Eleição do 2º turno no Maranhão e conexão com os temas propostos
Publicado em: 28 de outubro de 2026
O segundo turno de 25 de outubro de 2026 confirmou o Maranhão como o estado mais lulista do país: Luiz Inácio Lula da Silva obteve 2.808.231 votos (69,54% dos válidos) contra 1.229.971 de Flávio Bolsonaro (30,46%), com 100% das seções totalizadas (TSE, 2026); nacionalmente, Lula foi reeleito com 51,79%. Este texto pergunta o que a geografia desse voto diz sobre a geografia do desmatamento, dos conflitos agrários e socioambientais, da pulverização de agrotóxicos e da violência letal. A hipótese é que o mapa eleitoral maranhense reproduz a clivagem entre os territórios da expansão do agronegócio e os territórios de posseiros, quilombolas, quebradeiras de coco, pescadores e povos indígenas, onde se concentram as violações documentadas pela CPT, pelo CIMI e pela RAMA.
Método e fontes
A matriz eleitoral municipal do mapa (Figura 1) é a do primeiro turno (4 de outubro), única consolidada para os 217 municípios na madrugada seguinte ao pleito; os dados do segundo turno entram no nível estadual e nas parciais municipais da apuração. A escolha não distorce a leitura: Lula venceu em 211 municípios e Flávio Bolsonaro em seis (Açailândia, Balsas, Estreito, Imperatriz, Itinga do Maranhão e São Pedro dos Crentes), e as parciais do segundo turno mantiveram Açailândia e Balsas no campo bolsonarista. Sobre a matriz foram sobrepostas cinco camadas: desmatamento (INPE; MapBiomas; MPMA), pulverização de agrotóxicos (RAMA; CPT; IBAMA), assassinatos em conflitos agrários e socioambientais de 2019 a 2024 (CPT, CIMI, CONAQ e imprensa, 27 vítimas nominalmente identificadas), concentração de conflitos por terra (CPT) e mortes violentas intencionais em 2025 (FBSP), sobre a malha municipal do IBGE. Conflito agrário e socioambiental é entendido, com Almeida (2008), como disputa pelo controle de territórios e recursos entre grupos com modos distintos de uso da terra, e não como simples litígio possessório.
O resultado: continuidade com erosão nas bordas
Em relação a 2022 (Lula 71,14%, Jair Bolsonaro 28,86%), houve pequena erosão do voto lulista (−1,6 ponto) e crescimento absoluto da extrema-direita (de 1,08 para 1,23 milhão de
1 Advogado popular (OAB/MA 9.355), mestre em Desenvolvimento Socioespacial e Regional pela Universidade Estadual do Maranhão (PPDSR/UEMA). Assessor jurídico da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), do Movimento Xingu Vivo para Sempre e do Tuxa Ta Pame (Povo Ka’apor). ORCID: 0000-0002-4183-2271.
votos). Entre os turnos de 2026, Lula somou 241.930 votos e Flávio Bolsonaro perdeu 9.069: o eleitorado de Cury, Renan Santos e Caiado migrou majoritariamente para Lula, e o bolsonarismo chegou ao segundo turno com o teto atingido. A abstenção (20,36%) ficou abaixo da de 2022 (23,51%). Não houve onda, mas consolidação: as seis ilhas azuis do mapa são as três de 2022 (Imperatriz, Açailândia e São Pedro dos Crentes) mais Balsas, Estreito e Itinga.
