A virada popular, o futuro da esquerda brasileira e o PSOL


Publicado em: 7 de novembro de 2026

da redação

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Crédito Daniel Frias/Mídia NINJA
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A vitória de Lula, impulsionada pelo levante popular do segundo turno das eleições de 2026, abriu um novo momento da luta política brasileira. Seu significado ultrapassa a reeleição presidencial. A virada recolocou as ruas, as redes, a militância e as reivindicações da classe trabalhadora no centro da disputa eleitoral.

Essa experiência apresenta uma questão decisiva: qual esquerda será capaz de dar continuidade à força social que emergiu em outubro e enfrentar uma extrema direita que, apesar da derrota presidencial, permanece poderosa?

O levante reuniu quatro características fundamentais: a mobilização de massas que ultrapassou a orientação inicial da campanha; a unidade da esquerda em torno de Lula; a pluralidade de gerações, lideranças, partidos e movimentos nas ruas e nas redes; e a mudança de orientação política no segundo turno, quando Lula intensificou o enfrentamento ao bolsonarismo e incorporou reivindicações majoritárias da classe trabalhadora, como o fim da escala 6×1, o enfrentamento às bets, tarifa zero e a anistia aos MEIs.

É a partir das lições dessa vitória que devemos discutir a reorganização da esquerda brasileira, especialmente diante da perspectiva de que esta tenha sido a última eleição presidencial de Lula.

1. Dois turnos, duas orientações políticas

A eleição de 2026 proporcionou uma experiência política concentrada sobre os caminhos da esquerda brasileira.

No primeiro turno, predominou uma orientação centrada na defesa das realizações do governo, na moderação do discurso e na busca de ampliação eleitoral por meio de acenos ao centro. A aposta era que a apresentação dos resultados da gestão, acompanhada de uma redução da polarização política, permitiria conquistar a maioria necessária à vitória. Perdemos e estivemos diante de um abismo.

No segundo turno, a campanha ganhou outra dinâmica. Organizações, movimentos e pessoas comuns dedicaram 25 dias à mobilização nas ruas e nas redes, oferecendo seu tempo, seus recursos e sua disposição para participar de uma virada que parecia impossível.

Lula intensificou o enfrentamento ao bolsonarismo e a Trump, enquanto reivindicações como o fim da escala 6×1, a tarifa zero e o enfrentamento às bets ganharam centralidade. Não foi por acaso que não prosperou a proposta de apoiar a redução da maioridade penal, que Camilo Santana começara a articular no Congresso. A campanha passou a disputar a eleição a partir de direitos concretos da classe trabalhadora.

A vitória ocorreu em um contexto no qual a mobilização popular e o enfrentamento político à extrema direita adquiriram uma centralidade ausente no primeiro turno.

A diferença entre as duas orientações exige uma reflexão que ultrapassa as inovações de comunicação eleitoral. Trata-se de compreender a relação entre governo, mobilização popular e conquista de direitos.

O segundo turno demonstrou a força de uma estratégia que não depende exclusivamente do comando central de uma campanha. Houve quem convocasse, organizasse e sustentasse as mobilizações independente da ordem do governo, mas felizmente absorvida por Lula.

Essa é uma das lições fundamentais da virada: a mobilização popular não deve ser apenas um recurso excepcional diante de uma ameaça eleitoral, mas uma dimensão permanente da luta política.

2. A extrema direita perdeu a Presidência, mas continua poderosa

A dimensão histórica da vitória e a mudança na correlação social e política de forças durante o segundo turno não podem obscurecer outra dimensão importante do resultado eleitoral.

O PL elegeu 121 deputados federais, 19 senadores nas vagas disputadas em 2026, 212 deputados estaduais e distritais e seis governadores.

A extrema direita foi derrotada na disputa presidencial, mas preservou e ampliou uma poderosa representação institucional. Outras forças conservadoras também conquistaram posições importantes nos governos estaduais e no Congresso Nacional.

A extrema direita foi derrotada na disputa presidencial, mas preservou e ampliou uma poderosa representação institucional. Outras forças conservadoras também conquistaram posições importantes nos governos estaduais e no Congresso Nacional.

A disputa sobre a governabilidade permanece aberta e será decisiva para definir como seguirá o enfrentamento à extrema direita nos próximos anos.

A esquerda dará continuidade à orientação que ganhou força no segundo turno, apoiada na mobilização popular, na polarização com a extrema direita e na defesa de reivindicações concretas da classe trabalhadora? Ou retornará à orientação predominante no primeiro turno, centrada na moderação política e na expectativa de conquistar maiorias fundamentalmente pela negociação institucional?

Não existe contradição entre negociar e mobilizar. Isolar politicamente o PL no Congresso Nacional exigirá acordos com setores burgueses e forças políticas que não compartilham integralmente o programa da esquerda. A construção de uma frente ampla contra a extrema direita continua sendo necessária.

Mas reconhecer a necessidade desses acordos não significa subordinar a orientação do governo aos limites impostos pelos setores conservadores. As conquistas capazes de melhorar concretamente a vida da classe trabalhadora e ampliar a base social da esquerda não serão obtidas apenas por negociações parlamentares, sem pressão e mobilização popular.

