Mais ferrados hoje do que ontem

E ainda mais ferrados amanhã


Publicado em: 2 de agosto de 2026

Por Prof. Eliot Jacobson, do portal Climate Casino

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Prof. Eliot Jacobson, do portal Climate Casino

Esquerda Online

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Traduzido por Anderson Santana, do Eol

27 de julho de 2026

Eu continuo querendo escrever um post mostrando meus gráficos mais recentes, junto dos dados e das previsões atuais, porque o quadro que eles pintam é o de um planeta verdadeiramente ferrado. Das temperaturas globais da superfície da Terra às temperaturas da superfície do mar, das últimas previsões do El Niño ao desequilíbrio energético da Terra, do albedo ao gelo polar. E ainda há todo o resto. Há tanto sobre o que escrever, tanto para documentar, tantos alertas para dar.

E aí eu penso: “Mas amanhã vai ser ainda pior; então, se eu esperar um dia, o artigo vai ficar ainda melhor.” Então eu espero e não publico. E o amanhã chega e na maioria das vezes é pior, outras, não.

O colapso é, ao mesmo tempo, lento e rápido. É glacial e é na velocidade da luz, gradual e depois repentinamente. Colapso total amanhã ou depois de amanhã, é certo! Todos os humanos estarão extintos até 1º de janeiro de 2030. Ou, quem sabe, haverá algum tipo de momento distópico pós-apocalíptico em 17 de março de 2074. Será que é tarde demais para ir ao Starbucks depois do colapso de tudo? Quando o novo iPhone será lançado?

O dia certo nunca existirá: um hipotético pico local de insanidade planetária. Então vou arriscar e presumir que amanhã não será significativamente pior do que hoje e compartilhar alguns gráficos e dados. Vamos dar uma olhada.

Temperaturas médias globais da superfície

Mais ferrado do que ontem. O planeta está no sexto dia com a temperatura média global da superfície acima de 17,0°C. Os únicos outros anos registrados em que essa barreira foi ultrapassada foram 2023 e 2024. Se considerarmos o registro paleoclimático, é altamente provável que 2023, 2024 e 2026 sejam os únicos anos a ultrapassar 17,0°C nos últimos 115.000 anos.

O quão ferrados estaremos amanhã? A temperatura média global da superfície provavelmente estará acima de 17,0°C novamente amanhã e por mais alguns dias.

Enquanto isso, levando em conta o desenvolvimento do El Niño, que já bate recordes, há uma boa probabilidade de que a média de temperatura de todo o ano de 2027 ultrapasse 1,70°C acima da linha de base da era pré-industrial (1850–1900). Adeus, Paris. É muito provável que vejamos um dia acima de 17,5°C no próximo ano, com cerca de 35% de chance de um mês inteiro registrar uma anomalia de 2,0°C ou mais.

Daqui a uma década, nosso planeta solitário provavelmente verá o primeiro ano inteiro com uma anomalia acima de 2,0°C, com um pico diário no meio do verão chegando a mais de 18,0°C.

Temperaturas da superfície do mar

Mais ferrado do que ontem. É difícil descrever em termos concretos o quão absurdamente quentes estão os oceanos em todo o planeta neste momento. Em 2023, quando novos recordes começaram a ser batidos, houve um enorme interesse da mídia no assunto. Alguns dos meus gráficos viralizaram, com imagens mostrando temperaturas subindo quase verticalmente para a quebra de novos recordes. Discussões sobre a falta de poeira do Saara e os impactos das novas regulamentações da IMO 2020 sobre combustíveis marítimos com baixo teor de enxofre estavam nas manchetes.

E então ontem aconteceu algo. Não é apenas o fato de ter sido estabelecido um novo recorde diário de temperatura máxima; ontem marcou o 55º dia consecutivo em que um novo recorde diário foi quebrado, e os oceanos ao redor do planeta estavam 0,14°C mais quentes do que o registrado em qualquer outro dia 26 de julho. Para os aficionados por estatísticas, a temperatura média global atual está mais de 3,8 desvios padrão acima da média do período de 1991 a 2020. A temperatura média diária está prestes a bater um novo recorde para qualquer época do ano.

