Desvelando a estratégia da extrema direita contra o feminismo na América Latina

Com a posse de José Antonio Kast, conhecido por ser contra o aborto, na presidência do Chile, ativistas alertam que sua agenda de extrema direita pode espelhar as mudanças restritivas vistas em outras partes da região


Publicado em: 20 de julho de 2026

Ester Pinheiro, do portal fullerproject.org

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Esquerda Online

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Crédito Ilustração principal de Jawhar Soudani. Editado por Anastasia Moloney e Charlie Brinkhurst-Cuff
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Tradução de Anderson Santana, do Esquerda Online

Desde 2019, governos de extrema direita na América Latina, do Brasil e El Salvador à Argentina, têm usado um conjunto de estratégias – uma série de medidas, ações e retórica compartilhada – para atacar os direitos das mulheres e as comunidades LGBTQ+ e enfraquecer os serviços de saúde reprodutiva.

Neste momento, outro líder de extrema direita chegou ao poder na região: José Antonio Kast, no Chile, cujo pai, nascido na Alemanha, foi membro do partido nazista. Desde que Kast iniciou seu mandato de quatro anos, em março de 2026, grupos feministas vêm se preparando para as reformas jurídicas e políticas que o novo presidente poderá adotar e que podem corroer direitos conquistados com muita luta.

Kast, cujo governo representa a maior guinada à direita desde o fim da ditadura militar no Chile em 1990, já deixou sua marca. A seguir, o que mais se pode esperar de seu mandato.

Mudanças na educação sexual nas escolas

Kast está considerando realizar mudanças na educação sexual ensinada nas escolas. Durante sua primeira campanha presidencial em 2017, Kast propôs a remoção de programas escolares e conteúdos curriculares que, segundo ele, “constituem propaganda ou apoio ao aborto e a ideologias de gênero”, e no ano passado prometeu “garantir uma educação sem ideologias”.

Essa posição contrasta com seu antecessor, o presidente de esquerda Gabriel Boric, cujo governo, em janeiro de 2026, retomou um projeto de lei para expandir a educação sexual, provocando a oposição de parlamentares de extrema direita que o rotularam de “movido por ideologia”. Aprovado por uma comissão de educação do Congresso em março, o projeto de lei avançou, mas ainda precisa de etapas legislativas adicionais para se tornar lei.

A visão de Kast replica o movimento brasileiro “Escola sem partido”, promovido pelo ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (2019-2022), que buscava restringir a educação sexual, enquadrando-a como “sexualização precoce” de crianças ou como “ideologicamente tendenciosa”.

Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele, no poder desde 2019, restringiu a educação sexual nas escolas. Em 2022, o Ministério da Educação removeu materiais relacionados à educação sexual, à prevenção da violência de gênero e à orientação sexual para alunos do ensino médio.

Violência digital

A violência digital, como abusos online e discursos de ódio, é usada como ferramenta por movimentos e governos de extrema direita. No Chile, Martín de la Sotta, chefe da Chile Necesita ESI, uma organização que defende a educação sexual, afirma que os ataques nas redes sociais se intensificaram desde a campanha presidencial de Kast no ano passado, com o objetivo de silenciar e censurar ativistas.

Ele mesmo foi alvo de assédio digital coordenado. “Eles [grupos de extrema direita] tiraram fotos minhas em uma festa e as postaram online, dizendo: ‘este é o pedófilo que quer tocar em seus filhos’ e coisas do tipo”, disse de la Sotta.

Emilia Schneider, a primeira parlamentar abertamente transgênero do Chile, que foi reeleita no ano passado, também foi vítima de assédio online. Fotos dela de antes de sua transição circularam online. “O nome dela é Emilia, e eles publicaram fotos dizendo ‘Emilio’”, disse de la Sotta.

Feministas exiladas

Ameaças têm forçado jornalistas e vozes feministas a deixarem seus países de origem quando escrevem sobre questões de gênero, revelam escândalos e questionam as políticas de governos de extrema direita.

