EUA: Socialistas estão vencendo usando meios democráticos tradicionais

Diversas explicações sobre as vitórias eleitorais socialistas ignoraram a política democrática que está no centro do movimento socialista hoje: empregar muitos voluntários para interagir pessoalmente com os eleitores e defender seriamente a ideia de que o socialismo é a resposta


Publicado em: 27 de julho de 2026

Por Alex Marinides, do portal Jacobin

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Alex Marinides, do portal Jacobin

Esquerda Online

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Traduzido por Anderson Santana

É legal ser socialista hoje em dia. Em 2025, a surpreendente vitória de Zohran Mamdani na eleição para prefeito de Nova York abalou o mundo político, tanto nacional quanto internacionalmente. Em junho deste ano, os Socialistas Democráticos da América da Cidade de Nova York (NYC-DSA) obtiveram uma vitória expressiva em nove das dez primárias para o Congresso e para a Assembleia Legislativa estadual em que concorremos na cidade de Nova York, além de uma vitória inesperada em Buffalo e a derrota de um deputado que ocupava o cargo há 28 anos em Syracuse. Fora do estado de Nova York, vimos vitórias na Filadélfia, em Washington, D.C., e mais recentemente em Denver, onde Melat Kiros derrotou um deputado que ocupava o cargo há mais tempo do que Kiros está viva.

A mídia política tem gastado muito tempo tentando, sem sucesso, explicar o sucesso dos DSA, tentando nos enquadrar como uma espécie de Tea Party da esquerda ou argumentando que estamos surfando na onda de indignação da base democrata após a humilhante derrota do establishment do partido para Donald Trump e o Partido Republicano pela segunda vez na eleição presidencial de 2024. Outros analistas, por sua vez, apontam os vídeos verticais e a viralização nas redes sociais como a principal explicação, que de fato contribuíram para impulsionar Zohran até a Gracie Mansion (residência oficial do prefeito da cidade de Nova York) e que, desde então, vêm sendo imitados por candidatos mais à direita do que pelos à esquerda, com pouco sucesso.

A maioria desses argumentos minimiza um aspecto fundamental para explicar a onda socialista democrática: a priorização da democracia participativa, em que os membros contribuintes têm voz e voto nas campanhas que apoiamos, sejam elas eleitorais ou não. Este é um modelo para a visão de socialismo democrático que desejamos construir nos Estados Unidos de forma mais ampla: a de que aqueles que trabalham têm o direito de controlar aquilo em que estão trabalhando.

Eu me inscrevi para meu primeiro turno de panfletagem de porta em porta em apoio a Zohran, em janeiro de 2025, achando que faria um ou dois turnos, cumpriria meu dever cívico e depois voltaria à minha rotina. Em poucos meses, passei a atuar regularmente na campanha e, mais tarde, me tornei líder de equipe da candidatura de Alexa Avilés à Câmara Legislativa, coordenando o trabalho de porta em porta em apoio tanto a Avilés quanto a Mamdani. Quando as eleições primárias terminaram, eu já havia me filiado aos DSA e fui eleito delegado para a convenção nacional da organização, em Chicago. Alguns meses depois, passei a representar o núcleo de South Brooklyn no Grupo de Trabalho Eleitoral da cidade, após ser eleito por seus integrantes.

Passei o inverno, a primavera e o início do verão de 2026 batendo de porta em porta para a nossa chapa socialista. Em pouco tempo, passei de alguém apático e deprimido após a eleição de 2024 a um membro ativo dos DSA e organizador político, atuando tanto na organização quanto junto ao eleitorado da cidade de Nova York.

Ao contrário do que vem sendo repetido pela mídia, tudo isso não foi graças ao carisma incrível de um único homem. Gosto do Zohran, mas não acredito que a personalidade de um político, por si só, seja tão importante. O motivo pelo qual me tornei um membro e organizador tão ativo dos DSA foi que a campanha do Zohran me fez sentir que, trabalhando em conjunto com outras cem mil pessoas, eu tinha a capacidade de recuperar um pouco do controle sobre um mundo onde os resultados políticos muitas vezes parecem predeterminados pelos poderosos, sem que o público tenha qualquer papel para influenciar estes resultados.

