Colômbia ameaçada

Num contexto latino-americano, ameaçado por um projeto neocolonial trumpista, a serviço das grandes corporações e dos bilionários estadunidenses e igualmente buscando neutralizar a influência dos negócios chineses, que avançaram nos últimos 20 anos no subcontinente, ocorreu o 2° Turno das Eleições Presidenciais, na Colômbia, neste domingo, 21 de junho.


Publicado em: 23 de junho de 2026

David Cavalcante, da Editoria Mundo

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Esquerda Online

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Crédito Redes Sociais/Espriella

Espriella, candidato da extrema direita trumpista

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O desfecho do processo eleitoral no segundo turno das eleições presidenciais colombianas, ainda em processo de apuração, expõe de forma emblemática as contradições e os limites com os quais se deparam os chamados governos progressistas na América Latina.

Por um lado, cada vez mais ameaçados e interditados por iniciativas trumpistas imperiais comerciais, diplomáticas e militares, cujo ápice ocorreu no dia 3 de Janeiro com a intervenção militar e sequestro de Maduro e Cilia Flores, na Venezuela. Mas também da recente derrota da candidatura de esquerda na eleição no Peru e do decreto do Estado de Exceção na Bolívia. Por outro, com suas próprias limitações que governam baseados nos ingênuos e estreitos limites institucionais de suas raquíticas democracias liberais, ao passo que a extrema-direita avança no continente com sua estratégia cada vez mais internacional, autocrática e anti-institucional.

Embora a gestão de Gustavo Petro tenha consolidado reformas socioeconômicas não desprezíveis, a opção por governar estritamente sob as balizas da legalidade liberal-burguesa tradicional — sem a convocação, até mesmo de uma democrática Assembleia Constituinte, que pudesse reorganizar o arcabouço normativo do Estado e assegurar maiores níveis de soberania e participação popular na condução do poder, além de garantir institutos comuns na região, como a reeleição — acabou por acelerar uma complexa transição numa dinâmica política defensiva para o Pacto Histórico, a qual subestimou o poder de intervenção do imperialismo trumpista e das ingerências das big techs.

O próprio candidato do Pacto Histórico, Ivan Cepeda, chegou a fazer um discurso, no sábado, que antecedeu às eleições do 1o turno, já celebrando a vitória como certa e convocando um pacto político nacional, sem reforçar a necessidade de mobilização e de garantir a coleta dos votos e a fiscalização da apuração, em defesa do voto popular. O resultado é que, como já é sabido e conhecido, na América Latina, as pesquisas nunca capturam a compra de votos, nas vésperas da votação, nem tampouco os sistemas ocultos de coerção nas regiões mais vulneráveis ao clientelismo e ao poder oligárquico.

Diante da ausência de reformas estruturais no próprio sistema político e eleitoral colombiano, a coalizão governista, subestimou o avanço de uma extrema-direita que superou suas fraturas táticas do primeiro turno. A oposição aglutinou-se em torno de Abelardo de la Espriella (movimento Defensores de la Patria), cuja plataforma protofascista e seu histórico marcado por alinhamentos com o uribismo e antigos setores paramilitares reconfiguraram a correlação de forças na reta final da disputa.

A própria arquitetura de apuração dos votos tornou-se o epicentro de uma crise de legitimidade do processo eleitoral. O sistema eleitoral colombiano, mesmo depois de 4 anos de governo Petro, opera por meio de uma divisão técnica crucial, frequentemente distorcida por conglomerados de mídia empresarial:

A própria arquitetura de apuração dos votos tornou-se o epicentro de uma crise de legitimidade do processo eleitoral. O sistema eleitoral colombiano, mesmo depois de 4 anos de governo Petro, opera por meio de uma divisão técnica crucial, frequentemente distorcida por conglomerados de mídia empresarial:

  • A Contagem Rápida (preconteo): é um procedimento puramente informativo e sem qualquer valor legal ou vinculante. Logo após o fechamento das urnas às 16h, os jurados realizam uma contagem rápida e preenchem os Formulários E-14 (atas de mesa). Os dados de uma das vias são transmitidos por telefone ou aplicativos por operadores de empresas privadas terceirizadas, contratadas pela Registraduría Nacional. Esse fluxo rápido serve apenas para gerar boletins parciais para a imprensa. Foi nessa contagem informatizada que De la Espriella apareceu com uma vantagem estreita de 49,66% (12.959.542 de votos) contra 48,70% (12.708.712 de votos) de Cepeda, ou seja, 250 mil votos (EL PAÍS, 21 jun. 2026). No entanto, por depender de digitação privatizada e centralizada, o preconteo gerou milhares de denúncias de fraudes e manipulações nas redes sociais, com inconsistências flagrantes entre fotos e vídeos das atas físicas e os dados inseridos no sistema.
  • O escrutínio judicial: esta é a única apuração oficial e legalmente válida. Conduzida por comissões de juízes e magistrados do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), ela descarta os dados digitais do preconteo e realiza a contagem e a verificação física, documento por documento, das atas E-14 originais guardadas nas urnas.

