Educação em Cuba sob ataque: quando o bloqueio tenta atingir a inteligência de um povo
Relatos de Cuba - 3
Publicado em: 16 de maio de 2026
Falar de educação em Cuba é, antes de tudo, falar de uma escolha política. Desde a Revolução de 1959, o país definiu que ensinar não seria privilégio, mas direito. Um direito universal, gratuito e garantido pelo Estado. Não como promessa — mas como prática concreta.

Foi essa decisão que permitiu a erradicação do analfabetismo ainda nos anos 1960 e a construção de um dos sistemas educacionais mais sólidos do continente. Um modelo com acesso à ciência, à arte, à cultura que busca valorizar e produzir arte e cultura local, mas também ser o aditivo fundamental para fortalecer a ciência e a tecnologia, muito importante para um país que fez a revolução, mas não conseguiu ter independência alimentar e energética, reforçado por meio do boicote imposto pelo Estados Unidos que também ocorre campo acadêmico, dificultando a troca de informações e publicações cientificas.
Como podemos analisar por meio da tabela 1, ainda que sejam dados antigos, 2011, pertencentes a um período não tão cruel do boicote, pois 2010 é Obama no governo dos Estados Unidos num período de pouca presença da extrema direita no círculo do poder do estado, a evolução da educação na ilha só foi possível por uma política de estado planificada que garantiu orçamento para a educação superior formar professores e investimento para a educação básica tirar do analfabetismo e ignorância toda a geração da revolução e posteriores.

O acesso à universidade é garantido, a permanência estudantil é sustentada com moradia, alimentação e materiais, e o conhecimento não é mercadoria. Há, inclusive, uma lógica de devolução social: estudantes em formação atuam na rede de ensino, reforçando o caráter coletivo da produção do saber. A tabela 2 confirma o impressionante aumento de matrículas no ensino superior, números que refletem na média de 11,7 anos de escolarização e com 50% dos jovens em idade escolar nas universidades.
Mas talvez o aspecto mais revelador esteja na forma de avaliar. Em Cuba, a centralidade não está na memorização, nem no acerto mecânico. Avaliações objetivas são raras. O que se valoriza é a capacidade de elaborar, argumentar, relacionar ideias. Não se mede apenas o que o estudante responde — mede-se como ele pensa. É um modelo que forma inteligência, não repetição.
>> Leia também: Crise energética e impactos sociais: o cotidiano sob bloqueio em Cuba
Essa escolha pedagógica se reflete na vida cotidiana. Ao conversar com cubanos nas ruas, impressiona a capacidade de análise, a fluidez verbal, o repertório cultural. Não é acaso. É resultado de um projeto educacional que entende o conhecimento como ferramenta de emancipação.
Mas é justamente esse projeto que hoje está sob ataque.
O bloqueio econômico imposto há mais de seis décadas — e intensificado nos últimos anos — não atinge apenas a economia. Ele busca asfixiar as bases que sustentam a autonomia do país. E a educação é uma delas.
A partir da pandemia, 2020, ocorreu a intensificação do bloqueio, período de crescimento de governos de extrema direita e ou neofascistas, chefiado pelo Trump na presidência do Estados Unidos que nega ou desincentiva a vacinação na sua fronteira, bloqueia os insumos médicos necessários para o tratamento em Cuba. Essa situação agrava a condição de vida com a tentativa de colapso do sistema saúde, que é exemplo no acesso e atendimento à população. Soma-se a isso a derrubada do muro e o desmoronamento do bloco soviético que garantia fornecimento de petróleo e insumos básicos.
A revolução bolivariana que resulta no governo de Chaves e depois Maduro, na Venezuela, deu um folego a Cuba, principalmente com o fornecimento de petróleo, mas a etapa reacionária e intervencionista do fascista Trump dificultou e impede atualmente esse fornecimento com a intervenção no governo venezuelano após a remoção de Maduro.
O Brasil com a ascensão do fascista Bolsonaro, acabou com o programa mais médicos que permitia ao Brasil superar o déficit de médicos no sistema público com a contratação de médicos cubanos via governo de Cuba: “O Brasil sob Bolsonaro é um exemplo: a saída dos médicos cubanos – com os requintes de crueldade do racismo que também a envolviam – foi um dos primeiros resultados da política fascista”3
Nos dias que estivemos em Havana podemos sentir uma calmaria social, população muito simpática e alegre, porém ao conversarmos um pouco mais com os moradores, podemos perceber desconfiança em relação a nossa curiosidade, mas desabafo de que a vida não está fácil e a falta de perspectivas.
A tabela 3 traz um comparativo dos últimos 10 anos da evolução do PIB cubano, podemos perceber um crescimento até 2019 e a partir de 2020, ano da pandemia, estagnação. A economia é o resultado da política e como tal, os ataques a ilha com maior intensidade nos últimos 5 anos, resultaram no maior atraso e até recuo social.

