Cuba, mi amor!
Publicado em: 3 de junho de 2026
REVOLUCIÓN:
Es sentido del momento historico
es cambiar todo lo que debe ser cambiado;
es igualdad y libertad plenas;
es ser tratado y tratar a los demás como seres humanos;
es emanciparnos por nosotros mismos y con nuestros propios esfuerzos;
es desafiar poderosas fuerzas dominantes dentro y fuera del ámbito social y nacional;
es defender valores en los que se cree al precio de cualquier sacrifício;
es modestia, desinterés, altruísmo, solidaridad y heroísmo;
es luchar con audacia, inteligencia y realismo;
es no mentir jamás ni violar principios éticos;
es convicción profunda de que non existe fuerza en el mundo capaz aplastar la fuerza de la verdad y las ideas.
REVOLUCIÓN es unidad, independencia, es luchar por nuestros sueños de justicia para Cuba y para el mundo, que es la base de nuestro patriotismo, nuestro socialismo y nuestro internacionalismo.
Fidel Castro Ruz (Mural de escola em Trinidad – Cuba)
Entre os dias 29 de abril e 20 de maio de 2026 estivemos em Cuba. Fomos “ver a vida lá” e a Revolução que “tocou meu coração” (Quero Ir à Cuba, Caetano Veloso, 1983), desde os primeiros passos militantes socialistas. Foram dias de imersão profunda nas muitas camadas do processo histórico-social cubano. Certamente, muitos dias a mais seriam necessários para compreendermos ainda melhor a ilha nas suas contradições e complexidade. Portanto, esses registros que ora compartilhamos não têm maiores pretensões, para além de dividirmos nossa breve, porém intensa, experiência. Lembrando Conceição Evaristo, segue a “escrevivência” desses dias que marcaram indelevelmente nossa vida. Por isso, o título: Cuba, mi amor! É assim que cubanos e cubanas nos dirigiam a palavra no dia a dia, afetivos/as e gentis: “mi querida, mi amor, mi cariño”, desde guias, garçons e músicos, até as pessoas que nos receberam em suas casas em Havana, Trinidad e Santa Clara, e motoristas de triciclos elétricos cada vez mais presentes no transporte urbano. Esse acolhimento afetivo é de chamar a atenção em tempos de gentileza rara nas relações competitivas, individualistas e violentas que temos no capitalismo em crise e decadente.
Partimos para Cuba já receosas de uma invasão norte-americana iminente e levando solidariedade nas malas recheadas de medicamentos, informadas da escassez de insumos na saúde cubana – que já foi considerada uma das melhores do mundo -, em função do recrudescimento do bloqueio estadunidense por Trump/Rubio, e suas ameaças sobre os países que mantiverem relações econômicas com Cuba.
Chegamos na ilha em um voo que levava mais 52 brasileiros/as participantes de uma brigada de apoio a Cuba, e que carregavam na bagagem esperança, apoio solidário, convicção revolucionária e muitos, muitos pacotes e malas com ajuda humanitária. O pouso emocionante se deu sob gritos de “Viva Cuba, Viva Cuba”.

E, assim, adentramos naquela que seria uma viagem de descobertas profundas, que transformaria para sempre nossa relação com Cuba. O que antes era apoio militante àquela experiência de transição socialista em curso em sua luta histórica contra o imperialismo, se engrandeceu com a admiração fortalecida pela convivência com o povo cubano num cotidiano marcado por tensões constantes, mas também por um forte e emocionante espírito de resistência, diante de todas as contradições e dificuldades produzidas pelo bloqueio criminoso, mas também por outras determinações processadas pela transição socialista num só país.
“La Habana vive en mí”
Essa frase estava estampada em uma faixa nas grandes marchas de 1 de maio de 2026, que iniciaram na madrugada partindo de várias partes da cidade em direção à “Tribuna Antimperialista” erguida diante da embaixada dos EUA. Ali se reuniram cerca de 500 mil pessoas, mesmo com dificuldades de transportes na cidade e na ilha. Esse foi um dia de emoções fortes, no meio da multidão, sob a música belíssima da nova trova cubana de Silvio Rodríguez, Pablo Milanés, Noel Nicola, Sara González, Vicente Feliú e tantos/as outros/as, e lembrando os cem anos de nascimento de Fidel. Testemunhamos nesse dia que a Revolução, além da linda cidade de La Habana, vive no coração cubano, mesmo com o cerco e as dificuldades e contradições ao longo de seus 65 anos de experiência. Este “vive en mí” não é somente um sentimento cubano, mas de muitas pessoas que nasceram, cresceram e militaram tendo a mais internacionalista das revoluções como referência de vida. Desde que pisamos em Cuba fomos tomadas por uma sensação de pertencimento à ilha de Fidel Castro Ruz, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Célia Sanchez, Haydée Santamaria, Vilma Espín, e tantas e tantos jovens que entregaram suas vidas à Revolução e outros/as tantos/as que acreditam e lutam pela sua permanência, ainda que precise urgentemente de mudanças para seguir existindo.

