Após uma vitória histórica: algumas conclusões enganosas e uma certeza incontornável


Publicado em: 2 de novembro de 2026

Por Porakê Munduruku, Belém (PA)

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Porakê Munduruku, Belém (PA)

Esquerda Online

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Compartilhe:
Crédito Paulo Pinto/Agência Brasil
Ouça a Notícia:

As urnas das eleições gerais de 2026, no Brasil, confirmaram o resultado do segundo turno no qual Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para o seu quarto mandato presidencial, com uma margem ainda maior que o das eleições de 2022, em uma virada improvável e histórica, que repercutiu pelo mundo como marco de uma contraofensiva ao avanço da ultradireita.

A euforia das celebrações institucionais insiste em vender a narrativa de uma “vitória retumbante da democracia, do PT, da esquerda e do sentimento nacionalista contra o imperialismo”. Trata-se de uma leitura superficial, perigosa e profundamente enganosa.

Não foi o Lula, nem o PT, nem a esquerda, nem, muito menos, o nacionalismo, que venceu essas eleições. Quem derrotou o projeto trumpista/bolsonarista foi o medo e o antifascismo. Foi uma vitória improvável e importantíssima, dada a força da máquina reacionária capitaneada pelas gigantes multinacionais de tecnologia, pelo rentismo, pelo capital especulativo, pelo crime organizado e pela mídia corporativa. Porém, foi uma vitória pela negativa: nenhum projeto alternativo se afirmou durante essas eleições, apenas negou-se o abismo do bolsonarismo. E por isso o resultado foi uma contradição das contradições, uma vitória conservadora contra o fascismo. Neste outubro de 2026, no Brasil, o conservadorismo se contrapôs ao reacionarismo puro e simples, mas ainda passamos longe de qualquer horizonte progressista ou revolucionário.

Este cenário apresenta o risco de consolidação de uma percepção pública que restringe o espectro político do fascismo ao lulopetismo, ou seja, ao neokeynesianismo liberal. Uma janela de overton que se fecha para sufocar alternativas à esquerda do petismo. Ou, como advertiu Criolo, o risco de que o “anzol da direita” reduza a esquerda à “peixe”.

Para não alimentarmos ilusões na governabilidade lulopetista, que desaguem em desmoralização e apatia, faz-se urgente desmontar algumas falácias propagadas dentro do próprio campo da esquerda e encarar a única certeza que nos resta.

Lula venceu essas eleições?

No papel e nos registros oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, Lula é o grande vencer do peito presidencial de 2026 no Brasil. Mas dizer que “Lula venceu” politicamente é desconsiderar o recado direto dado pela maioria do eleitorado.
Uma boa forma de dosar o real apelo pessoal do presidente e a avaliação de suas três gestões anteriores foi o resultado do primeiro turno. Lembremos: no primeiro turno, Flávio Bolsonaro liderou a apuração, fechando com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula. O povo não votou em Lula no segundo turno por considerá-lo o melhor para o Brasil; votou por considerá-lo o menos pior. A estratégia petista de apostar na trajetória do migrante nordestino e líder operário que galgou o caminho até o planalto por seu próprio mérito e exaltar os feitos de seus governos anteriores não foram suficientes para garantir sua reeleição.

O recado das urnas no primeiro turno foi cristalino: os brasileiros não estão satisfeitos com o governo Lula, mas chegaram à conclusão pragmática de que, com Flávio, o pesadelo seria infinitamente pior. A virada no segundo turno não expressa um endosso entusiasmado ao governismo, mas o recurso desesperado de uma população que usou a cédula como escudo contra o fascismo.

O PT venceu essas eleições?

A estrutura partidária do PT e a burocracia governamental comemoram uma vitória que só foi conquistada por uma amplíssima coalisão que abarcou desde setores da esquerda radical à direita mais fisiológica e oligárquica. Ainda assim, politicamente a estratégia petista sofreu um desgaste irreversível.

O que mudou no programa de Lula entre o primeiro e o segundo turno? Ora, foi só após a derrota no primeiro turno que Lula deixou de lado a retórica baseada na exaltação de sua biografia e no que o governo já havia feito, para focar em promessas concretas e alinhadas com o anseio do eleitorado, como o fim da escala 6×1, o perdão de dívidas tributárias para Microempreendedores Individuais (MEIs) e facilidades de crédito.

