O futuro do Brasil, sob ataque do império
Publicado em: 1 de agosto de 2026
Ricardo Stuckert/PR
Faltando quinze dias para o início da campanha eleitoral oficial, o imperialismo e seus representantes locais – o bolsonarismo – têm intensificado as investidas contra a soberania e o processo democrático brasileiro. Não bastasse a nova rodada de tarifas, provocada pela articulação entre a família Bolsonaro e Donald Trump, dois episódios da última semana reforçam o alerta para o Brasil: estamos no centro da estratégia do império estadunidense para a América Latina, e os EUA não pouparão esforços para intervir diretamente no destino de nosso país.
O primeiro episódio foi a tentativa dos EUA enviarem ao Brasil funcionários do Departamento de Estado para espalhar suspeitas sobre a segurança das urnas eletrônicas. Se esta iniciativa foi tornada pública e fracassou, deve-se esperar novas tentativas no mesmo sentido, que poderão não ter a mesma publicidade. Subestimar os organismos de inteligência da maior potência militar da história seria um grave erro para quem defende a soberania nacional brasileira. Como já viemos alertando, devemos nos preparar para todo tipo de intervenção imperialista contra nossas eleições: ataques algorítmicos, fazendas de robôs para disseminação de fake news, e mesmo provocações militares diretas ou indiretas para induzir ao caos e pânico social no país. Estes são expedientes já adotados pelos EUA nas eleições peruanas e colombianas nos últimos meses.
O segundo momento que reforça o alerta para nossa soberania foi a convenção eleitoral do PL, que ratificou o nome de Flávio Bolsonaro como candidato do neofascismo à presidência da república. Se é verdade que a convenção sinalizou um isolamento relativo da família Bolsonaro, diante da recusa do PP, União Brasil e outros partidos do Centrão em apoiar oficialmente sua candidatura, também é notável a participação direta da tríade do neofascismo global em sua campanha. Com o apoio de Trump e Marco Rubio já consolidado e público, a participação por vídeo de Benjamin Netanyahu – responsável pelo mais bárbaro genocídio desde o Holocausto, que ademais segue em curso – e as provocações sem precedentes de Javier Milei no evento são mais uma demonstração de que derrotar Lula e o campo popular no Brasil está entre as maiores prioridades do neofascismo.
qualquer subestimação da intensidade em que se travará a disputa eleitoral em nosso país seria uma grande irresponsabilidade política, com alto risco de facilitação do caminho para o imperialismo recolonizar o Brasil
Nesse sentido, qualquer subestimação da intensidade em que se travará a disputa eleitoral em nosso país seria uma grande irresponsabilidade política, com alto risco de facilitação do caminho para o imperialismo recolonizar o Brasil. As pesquisas de intenção de voto são um termômetro, mas já induziram a erros em diversos países quando se trata da extrema-direita. Flávio Bolsonaro pode estar relativamente isolado no terreno nacional, mas este é um fator conjuntural e que pode ser revertido. A profunda fratura política que divide nosso país recomenda cautela, unidade e firmeza para a luta eleitoral que, para todos os efeitos, já começou. O que está em jogo é se o Brasil se manterá como um país soberano ou não.
Toda a direita quer o Brasil de joelhos
Enquanto diferentes alas da burguesia no Brasil levantam hipóteses alternativas a Flavio Bolsonaro – Tereza Cristina, Ronaldo Caiado, Renan Santos – para caso sua candidatura não se estabilize, há um aspecto que unifica todo o campo das classes dominantes: um projeto de subordinação do país ao imperialismo, que aprofunda as condições primário-exportadoras da economia e confere a um punhado de empresários privados e corporações internacionais, e não ao Estado, o controle sobre nossos recursos e infraestruturas estratégicas.
Esse projeto está em implementação no Brasil há mais de três décadas de neoliberalismo, em graus variáveis de mediação e disputa. Ocorre, no entanto, que a globalização neoliberal e as premissas do Consenso de Washington estão há anos em crise, desde 2008 e com maior intensidade desde a primeira eleição de Trump. Diante do desafio chinês à hegemonia ianque, os EUA vêm abandonando parte dos dogmas do neoliberalismo e, inclusive, reestatizando parcial ou totalmente empresas de interesse estratégico, determinando via Estado os setores prioritários e mais dinâmicos de sua economia, e intervindo diretamente sobre a política industrial do país para adaptá-lo às necessidades concorrenciais do presente. Este é um processo iniciado pelo primeiro governo Trump, mas continuado por Joe Biden e radicalmente aprofundado por Trump 2.
chama atenção a insistência das classes dominantes brasileiras em aprofundar a subordinação econômica e política do país ao capital estrangeiro. Querem um Brasil cada vez mais dominado pelo agronegócio e demais atividades primárias voltadas à exportação
Este giro político-econômico dos EUA, que se distancia da cartilha neoliberal das últimas décadas, é, portanto, mais geral do que a política neofascista de Trump ou a dos democratas sob Biden. Nesse cenário, chama atenção a insistência das classes dominantes brasileiras em aprofundar a subordinação econômica e política do país ao capital estrangeiro. Querem um Brasil cada vez mais dominado pelo agronegócio e demais atividades primárias voltadas à exportação. Uma economia determinada pelo setor primário, com baixa demanda de empregos, e de serviços, que já concentra mais de 70% da força de trabalho brasileira, geralmente com baixos salários e condições precárias. E com o mercado financeiro como setor mais dinâmico em termos de lucratividade sem produzir nada: nem mercadorias, nem emprego, nem renda, nem futuro. O atraso é tamanho que as classes dominantes no Brasil se mantêm devotas de dogmas que já foram abandonados até mesmo por seus ídolos.
