Sono de menos: a ética de trabalho de Takaichi destaca o problema do excesso de trabalho no Japão


Publicado em: 1 de junho de 2026

Por Peter Chai

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Sanae Takaichi (Primeira-ministra do Japão)

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Em uma reunião da comissão legislativa em 13 de novembro, a primeira-ministra japonesa, Takaichi Sanae, foi questionada sobre como planejava lidar com as já conhecidas longas jornadas de trabalho no Japão. Ela respondeu que agora dorme “cerca de duas horas, quatro no máximo”, e acrescentou: “Provavelmente faz mal para a minha pele”.

Seus comentários vieram após a notícia de que ela havia chamado seus assessores ao seu gabinete às 3h da manhã do dia 7 de novembro para se prepararem para a reunião da comissão orçamentária marcada para seis horas depois. A imprensa japonesa descreveu o encontro como uma “sessão de estudos às 3h da manhã”, o que preocupou o público em um país onde o excesso de trabalho e o karoshi (morte por excesso de trabalho) continuam sendo problemas extremamente delicados.

Takaichi afirmou que abandonaria a noção de equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional e passaria a adotar o lema “trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar”

Após vencer a eleição para a liderança do Partido Liberal Democrático (LDP – Liberal Democratic Party) em 4 de outubro, vitória esta que a levou à nomeação como primeira-ministra, Takaichi afirmou que abandonaria a noção de equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional e passaria a adotar o lema “trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar”.

Uma organização nacional que representa famílias de vítimas de karoshi criticou as declarações da primeira-ministra e alertou sobre a influência que tais afirmações poderiam ter. A opinião pública sobre sua declaração de abandonar o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal está dividida. Uma pequena pesquisa com mulheres do mercado de trabalho, realizada após a declaração, revelou que 53% consideraram a declaração como positiva, enquanto 29% a consideraram como negativa.

Entre aquelas que tiveram uma visão positiva, o principal motivo foi considerarem a declaração como uma demonstração pessoal de determinação e admirarem seu compromisso em trabalhar de corpo e alma pelo povo. Já entre aquelas que tiveram uma visão negativa, a principal preocupação era a de que, quando alguém no topo do país faz declarações desse tipo, isso poderia encorajar mais empresas a desconsiderar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Desde que se tornou a primeira-ministra do Japão, em 21 de outubro, Takaichi tem tido uma agenda intensa. Poucos dias após assumir o cargo, ela viajou para a Malásia para a Cúpula da ASEAN, recebeu o presidente dos EUA, Donald Trump, e depois se reuniu com o líder chinês Xi Jinping e o presidente sul-coreano Lee Jae-myung na Cúpula da APEC, na Coreia do Sul.

Uma crescente disputa diplomática com a China, surgida logo após o encontro de Takaichi com Xi na Cúpula da APEC, ameaça aumentar suas noites em claro. A disputa foi desencadeada por seu comentário sobre o possível envolvimento militar do Japão em um conflito no Estreito de Taiwan, em 10 de novembro. Ela citou a expressão “situação de ameaça à sobrevivência”, um termo jurídico da lei de segurança japonesa de 2015, sugerindo que um ataque armado contra Taiwan poderia levar o Japão a exercer seu direito de autodefesa coletiva.

Apesar dos apelos da China, Takaichi recusou-se a retratar-se das suas declarações, defendendo-as em 11 de novembro como “coerentes com a posição tradicional do governo”. A sua declaração gerou fortes protestos por parte das autoridades chinesas. O Ministério das Relações Exteriores da China emitiu um comunicado alertando o Japão para “parar de brincar com fogo sobre Taiwan”. A China alertou seus cidadãos para não viajarem para o Japão em 14 de novembro e emitiu um alerta sobre estudos no exterior no Japão em 16 de novembro. As principais companhias aéreas chinesas também anunciaram que ofereceriam cancelamentos e alterações gratuitas para voos para o Japão.

Noda Yoshihiko, ex-primeiro-ministro e atual líder do Partido Democrático Constitucional do Japão, criticou, em uma entrevista, a “sessão de estudos às 3 da manhã” de Takaichi. “Tudo bem ela trabalhar, mas não deveria envolver outras pessoas”, declarou. “Todo mundo está dormindo a essa hora. É uma atitude muito lamentável para a líder máxima do país.”

Ao mesmo tempo, alguns membros do LDP também expressaram preocupação com a saúde dela. Saito Ken disse durante a reunião da comissão de orçamento: “Por favor, certifique-se de descansar bastante quando puder.”

Takaichi afirmou que é importante permitir que as pessoas conciliem o cuidado com os filhos e outros familiares com o trabalho, o lazer e o descanso. No entanto, ela também defendeu a permissão para que as pessoas façam mais horas extras, considerando-as uma importante fonte de renda – embora tenha reconhecido que isso não deve prejudicar o bem-estar dos trabalhadores.