O presidente Gustavo Petro já havia feito duras acusações de irregularidades e fraude no processo eleitoral de 2026, desde o 1o turno, principalmente após a divulgação dos resultados da contagem rápida que apontaram a vitória de Abelardo de la Espriella contra o candidato governista Iván Cepeda.

As principais denúncias apresentadas publicamente por Petro incluem:

  • Manipulação do Software e do Censo: Petro afirmou que os algoritmos do software de contagem e escrutínio foram alterados três vezes na última semana antes do pleito. Segundo ele, essa modificação teria incluído de forma irregular cerca de 800.000 a 850.000 cédulas de eleitores inexistentes ou fora do censo oficial.
  • Adulteração de Formulários E-14: O mandatário denunciou que “centenas de milhares de votos foram agregados sem a existência de sufragantes”. Ele afirmou que muitos formulários E-14 (as atas físicas de votação de cada urna) foram modificados após o envio digital e que os registros de data/hora e o Hash dos algoritmos teriam sido removidos intencionalmente para permitir essas mudanças a partir dos escritórios da Thomas Greg & Sons (empresa encarregada do sistema de contagem preliminar).
  • Interferência Estrangeira: Petro chegou a declarar que houve alteração de endereços IP de vários servidores do Registro Nacional, sugerindo publicamente o envolvimento do Estado de Israel na facilitação do comprometimento cibernético do software.
  • Inconsistências no Exterior: O presidente também citou possíveis fraudes em consulados, mencionando cenários atípicos como uma sede consular com apenas 80 eleitores registrados que supostamente reportou mais de mil votantes.

Com base nessas denúncias, Petro e seu partido (Pacto Histórico) recusaram-se a aceitar os dados do preconteo emitidos pelas empresas privadas de tecnologia, insistindo que o resultado oficial vinculante só deveria ser reconhecido após o escrutínio manual e definitivo conduzido por juízes da República.

A “pressa” da grande mídia empresarial nacional e internacional em decretar a vitória definitiva da extrema-direita com base no preconteo gerou um cenário de desinformação, visto que a apuração real e jurídica estende-se ao longo dos dias subsequentes ao pleito. O impasse eleitoral evidencia a fragilidade dos mecanismos de controle social sobre sistemas delegados ao setor privado e sinaliza os limites do reformismo progressista que são submetidos às regras estabelecidas pelo velho regime político tradicional.

Garantir a apuração física até o último voto

A eleição de Gustavo Petro para a presidência da Colômbia, em 2022, através da frente de centro-esquerda, Pacto Histórico, representou um marco histórico na política da América Latina. Pela primeira vez, uma coalizão identificada com a esquerda democrática e progressista, num país marcado por décadas de guerra civil, chegou ao poder por meio das urnas em uma nação historicamente governada por forças conservadoras e reacionárias, associadas ao imperialismo norte-americano, à violência das oligarquias e ao paramilitarismo (milícias ligadas aos grandes empresários e latifundiários).

Desde o início de seu mandato, Petro propôs um programa denominado “Governo da Mudança”, fundamentado na ampliação dos direitos sociais, na redução das desigualdades econômicas, na reforma agrária, na valorização do trabalho e no fortalecimento do papel do Estado como agente de promoção do desenvolvimento.

A aprovação das políticas sociais, ainda que parciais e limitadas ao âmbito reformista e progressista, do governo Petro e do Pacto enfrentaram severa resistência do Congresso, do Judiciário e de setores empresariais, obrigando o governo a realizar mobilizações de rua para pressionar o Congresso a aprovar medidas reformistas sociais.

O governo de Petro inscreve-se como uma experiência singular e polarizadora na trajetória republicana da Colômbia. Seus resultados sociais mais robustos e incontestáveis manifestam-se na redução mensurável da pobreza multidimensional, na valorização sustentada do salário mínimo acima dos índices inflacionários, no fortalecimento da rede de proteção social e no avanço quantitativo da reforma agrária. Os indicadores oficiais demonstram que parcelas significativas da população obtiveram melhorias reais em suas condições materiais imediatas de vida.

