleitoral no Brasil


Publicado em: 28 de outubro de 2026

Vítor C. F., de São Paulo (SP)

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Esquerda Online

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Crédito Ricardo Stuckert
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O levante de milhões de brasileiros que vivemos nestas últimas três semanas produziu uma vitória histórica. Novamente se prova que quando milhões de pessoas entram em ação, a realidade se transforma. Aquilo que era improvável, se torna inevitável. A teoria da luta de classes, e do surgimento das classes, segue sendo crucial para explicar a história da humanidade e como as sociedades funcionam. Os grandes eventos históricos são justamente produzidos pela força das multidões. Nesta batalha, que impacta o mundo todo, a classe trabalhadora brasileira triunfou.

Nem os mais otimistas previam uma diferença de votos tão grande. Mais de 4 milhões de votos garantiram uma vitória contundente. Inquestionável. Mesmo com o caos gerado pela sabotagem de prefeitos bolsonaristas e a prorrogação em duas horas do período de votação, todo o discurso já planejado do bolsonarismo e demais golpistas de que houve fraude nas eleições, apoiados pelo imperialismo estadunidense de Trump e ensaiado durante a prorrogação da votação, perdeu força. Pouco mais de 34 mil votos foram registrados no período em que houve prorrogação.1 Não fariam diferença. Kassio Nunes Marques, ministro golpista aliado ao bolsonarismo e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nestas eleições, foi obrigado a reconhecer a vitória de Lula. Assim como o partido de Flávio, o PL. No momento em que essas linhas são escritas, Flávio Bolsonaro já deixou o Brasil rumo aos EUA. Este auto-exílio é praticamente a confissão de todos os crimes que cometeu e reconhecimento da derrota.

O que garantiu essa vitória histórica foi a mobilização que se deu nessas três semanas. Milhões de jovens, trabalhadores, integrantes de movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda, pessoas sem vínculos com qualquer organização política, foram às ruas em todo o Brasil e às redes para disputar a consciência do restante da população brasileira. Família, amigos, colegas de trabalho, desconhecidos: em todo o lugar houve um verdadeiro tsunami de vira voto. Os relatos de pessoas virando votos ou falando que tinham convencido pessoas que não foram votar no primeiro turno a votar, eram frequentes. Toda pessoa que se mobilizou, se não virou votos ela mesma, soube de quem o fez. Toda essa mobilização, inclusive, teve um constante crescimento ao longo destas três semanas. Tanto os atos foram ficando cada vez maiores, como as ações de vira voto nas ruas tinham cada vez mais pessoas ao longo dos dias e a militância nas redes sociais e internet seguiu crescendo (o Exército do Lula, canal de whatsapp comandado por Janones que atingiu 10 milhões de membros na última semana é a prova disso).

É verdade que o governo e a campanha de Lula abraçaram a mobilização e partiram para a ofensiva. Lula ter convocado as pessoas para irem às ruas nas manifestações e ter se somado a elas, além de estimular o vira-voto foi fundamental. A defesa da conquista histórica do fim da escala 6×1 aprovado pelo Senado, numa movimentação de Alcolumbre para favorecer Lula – pauta que avançou tanto por conta da pressão da mobilização nestes últimos anos que impôs essa reivindicação inclusive ao governo Lula que, de início, não havia abraçado a pauta – foi essencial para potencializar o vira-voto. Iniciativas do governo e da campanha nesta reta final como o fim das bets, o perdão a dívidas de MEIs, a abertura do sigilo de Lula e sua família, entre outras também foram de suma importância. Assim como os seguidos escândalos envolvendo Flávio Bolsonaro. Todos estes aspectos foram essenciais para manter e seguir ampliando a mobilização. Todavia, não pode haver dúvidas de que foi a mobilização orgânica de milhões, arrastando as organizações da classe trabalhadora consigo, que produziu a vitória eleitoral e política histórica que vivemos dois dias atrás.