É nesse sentido que se coloca a perspectiva de um governo a quente: um governo que negocie quando necessário, mas não abra mão de mobilizar a sociedade, disputar politicamente suas propostas e construir força social para conquistar direitos.

Desde a base do governo no congresso nacional, essa será uma das batalhas centrais do PSOL durante o governo Lula 4. E estaremos longe de travá-la isoladamente: a virada revelou uma ampla convergência com essa perspectiva, o “Exército do Lula” conquistou a vitória e não será passivo diante do novo governo para defendê-lo da extrema direita e para defender e conquistar direitos, se soubermos acolher as demandas e estimularmos as lutas.

3. O PSOL ajudou a sustentar a orientação que ganhou força na virada

Ao longo do terceiro governo Lula, o PSOL esteve entre as organizações que defenderam a necessidade de combinar unidade contra a extrema direita com mobilização popular e reivindicações sociais.

Essa perspectiva esteve presente na luta pelo fim da escala 6×1, na mobilização contra a PEC da Blindagem, no enfrentamento ao tarifaço de Trump e em diferentes iniciativas de luta social.

>> Leia também: O PSol mostrou-se necessário

O PSOL procurou combinar a responsabilidade diante da ameaça representada pela extrema direita com a defesa de uma perspectiva de transformação social. Essa trajetória atravessou a resistência ao impeachment de Dilma Rousseff, a campanha Lula Livre, o enfrentamento ao governo Bolsonaro e as mobilizações dos últimos anos.

Sua estratégia tem sido apoiar o governo Lula no enfrentamento à extrema direita, sem abrir mão de construir, por meio da intervenção parlamentar e dos movimentos sociais, a força popular necessária para impulsionar conquistas estruturais e resistir às pressões do mercado e do Centrão.

A vitória foi coletiva. Mas a experiência do segundo turno demonstrou, portanto, a justeza e atualidade da estratégia sustentada do PSOL que encontrou expressão em uma mobilização muito mais ampla que suas próprias forças organizadas.

Por isso, entendemos que o PSOL reafirmou seu papel histórico. A reorganização da esquerda brasileira passa também pelo fortalecimento de um partido socialista independente, capaz de contribuir com Lula e com o Brasil para a continuidade dessa orientação.

4. A virada não teve dono, e o PSOL foi um dos protagonistas

Uma das características mais importantes do levante popular foi que o PT não deteve o monopólio da mobilização nem dos novos protagonismos políticos que surgiram.

Na luta de classes não há área VIP, cadeira cativa, ordem de prioridade ou fila de projetos pessoais. Quando o povo se levanta, forjam-se também as lideranças do presente.

André Janones, deputado federal da Rede Sustentabilidade, integrante da federação com o PSOL, tornou-se um dos protagonistas da mobilização digital. Após a eleição, declarou que permaneceria em seu partido e que poderia contribuir mais com o governo atuando na mobilização social.

Érika Hilton, Rick Azevedo e toda a bancada federal do PSOL estiveram na vanguarda da luta pelo fim da escala 6×1. Uma reivindicação que expressou a experiência de trabalhadores que não se reconheciam nas formas tradicionais de representação política, mas encontraram no PSOL um ponto de apoio.

Manuela d’Ávila, em sua primeira eleição pelo PSOL, cumpriu um papel decisivo na disputa política do Rio Grande do Sul. Primeira colocada da esquerda na eleição para o Senado, sua campanha fez da mobilização popular uma marca desde o primeiro turno. Nas ruas, na televisão e nos debates, contribuiu para colocar no centro da disputa o enfrentamento às bets, o protagonismo das mulheres e a possibilidade de construir a política com a participação de pessoas comuns.

Guilherme Cortez, por sua vez, apresentou críticas à orientação da campanha no primeiro turno e percorreu o Brasil mobilizando a juventude, contribuindo para acender uma das faíscas do levante: uma juventude há muito tempo afastada da política, mas que com seus fandons e DCEs impulsionam todos nós.

Ao mesmo tempo, novas lideranças do próprio PT, como Ana Elisa, ganharam protagonismo ao se conectar com a mobilização popular e uma orientação mais combativa.

Essas experiências não expressam necessariamente o mesmo programa político. O elemento comum foi a capacidade de compreender o momento, tomar iniciativas e participar da mobilização que produziu a virada.

Se a força que venceu ultrapassou as fronteiras do PT, não há razão para concluir que a reorganização da esquerda deva ficar restrita a esse partido.

O PSOL contribuiu qualitativamente para a vitória porque esteve conectado com a estratégia que ganhou força nas mobilizações de outubro. Sua existência independente deve estar a serviço da unidade contra o neofascismo, da defesa do governo Lula diante dos ataques da extrema direita e da construção de um programa para os desafios do nosso tempo.

O PSOL contribuiu qualitativamente para a vitória porque esteve conectado com a estratégia que ganhou força nas mobilizações de outubro. Sua existência independente deve estar a serviço da unidade contra o neofascismo, da defesa do governo Lula diante dos ataques da extrema direita e da construção de um programa para os desafios do nosso tempo.