Nesse sentido, lutar pela reeleição de Lula é, hoje, o único caminho possível para preservar as condições mínimas de disputa por outro projeto para o Brasil em um contexto em que o capitalismo atravessa profundas transformações em seu regime de acumulação.
Reeleger Lula e lutar por um futuro de esperança
A esquerda brasileira tem diante de si o desafio de reconstruir um projeto para o país, que coloque os interesses populares à frente dos da burguesia, que aprofunde nossa soberania e ofereça esperança de uma vida melhor para a maioria do povo
Vencer as eleições presidenciais e eleger uma forte bancada da esquerda é nossa máxima prioridade neste momento: sem isso, a hipótese de recolonização do Brasil pelos EUA é uma possibilidade concreta, seja no curto, seja no médio prazo. É preciso mais do que isso, no entanto, para as dimensões das tarefas que temos pela frente. A esquerda brasileira tem diante de si o desafio de reconstruir um projeto para o país, que coloque os interesses populares à frente dos da burguesia, que aprofunde nossa soberania e ofereça esperança de uma vida melhor para a maioria do povo. Não há nenhum setor das classes dominantes locais que se coloque como aliado nesse sentido. Cabe a nós a tarefa de construir e implementar, desde já, um futuro diferente daquele imposto pelo vira-latismo.
Isso exige, em primeiro lugar, junto com a responsabilidade diante dos riscos do presente, a ousadia para lutar por vitórias qualitativas em benefício do povo. Somos parte da Frente Ampla democrática, mas estamos nela para defender nossas ideias e nosso projeto. O próprio governo Lula 3 demonstra que é com mais enfrentamento, e não menos, que é possível avançar posições. A luta pelo fim da escala 6×1 é o maior exemplo recente de que é possível conquistar maioria social e recuperar para nosso campo os setores populares hoje deslocados pela extrema-direita. Essa deve ser a diretriz básica para uma derrota mais definitiva contra o neofascismo: a conquista de direitos substantivos, que põem à prova o lado que cada setor político representa, e que oferecem uma melhora imediata e concreta nas condições de vida da classe trabalhadora. É preciso impor vitórias para o povo no conflito distributivo. Para isso, precisaremos de muita organização e disposição para a luta, nas eleições e depois delas.
Nosso projeto é orientado pela soberania do povo brasileiro – e não de empresários locais ou estrangeiros – sobre o Estado nacional. Essa ideia deve ser levada radicalmente a sério na construção do nosso futuro.
Nosso projeto é orientado pela soberania do povo brasileiro – e não de empresários locais ou estrangeiros – sobre o Estado nacional. Essa ideia deve ser levada radicalmente a sério na construção do nosso futuro.
Isso significa combater o rentismo, que não oferece nada ao país exceto a apropriação obscena de lucros sem qualquer contrapartida para a sociedade, com a renacionalização do Banco Central e a soberania popular sobre a política monetária e os juros praticados no país, e com a tributação justa sobre as grandes fortunas e as exportações agrícolas, hoje isentas. Retomar o controle público sobre recursos e infraestruturas estratégicas – hoje na mira do imperialismo, conforme consta na estratégia de segurança nacional de Trump. Reindustrializar a economia, com desenvolvimento tecnológico; a exigência de transferência justa de tecnologia como contrapartida para qualquer investimento estrangeiro, o investimento público pesado em educação e pesquisa, a garantia da soberania digital com controle público, e não privado, sobre os dados do nosso povo. E com a defesa intransigente dos bens comuns da natureza, patrimônio compartilhado pela humanidade e que temos a responsabilidade de proteger, tema em que o Brasil pode cumprir papel exemplar perante o mundo.
Acima de tudo, construir outro futuro com um Brasil soberano é relocalizar as atribuições do Estado para que ele ofereça e garanta uma vida boa para o povo brasileiro, não para o punhado de empresários que mantêm o país refém do “mercado” e seus lucros imorais. Defender a democracia é defender que o povo é quem ordena o seu próprio destino. O futuro que devemos construir é um de liberdade, em que toda pessoa possa viver sem medo. Esta é uma disputa de ideias fundamental de ser feita. Mas deve ser levada também à ação concreta. É com essas ideias que entraremos na luta eleitoral. Com Lula, contra a extrema-direita e o imperialismo, em defesa de um Brasil feito para o povo brasileiro.
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