A fronteira do desmatamento vota Bolsonaro
As seis vitórias de Flávio Bolsonaro e os municípios em que Lula ficou abaixo de 55% formam dois arcos: o sul (Balsas, Tasso Fragoso, São Pedro dos Crentes, Carolina, Alto Parnaíba, Formosa da Serra Negra), núcleo maranhense do Matopiba, e o oeste (Imperatriz, Açailândia, Itinga, Estreito, João Lisboa, Lajeado Novo), fronteira amazônica do eixo Carajás–Tocantina, da pecuária e da madeira que avançam sobre as terras indígenas Araribóia, Caru e Alto Turiaçu.Os dados ambientais são eloquentes. O Maranhão foi, pelo terceiro ano consecutivo, o estado que mais desmatou no Brasil em 2025: 154.294 hectares, 15,7% do total nacional, 95,9% deles no Cerrado (MAPBIOMAS, 2026). Balsas foi o quinto município do país em área desmatada (14.963 ha), e Tasso Fragoso, São Pedro dos Crentes e Balsas concentraram os 24 procedimentos abertos pelo Ministério Público estadual em setembro de 2025. No PRODES Cerrado 2026, divulgado dias antes do segundo turno, o estado manteve a liderança do bioma com 1.718,59 kmZ (31,2% do total), mesmo com queda de 14,3% (INPE, 2026). A soja ocupou 1,62 milhão de hectares na safra 2025/2026, e 16,7% dessa área está em imóveis com desmatamento registrado no PRODES (SERASA EXPERIAN, 2026). Os dez municípios líderes em 2024 — Balsas, Caxias, Mirador, Fernando Falcão, São Félix de Balsas, Grajaú, Loreto, Alto Parnaíba, Urbano Santos e Carolina — estão hachurados no mapa: salvo Caxias e Urbano Santos, todos ficam no sul e no centro-sul, na faixa em que o voto de Lula cai para 50–65%, e Balsas é bolsonarista. A correlação não é mecânica — Mirador e Sucupira do Riachão desmatam muito e votaram Lula acima de 70% —, mas o padrão é claro: quanto mais consolidada a economia da soja e da pecuária empresarial, mais o município se descola da maioria estadual; no Maranhão isso aparece em ilhas porque a estrutura agrária ainda é majoritariamente camponesa e tradicional.
Conflitos no campo: a violência incide sobre o território lulista
Se o desmatamento vota Bolsonaro, as vítimas da violência agrária votam Lula. A CPT registrou no Maranhão 209 conflitos no campo em 2025 — o maior número do país, à frente do Pará (179) —, 190 deles pela terra, com 14.285 famílias; em 2024 foram 363 conflitos por terra, também a primeira posição nacional, em 81 municípios, com maior concentração em Chapadinha e Timbiras (CPT, 2025; 2026). Entre os causadores identificados em 2025, fazendeiros respondem por 143 ocorrências; entre as vítimas, posseiros (88), quilombolas (62) e indígenas (23). A CONAQ contou 14 quilombolas assassinados no estado entre 2019 e julho de 2024, o maior número do país (CONAQ, 2024); o CIMI registrou 76 ocorrências de violência contra povos indígenas em 2025, sete assassinatos e oito conflitos territoriais (CIMI, 2026).
Os triângulos pretos do mapa — 27 pessoas mortas em conflitos agrários e socioambientais entre 2019 e 2024, de Paulo Paulino Guajajara a Raimundo Bertoldo — caem quase todos sobre municípios em que Lula obteve mais de 65%: Arari (seis mortos; Lula 71,2%), Penalva (81,8%), Palmeirândia (81,0%), Parnarama (81,1%), Itapecuru-Mirim (72,2%), Codó (71,5%), São João do Sóter (82,4%), Junco do Maranhão (73,7%). A exceção confirma a regra: Amarante do Maranhão, sede dos ataques aos Guajajara da TI Araribóia (quatro mortos no período), foi o município lulista mais disputado do estado (49,6% contra 46,8% no primeiro turno) — exatamente o ponto em que a fronteira madeireira e pecuária do oeste encontra o território indígena. A violência agrária, portanto, não é produto de territórios bolsonaristas, mas de uma frente de expansão que parte deles e se projeta sobre a Baixada, os Cocais, o Médio Mearim e as terras indígenas: as ilhas azuis não contêm os conflitos; elas os exportam.
Agrotóxicos: o Baixo Parnaíba como caso-limite
O cruzamento mais contundente é o dos agrotóxicos. A RAMA contabilizou, até setembro de 2026, 262 notificações de pulverização aérea e por drones sobre 219 comunidades em 37 municípios; no primeiro semestre, dez municípios concentraram 77,3% das ocorrências, liderados por São Benedito do Rio Preto (46), Chapadinha (34), Anapurus (24), Brejo (23) e Milagres do Maranhão (19) (RAMA, 2026). A CPT atribuiu ao Maranhão 91 dos 127 casos de contaminação por agrotóxicos registrados no país em 2025 (Brejo 18, Timbiras 11, Viana 11, São Benedito 10, Bacabal 7) e 228 dos 276 de 2024 (CPT, 2025; 2026). O estado comercializou 15.650 toneladas de ingrediente ativo em 2022, quase o triplo de 2013 (IBAMA, 2024).