Porém, mesmo tais avanços na pauta econômica vieram acompanhados de retrocessos no campo da segurança pública, com a surpreendente mudança na posição histórica de Lula em relação a redução da maioridade pena; no reforço de seu compromisso público com a manutenção do atual arcabouço fiscal e da sua aproximação com o agronegócio, com o abandono da pauta da reforma agrária e o aceno de um novo plano safra plurianual bem ao gosto dos latifundiários.

No que de fato “Lula 4” será diferente do Lula 1, do Lula 2 ou do Lula 3? Quais garantias efetivas temos de que não veremos uma reedição do mesmo modelo de conciliação de classes que entregou o orçamento aos banqueiros e ao agronegócio. O que restará para nós quando o palanque for desmontado?

A esquerda venceu essas eleições?

Incapaz de pautar o debate público com temas estruturais — como a revogação das reformas trabalhista e previdenciária, a auditoria da dívida pública, a reforma agrária com a demarcação de todas as terras indígenas ou a ruptura com a política de austeridade fiscal —, a dita “esquerda ampla” hegemonizada pelo PT atuou na defensiva e em aliança com setores da direita.

A esquerda institucional não venceu; ela sobreviveu graças à mobilização antifascista das bases e dos movimentos sociais que foram às ruas não para defender o programa do governo, mas para combater o discurso de ódio e a ameaça autoritária do neofascismo. Tratar uma vitória defensiva contra o neofascismo como “triunfo da esquerda” é anestesiar a classe trabalhadora para os combates que virão no próximo período.

O nacionalismo venceu essas eleições?

A retórica de “soberania nacional” em oposição ao imperialismo estadunidense, frequentemente acionada pelo lulopetismo, não encontrou eco real de transformação. Afinal, mesmo um nacional-desenvolvimentismo coerente exigiria como premissa a ruptura com a política de austeridade materializada no compromisso com a manutenção do arcabouço fiscal, que sufoca qualquer possibilidade real de investimento do Estado Brasileiro. Em tempos de submissão da economia nacional aos ditames do mercado financeiro global e da manutenção de um modelo primário-exportador espoliativo, o nacionalismo abstrato não é mais do que mera peça de propaganda.

A votação expressiva do projeto de extrema-direita (que obteve mais de 59,8 milhões de votos) demonstra que o apelo ao “nacionalismo” desenvolvimentista de conciliação não comoveu as massas urbanas nem as periferias. Não há soberania nacional sem soberania popular, e esta jamais será alcançada sob a tutela do ajuste fiscal.

Estamos fartos de conciliação!

Chegamos, assim, à nossa única certeza: os trabalhadores brasileiros deixaram claro que não aceitam o autoritarismo e o discurso de ódio como alternativa, mas também demonstram que a política de conciliação caducou.

A necessidade urgente do momento histórico é apresentarmos uma alternativa à esquerda do lulopetismo — uma alternativa que dialogue abertamente com os setores mais avançados da classe trabalhadora, que esteja enraizada nas lutas populares e que não resvale em sectarismo autoproclamatório.

Tal é o desafio colocado para a Federação PSOL/Rede. Diferente das forças tradicionais que sucumbiram à adaptação, a federação apresentou um crescimento eleitoral importante com um discurso abertamente mais radical do que o petista. O resultado dessa firmeza política foi a superação da cláusula de barreira — feito garantido após decisão do TSE que confirmou o cumprimento do desempenho mínimo nacional e em nove estados.

Conquista essa que legendas tradicionais da ordem ou projetos fisiológicos com muito mais apoio financeiro e da mídia corporativa não conseguiram alcançar: o PDT, o Avante, o partido Missão e a federação Renovação Solidária (formada por PRD e Solidariedade) não atingiram as exigências da cláusula de barreira e amargaram a perda de recursos e tempo de TV.

A vitória da Federação PSOL/Rede mostra que existe espaço, demanda e sede social para uma política que não se curve ao centro nem se renda ao medo. Derrotamos Flávio Bolsonaro nas urnas; agora, a nossa tarefa é organizar a luta contra o ajuste fiscal, construir a resistência de classe nas ruas e erguer uma alternativa socialista para o Brasil. Como ensina o parente Ailton Krenak, não podemos nos contentar em negociar a sobrevivência, exigimos vida plena. Sigamos!


Contribua com a Esquerda Online

Faça a sua contribuição