Um dos aspectos mais fundamentais desse poderoso levante é que ele não se deu pela defesa do projeto lulista. É claro que parte das pessoas que se mobilizou e que votou no Lula defende que o projeto representado por Lula é o melhor para o Brasil ou mesmo que é único possível. Mas o que realmente contagiou as pessoas e produziu essa mobilização foi a luta para defender os direitos, as liberdades democráticas e o pouco de soberania brasileira que foram conquistados com muita luta ao longo da história brasileira. Foi o vislumbre da concretização da barbárie fascista, que teve meio caminho andado com a vitória do bolsonarismo nas eleições para o senado, câmara de deputados e nos estados, que produziu a mobilização. Foi a luta contra o fascismo e o imperialismo. Foi a defesa dos interesses da classe trabalhadora que falaram mais alto; e não a defesa dum projeto de conciliação de classes ou um balanço positivo do governo Lula de que a situação brasileira vai de vento em popa.

O medo e o desespero foram sentimentos responsáveis por causar essa explosão. Assim como a sensação de que não é mais suportável a força da extrema-direita e do fascismo e o que eles vem fazendo no Brasil e no mundo. Tudo isso não se converteu em “psicose” política. Mas sim em lucidez política. A mais nítida consciência de que só agindo politicamente, se mobilizando, se organizando, indo para manifestações, travando a batalha ideológica na sociedade é que se pode defender nossos direitos, derrotar o fascismo, o imperialismo, avançar por melhores condições de vida e lutar contra o capitalismo e sua crise que vivemos.

É verdade que isso se expressou na exaltação da figura de Lula, uma figura poderosíssima produzida pelo ascenso da classe trabalhadora brasileira no fim da década de 70 e a década de 80, um dos maiores do mundo e da história, e pelos poucos avanços determinantes na vida de muitos brasileiros que os governos do PT promoveram. Mas o que prepondera é o seu legado de mudança das condições de vida da população brasileira, de seus tempos de sindicalista que dirigiu as greves gigantescas contra a ditadura militar e por melhores condições de trabalho, do Lula que defende os interesses dos trabalhadores e dos brasileiros e enfrenta os inimigos dos trabalhadores e do povo brasileiro. A veia da mobilização fala mais alto porque as pessoas se convenceram de que é assim que podem mudar o mundo. Ao mesmo tempo, os debates sobre avançar programaticamente, garantir mais direitos, renovar as direções políticas na esquerda, também estão presentes. Ou seja, a aparência da defesa do legado combativo e que defende os interesses da classe trabalhadora brasileira de Lula, por mais que ele não seja isso – afinal o projeto de país que conduziu todos os governos do PT é a conciliação de classes e defesa da ordem burguesa, garantindo o lucro da elite brasileira, enquanto a população recebe uma fração da riqueza produzida no país e segue sendo explorada e oprimida-, representa a essência dessa tomada de consciência sobre a importância da mobilização e organização, enquanto a busca por ir além do que foi o lulismo e a conciliação de classes também aflora, por meio da organização de mobilizações, ações e reflexões sobre os próximos passos da luta. Foi um projeto político de país que defende os interesses da classe trabalhadora que produziu o levante e que saiu vitorioso. Não o programa e nem o significado político da frente ampla. Os interesses da classe trabalhadora brasileira conduziram as massas que se moveu. Também é preciso ter isso nítido.

Por mais que tenha havido uma derrota eleitoral no primeiro turno, a luta política eleitoral foi uma vitória da classe trabalhadora contra o fascismo e o golpismo. Esta é a conclusão política deste processo eleitoral e da batalha, na guerra da luta de classes, que se deu em torno dele. Por mais que o cenário siga sendo difícil, o golpe bolsonarista em curso com ajuda das Big Techs, como a Meta, e portanto, do imperialismo, junto com STF e prefeitos e governadores, foi derrotado. Desta vez, diferente de 2023, foi derrotado pelo movimento de massas. A vitória histórica conquistada ganhou mais tempo e melhores condições para as lutas populares avançarem. Esta é a conclusão do setor de massas que se moveu e que sai muito moralizado: lutar vale a pena, lutar muda o mundo, é lutando que podemos fazer valer nossos interesses, os interesses da classe trabalhadora.