Leve a mensagem ao povo

Não é fácil bater na porta de um estranho. Pode ser desmoralizante. Quando as pessoas abrem suas portas, na maioria das vezes as fecham tão rapidamente quanto abriram. Em raras ocasiões, as pessoas podem ser extremamente rudes ou hostis. Você bate nas portas na chuva, em dias em que qualquer pessoa sensata preferiria estar em casa, e no calor, quando qualquer pessoa sensata preferiria estar na praia. Apesar de todas as frustrações envolvidas, há poucas maneiras melhores de testar e desenvolver suas ideias políticas do que levá-las diretamente aos eleitores e defender os candidatos que concorrem por uma plataforma socialista.

“Há poucas maneiras melhores de testar e desenvolver suas ideias políticas do que levá-las diretamente aos eleitores e defender os candidatos que concorrem por uma plataforma socialista.”

Vivemos em uma sociedade fortemente individualizante e, em nenhum momento, estivemos tão sozinhos quanto hoje, quando os antigos laços comunitários se deterioraram consideravelmente após décadas de neoliberalismo. No lugar destes laços, passamos nosso tempo livre no hiperfiltro online chamado “Página Para Você”, que cria a ilusão de comunidade baseada no consumo passivo de vídeos e posts. Este é um grande obstáculo para o nosso projeto socialista. Ele nos afasta da comunidade física e cria a ilusão de que podemos simplesmente ignorar a política ou fazer nossa parte apenas por meio de postagens que não têm qualquer desdobramento nem fazem parte de uma estratégia organizada. A política passa a ser tratada como uma escolha de consumo e, quando ela é reduzida ao consumismo, acabamos nos permitindo cultivar, em nossa cabeça, posições minuciosamente definidas e supostamente “corretas” sobre praticamente todas as questões.

É quando você realmente bate de porta em porta que as ideias políticas que soam tão convincentes na sua cabeça e na sua bolha online são de fato testadas. E, na maioria das vezes, elas são aprimoradas como resultado disto.

Quando me envolvi seriamente com a campanha de Zohran, rapidamente percebi que estava embarcando em uma grande jornada pela cidade de Nova York; diferentemente do turista, porém, que vivencia a cidade como uma série de pontos turísticos e atrações, minhas jornadas a diversos bairros, como Brooklyn, Manhattan e Queens, me levaram às portas dos trabalhadores que, cada um à sua maneira, fazem Nova York funcionar, mas que continuam presos a condições de vida incertas, espremidos pela concentração da imensa riqueza que eles próprios produzem e sustentam com seu trabalho.

Ainda assim, apesar das pressões criadas pelo aumento do custo de vida sem um aumento proporcional nos salários, não é garantido que alguém que esteja passando pela mesma dificuldade financeira que você aceite facilmente a sua solução para o problema. E é quase certo que, se você começar a descrever o problema e sua a solução com o jargão tão comum na esquerda online, não conseguirá causar uma impressão muito boa durante os preciosos minutos que tem com um eleitor que você ou a campanha talvez nunca mais consigam alcançar. Em “Política e a Língua Inglesa”, George Orwell escreveu, a respeito desse estilo de argumentação: “Se alguém se livrar desses hábitos, pode pensar com mais clareza, e pensar com clareza é o primeiro passo para a regeneração da política.”

Você logo aprende, portanto, a ouvir mais do que a falar e, quando fala, a falar de forma simples. Parece óbvio, mas é uma prática que vai contra o instinto. A política é sobre persuasão, e a persuasão é frequentemente interpretada como impor a resposta correta (ou “linha de raciocínio”) ao eleitor. O mais importante é deixar que o eleitor se convença por si mesmo: deixar que ele diga o que é importante para ele e só então conectar isso à plataforma e deixar a relação clara.

Quando isso está ligado a um projeto de expansão do eleitorado, em vez de apenas tentar persuadir os eleitores de sempre, o resultado ideal é um sentimento de igualdade e de causa comum entre o angariador de votos e o eleitor: você bateu na minha porta, ninguém nunca havia batido na minha porta antes, e você me apresentou uma visão da política à qual eu não tinha sido exposto. Eu e outros até já recrutamos pessoas para os DSA dessa forma, depois de conquistarmos o apoio de um eleitor aos nossos candidatos.

