O efeito Lula no Distrito Federal, as reações de Celina Leão e a tarefa de resgatar o DF: a capital do Brasil não é reduto neofascista
Publicado em: 19 de setembro de 2026
Ricardo Stuckert
Ato “O Brasil Pronto Pra Mais” realizado na Praça do Trabalhador, em Ceilândia (Brasília-DF)
Na noite da última quarta-feira (16), Lula reuniu milhares de pessoas na Praça do Trabalhador, em Ceilândia, maior cidade do Distrito Federal. Ao lado de Leandro Grass, candidato ao governo do DF, Erika Kokay e Leila do Vôlei, candidatas ao Senado, e de diversas candidaturas do campo progressista às Câmaras Legislativas Federal e do DF, o presidente mobilizou o maior polo eleitoral da capital federal, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que reúne mais de 430 mil eleitores. Lula foi ovacionado ao falar de soberania nacional, democracia, proteção às mulheres e melhora das condições de vida cotidiana da população brasileira, refletindo tais perspectivas no Distrito Federal através de Leandro Grass.
Já no dia seguinte, o Buriti não amanheceu em silêncio. A governadora em exercício e candidata à reeleição, Celina Leão, pronunciou-se rapidamente acusando Lula do exercício de cabo eleitoral e de negligência diante da crise que ela – ao lado de Ibaneis Rocha, Daniel Vorcaro e a base do governo na Câmara Legislativa do Distrito Federal CLDF) – provocou na economia distrital ao rifar o patrimônio do povo do DF, colocando o Banco de Brasília (BRB) em emergência para comprar títulos podres do Banco Master.
Não é a primeira vez que Celina Leão se apoia na desinformação e no pânico elitista para responder ao avanço da esquerda na corrida eleitoral do DF. Já tendo acusado o governo federal de abandono ao DF diante da crise do Banco Master, antes de ser citada por Vorcaro em mensagens que revelam seu envolvimento nas negociações, a atual governadora do DF foi desmentida pelo Banco Central, que publicizou a responsabilidade de Celina pela falta de transparência de seu governo nas solicitações de suporte financeiro, sem divulgação dos balanços solicitados. Ainda assim, a candidata à permanência no Buriti insiste em acusar o governo Lula de abandono, na tentativa de mascarar que a escolha política de deteriorar o DF é dela.
Antes, Celina Leão disse que Brasília não elegeria a esquerda, associando isto à desinformação e à pobreza. Celina investiu em se comunicar com uma parcela do DF que não corresponde ao perfil majoritário desse território diverso e, ao mesmo tempo, desigual, segregado socioespacial e racialmente. Buscou coesionar uma base eleitoral média que historicamente concebe o distanciamento das políticas sociais como caminho de aproximação aos mais ricos, representados por Celina Leão, negando as condições que evidenciam que estão muito mais próximos daqueles que Celina tenta menosprezar por usufruírem dos direitos fundamentais objetivados nas políticas públicas.
Do outro lado, quem constitui o retrato da capital do Brasil – jovem, mulher, trabalhadora, residente das periferias urbanas – são aquelas e aqueles que reconhecem o avanço das políticas públicas, dos programas de transferência de renda, das iniciativas de empregabilidade, das políticas de proteção às mulheres, das ações de ampliação do acesso à saúde. É o DF real que mostrou, na Praça do Trabalhador, que não aguenta mais ver a capital do Brasil ficando para trás enquanto o restante do País avança.
O Brasil retomou o Ministério da Cultura, incrementou em R$ 4 bilhões o incentivo ao setor de audiovisual, otimizou o fomento à economia criativa e mostrou ao mundo a capacidade e o talento brasileiros no cinema que serve à memória histórica, à verdade e à justiça. Celina Leão cancelou o aniversário de Brasília em uma falsa oposição entre Cultura e Saúde, fragilizou o Cine Brasília e reduziu o Fundo de apoio à Cultura – tudo isso prometendo mais atendimentos nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). O que a governadora do DF entrega é insuficiência da força de trabalho na Secretaria de Estado de Saúde do DF, com um déficit de mais de 25 mil servidores; pior cobertura em Saúde Mental do País; internação compulsória e violenta de pessoas em situação de rua; a maior fila de espera para exames e cirurgias; indicadores de acesso aquém da cobertura da Atenção Primária à Saúde (APS); e fragilidade dos serviços especializados de atenção à saúde de sobreviventes de violência doméstica, sexual e intrafamiliar.
O Brasil ampliou unidades de saúde com o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC); promoveu o acesso ao apoio diagnóstico e terapêutico com o Programa Agora Tem Especialistas; incorporou tecnologias no SUS para expandir o acesso ao planejamento reprodutivo, com o Implante Contraceptivo Subdérmico de Etonogestrel, e ampliou o acesso ao Dispositivo Intrauterino de Cobre em seis estados brasileiros por meio da habilitação de enfermeiras da APS. Celina Leão sequestrou recursos do SUS para autopromoção, retirando das Unidades Básicas de Saúde os implantes contraceptivos e os alocando nas carretas eleitoreiras do GDF na Sua Porta; assinou cheque em branco para a rede privada de saúde com a Tabela SUS Candanga; recusou recursos do novo PAC e aderiu ao Agora Tem Especialistas com muita resistência e morosidade, prejudicando o acesso do povo do DF à atenção especializada e mantendo a judicialização em saúde como estratégia para beneficiar os empresários do ramo.
O Brasil retirou 26 milhões de pessoas da insegurança alimentar com incremento ao Bolsa Família; investiu em justiça tributária, isentando do imposto de renda pessoas que ganham até R$5 mil reais; reduziu a evasão escolar com o Programa Pé de Meia e superou a meta do programa Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, aumentando o índice de 36% (2021) para 66% (2025). Celina Leão desmantela a política de assistência social e a secundariza ante à política higienista, que destitui equipamentos públicos em prol da ocupação dos territórios da capital federal pela especulação imobiliária; e entrega um DF que foi a única unidade da federação a ter queda nos indicadores de educação básica, ficando abaixo das médias nacionais de ensino fundamental nos anos iniciais e finais.¹
O Brasil reconhece a problemática da vulnerabilidade das mulheres às violências e avança na entrega de políticas de proteção, como o Pacto Nacional Contra o Feminicídio, a Política Nacional de Cuidados, as Salas Lilás, os serviços de atendimento em saúde mental e a qualificação do deferimento de medidas protetivas de urgência. Celina Leão entrega um DF com aumento de 31% dos feminicídios (4% no Brasil), de 5,4% de ocorrência de violência doméstica (2,6% no Brasil) e o descumprimento de 2.697 Medidas Protetivas de Urgência.²
Um breve artigo é insuficiente para as extensas comparações que podem ser feitas entre os avanços do Brasil e os retrocessos do DF no último período, ante à vitória de um governo popular, democrático e comprometido com as políticas públicas e a continuidade de um projeto nefasto, violento e antidireitos, respectivamente. Celina Leão entendeu bem o recado na Praça do Trabalhador: brasilienses podem derrotá-la, viver os progressos promovidos pela gestão Lula em todo o País e recuperar o DF através de Leandro Grass e Dora Gomes. A população da capital do País está disposta a resgatar o Distrito Federal, construir e usufruir de políticas públicas garantidoras de seus direitos fundamentais, recuperando a segurança, a saúde e a dignidade do povo o DF.
¹ INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Resultados. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/ideb/resultados. Acesso em: 18 set. 2026
² FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/07/anuario-2026.pdf. Acesso em: 18 set. 2026
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