Outra consequência é o êxodo populacional, que abrange principalmente a geração com idade inferior a 40 anos. Como podemos ver pela tabela 3 o pico ocorre a partir de 2021, imediatamente após a pandemia, com a saída aproximada de um milhão de pessoas agravando a falta de mão de obra para as colheitas no campo, escolas e indústria básicas, resultando no aumento da escassez alimentar entre outras situações. É visível ao caminhar por Havana a detecção de uma população envelhecida e que luta dia a dia pela manutenção de uma qualidade de vida que outrora existiu.
A crise energética é hoje o ponto mais visível dessa ofensiva. Ao restringir o acesso ao petróleo, compromete-se o funcionamento de toda a sociedade. E a educação sente esse impacto de forma direta.
As escolas, que por décadas funcionaram em período integral, foram obrigadas a reduzir suas jornadas. Falta energia, falta água, falta alimento. As universidades, em muitos casos, migraram para o ensino remoto — não por avanço tecnológico, mas por impossibilidade concreta de funcionamento presencial. Professores e estudantes enfrentam deslocamentos inviáveis, com transporte precário e longas distâncias a pé.
E o paradoxo se impõe: um país que construiu um sistema educacional robusto vê-se limitado por condições materiais impostas externamente.
A própria transição digital, que poderia ser um caminho de superação, ocorreu de forma tardia e desigual. Embora tenha avançado nos últimos anos, com ampliação da internet móvel, ainda é profundamente dependente de infraestrutura energética — o que a torna instável diante dos apagões frequentes.
O resultado é um estrangulamento progressivo. Não apenas das condições de ensino, mas da própria capacidade de reprodução e produção do conhecimento, a capacidade de investimento na educação e as condições de vida população que impactam as crianças, jovens e profissionais de educação que são obrigados a ter outras ocupações, como ser guia turístico. Era algo comum ao caminhar pelo centro de Havana e ser abordado por pessoas que se diziam professores e ofereciam o serviço de instruções turísticas da localidade.
Comparando a educação Brasil x Cuba: exemplo da eficiência da economia planificada e do Socialismo
Não por acaso, o capital via os seus governos se dedicara e dedica várias décadas para desmoralizar e sufocar qualquer inciativa revolucionária, pois isso significa atacar os lucros dos oligopólios ultrarricos das indústrias e sistema financeiro do mundo capitalista que se articulam aumentando a exploração, opressão, racismo e todo tipo de opressão.

O bloqueio a Cuba responde a essa necessidade e acaba sendo um símbolo de independência nacional que não pode ser seguido por nenhum outro povo. Mas apesar de todas as dificuldades e da tentativa de gerar uma convulsão social generalizada que ainda não existe, a violência, a fome, as doenças, a desagregação familiar, analfabetismo e outras situações tão comuns no mundo capitalista, incluindo o Brasil, estão praticamente ausentes.
Vejamos a educação no Brasil que é atacada severamente pelos governos de direita e fascistas como São Paulo, Paraná, Minas Gerais, que se rendem a especulação do setor privado para tornar o conhecimento produzido socialmente em mercadoria. O Brasil apesar de um PIB de aproximadamente U$ 2,5 trilhões para uma população de duzentos e cinquenta milhões, investe na faixa de 4% – 5% do PIB, levando em consideração que temos uma rede privada de ensino no setor básico e superior crescente. Em Cuba o ensino é 100% público estatal com investimento de aproximadamente 10% do PIB.
A relação do uso do dinheiro público no público explica por que o estado Cubano consegue ter ensino integral de qualidade, enquanto no Brasil temos essa modalidade de ensino engatinhando e servindo aos setores privados que disputam o orçamento público por meio da terceirização e precarização dos profissionais da educação, mas também com o oferecimento de material didático plataformizado e engessado, eliminando a população dos rumos e decisões da educação.
Em tempos de crise do capital, que é estrutural, ou seja, própria do modelo de exploração do ser humano, as saídas encontradas têm sido mais exploração e sequestro dos orçamentos sociais das nacionalidades e consequentemente mais crise social. A solidariedade a Cuba é humanitária, mas também defensiva para todas as nacionalidades que lutam por um sistema social justo e igualitário, mas também com democracia: Socialismo e Democracia.
E é preciso dizer com todas as letras: não se trata de um efeito colateral. Trata-se de uma estratégia.
Atacar a educação em Cuba é tentar atingir aquilo que a Revolução construiu de mais poderoso: a consciência de seu povo. Porque um povo instruído pensa, questiona, resiste. E é exatamente isso que se busca conter.
Ainda assim, Cuba resiste
Há relatos de manifestações nos momentos mais agudos da crise econômica contra o governo4, porém o ATO do 1o de maio em Cuba foi uma grande demonstração de força do povo e dos movimentos sociais e políticos de solidariedade internacional, contra o bloqueio e qualquer forma de intervenção na ilha.
Cuba resiste mantendo escolas abertas, ainda que em condições adversas. Resiste sustentando o princípio de que educação é direito, mesmo quando falta quase tudo. Resiste, sobretudo, na consciência de seu povo, que segue defendendo suas conquistas não como memória, mas como projeto vivo.
A educação cubana não é apenas um sistema de ensino. É uma afirmação política de que o conhecimento pode ser coletivo, público e emancipador.
E é por isso que segue sendo alvo.
Mas também é por isso que segue sendo exemplo.
Notas
1 López, Margarita Quintero: La educación en Cuba: sus fundamentos y retos actuales, 2011;
2-VELA VALDÉZ, J. (Ministro de la Educación Superior de Cuba.) Mesa Redonda de Apertura del Año Lectivo 2006-07. Habana-Cuba, 2006. (uma fita de vídeo);
3 Vieira, Carlos Alberto Cordovano: Cuba: vetores da crise contemporânea- Revista Fim do Mundo, nº 13, jan/jun 2025;
4 Bütikofer, Erika Andrea: Entre mobilidades e imobilidades: a experiência cubana na era da pandemia e do ativismo digital – MEDIAÇÕES, Londrina, v. 30, p. 1-19, 2025 | e51536pt.
Tabela 1: CUBA. Ministerio de Educación, 2011. Apud GAUCH, 2009, p. 57.
Tabela 2: CUBA. Ministerio de Educación Superior (MES). Evolución de la matrícula en la Educación Superior. La Habana: MES, 2007.
Tabela 3: https://pt.tradingeconomics.com/cuba/population
Tabela 4: https://anuario.todospelaeducacao.org.br/2025/capitulo-9-financiamento.html#
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