Isso está sendo debatido na grande mídia? Silêncio total. Oceanos ao redor do mundo à beira do colapso? Silêncio total. Impactos globais? Silêncio total.

O quão ferrados estaremos amanhã? Como podemos ver na imagem acima, há um pico anual que normalmente ocorre no final de março e um pico secundário menor que ocorre no final de agosto. Dada a temperatura atual da superfície do mar, é muito provável que um novo recorde seja estabelecido em algum momento nas próximas semanas.

O que isso significa na prática? Corais mortos, moribundos e esbranquiçados. Ondas de calor marinhas que causarão mortes em massa de peixes, aves marinhas e mamíferos marinhos. Proliferações de algas tóxicas. Furacões e tufões mais intensos, especialmente no Pacífico. E, para os humanos, o colapso de algumas pescarias devido à migração das populações de peixes para águas polares mais frias.

El Niño

Mais ferrado do que ontem. A temperatura atual da superfície do mar na região Niño 3.4 está cerca de 2,3°C acima da média do período de 1991 a 2020. Niño 3.4 é a área do Oceano Pacífico usada para definir e quantificar os eventos ENSO. Em qualquer comparação histórica, este El Niño já está batendo recordes. O dia 26 de julho marcou o 58º dia consecutivo em que a região Niño 3.4 atingiu um novo recorde diário de temperatura, cerca de 0,5°C acima do recorde diário anterior.

O quão ferrados estaremos amanhã? A última simulação do modelo CFSv2 prevê que este El Niño atingirá uma anomalia máxima da região Niño 3.4 de cerca de 4,3°C acima da linha de base de 1991 a 2020 em novembro. Para fins históricos, a anomalia recorde anterior da região  Niño 3.4 foi de 2,8°C durante o El Niño de 1997 a 98.

[Imagem 4]

Até mesmo Zeke Hausfather, conhecido por ser conservador em suas previsões climáticas, estimou um pico de mais de 3,5°C para este El Niño.

Simplesmente não há precedentes históricos para um evento climático global desta magnitude. A civilização industrial global nunca antes enfrentou uma emergência mundial tão potencialmente devastadora. O princípio da precaução diz que todos devemos nos mobilizar, cada pessoa, bairro, cidade e país, para nos prepararmos para o que pode estar por vir.

Aqui está uma citação do Yellow Dot Studios de Adam McKay: (p.s.: envie esta carta aos seus líderes políticos locais): 

Este aquecimento impulsionado pelo El Niño levará a um aumento significativo de inundações, incêndios, tempestades, secas, ondas de calor letais, perturbações climáticas perigosas e, o mais preocupante, uma ameaça significativa às cadeias de abastecimento de alimentos, lavouras e redes elétricas.

O El Niño mais forte já registrado ocorreu em 1877, causando 40 milhões de mortes por fome em todo o mundo.

E este próximo El Niño parece ser mais forte ainda.

Desequilíbrio Energético da Terra

Mais ferrado do que ontem. O “Desequilíbrio Energético da Terra” mede a diferença entre a energia solar recebida e o total de energia emitida, tanto refletida (ondas curtas) quanto irradiada (ondas longas). Ele fornece uma contabilização simples da energia que entra no sistema em comparação à energia que sai do sistema. Quando as duas não estão em equilíbrio, a Terra aquece ou esfria. De acordo com James Hansen, o “desequilíbrio energético da Terra é o melhor indicador da direção que o clima está tomando”.

Segundo os dados mais recentes do CERES (sigla em inglês para ” Sistema de Observação das Nuvens e da Energia Radiante da Terra “, programa da NASA de monitoramento do balanço energético da Terra), referentes a maio de 2026, em uma base anual, o Desequilíbrio Energético da Terra mostra que o planeta está aquecendo a uma taxa equivalente a cerca de 14 bombas nucleares de Hiroshima por segundo. Isso equivale a cerca de 1.200.000 Hiroshimas por dia ou 440 milhões de Hiroshimas em aquecimento mundial nos últimos 12 meses.