A jornalista argentina Luciana Peker afirma que o assédio online contra ela se intensificou após a publicação de uma reportagem sobre o crescente número de feminicídios na Argentina em 2022, chegando a receber ameaças de morte. Em dezembro de 2023, dez dias após a posse do presidente de extrema direita Javier Milei na Argentina, ela foi obrigada a deixar o país. “A violência vinha de setores ligados àqueles que entraram no governo [de Milei], e, portanto, eu não tinha segurança para falar, escrever, viver ou trabalhar”, declarou.

No Brasil, após a vitória de Bolsonaro na eleição presidencial de 2018, um padrão semelhante de intimidação levou Débora Diniz, uma proeminente especialista em direitos reprodutivos, a deixar o país. Diniz afirma ter recebido por diversas vezes assédio online e ameaças de morte de grupos de extrema direita após seu depoimento perante o Supremo Tribunal Federal em apoio à descriminalização do aborto.

Diniz contou ao Fuller que a questão de gênero está no centro das estratégias da extrema direita. “Controlar as mulheres – quando, como e com quem elas têm filhos – significa controlar a reprodução da vida social e, em última análise, a reprodução do poder”, afirmou.

Dinâmicas similares à intimidação também foram documentadas em El Salvador sob o governo de Bukele. De acordo com a Cristosal, uma organização local de direitos humanos, o governo autoritário de Bukele forçou dezenas de ativistas e jornalistas mulheres a deixarem o país.

Obstáculos para o acesso ao aborto

Kast defendeu o retorno da proibição total do aborto, mesmo em casos de estupro, o que, segundo ele, “defende a vida desde a concepção até a morte natural”, uma visão compartilhada por membros da Igreja Católica no Chile e seus apoiadores evangélicos.

Após a reforma jurídica de 2017, o aborto no Chile é atualmente permitido apenas em três casos: risco à vida da mulher, estupro ou gravidez inviável. Cerca de 80% dos chilenos apoiam o aborto em pelo menos alguma circunstância.

Um projeto de lei proposto durante o governo anterior de Boric, que permitiria às mulheres a realizarem o aborto até a 14ª semana de gestação, está tramitando lentamente no Congresso. No entanto, enfrenta grandes obstáculos em comissões lideradas por apoiadores de Kast. “É pouco provável que seja aprovado”, afirma Anamaría Arriagada, presidente do Colegio Médico de Chile, a associação médica nacional.

Ativistas alertam que pode ficar mais difícil para as mulheres no Chile conseguirem realizar um aborto. Mesmo antes de Kast chegar ao poder, em casos de abortos envolvendo estupro, quase metade dos profissionais de obstetrícia que trabalham em hospitais públicos se declararam objetores de consciência em 2023.

“Sob um governo autoritário e que é contrário aos direitos humanos, é muito possível que os objetores se sintam mais à vontade para exercer sua recusa”, disse Ingrid Narbona, advogada da Rede de Profissionais pelo Direito de Decidir do Chile. Ela acrescentou: “Quando os direitos são limitados, as mulheres não deixam de buscar realizar o aborto; elas recorrem a opções arriscadas ou ilegais”.

Em El Salvador, Bukele apoiou uma retórica semelhante à de Kast sobre a “vida desde a concepção”, em um país onde o aborto é totalmente proibido. Outrora defensor do aborto em circunstâncias limitadas, Bukele adotou uma postura ferrenhamente antiaborto, descrevendo o aborto como um “grande genocídio”.

Anos de campanhas de grupos de defesa dos direitos das mulheres ajudaram a garantir a libertação de 81 mulheres presas sob a rigorosa lei antiaborto do país. No entanto, em mais uma demonstração de que o ambiente está cada vez mais opressivo, o Grupo Cidadão pela Descriminalização do Aborto de El Salvador anunciou sua dissolução legal em fevereiro.

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O Presidente do Chile, José Antonio Kast, com sua esposa María Pía Adriasola e o Cardeal Fernando Chomali em cerimônia realizada na Catedral Metropolitana de Santiago, 12 de março de 2026. Fotografia: Assessoria de Imprensa, Presidência da República do Chile

Disseminação do fundamentalismo cristão

A disseminação lenta, e muitas vezes silenciosa, da influência anti-gênero e religiosa para além dos corredores do poder e para outros órgãos institucionais é uma característica fundamental da estratégia da extrema direita na América Latina, de acordo com Giselle Carino, diretora da Fòs Feminista, um grupo global de defesa dos direitos sexuais e reprodutivos.