A vanguarda deste processo também avançou: está se organizando. Concluiu-se que precisamos estar mais ativos o tempo todo, travando a disputas ideológicas e organizando as mobilizações permanentemente, assim como a extrema-direita o faz. Nestas três semanas centenas, senão milhares, de pessoas se filiaram ao PSOL e a tendência para os próximos dias é isso se aprofundar. O avanço da luta real do movimento de massas produziu, nesta três semanas, um avanço de anos da consciência de um setor da classe trabalhadora, juventude e do povo brasileiro. A tarefa agora é atuar para que essa conclusão se consolide e a consciência, organização e capacidade de luta avancem no Brasil apontando para um projeto socialista.

Ainda é difícil dizer quais serão todas as consequências do levante vitorioso destas últimas três semanas. A onda segue se propagando. Uma delas é seu efeito no resto do planeta. O Brasil é um dos maiores países do mundo em inúmeros aspectos: população, economia, território, riquezas naturais etc.. Todos os acontecimentos em quaisquer países impactam a luta de classes a nível global, mas a influência de países como o Brasil é maior. Já se vê que todas as atenções se voltaram para o que ocorreu aqui. As notícias de impacto positivo na esquerda da América Latina e de outros países do mundo já estão correndo. O Brasil ensina ao mundo como combater o fascismo: não é a conciliação, mas sim o enfrentamento ideológico e a mobilização da classe trabalhadora a única ferramenta para derrotar o fascismo. A verdade é que a capacidade de mobilização no Brasil era pequena nos últimos dez anos. O levante vitorioso que vivemos mudou isso e se soma aos demais processos de luta de massas no mundo, influenciado-os. Se o Brasil era um dos países na retaguarda do enfrentamento ao fascismo, passou a ser um farol para o resto do mundo.

A luta contra a extrema-direita continua. Eles não estão mortos. O Brasil segue fraturado. O fascimo recebeu quase 60 milhões de votos no segundo turno. Há ainda milhões de brasileiros que não foram votar, tendo como algumas das razões, dentre várias, a descrença com o sistema político, que de fato está podre, e a legítima revolta com a situação atual do Brasil, que reflete inclusive a situação do mundo. Eles têm maioria no senado e na câmara. A base fascista pelo Brasil tem organizado retaliações, desde ataques a pessoas que comemoravam a vitória do PT às demissões de trabalhadores que votaram em Lula. Por mais que a fuga de Flávio possa promover uma crise de direção na extrema-direita, eles se reorganizarão e seguirão ativos. A ameaça às liberdades democráticas, aos direitos e ao pouco que temos de soberania seguem.

De nosso lado, como já dito, estamos em condições melhores de luta. Agora é hora de seguir avançando. Não podemos repetir os erros que nos levaram até aqui. A saída não é seguir com a conciliação de classes e gestão da ordem capitalista em crise. Lula já sinalizou que seguirá nesta estratégia ao se reunir com David Alcolumbre (União Brasil) e Hugo Motta (Republicanos), presidentes do senado e da câmara, respectivamente, cujos partidos apoiaram a candidatura de Flávio Bolsonaro. Sabemos que essa conciliação e gestão da ordem fortalecem a extrema-direita. O mesmo vale para ataques contra a classe trabalhadora brasileira e os direitos.

Também não é hora de achar que figuras pontuais, como Janones, ou os deputados federais de esquerda eleitos e inclusive o próprio Lula, ou qualquer outro indivíduo, podem resolver tudo sozinhos. Novamente, a vitória de Lula, o exército criado por Janones e a eleição dos deputados federais e o crescimento de visibilidade que tiveram só foi possível porque milhões de pessoas se mobilizaram. Não existem super heróis ou figuras míticas na política, apenas em fantasias.