Por outro lado, o “Governo da Mudança” expõe limites evidentes no manejo político de suas reformas estruturais e na gestão de áreas críticas. O legado social da administração Petro, portanto, consolida-se como um campo de intenso debate, representa o esforço mais orgânico de inclusão social e ruptura com a desigualdade desde a promulgação da Constituição de 1991.

Neste contexto, torna-se condição elementar para a continuidade das liberdades democráticas no país e das reformas que recém se iniciaram. É imprescindível que haja uma apuração voto a voto das cédulas físicas e uma totalização com ampla transparência e fiscalização para que a vontade popular seja respeitada.

Lembremos que nas eleições legislativas para o Senado colombiano de março de 2022, após o preconteo, o Pacto Histórico denunciou que milhares de votos não haviam sido corretamente registrados em muitas mesas eleitorais. Durante o escrutínio oficial (a contagem jurídica definitiva), foram corrigidos diversos erros de preenchimento dos formulários eleitorais.

Os números do escrutínio revelaram o quanto poder haver fraudes no preconteo: o preconteo atribuiu ao Pacto Histórico cerca de 2.302.847 votos para o Senado e, após o escrutínio, o total passou para aproximadamente 2.692.999 votos. Representou um ganho de cerca de 390 mil votos adicionais .

Politicamente, o resultado foi muito relevante porque o Pacto Histórico passou de 16 para 19 cadeiras no Senado, ganhando três assentos adicionais. Ao mesmo tempo, partidos como o Centro Democrático, o Partido Conservador e a Coalizão Centro Esperanza perderam cadeiras após a correção dos resultados

Fontes:
CEPR – Center for Economic and Policy Research. Colombia Under Petro: Social Gains Amid Monetary and Fiscal Constraints. Washington, D.C.: CEPR, 24 out. 2024. Disponível em: https://cepr.net/publications/colombia-under-petro-social-gains-amid-monetary-and-fiscal-constraints/. Acesso em: 23 jun. 2026.
DANE – Departamento Administrativo Nacional de Estadística. Boletín Técnico: Pobreza Monetaria en Colombia – Año 2023. Bogotá: DANE, 16 jul. 2024.
EL PAÍS América Colombia. La pobreza cae en Colombia pese a las políticas sociales del Gobierno y a algunas dudas estadísticas. El País, Bogotá, 22 jul. 2025.
EL PAÍS América Colombia. Segunda vuelta presidencial en Colombia: horarios, ley seca, cómo votar y tarjeta electoral. El País, Bogotá, 21 jun. 2026. Disponível em: https://elpais.com/america-colombia/elecciones-presidenciales/2026-06-21/segunda-vuelta-presidencial-en-colombia-horarios-ley-seca-como-votar-y-tarjeta-electoral.html. Acesso em: 23 jun. 2026.
JUSTICE FOR COLOMBIA. Far-right election victory not yet official. Londres: JFC, 22 jun. 2026. Disponível em: https://justiceforcolombia.org/far-right-election-victory-not-yet-official/. Acesso em: 23 jun. 2026.
KALMANOVITZ, Salomón. Economía y desigualdad en Colombia. Bogotá: Editorial Planeta, 2024.
OCAMPO, José Antonio. La economía colombiana y las reformas sociales del gobierno Petro. Bogotá: Universidad de los Andes, 2024.
PORTAL ALBA. Colombia: El Plan Nacional de Desarrollo del Gobierno de Gustavo Petro 2022-2026. Buenos Aires: Portal Alba – Movimientos hacia el Alca, 15 nov. 2022.
PRESIDENCIA de la República de Colombia. Hemos logrado bajar la pobreza en Colombia hasta onde ningún presidente lo había logrado. Comunicado Oficial, Bogotá, 12 dez. 2025.
PRESIDENCIA de la República de Colombia. Las 570 mil hectáreas de tierra que ha entregado este Gobierno pasarán a la historia. Balance de Gestión, Bogotá, 30 maio 2025.
PRESIDENCIA de la República de Colombia. En mi gobierno hemos sacado cuatro millones de personas de la pobreza. Discurso Oficial del Presidente, Bogotá, 15 jan. 2026.
REUTERS. Colombia lawmakers approve pension reform, victory for Petro. Reuters, Bogotá, 14 jun. 2024.
REUTERS. Colombia president says health and labor reforms will be put to vote. Reuters, Bogotá, 18 mar. 2025.


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