Nada será como antes? É o que esperamos.
Publicado em: 2 de novembro de 2026
@ricardostuckert
Belo Horizonte-mg (21/10)
O levante popular e eleitoral que testemunhamos teve uma dimensão extraordinária. Impulsionado inicialmente pela juventude, ganhou proporções que surpreenderam até mesmo os mais otimistas, mobilizando e envolvendo os mais diversos setores da sociedade. Sua força ultrapassou os limites da disputa eleitoral e produziu um acontecimento político de grande repercussão, cujos reflexos alcançam o cenário internacional, num momento em que a extrema direita avança em diferentes partes do mundo. O que aconteceu no Brasil não pode ser compreendido apenas como uma vitória eleitoral: representa também uma demonstração da capacidade de mobilização popular e de resistência democrática diante da ameaça fascista.
Essa energia não pode se dissipar. Precisa se transformar em mobilização permanente e força organizada para mudar o país. Afinal, essa possível “revolução democrática” do século XXI — expressão utilizada por Valério Arcary em seu artigo — só se completará com a derrota definitiva do bolsonarismo e a construção de novas condições políticas e sociais.
Por essa razão, precisamos estudar em profundidade toda essa jornada apoteótica. Se há algo que nega a dialética é deparar-se com uma enorme novidade e achar que já viu tudo.
>> Leia também: Segundo turno 2026: cronologia de uma vitória heroica
Nós, da esquerda, precisamos ter humildade e reconhecer que não soubemos traduzir para a população o que estava em jogo nesta eleição, especialmente no primeiro turno.
Desde o início do processo eleitoral, ainda na pré-campanha, todos diziam, da boca para fora, que esta seria a eleição de nossas vidas, mas atuávamos como se fosse uma eleição qualquer. Isso ficou particularmente evidente na direção da campanha presidencial, que insistia em falar apenas do passado e cantar vitória antes da hora.
Desde o início do processo eleitoral, ainda na pré-campanha, todos diziam, da boca para fora, que esta seria a eleição de nossas vidas, mas atuávamos como se fosse uma eleição qualquer. Isso ficou particularmente evidente na direção da campanha presidencial, que insistia em falar apenas do passado e cantar vitória antes da hora.
Ainda no primeiro turno, alertamos, modestamente, os setores mais à esquerda:
“Não parece que os partidos que lançaram candidaturas próprias à Presidência, nem boa parte das candidaturas proporcionais dos partidos que apoiam a reeleição de Lula, tenham compreendido que esta eleição fugia aos padrões das disputas comuns do regime democrático-liberal brasileiro. Em circunstâncias normais, projetos de autoconstrução e disputas internas fazem parte da dinâmica de uma esquerda tão heterogênea quanto a brasileira. Desta vez, porém, a realidade exigia outra postura.
A isso se soma o modelo eleitoral brasileiro, que privilegia o voto personalizado em detrimento dos programas partidários nas eleições proporcionais. Esse sistema estimula a hiperindividualização das campanhas e dos mandatos, acirrando a disputa entre candidaturas de mesmo perfil político e ideológico, situação agravada pelo impacto das redes sociais.”
Depois da vitória épica conquistada pela população brasileira, é necessária uma profunda mudança nas organizações de esquerda.
Mas é preciso ficar atento, pois a superestrutura da limitada democracia liberal certamente tentará capturar a energia das ruas e das redes, canalizando-a para negociações realizadas no interior das instituições do regime democrático-liberal.
Há um precedente histórico bastante conhecido pela esquerda. Na luta pela derrubada da ditadura, ao final do processo, a classe dominante isolou o movimento dos trabalhadores e negociou por cima a chamada “transição conservadora”. Essa negociação garantiu que militares, empresários golpistas e torturadores não fossem punidos e que as liberdades democráticas fossem limitadas. É claro que o fim da ditadura foi uma vitória extraordinária do povo brasileiro, mas pagamos até hoje o preço daquela transição conservadora.
As superestruturas existem nas sociedades capitalistas para assegurar a consolidação e a perpetuação da dominação de classe. É preciso lembrar também que décadas de atuação prioritária da esquerda nas instituições do Estado burguês deixam marcas profundas.
É evidente que persiste uma disputa estratégica na esquerda sobre os rumos da próxima etapa. Um setor expressivo da frente ampla, incluindo dirigentes do próprio PT, reconhece a importância da mobilização popular para a vitória no segundo turno. Mas, depois da vitória, defende que o governo priorize as negociações com o Centrão. Alguns chegam ao extremo de admitir medidas econômicas que agradem ao “mercado financeiro”.
É evidente que persiste uma disputa estratégica na esquerda sobre os rumos da próxima etapa. Um setor expressivo da frente ampla, incluindo dirigentes do próprio PT, reconhece a importância da mobilização popular para a vitória no segundo turno. Mas, depois da vitória, defende que o governo priorize as negociações com o Centrão. Alguns chegam ao extremo de admitir medidas econômicas que agradem ao “mercado financeiro”.
Em outras palavras, querem o povo para eleger, mas não necessariamente para governar.
Essa posição revela uma divergência estratégica sobre o caminho a seguir, mas não deve ser confundida com um julgamento moral dos dirigentes do PT que pensam assim. O debate é político e diz respeito ao próprio sentido da participação popular na democracia liberal e na luta pelo socialismo.
Por isso, não basta defender a democracia contra as ameaças autoritárias. É preciso aprofundá-la, ampliando a participação popular para além dos processos eleitorais e enfrentando as estruturas econômicas e sociais que concentram o poder nas mãos de poucos. A democracia política precisa avançar junto com a democratização da economia, do Estado e das relações sociais. É nessa perspectiva que a defesa das liberdades democráticas se encontra com a construção do socialismo.
Um movimento que ganha impulso de baixo para cima abre espaço para uma profunda renovação e democratização das organizações de esquerda. Mas isso só será possível se os interesses particulares não se sobrepuserem à vontade popular.
Essa transformação exige uma mudança cultural na esquerda: abandonar posturas autocentradas e disputas predatórias, colocando em primeiro plano os interesses gerais da juventude e do movimento operário e popular.
É preciso preservar a unidade na diversidade, fortalecendo todos os partidos de esquerda, as organizações populares, os meios de comunicação alternativos e as comunidades culturais. Sobretudo, é necessário dar voz e poder às novas gerações que tomaram as ruas.
É preciso preservar a unidade na diversidade, fortalecendo todos os partidos de esquerda, as organizações populares, os meios de comunicação alternativos e as comunidades culturais. Sobretudo, é necessário dar voz e poder às novas gerações que tomaram as ruas.
Para estar à altura da mobilização popular, não podemos perder o foco, precisamos evitar precipitações e disputas por protagonismo. É um equívoco antecipar disputas e começar a debater candidaturas para 2030. Como escreveu Marx em
O 18 de Brumário de Luís Bonaparte: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
Temos um longo caminho pela frente e muitas tarefas imediatas, especialmente o enfrentamento cotidiano à extrema direita. Não podemos permitir que a disputa por projetos pessoais ou eleitorais se sobreponha à construção coletiva e às necessidades do movimento popular.










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