O Odisseia de Nolan e o fardo da masculinidade branca
Publicado em: 4 de agosto de 2026
Divulgação/Universal Studios
Desde antes de sua estreia, a adaptação de Christopher Nolan do clássico Odisseia, atribuído a Homero, já sofreu uma chuva de críticas da extrema-direita, preocupada com a escalação “woke” de intérpretes não brancos ou não binários para papéis mitológicos. Em um tempo em que a Antiguidade tem sido apropriada principalmente como ferramenta pela direita, filmar uma das histórias mais conhecidas e recontadas da humanidade deu a Nolan a oportunidade de construir uma representação mais progressista a partir do nosso passado distante.
A questão principal aqui não gira em torno da fidelidade do filme ao texto original. Os estudos de recepção já demonstraram que a continuidade dos clássicos está ligada justamente à sua capacidade de adaptação a diferentes contextos. Neste sentido, a escalação do elenco é perfeita e demonstra um senso de urgência para incorporar mais diversidade no cinema de Hollywood. Tampouco são problemáticas as, também criticadas, adaptações linguísticas e opções estéticas anacrônicas. Pelo contrário, tanto o uso de expressões coloquiais do inglês moderno (como “Ten years in this fucking beach. Let’s go home.” ou, numa tradução livre, “Dez anos nessa merda de praia. Vamos para casa.”), quanto as armaduras de períodos posteriores ajudam a criar uma conexão entre o espectador e aquele passado distante, por meio das nossas próprias memórias. Afinal, para que a Odisseia fale ao mundo de hoje através do cinema, ela não pode ser recitada nos hexâmetros datílicos do grego antigo e tampouco é necessária fidelidade ao tipo de armadura e armamentos do Egeu da Era do Bronze.
Manter esse passado distante presente é, portanto, fazer com que ele seja relevante para nós e fale com o nosso mundo. Nolan sabe disso. Escolher adaptar a Odisseia hoje, com este elenco e inserindo temas sobre a decadência da civilização, é uma mensagem clara para a nossa realidade. Os inimigos a serem combatidos com essa adaptação são a xenofobia e a masculinidade tóxica, orgulhosa e violenta da extrema-direita, especialmente representadas pelo movimento MAGA de Donald Trump. Mas será que o diretor conseguiu ter sucesso nesta batalha? Eu diria que não.
O drama de um soldado veterano frente colapso do seu mundo
O Odisseu de Nolan, interpretado por Matt Damon, não é um macho orgulhoso. Pelo contrário, ele é um homem atormentado pela violência da guerra. Um soldado veterano que precisa lidar com a síndrome de estresse pós-traumático enquanto tenta voltar ao lar. O sofrimento e a incerteza do protagonista, contudo, não conseguem comover o público. Os diálogos e as escolhas narrativas acabam construindo um Odisseu com a profundidade emocional e psicológica característica do estereótipo do homem branco burguês.
A opção de Nolan por modificar a história original, retirando o desejo sexual de Odisseu, para retratá-lo como um homem de família, fiel à esposa, também vai no sentido de construir esse herói branco da moral burguesa.
Mesmo na tentativa de criticar a masculinidade MAGA, Odisseu segue sendo o protagonista masculino branco, incapaz de encontrar saídas para os dilemas do seu mundo, mas sem nunca deixar de recorrer à violência que tanto lhe causa sofrimento psicológico. A escolha estrelada de atores e atrizes não brancos somente arranha o problema da representatividade, uma vez que todas as personagens que interpretam, como bem apontou Emily Wilson, servem apenas para ajudar o protagonista branco. A opção de Nolan por modificar a história original, retirando o desejo sexual de Odisseu, para retratá-lo como um homem de família, fiel à esposa, também vai no sentido de construir esse herói branco da moral burguesa.
As mulheres são sempre objetos do protagonismo masculino. Nolan é incapaz de construir complexidade nas personagens femininas. Penélope (Anne Hathaway) gira em torno da gestão da masculinidade frustrada de seu jovem filho (Tom Holland), enquanto espera o retorno do marido e tenta lidar com a ameaça dos seus pretendentes, liderados por Antínoo (Robert Pattinson). As duas personagens interpretadas por Lupita Nyong’o (Helena e Clitemnestra) não passam de vítimas da brutalidade de seus maridos. Calipso (Charlize Theron) deixa de ser a empoderada sequestradora de Odisseu, que enfrenta a liberdade exclusiva dos deuses de raptar e usar sexualmente as humanas que desejam, para ser uma espécie de terapeuta e guia do herói em seu uso de psicoativos para lidar com o trauma. Atena (Zendaya), a deusa dos olhos brilhantes, fundamental no texto original, tornou-se só o avatar da culpa de Odisseu. Mesmo Circe (Samantha Morton), a melhor personagem feminina do filme, é retratada como uma espécie de bruxa, um estereótipo que está ali unicamente para demonstrar o quão animalescos são os homens.