É necessário avançar para um projeto que se enfrente com a burguesia, o fascismo e o imperialismo, que trave essa disputa na sociedade e que coloque em pauta mais conquistas para os trabalhadores e para a população brasileira. Um projeto que congele o preço dos aluguéis e do mercado, aumente ainda mais o salário mínimo rumo ao valor proposto pelo Dieese, proíba juros abusivos no cartão de crédito, empréstimos e cheque especial, que garanta direito trabalhistas para todos os trabalhadores, reindustrialize o país, desfaça as privatizações e fortalece os serviços públicos, demarque terras indígenas e de populações tradicionais, saneamento básico e moradia digna para todos etc.. O aceno de Lula à proposta de tarifa zero em todo o Brasil aos fins de semana é um passo importante nesse sentido e deve ser aprofundando.

A única maneira de colocar isso em voga é seguir investindo na mobilização e organização da classe trabalhadora e demais oprimidos no Brasil. As mobilizações destas últimas semanas mostraram o caminho. Palavras de ordem associadas a várias temáticas, principalmente direitos trabalhistas e sociais, por um Brasil soberano e contra a extrema-direita estiveram presentes. A própria vitória eleitoral conquistada pela mobilização e a vitória do fim da 6×1 e redução da jornada de trabalho mostram que é possível impor as conquistas políticas pela força da mobilização, mesmo que a extrema-direita seja maioria no congresso.

Um aspecto fundamental das mobilizações que ocorreram e que também apontam para qual deve ser a nossa estratégia para o próximo período é o fato de que a esquerda esteve unida nas ruas. Movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda das mais variadas matizes estiveram todos presentes. Em diferentes graus de comprometimento é verdade. Mas a massa que se mobilizou empurrou quase todas as organizações da esquerda, com pouquíssimas exceções de pouca influência política, para uma ação de frente única. Toda a esquerda golpeou junta, mantendo a disputa de suas ideias e opiniões. É só com a classe mobilizada em unidade que teremos força para seguir avançando. Assim, é hora de elencar um programa de reivindicações comum e seguir com a mobilização unificada.

A tarefa dos socialistas, comunistas e todas as pessoas que lutam pela revolução da classe trabalhadora brasileira contra o capitalismo e pela construção de uma outra sociedade a nível internacional é seguir buscando aprofundar a auto-organização e mobilização das massas que se iniciou há três semanas. Apontando que essa mobilização deve ter como norte um programa que coloque os interesses dos trabalhadores à frente, sem conciliação com a burguesia, que se enfrente com o imperialismo e o fascismo e que seja forjado na luta em unidade dos explorados e oprimidos. Os socialistas e comunistas devem ser úteis para a classe trabalhadora brasileira travar suas lutas neste próximo período, disputando em seu seio o projeto da revolução socialista. O PSOL enquanto um partido que mantém sua independência política e compromisso com a luta e reivindicações da classe trabalhadora, setores oprimidos e defesa do meio ambiente terá um papel fundamental a cumprir neste sentido.

As milhões de pessoas que se moveram compreenderam que para derrotar o imperialismo, a extrema-direita e lutar pelos interesses da classe trabalhadora, da juventude, de todas as pessoas oprimidas desse país e em defesa do nosso planeta, é preciso se organizar. Discutir política, planejar ações, fazer a luta ideológica com toda a sociedade. A vitória histórica do levante de massas destas últimas semanas é prova cabal disso. Também aponta que a luta contra o fascismo abrirá as condições necessárias para avançarmos rumo à revolução socialsita. Além disso, também é prova de que o projeto duma nova sociedade, que tenha os interesses da classe trabalhadora como fio condutor, ainda é capaz de arrastar uma nação consigo rumo a uma vida sem exploração, opressão e destruição do planeta e impactar todo o mundo. Ainda há muito trabalho a ser feito. Mas a vitória do poderoso levante no Brasil aponta o caminho e coloca condições mais favoráveis para a luta que seguirá.

Referências (acessadas até 14:10 do dia 27.10.2026)


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