5. A hipótese de renovação do PT e a construção do PSOL

A emergência de lideranças jovens no PT, identificadas com a mobilização popular do segundo turno, é uma notícia importante para toda a esquerda brasileira.

A disputa desses setores contra a orientação da governabilidade a frio, predominante nos últimos anos, tem consequências para o conjunto do campo popular. Mas seria um erro concluir que essa hipótese de renovação torna dispensável o PSOL ou que a reorganização da esquerda deva ocorrer exclusivamente no interior do PT.

Uma organização pode renovar seus quadros sem necessariamente transformar sua estratégia. O surgimento de novas lideranças não significa, por si só, que a orientação predominante no partido e no governo tenha sido superada. Essa disputa continua aberta.

Integrando a base do governo no Congresso e comprometido com a unidade contra o neofascismo, o PSOL pode contribuir para a reorganização da esquerda. Sua independência permite construir força política e social fora dos limites da disputa interna petista, sustentando a mobilização popular e a disputa de valores que marcaram o segundo turno.

A unidade da esquerda e o fortalecimento do PSOL não são concorrentes, mas complementares. A existência de um partido socialista autônomo contribui para a pluralidade e unidade que foram e seguirão sendo necessários para vencer a extrema-direita no Brasil.

A unidade da esquerda e o fortalecimento do PSOL não são concorrentes, mas complementares. A existência de um partido socialista autônomo contribui para a pluralidade e unidade que foram e seguirão sendo necessários para vencer a extrema-direita no Brasil.

O resultado eleitoral do PSOL demonstra o crescimento das nossas ideias e o desafio da expansão territorial

A federação PSOL–Rede superou a cláusula de barreira nas eleições de 2026, conquistando 4,89% dos votos válidos nacionais para a Câmara dos Deputados e elegendo 15 parlamentares federais. Isso é uma das expressões do crescimento das nossas ideias na sociedade. Evidente que no desempenho em relação a quantidade de estados acima de 1,5% dos votos o PSOL atingiu as exigências sem folga.

Claro que o partido ainda possui uma implantação desigual, e não conseguiu ainda  transformar toda sua influência política em força orgânica especialmente distante dos principais centros urbanos. Essas contradições são próprias de momentos de grandes mudanças, nos quais elementos se desenvolvem de forma desigual. Há uma distância entre o espaço político que suas ideias encontram na sociedade e a expansão territorial que o partido possui atualmente. Mas a síntese positiva dessa contradição dependerá também se seguem se desenvolvendo os elementos positivos da correlação social e política de forças. Se avança a luta contra a extrema direita no mundo, como nos últimos dias de 2026 ou se a correlação de forças se desenvolve regressivamente.

O futuro dessa energia social, que já se expressou nos EUA nas eleições de meio de mandato de ontem, permanece aberto. A questão que se coloca para o PSOL é se conseguirá ampliar sua capacidade de organização, receber novas lideranças, fortalecer sua implantação territorial e construir vínculos permanentes com setores da classe trabalhadora que participaram da virada.

7. Uma nova esquerda

A perspectiva de que 2026 tenha sido a última eleição presidencial de Lula coloca uma questão histórica para o conjunto da esquerda brasileira.

O PT continuará sendo uma organização importantíssima da política nacional, com forte presença institucional, eleitoral e social. Mas essa força não resolve automaticamente o problema de construir novas lideranças, novos vínculos populares e uma estratégia capaz de enfrentar a extrema direita para além da liderança de Lula.

O PT continuará sendo uma organização importantíssima da política nacional, com forte presença institucional, eleitoral e social. Mas essa força não resolve automaticamente o problema de construir novas lideranças, novos vínculos populares e uma estratégia capaz de enfrentar a extrema direita para além da liderança de Lula.

A experiência da virada aponta para a necessidade e a possibilidade de uma reorganização mais ampla, envolvendo setores combativos do PT, lideranças do PSOL, figuras como Janones, movimentos sociais, organizações populares e uma nova geração de militantes que encontrou neste outubro de 2026 uma experiência concreta de ação coletiva.

Esse campo não precisa eliminar as diferenças partidárias e programáticas. Pode construir unidade em torno de lutas comuns, preservando a autonomia dos partidos.

Nesse processo, o PSOL tem um papel próprio: sustentar uma perspectiva socialista, organizar setores populares, construir novas lideranças e contribuir para uma orientação de governo apoiada na mobilização social.

Não precisamos escolher entre fortalecer o PSOL, fortalecer a esquerda brasileira e enfrentar a extrema direita. Essas três tarefas não são contraditórias: alimentam-se mutuamente.

Precisamos construir um PSOL capaz de contribuir para um governo a quente, para um programa de Brasil soberano e para conquistas estruturais da classe trabalhadora do nosso tempo.

É com unidade na diversidade, mobilização popular e independência política que poderemos dar continuidade à virada de outubro, defender o governo Lula e disputar o futuro da esquerda brasileira.


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