Esses municípios do Baixo Parnaíba e dos Cocais estão entre os mais lulistas do estado: São Benedito do Rio Preto 79,3%, Milagres 79,1%, Brejo 73,6%, Anapurus 72,9%, Chapadinha 68,7%, Duque Bacelar 83,8%, Timbiras 77,3%, Buriti 82,8%. A soja do Baixo Parnaíba é minoritária nas urnas e hegemônica no território: pulveriza sobre comunidades, cacimbões e roças de quem votou, por quatro em cada cinco eleitores, contra o projeto que ela financia — o que a 5ª Turma do TRF1 reconheceu ao manter, em abril de 2026, a suspensão da pulverização sobre as comunidades de Timbiras (MPF, 2026). A assimetria é também institucional: onze municípios proibiram por lei a pulverização aérea, Duque Bacelar revogou a sua em 2025 (ADI nº 0822070-17.2026, TJMA) e não existe lei estadual sobre a matéria.
Cidades violentas: a fronteira também mata na cidade
O Maranhão fechou 2025 com 29,7 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, a sexta maior taxa do país (FBSP, 2026), depois de ter sido em 2024 o único estado da Amazônia Legal com alta (+11,5%). Entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, as maiores taxas foram as de Caxias (49,5), Balsas (41,5), Açailândia (32,5), São José de Ribamar (32,0), Codó (28,7), Bacabal (26,9), Timon (26,3), Imperatriz (24,5) e São Luís (23,6); Santa Inês foi o único maranhense entre os vinte municípios mais violentos da Amazônia Legal, e o Fórum identificou facções em 53 municípios do estado (FBSP, 2025). As maiores altas da década ocorreram em Balsas (+177,8%), na microrregião de Chapadinha (+216,7%) e na mesorregião Sul (+109,2%) (SMDH, 2025).
Balsas, Açailândia e Imperatriz são bolsonaristas; mas Caxias (Lula 68,0%) e Codó (71,5%) mostram que a violência urbana, sozinha, não explica o voto. O que diferencia os casos é a economia de fronteira: as três primeiras combinam agronegócio, siderurgia ou madeira, migração recente e disputa de facções, e nelas a letalidade acompanha a expansão econômica; Caxias e Codó são cidades antigas dos Cocais, com violência ligada à pobreza urbana, sem a mesma composição de classe. Não há, nas fontes consultadas, evidência de mobilização eleitoral de facções; o que há é coincidência espacial entre frentes de expansão, violência letal e voto de extrema-direita.
Considerações finais
O segundo turno de 2026 fixou no Maranhão uma geografia que as fontes ambientais, agrárias e de segurança pública já descreviam: de um lado, o sul da soja e o oeste da pecuária e da madeira, que desmatam, concentram as maiores taxas de homicídio fora da capital e votaram Flávio Bolsonaro; de outro, a Baixada, os Cocais, o Baixo Parnaíba, o Médio Mearim, os Lençóis e as terras indígenas, que recebem a pulverização, os despejos e os assassinatos, e deram a Lula 69,54%. A fronteira não vence eleições no Maranhão, mas governa o território — pelo licenciamento estadual, pela Lei nº 12.169/2023 e pela ausência de lei sobre pulverização. O resultado é menos uma resposta às violações que um retrato de quem as sofre; convertê-lo em política agrária, ambiental e de proteção a defensores é tarefa que a eleição não resolve.
Figura 1 – Maranhão: voto para presidente em 2026 e camadas de desmatamento, agrotóxicos, conflitos agrários e violência letal

Fonte: elaboração própria (2026) sobre o Mapa Político do Estado do Maranhão (IBGE, Diretoria de Geociências, projeção policônica, SIRGAS 2000), reproduzido em tons de cinza, com camadas de TSE (2026), INPE (2026), MapBiomas (2025; 2026), CPT (2025; 2026), CIMI (2026), CONAQ (2024), RAMA (2026) e FBSP (2025; 2026).
Matriz eleitoral: 1º turno (04/10/2026); resultado estadual do 2º turno (25/10/2026): Lula 69,54% × Flávio Bolsonaro 30,46%.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Terras de quilombo, terras indígenas, “babaçuais livres”, “castanhais do povo”, faxinais e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas. 2. ed. Manaus: PGSCA-UFAM, 2008.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resultados: Eleições 2026 – 1º e 2º turnos, Maranhão. Brasília: TSE, 2026. Disponível em: https://resultados.tse.jus.br. Acesso em: 26 out. 2026.