Para quem prefere uma forma mais politicamente correta de medir a taxa de aquecimento, o ritmo atual equivale a preparar cerca de 10,7 bilhões de xícaras de chá por segundo.

O quão ferrados estaremos amanhã? À medida que o planeta aquece durante este El Niño, mais radiação de ondas longas (calor radiativo) é emitida. Dada a intensidade deste El Niño, espera-se que isso exerça uma forte pressão descendente de agora até alguns meses após o pico do El Niño, ainda este ano. No entanto, a expectativa a longo prazo é que o Desequilíbrio Energético da Terra continue a estabelecer novos recordes.

Em outras palavras, o planeta não está apenas aquecendo hoje a um ritmo quase recorde, mas a taxa de aquecimento continuará aumentando nos próximos anos.

Albedo

Mais ferrado do que ontem. Para quem quiser uma breve recapitulação, o “albedo” é uma medida da refletividade do planeta. Trata-se, simplesmente, da porcentagem da radiação solar incidente que é refletida de volta para o espaço, em vez de ser absorvida e aquecer o planeta. Quanto menor o albedo, mais luz solar atinge a superfície terrestre, aquecendo os oceanos, derretendo o gelo e esquentando a terra e a atmosfera.

Os principais fatores que influenciam o albedo são a cobertura de nuvens baixas, a neve e o gelo polar. Outros fatores incluem cinzas e poeira, o desmatamento e a diminuição da concentração de aerossóis com efeito refletor. Devido à variabilidade desses fatores, o albedo é mais bem avaliado ao longo de períodos mais longos.

Aqui está a média móvel de 36 meses para o albedo, de fevereiro de 2003 a maio de 2026, mostrando o albedo de maio um pouco acima da mínima histórica registrada em fevereiro de 2026. Nos últimos 23 anos, o albedo caiu de 29,33% para 28,67%. Embora esses valores pareçam bastante próximos uns dos outros em termos percentuais, o planeta perdeu cerca de 2,25% de seu albedo durante esse período.

Deste artigo de 2025 da revista Discover:

Há mais de duas décadas, a Terra vem escurecendo gradualmente. Usando 24 anos de dados do Sistema de Observação das Nuvens e da Energia Radiante da Terra (CERES) da NASA, pesquisadores descobriram que essa escuridão crescente ocorre porque a Terra está refletindo menos luz solar, com o escurecimento mais drástico acontecendo no Hemisfério Norte.

O quão ferrados estaremos amanhã? A expectativa é que o albedo continue diminuindo, já que o impacto de todos os principais fatores que o influenciam deve continuar aumentando. Menos gelo? Confere! Mais cinzas? Confere! Mais desmatamento? Confere! Menos aerossóis? Confere!

E quanto às nuvens? Praticamente todos os modelos climáticos globais preveem uma diminuição substancial na cobertura de nuvens marinhas de baixa altitude à medida que o planeta aquece. Este artigo apresenta três razões pelas quais os cientistas creem que isso continue:

  • O primeiro fator é a diminuição das emissões de aerossóis causadas pela atividade humana nas últimas décadas. Os aerossóis – minúsculas partículas que dispersam a luz, produzidas principalmente pela queima de combustíveis fósseis – influenciam a formação de nuvens, atuando como “sementes” para a formação de gotículas de nuvem.
  • Em segundo lugar, o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera levou a uma atmosfera mais quente e seca, o que também contribui para a dissipação das nuvens.
  • Por fim, a diminuição da cobertura de nuvens também foi associada ao aquecimento da superfície do oceano, que afeta a umidade atmosférica e, consequentemente, a nebulosidade. A redução da nebulosidade leva a uma maior absorção da luz solar pela superfície do oceano – e a um maior aquecimento. Esse ciclo de amplificação é conhecido como “retroalimentação das nuvens”.

E este artigo conclui que a diminuição do albedo causada pela redução da cobertura de nuvens faz parte de um mecanismo de retroalimentação mais amplo:

A equipe também constatou que a redução da espessura das nuvens baixas amplifica o aquecimento global por meio de um mecanismo de retroalimentação: o aumento da temperatura da superfície dos oceanos leva à diminuição da cobertura de nuvens, o que reduz a quantidade de luz solar refletida e aquece ainda mais o planeta.