“Isso se estende aos conselhos médicos nacionais e às comissões de bioética, onde a governança técnica pode ser reformulada de acordo com agendas conservadoras”, afirmou Carino.

Em janeiro, a comissão nacional de bioética da Argentina foi formalmente reestruturada sob o Ministério da Saúde. De acordo com Carino, a mudança reflete um padrão mais amplo no qual “especialistas independentes em ética foram marginalizados e substituídos por agentes mais próximos de redes religiosas”, levantando dúvidas sobre como o acesso ao aborto pode ser interpretado na prática.

Carino também traça paralelos entre essa estratégia da extrema direita latino-americana e a ascensão do movimento MAGA de Donald Trump nos Estados Unidos, indicando um alinhamento regional mais amplo em torno de políticas nacionalistas e anti-gênero.

No Brasil, Bolsonaro fez muito uso do apoio de igrejas e de pastores evangélicos para mobilizar eleitores, usando a retórica cristã para se opor ao aborto e aos direitos LGBTQ+. Parlamentares evangélicos de seu partido continuam ainda hoje a fazer lobby contra os direitos reprodutivos das mulheres.

Em El Salvador, Bukele frequentemente apela para a linguagem cristã para justificar suas políticas, chegando a afirmar que Deus havia falado com ele. Em uma publicação nas redes sociais, ele disse se opor ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e enfatizou o papel do “apoio de Deus” na criação do que ele descreve como um “país mais justo”.

Kast, membro do movimento Schönstatt, uma rede católica ultraconservadora, não é diferente. Ele estruturou sua política em torno de valores católicos conservadores, dizendo em 2017: “Eu acredito em Deus, acredito na pátria, acredito na família”. Desde que assumiu o cargo, ele aumentou os cultos religiosos de um para até quatro por semana no palácio presidencial do Chile, La Moneda.

Kast já deixou clara sua posição em relação aos direitos LGBTQ+. Durante sua segunda semana no cargo, em abril, ele se absteve de assinar uma declaração regional sobre os direitos LGBTQ+ na Organização dos Estados Americanos.

Cortes no financiamento às políticas de defesa dos direitos das mulheres

Kast iniciou sua presidência declarando que este era um “governo de emergência”, focado em segurança, migração e economia. Para conter os gastos públicos, ele prometeu uma redução de US$6 bilhões.

“É impossível haver cortes enormes nos gastos sem afetar a saúde e os direitos reprodutivos”, disse Arriagada.

No Chile, Luz Reidel, vice-diretora de Defesa de Direitos da Miles, uma organização de direitos sexuais e reprodutivos, disse: “[Kast] enquadrar este como um ‘governo de emergência’ permite que as autoridades deixem de priorizar certos serviços, fazendo com que o aborto e a saúde sexual pareçam menos urgentes.”

É um padrão recorrente em toda a região. Na Argentina, como parte das medidas de austeridade implementadas por Milei, pelo menos 13 programas relacionados a gênero foram descontinuados. Programas especificamente projetados para apoiar a inclusão de pessoas trans também foram interrompidos.

Sob o governo de Milei, o financiamento para programas que abordam a violência de gênero também caiu 89% entre 2023 e 2024. O programa Acompañar da Argentina, que apoia sobreviventes de violências de gênero, teve seu orçamento reduzido em 90%, enquanto o número de pessoas que recebem assistência caiu de mais de 100.000, em 2023, para apenas 434 em 2024.

Linguagem banida

Líderes de extrema direita em El Salvador, Argentina e Brasil tomaram medidas para remover ou restringir termos e categorias relacionados a gênero, sexualidade e identidade, alegando que não se alinham ou se alinhavam com as posições oficiais de seus governos.

Em 2024, o governo Milei, na Argentina, proibiu a “linguagem inclusiva”, usada para incluir pessoas LGBTQ+ e não binárias em documentos oficiais e na administração pública, classificando-a como uma “distorção ideológica”.