O grande drama protagonizado pelo homem branco da Odisseia de Nolan é o colapso da civilização. Este talvez seja o principal foco político da adaptação. Para dialogar com a policrise do nosso tempo, o diretor recorre à tempestade perfeita que pôs fim à Era do Bronze. Na realidade, as sociedades palaciais do Mediterrâneo Oriental (egípcios, hititas, micênicos e outros) foram assoladas por mudanças climáticas, revoltas sociais e migrações forçadas, que destruíram o mundo conectado por redes de intercâmbio econômico, cultural e diplomático. O filme, todavia, recorre à narrativa do ataque dos “povos do mar”, invasores violentos, citados nas fontes egípcias do período, que serviram por muito tempo como justificativa histórica para o colapso.
A crise moral e o rompimento da “Lei de Zeus”
A reviravolta do filme (e aqui vem um spoiler) é quando Odisseu percebe que os guerreiros gregos do mundo homérico são os próprios “povos do mar”. Ou seja, o homem branco é o verdadeiro bárbaro, responsável pela crise da sua civilização. Essa responsabilidade decorreria da violação da “Lei de Zeus”, citada diversas vezes na película. A lei de Zeus é uma adaptação do princípio grego da xênia, uma obrigação recíproca de hospitalidade e generosidade, que garantia o acolhimento e a proteção aos visitantes, além de orientar as alianças comerciais e diplomáticas, baseadas na troca de presentes. A reciprocidade se iniciava com o respeito e o comedimento do hóspede na casa do anfitrião e terminava com a oferta dos mesmos privilégios quando fosse visitado em seu próprio lar.
A primeira mulher a traduzir a Odisseia para o inglês notou, de maneira muito sagaz, que Nolan adapta essa hospitalidade muito mais como filantropia e caridade, princípios mais inteligíveis à moral do homem branco burguês. A violência, a destruição e os saques cometidos contra estrangeiros nas guerras travadas no exterior seriam o primeiro pecado desse homem branco. Isto fica claro tanto na incorporação das cenas do ataque a Troia quanto na truculência dos guerreiros de Odisseu em diversos momentos ao longo de sua jornada. Por outro lado, o desrespeito dos pretendentes ao trono de Ítaca também constitui um rompimento da “Lei de Zeus”. Mas a resposta a isso não deixa de ser a violência brutal. A vingança de Odisseu contra os pretendentes é mais uma das intermináveis cenas de luta e batalha, usadas para capturar o público masculino de filmes de ação.
Como a chave da narrativa do filme é o rompimento da “Lei de Zeus”, justifica-se a exclusão que Nolan faz de uma das partes fundamentais da obra homérica. O último estágio antes do retorno à Ítaca é na ilha dos feácios, um povo pacífico, isolado do mundo, onde Odisseus é encontrado pela princesa Nausícaa e generosamente recebido pelo rei Alcínoo. Não seria coerente para um homem branco atormentado, como o personagem de Matt Damon, viver nessa utopia.
Mas como é resolvida a crise moral do homem branco, que se descobre violento e responsável pelo colapso da sua civilização? A saída apresentada é navegar para o Ocidente.
Mas como é resolvida a crise moral do homem branco, que se descobre violento e responsável pelo colapso da sua civilização? A saída apresentada é navegar para o Ocidente. A obra homérica há séculos é usada justamente como a raiz da civilização ocidental, do excepcionalismo que teria separado o Ocidente do restante do mundo na Grécia, com a pretensa invenção da filosofia, da política, das belas artes, do direito, do naturalismo e de uma visão mais laica do universo. Essa ideia foi historicamente adaptada e serve atualmente como bandeira da extrema-direita, que quer defender os valores tradicionais do Ocidente contra as ameaças estrangeiras. Como, neste cenário, a resposta deveria ser buscada indo mais em direção a este Ocidente, em vez de contra ele, eu sinceramente não sei.
A Antiguidade como continuidade e legado: o apagamento das diferenças
Como professor de História Antiga, confesso que meu principal receio ao saber da produção de Nolan eram as consequências políticas dessa releitura da Odisseia
Como professor de História Antiga, confesso que meu principal receio ao saber da produção de Nolan eram as consequências políticas dessa releitura da Odisseia. O diretor de Hollywood é conhecido por encenar os dramas do homem branco e por não dar mínima profundidade às personagens femininas. Eu sabia que ele tentaria usar essa história para desafiar a extrema-direita, especialmente ofendida pela ameaça “woke” de um elenco não branco. Mas suspeitava que reencenar a história do herói grego, que serve de mitologia do Ocidente, não seria um desafio real à hegemonia dos valores brancos e masculinos da civilização ocidental.
No fim, o filme não poderia agradar a nenhum dos lados. A machosfera da extrema-direita não suportaria um ator trans encenando um soldado grego ou uma atriz negra interpretando a mais bela das mulheres. Por outro lado, a esquerda não poderia se contentar com horas de mulheres e pessoas não brancas servindo de figurantes no drama moral de um protagonista branco, que não consegue lidar com o fardo das consequências de suas ações violentas.