A redução do albedo é “O Grande Escurecimento”.

Gelo Polar

Mais ferrado do que ontem. Um dos pontos positivos nessa grande loucura climática toda é que o gelo polar não deve atingir um novo recorde de mínima neste ano. Em 26 de julho, a extensão do gelo marinho no Ártico era a oitava menor já registrada para essa data, considerando a série histórica iniciada em 1979. Da mesma forma, a extensão do gelo marinho na Antártida era a quinta menor já registrada para este dia. Somadas, as extensões do gelo marinho nos dois polos colocam a cobertura global de gelo marinho na quarta menor marca já registrada para o dia 26 de julho, cerca de 2,1 desvios padrão abaixo da média de 1991 a 2020, mas ainda mais de 1,1 milhão de quilômetros quadrados acima do recorde de mínima para essa data, registrado em 2024.

O quão ferrados estaremos amanhã? A extensão global do gelo marinho atingirá um novo recorde de mínima ainda este ano? Talvez. O Ártico terá um verão sem gelo em 2027, o chamado “Evento do Oceano Azul” (Blue Ocean Event)? Provavelmente não. Mas o futuro, a longo prazo, do gelo no planeta é desolador. O consenso entre os cientistas do clima é que o Ártico registrará seu primeiro dia sem gelo entre as décadas de 2040 e 2050. Meu palpite pessoal é 2043.

Mas a verdadeira tragédia envolvendo o futuro do gelo marinho do Ártico é que um desgraçado conseguiu interromper a produção da série temporal do PIOMAS, a principal fonte de informações sobre o volume e a espessura do gelo marinho no Ártico. Em outras palavras, o futuro do gelo ficou ainda mais comprometido porque perdemos uma das ferramentas mais importantes para prever sua evolução.

Aviso importante (24/03/2026): A NOAA/NWS/NCEP encerrou a reanálise NCEP/NCAR R1 em 18 de março de 2026. A NCEP/NCAR R1 vinha sendo utilizada como conjunto de dados de forçamento atmosférico na reanálise do PIOMAS. Não estávamos cientes dessa mudança no serviço, que, ao que tudo indica, foi oficialmente anunciada em 13 de fevereiro de 2026. Isso significa que teremos de encontrar uma alternativa e produzir um conjunto de dados substituto. Será necessário um esforço considerável e bastante tempo para atualizar os fluxos de dados, recalibrar o modelo e gerar novas séries temporais. Ainda não sabemos se isso será possível com os recursos financeiros disponíveis nem, em caso afirmativo, quando poderemos retomar a produção de uma nova série temporal do PIOMAS. Embora a substituição da NCEP/NCAR R1 como produto de forçamento atmosférico faça sentido a longo prazo, gostaríamos de ter tido um período de transição mais longo para facilitar essa mudança. Lamentamos o impacto que isso terá sobre nossos muitos usuários. O PIOMAS está em operação desde março de 2010 e, nesse período, raramente deixamos de atualizar os dados por mais de algumas semanas (exceto durante paralisações do governo). Desta vez, a interrupção será mais longa. Volte a consultar esta página para acompanhar as atualizações.

E, por fim, embora eu tenha deixado de mencionar algumas coisas, certamente você está acompanhando as notícias mais recentes:

Ondas de calor, incêndios, enchentes, tempestades, secas, derretimento das geleiras, a AMOC, Thwaites, a bomba de metano, os limites planetários, os pontos de não retorno, os mecanismos de retroalimentação, a bolha da IA, o fascismo cacistocrático (governo dos piores), pedófilos, genocídio, Irã, Ucrânia, Gaza, o ICE, diarreias explosivas, Ebola, Covid-19, fome, o novo berne-do-Novo-Mundo, a síndrome de Kessler, teorias da conspiração e… e… e… deixa pra lá: pelo menos temos energia solar, energia eólica e baterias.

Estamos mais ferrados hoje do que ontem e estaremos ainda mais ferrados amanhã. Deixo para o leitor interessado a tarefa de procurar as informações e preencher as lacunas.


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