Podemos trilhar um caminho diferente

É também uma espécie de ciclo de feedbacks, em que quanto mais se ouve as preocupações das pessoas em suas casas, mais o voluntário percebe quais partes da plataforma são mais relevantes para diferentes tipos de pessoas e pode trazer isso de volta para a campanha para melhor orientar futuras campanhas de porta em porta e outras formas de contato com o eleitor. Nesse sentido, é uma oportunidade para um feedback democrático vindo do público mesmo antes da eleição de um candidato.

Embora os DSA não tenham inventado o trabalho de campo, somos a organização que mais a utiliza de forma regular e eficaz para continuar ampliando nosso poder de organização. Um programa de contato regular com os eleitores por meio de repetidas visitas domiciliares, ano após ano, obriga-nos a estar constantemente atentos às mudanças no clima político para o cidadão comum e, assim, coloca os DSA, para quem uma forte operação de visitas de porta em porta é parte essencial de todas as suas campanhas, em melhor posição para tentarem elaborar estratégias que moldem o senso comum político em constante transformação, em benefício do nosso movimento.

Este não é um fenômeno puramente urbano, como evidenciado por algumas de nossas vitórias em distritos que incluem áreas suburbanas e periurbanas, bem como cidades menores e mais conservadoras. Acredito que seja algo que pode ser ampliado e adaptado a qualquer distrito, desde que as condições inerentes para uma candidatura socialista sejam adequadas.

“Fazer campanha de porta em porta é uma oportunidade para um feedback democrático vindo do público mesmo antes da eleição de um candidato.”

Alguns da esquerda que estão fora dos DSA criticam a prioridade que damos à disputa eleitoral, argumentando que essa é uma estratégia que tende à moderação e que não está à altura da urgência das mudanças profundas exigidas por um capitalismo em deterioração, abalado pela crise climática e sustentado por movimentos políticos de extrema direita, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. No entanto, é uma experiência necessária e profundamente radical ir ao encontro de pessoas que não estão familiarizadas com a teoria política de esquerda e ter a oportunidade de conversar com elas sobre como a crise multifacetada do capitalismo afeta suas próprias vidas. É também surpreendente e reconfortante perceber, no decorrer dessas conversas, quantas pessoas já conseguem conectar os pontos — mesmo que não o façam em termos teóricos — entre a política externa violenta dos Estados Unidos e o abandono da classe trabalhadora em seu próprio país.

Ao fazermos isso, conseguimos escapar do senso comum que o establishment político e midiático vem nos empurrando goela abaixo há mais de quarenta anos. Também conseguimos, em nível pessoal, compreender que não estamos sozinhos em nossos anseios e medos sobre a direção que o mundo está tomando; que muitos outros, na verdade a maioria, sentem o mesmo que nós, e que, por meio da ação coletiva, podemos trilhar um caminho diferente para o nosso futuro.

Esse mesmo establishment político e midiático, aqui localizada na cidade de Nova York, passou todo o período desde junho de 2025 atacando o prefeito, seus apoiadores e eleitores, retratando-os como forasteiros desconectados da realidade, incapazes, segundo essa narrativa, primeiro de conquistar a maioria dos votos e, depois, de governar uma cidade que supostamente jamais os aceitaria. Diferentemente de nossos oponentes, apresentamos nossas propostas diretamente ao povo e conquistamos sua confiança de porta em porta com um exército de voluntários. Ao longo do caminho, convencemos milhares desses eleitores a se juntarem ao nosso movimento pelo socialismo democrático. Agora, eles, por sua vez, estão ainda mais empoderados para assumir o controle de suas próprias vidas por meio da ação coletiva, seja batendo de porta em porta, organizando seus locais de trabalho ou seus prédios, ou encontrando outras maneiras de fortalecer a comunidade por meio do ativismo.

Tanto o establishment do Partido Democrata quanto do Partido Republicano continuam temendo esse tipo de engajamento democrático. Os DSA, porém, continuarão colocando o diálogo democrático com a classe trabalhadora no centro de sua estratégia política. Fazemos isso porque acreditamos na democracia. E, até aqui, essa convicção tem dado muito certo para nós.

Alex Marinides é um organizador político radicado no Brooklyn e integrante da seção nova-iorquina dos Socialistas Democráticos da América.


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