Isso não significa que qualquer adaptação da Odisseia tenha de ser uma reafirmação da mitologia dessa civilização ocidental com protagonismo dos homens brancos. Novamente, como professor de História Antiga, eu gostaria de destacar outro papel que esse passado distante pode ter e que é constantemente negado. Assim como o uso de Nolan, as recepções da Antiguidade são normalmente construídas para dialogar com o mundo de hoje, por meio de mecanismos de continuidade e legado. O objetivo é nos ver naquele mundo e, consequentemente, projetar nosso futuro a partir dele. O passado distante dificilmente é retratado em sua maior potência: como um mundo distinto e extremamente diverso.
Uma das piores escolhas de Nolan foi construir uma Odisseia desencantada. As divindades e outros agentes mitológicos humanoides, fundamentais na obra homérica, desaparecem da narrativa do filme. Atena é apenas a memória traumática de uma vítima de Odisseus. Calipso não é uma ninfa que oferece a imortalidade a Odisseus e só o liberta a mando de Zeus, após a visita de Hermes. As sereias não são pássaros monstruosos, mas apenas outro retrato do perigo que as mulheres representam no mundo. Circe, a única que desempenha algum papel sobrenatural, também não é uma deusa. É uma feiticeira amargurada que representa mais uma ameaça feminina. A ação divina é ignorada em favor de uma visão laica. A pouca magia que resta é recriminada e proscrita.

Os seres sobrenaturais que aparecem são monstruosos. Polifemo é uma besta, perdendo completamente qualquer característica humana, como, por exemplo, a capacidade original do ciclope de dialogar com Odisseu. Os lestrigões são um povo grande, com armaduras completas, simbolizando a superioridade da Idade do Ferro. Caribdis passa a ser um fenômeno da natureza, enquanto Cila é uma espécie de dragão de Game of Thrones com várias cabeças. Desumanizar entidades ou reduzi-las a monstros é uma boa forma de criar inimigos maniqueístas para o herói branco.
Olhar para o passado distante com desencantamento é não compreender que houve um mundo muito diferente. Reproduzir, no passado, a subordinação das mulheres e do feminino é naturalizar essas relações como biológicas. Conceber apenas um protagonismo masculino e branco reproduz exatamente o que a extrema-direita ocidental acredita.
Para que pode servir a Antiguidade? O Estranhamento dos Passados Distantes como arma contra o Realismo Capitalista
Notavelmente, a única coisa do filme que consegue construir a sensação dialética de familiaridade e estranhamento, para a qual a Antiguidade deveria ser um manancial privilegiado, é a trilha sonora de Ludwig Göransson. Aqui, por sugestão do próprio Nolan, abdicou-se das tradicionais trilhas orquestradas em favor da busca por uma fidelidade histórico-arqueológica, com a reconstituição de instrumentos gregos antigos e o emprego de percussões de bronze. Tudo mesclado com sintetizadores e outras experimentações. O resultado é a construção de uma paisagem sonora que cumpre o papel tradicional das trilhas cinematográficas, criando emoção, suspense, triunfo, sem nunca deixar de soar como algo infamiliar.
Ao criar essa sensação dialética de familiaridade e estranhamento, a trilha sonora fascina e repele. Ela é um excelente exemplo do que Mark Fisher definiu como “estranho” (weird) em seu livro O Estranho e o Sinistro, lançado este ano no Brasil. Para o autor, o estranhamento possibilita ver o interior a partir de uma experiência exterior, criando algo que está além da percepção da nossa experiência padrão. Provavelmente esta é a maior potencialidade das narrativas e representações dos passados distantes. De alguma maneira, o próprio Fisher reconhece isto, ao argumentar que o estranho pode se fazer em espaços liminares entre diferentes épocas, manifestando-se na sensação de anacronismo.
Olhar para a História Antiga como Nolan a representou é ver basicamente continuidades, um mundo que pode ser doloroso, mas até nisso é muito familiar. A principal consequência deste retrato é a redução ou a eliminação da nossa capacidade de imaginar mundos diferentes. Representar a Antiguidade como algo estranho possibilitaria criar uma perspectiva exterior para olhar para o nosso interior, desnaturalizar nossa realidade e expor suas instabilidades. Para Mark Fisher, o estranhamento é sinal da presença do novo. Logo, olhar para os passados distantes valorizando a alteridade pode ser uma ferramenta para criar um novo mundo, desobstruindo os potenciais de liberdade que já circularam no passado, mas que estão esquecidos ou neutralizados. Do contrário, continuaremos presos ao realismo capitalista, incapazes até mesmo de imaginar ou sonhar com futuros emancipatórios, quanto mais de construí-los.
Fábio Frizzo é professor de História Antiga na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)