Debates sobre a flexibilização dos limites atuais de horas extras estão acontecendo, uma ideia que Takaichi apoiou. Os limites atuais de horas extras foram introduzidos como parte da Lei de Promoção à Reforma das Condições de Trabalho em abril de 2019, após a morte de Takahashi Matsuri, funcionária da agência de publicidade Dentsu, que cometeu suicídio em 2016 depois de acumular mais de 100 horas extras por mês.

Atualmente, o limite máximo para horas extras é de 45 horas por mês e 360 horas por ano. Mesmo em períodos de pico de trabalho ou em circunstâncias especiais, o limite para horas extras é de menos de 100 horas por mês e uma média de 80 horas ou menos ao longo de vários meses.

Segundo um relatório de 2024 sobre medidas para prevenir o karoshi, 883 pessoas foram diagnosticadas com transtornos mentais causados ​​por excesso de trabalho – um aumento de 173 casos em relação ao ano anterior e o maior número já registrado. Desses casos, 79 envolveram suicídios ou tentativas de suicídio; 216 desenvolveram problemas cerebrais ou cardíacos relacionados ao trabalho, ultrapassando os 200 casos pela primeira vez em quatro anos.

Em 2023, a média anual de horas trabalhadas por funcionário subiu para 1.636, um aumento de três horas em relação ao ano anterior. Embora esse número girasse em torno de 1.900 horas na década de 1990 e tenha diminuído de forma geral desde então, essa tendência de queda foi interrompida em 2023.

Ao mesmo tempo, mais trabalhadores estão aproveitando suas férias remuneradas anuais. Os trabalhadores tiraram, em média, 10,9 dias de férias remuneradas em 2022, marcando o quarto ano consecutivo em que esse número ultrapassou os 10 dias. A taxa de uso de férias remuneradas ultrapassou os 50% em 2017 e aumentou para 62,1% em 2022.

Além disso, de acordo com um estudo publicado em 2025 que analisou dados de quantidade sono de quase 5 mil pessoas em 20 países, o Japão apresenta a menor média de horas de sono, com seis horas e 18 minutos. Esse valor é inferior ao observado nos demais países do G7 e também nos vizinhos China e Coreia do Sul, embora o estudo também observe que a duração do sono em si não apresenta necessariamente resultados na saúde.

O excesso de trabalho dos professores é um problema bem conhecido no Japão, há muito tempo denunciado pelos sindicatos de professores, grupos de defesa da causa dos professores e especialistas em direito trabalhista

O excesso de trabalho dos professores é um problema bem conhecido no Japão, há muito tempo denunciado pelos sindicatos de professores, grupos de defesa da causa dos professores e especialistas em direito trabalhista. Uma pesquisa do Ministério da Educação de 2022 mostrou que 77% dos professores do ensino fundamental – anos finais e 65% dos professores do ensino fundamental – anos iniciais da rede pública japonesa trabalhavam mais de 45 horas extras por mês.

O Fundo de Indenização por Acidentes de Trabalho para Funcionários Públicos Municipais relatou que, entre os anos de 2015 e 2023, 38 professores do ensino fundamental e médio da rede pública morreram por causas relacionadas ao excesso de trabalho. Em 2024, o Sindicato dos Professores do Japão apresentou uma petição com cerca de 700.000 assinaturas ao Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia (MEXT), solicitando medidas concretas para reduzir a longa jornada de trabalho dos professores.

No início de agosto, o MEXT divulgou uma proposta de revisão de suas diretrizes com o objetivo de gerenciar melhor a carga de trabalho dos professores da rede pública, após a aprovação da Lei de Medidas Especiais para a Remuneração dos Professores, ou a Lei Kyutoku, em junho, que revisou a remuneração e as condições de trabalho dos docentes. A proposta estabeleceu a meta de garantir que 100% dos professores não trabalhem mais de 45 horas extras por mês e reafirma o objetivo de reduzir a média mensal de horas extras para cerca de 30 horas até o ano de 2029.

Dessa forma, dados recentes sobre karoshi e quantidade de sono sugerem que, deixando de lado a própria ética de trabalho de Takaichi, o excesso de trabalho continua sendo uma questão importante que a primeira-ministra precisa abordar. Embora a mídia tenha se concentrado bastante em seus planos de aumentar os gastos com defesa e em sua postura agressiva em relação à China – o que pode ter agradado sua base de apoio de direita –, ela ainda precisa continuar enfrentando os desafios econômicos em seu plano de gastos fiscais e abordando questões internas como educação, reforma da previdência social e imigração.

Tradução de Anderson Miranda, do Esquerda Online


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