CIMI – CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil: dados de 2025. Brasília: CIMI, 2026. Disponível em: https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2026/08/relatorio-violencia-povos-indigenas-2025-cimi.pdf. Acesso em: 26 out. 2026.
CONAQ – COORDENAÇÃO NACIONAL DE ARTICULAÇÃO DAS COMUNIDADES
NEGRAS RURAIS QUILOMBOLAS; TERRA DE DIREITOS. Racismo e violência contra quilombos no Brasil: 2ª edição. Curitiba: Terra de Direitos, 2024.
CPT – COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no Campo Brasil 2024. Goiânia: CPT Nacional, 2025. Disponível em: https://cptnacional.org.br. Acesso em: 26 out. 2026.
CPT – COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no Campo Brasil 2025. Goiânia: CPT Nacional, 2026. Disponível em: https://cptnacional.org.br/2026/04/27/dados2025-conflitosnocampo/. Acesso em: 26 out. 2026.
FBSP – FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Cartografias da Violência na Amazônia 2025. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/11/cartografias-violencia-amazonia-2025.pdf. Acesso em: 26 out. 2026.
FBSP – FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de
Segurança Pública 2026. São Paulo: FBSP, 2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/07/anuario-2026.pdf. Acesso em: 26 out. 2026.
IBAMA – INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS
NATURAIS RENOVÁVEIS. Relatórios de comercialização de agrotóxicos: vendas por unidade da federação, 2013–2022. Brasília: IBAMA, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/quimicos-e-biologicos/agrotoxicos/relatorios-de-comercializacao-de-agrotoxicos. Acesso em: 26 out. 2026.
INPE – INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS. PRODES Cerrado e
PRODES Amazônia 2026: taxas anuais de desmatamento por estado. São José dos Campos: INPE, 16 out. 2026. Disponível em:
https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias-defeso-eleitoral/apresentacao-coletiva-prodes-2026_inpe.pdf/. Acesso em: 26 out. 2026.
MAPBIOMAS. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2024. São Paulo: MapBiomas, 2025. Disponível em:
https://alerta.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/17/2025/05/RAD2024_15.05.pdf. Acesso em: 26 out. 2026.
MAPBIOMAS. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2025: factsheet. São Paulo: MapBiomas, 2026. Disponível em:
https://alerta.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/17/2026/05/Factsheet-RAD-26052026-
1.pdf. Acesso em: 26 out. 2026.
MPF – MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Procuradoria Regional da República da 1ª Região. TRF1 segue MPF e mantém suspensão de pulverização aérea de agrotóxicos em Timbiras (MA). Brasília, 27 abr. 2026. Disponível em:
https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/prr1/noticias/trf1-segue-mpf-e-mantem-suspensao-de-pulverizacao-aerea-de-agrotoxicos-em-timbiras-ma. Acesso em: 26 out. 2026.
RAMA – REDE DE AGROECOLOGIA DO MARANHÃO. Mapa do Veneno: Maranhão registra 262 notificações de pulverização de agrotóxicos até setembro de 2026. São Luís: RAMA, 30 set. 2026. Disponível em: https://www.rederama.org. Acesso em: 26 out. 2026.
SERASA EXPERIAN. Área de soja cresce no Piauí e no Maranhão: monitoramento da safra 2025/2026. São Paulo, 26 ago. 2026. Disponível em: https://www.bbmbolsa.com.br/noticias/area-de-soja-cresce-cerca-de-43-mil-hectares-no-piaui-e-no-maranhao-enquanto-acre-e-amazonas-registram-queda-conjunta-de-12-revela-serasa-experian/. Acesso em: 26 out. 2026.
SMDH – SOCIEDADE MARANHENSE DE DIREITOS HUMANOS. Panorama da
violência intencional no Maranhão 1995–2024/2025. São Luís: SMDH, 2025. Disponível em: https://smdh.org.br/panorama-da-violencia-intencional-no-maranhao-1995-2024-2025/. Acesso em: 26 out. 2026.
Mais lidas
editorial
Lula reeleito: vitória histórica do povo brasileiro
brasil
Reflexões iniciais sobre o vitorioso levante eleitoral no Brasil
brasil
O Povo decidiu, a vaga é de Linda Brasil
brasil
Eleição do 2º turno no Maranhão e conexão com os temas propostos
brasil