Em El Salvador, Bukele emitiu um decreto semelhante no ano passado, proibindo a linguagem inclusiva em escolas públicas e em materiais governamentais, chamando-a de “espanhol impróprio” e de “ideologia de gênero”. Reportagem do El Faro, que obteve um guia de estilo educacional interno, mostra que o decreto proíbe termos como “feminismo”, “feminista”, “inclusão”, “masculinidades”, “novas masculinidades”, “sexualidade”, “orientação sexual” e palavras que fazem alusão à comunidade LGBTQ+ e às mudanças climáticas. Da mesma forma, no Brasil, o ex-presidente Bolsonaro rejeitou a linguagem para o gênero neutro, dizendo que ela é “prejudicial aos valores tradicionais” e que “estraga as crianças”.

Como parlamentar, Kast também criticou a linguagem inclusiva no X (ex-Twitter), escrevendo: “Vamos parar com esse absurdo. Vamos exigir que as pessoas no Chile falem corretamente e parem de copiar ideias ruins do exterior”.

“Embora atualmente não haja nenhum precedente formal concreto para tal medida, está dentro do que podemos esperar deste governo”, disse Reidel, da organização Miles do Chile.

Desmantelando as instituições femininas

Até o momento, sob o governo de Kast, o Ministério das Relações Exteriores removeu funcionários responsáveis pela divisão que promove a política externa feminista. A escolha de Kast para liderar o Ministério da Mulher e da Igualdade de Gênero gerou preocupações, após ele ter nomeado Judith Marin, uma evangélica que há muito tempo faz campanha contra o aborto. “Ela não tem experiência em questões relacionadas a gênero. É obviamente decepcionante”, disse Reidel.

Na Argentina, Milei dissolveu, em 2024, o Ministério das Mulheres, dos Gêneros e da Diversidade, órgão governamental responsável por abordar a igualdade de gênero, incluindo a violência de gênero.

Ativistas afirmam que essas medidas fazem parte de um esforço mais amplo – tanto simbólico quanto prático – para reverter a igualdade de gênero por meio do desmantelamento de instituições públicas que promovem os direitos das mulheres. “O que pode parecer ações desconexas está, na verdade, interligado; tudo faz parte da mesma estratégia”, afirmou Carino.

No Brasil, o Ministério da Mulher foi renomeado e reorganizado por Bolsonaro em 2019, culminando no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A substituição de “gênero” por “família” na nomenclatura institucional, segundo Reidel, sinaliza uma mudança simbólica, mas politicamente significativa, que se afasta das estruturas de igualdade em direção aos “papéis sociais tradicionais”.

Em El Salvador, em 2024, a Assembleia Legislativa eliminou diversas comissões legislativas especializadas, incluindo a Comissão sobre Mulheres e a Igualdade de Gênero, existente desde 2009.

QUADRO DE REAÇÃO

Ativistas pelos direitos das mulheres em toda a América Latina mostram que é possível resistir às estratégias da extrema direita. Nas últimas décadas, os movimentos pelos direitos das mulheres têm combatido com sucesso a violência de gênero e ampliado os direitos reprodutivos por meio de protestos, ações judiciais, processos constitucionais e campanhas nas redes sociais.

O movimento popular argentino Ni una menos (“Nem uma a menos”), fundado em 2015, surgiu em resposta aos altos índices de feminicídio no país. Desde então, o movimento mobilizou milhões de pessoas para marchar nas ruas, inspirando ativismos semelhantes contra a violência de gênero do Peru ao Uruguai e em outros países da região.

O movimento feminista Marea Verde, também na Argentina, tem levado a manifestações massivas desde o início dos anos 2000. Foi fundamental para a legalização do aborto na Argentina em 2020 e ajudou a inspirar reformas jurídicas semelhantes em toda a região, incluindo na Colômbia e no México.

Mais recentemente, no Chile, apenas três dias antes de Kast assumir o cargo, cerca de 500 mil pessoas participaram dos protestos do Dia Internacional da Mulher, os maiores desde o início da pandemia. Como explicou María Francisca Di Biase, advogada chilena e ativista de gênero que participou da marcha: “Nossos direitos nunca estão garantidos. Eles dependem de levantarmos nossas vozes. Eu preciso continuar lutando e marchando.”

Original em www.fullerproject.org


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