Uma vitória, muitas determinações: primeiras notas
Publicado em: 28 de outubro de 2026
Paulo Pinto/Agência Brasil
A vitória de Lula não pode ser explicada apenas por um fator, mas por uma síntese de múltiplas determinações. Ela foi o resultado de um conjunto de condições objetivas e subjetivas que se combinaram ao longo do processo eleitoral, produzindo uma inflexão que muitos consideravam improvável antes do início da apuração. Compreender essas determinações é importante não apenas para interpretar as condições que possibilitaram uma das maiores vitórias eleitorais da esquerda, mas, sobretudo, para refletir sobre as tarefas que teremos no período que se abre.
Nesta análise, pretendemos jogar luz sobre alguns desses pontos, principalmente do ponto de vista das determinações políticas mais estruturais, sem as quais não compreenderíamos o processo. Por escolher fazer esse recorte, deixaremos de lado algumas determinações econômicas e conjunturais que influenciaram o resultado e alguns elementos importantes da situação social e histórica na qual a luta eleitoral se desenvolveu.
A primeira determinação foi a capacidade de mobilização social e política ao longo do segundo turno. A derrota no primeiro despertou uma multidão de militantes anônimos, novos e velhos, que compreenderam o perigo de um segundo governo Bolsonaro para o país. Nesse sentido, a campanha adquiriu outra dimensão com a presença militante nas ruas, impulsionada principalmente pelas juventudes, mas também pelos milhares de grupos de “vira-votos”, pelas várias atividades de panfletagem, lambe-lambe, conversas e cafés, nas praças, nas periferias e nos territórios. Essa força descentralizada, mas com direções locais, foi decisiva para constituir uma força social capaz de disputar corações e mentes, conquistar consciências e organizar o voto. Um dos últimos atos, entre os mais bonitos, foi a organização solidária para garantir que cada eleitor pudesse votar.
A segunda determinação foi a virada digital. Durante anos, a esquerda ocupou uma posição defensiva nas redes sociais, enquanto a extrema direita consolidava sua vantagem com milhões de visualizações, seguidores etc. Além disso, a extrema direita sempre contou com a ajuda das Big Techs. A entrada em ação de jovens como Ana Elisa, Guilherme Cortez, entre outros, e, principalmente, a criação do Exército do Lula por André Janones mudaram qualitativamente a disputa nas redes sociais. Essa virada foi fundamental, pois conseguiu “furar a bolha” e bloquear a ação da extrema direita. E, novamente, sem a presença de milhões de soldados anônimos nas missões, seguindo o script, não teríamos conseguido ocupar um espaço que foi projetado e permanece amplamente permeado pela extrema direita.
A terceira determinação foi a sucessão de erros cometidos pelos adversários. O bolsonarismo é repudiado por uma ampla parcela da população, tanto de esquerda quanto de direita. A vitória no primeiro turno fez com que Flávio já projetasse seu governo, sem compreender que boa parte da população carrega as marcas do desastre que foi o governo de seu pai. A soberba foi tão grande que chegaram ao primeiro debate preparados por uma técnica charlatã do coach Pablo Marçal. Ela funciona no círculo red pill e é bastante representativa do patriarcado, mas não alcança a maioria social. Além disso, Flávio anunciou aos quatro ventos suas medidas de retrocesso: o tesouraço de R$ 200 bilhões e os retrocessos em programas sociais. Quando perceberam o erro, correram atrás para se explicar, mas, muitas vezes, o estrago já havia sido feito. No último debate, tentou aparecer como alguém sério, afastando-se do “Flávio Marçal”, mas, como diz o ditado, “a língua vai onde o dente dói”: ele foi capacitista, errou o nome da mãe da Ana Clara, perdeu o debate em seu “ponto forte” (a segurança) e desfilou seu ódio habitual ao Norte e ao Nordeste, ódio que ele parece ter tomado por elogio ao falar em “ganhar gorjeta em dólares e euros”. Todos esses erros permitiram transformar o antibolsonarismo, uma força maior do que o antipetismo, em força eleitoral.
Essas não foram as únicas determinações, nem atuaram de forma isolada. Também não quero fazer uma hierarquia entre elas. A mobilização social potencializou a campanha digital; a presença digital ampliou o alcance da mobilização; e os erros dos adversários abriram espaço para que essa combinação produzisse resultados eleitorais concretos. Foi dessa articulação que emergiu a virada eleitoral que garantiu a vitória de Lula.
Estamos em um momento de comemoração, mas é preciso continuar atento e forte. A vitória eleitoral resolve apenas parte do problema. E não é só porque temos um Legislativo dominado pela extrema direita. O problema é muito maior e mais estrutural. Conquistamos o Executivo como uma trincheira mais favorável para a luta social, democrática e por mais direitos. Mas, se foi possível conquistar o governo, continua em aberto a disputa pelo que Antonio Gramsci chamava de direção moral e intelectual da sociedade. Se quisermos derrotar o neofascismo bolsonarista, o desafio estratégico do próximo período não é apenas administrar o Estado, apoiando-nos nas mobilizações, nem apenas obter novas vitórias eleitorais. Essas duas tarefas são importantes, mas ambas poderão, ao sabor dos ventos, desfazer-se como um castelo de cartas. O nosso desafio fundamental será travar o combate ideológico necessário para construir uma hegemonia duradoura, avançando na organicidade desse bonito movimento de massas que fez a vitória do segundo turno. Sem avançar nesse terreno, toda vitória permanecerá parcial e permanentemente ameaçada pelas forças que, mesmo derrotadas nas urnas, seguem influentes na sociedade, nas redes e na formação da consciência popular. As forças para essa construção foram reunidas na mobilização eleitoral; cabe agora transformá-las em projeto permanente de disputa pela hegemonia.
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