Buscamos viver e sentir o máximo possível a realidade e o cotidiano de quem está sob um bloqueio genocida que suprime suas condições normais de vida, que vive em constante tensão com sucessivas ameaças de invasão, que sofre o cansaço da falta e da escassez material imposta desumanamente pela política estadunidense. Conhecemos 05 cidades (La Habana, Trinidad, Santa Clara, Cienfuegos e Viñales), nas três primeiras alojadas em casas de moradores (Hostales regulamentados pelo Estado); e 02 lugares litorâneos hospedadas em hotéis (Cayo Santa Maria e Varadero) de redes majoritariamente espanholas e canadenses que, enquanto escrevemos esse texto, anunciaram a saída da GAESA (Grupo de Administração Empresarial S.A, controlado pelo Governo e que administra o turismo). Por imposição das sanções estadunidenses, estas redes, que administram aproximadamente 68% da rede hoteleira, anunciaram sua retirada da Ilha, o que será mais um duríssimo golpe para o escasso turismo que ainda contribui para a economia.
Voltamos com muitos sentimentos misturados e elementos a processar. Admiração pela resistência, altivez, e força do povo cubano, que tenta seguir o dia a dia com a “normalidade” possível de quem vive muitas e muitas horas, às vezes dias, sem luz, sem água, sem alimentos básicos, sem medicação, sem transporte regular, sem tantos outros insumos fundamentais para uma vida que sempre foi digna, ainda que, muitas vezes, modesta. Há uma unanimidade entre as pessoas com quem trocamos ideias e impressões de que Cuba convive desde 1962 com embargos, mas este é o pior momento da sua história pós-revolucionária. Nem o chamado Período Especial, com o fim da URSS no início dos anos 90, que implicou na perda de suportes materiais importantes para Cuba, pode ser equiparado ao que acontece hoje. Trata-se de um “novo” tipo de guerra travada contra Cuba pelos EUA, que impõe um cerco naval e energético antes nunca visto, que atinge e pune toda a população, fortalecido pela conivência e silêncio de países e seus governos, que se curvam ao poderio e imperialismo americano.
Nos dias em que estivemos lá, a CIA/EUA foi à La Habana para pressionar o governo e “oferecer ajuda” em troca da mudança de regime. Escrevemos esse artigo acompanhando com tristeza pelas redes sociais o povo cubano anunciar que “defendiemos la paz, preparándonos para defenderla”, se preparando para uma possível invasão militar. Uma invasão americana à Ilha de 11 milhões de habitantes, dispostos a defender a soberania da pátria, contra o maior império armamentista do mundo, que busca incansavelmente forjar argumentos para uma intervenção violenta, a exemplo das acusações recentes contra Raul Castro Ruz, pode provocar um massacre de proporções inimagináveis.

Por enquanto, estamos diante de uma guerra por asfixia, que atinge toda a população, e de motivação torpe: a intolerância neofascista diante de um povo que tomou o destino em suas mãos e engendrou sua transição ao socialismo, reforçada pelos lobbies dos ressentidos expropriados cubanos e sua descendência, que vivem majoritariamente na Flórida. O que buscam é retomar suas propriedades, protegidos pela legislação americana – a exemplo do Helms-Burton Act, de 1996, que admite a reivindicação na justiça norte-americana de propriedades expropriadas pela Revolução em Cuba – como se ela tivesse validade imperial; e, sobretudo, o saque econômico das imensas riquezas da ilha, desde terras raras, petróleo, campos produtivos e até a imensa beleza do mar caribenho. Essa experiência nos mostrou que a tarefa como latino-americanas/os e socialistas internacionalistas é a da solidariedade e da denúncia: organizando brigadas e missões, pressionando os governos a enviar provisões e petróleo, dialogando com setores norte-americanos insatisfeitos com o autoritarismo trumpista para que ponham um fim ao neofascismo.
Sentimos profunda tristeza com o sofrimento cotidiano ocasionado pela escassez forçada, que hoje leva cubanos a abordarem nas calles os poucos turistas e viajantes que tiveram a ousadia de estar em Cuba neste momento. Se Cuba respondeu ao Período Especial incrementando o turismo para trazer divisas para a ilha, hoje esse movimento diminuiu drasticamente em relação ao início desse século, com repercussões duras sobre o emprego e a renda. Nos deparamos com algumas poucas pessoas idosas, crianças e adultos com voz e atitude nitidamente constrangidas, pedindo medicamentos, comida, muitos/as com a preocupação de justificar a abordagem pela situação atual. A dignidade que ecoava das palavras dessas pessoas nas ruas, nos provocou lágrimas incontidas.
Vivemos os apagões energéticos de horas nas cidades por onde passamos, com impactos deletérios sobre a vida cotidiana da população, que busca estratégias de sobrevivência. As carroças com a tração de cavalos e bois (no interior) estão de volta, ao lado dos triciclos elétricos, constituindo uma estranha paisagem que mistura o século XIX e o século XXI. E anda-se muito a pé! Vendedores de carvão circulam pelas ruas das cidades, já que muitos/as estão cozinhando com lenha e carvão em solares e prédios, considerando a interrupção da energia e, por vezes, também falta de gás. Andamos com lanternas recarregáveis em punho pelas ruas escuras de La Habana e Trinidad. Com a falta de luz, a população fica na rua, nas portas de suas casas, conversando ou simplesmente fugindo do calor implacável da Ilha. Os que têm placas solares e geradores recarregáveis e/ou movidos a gás, com alguma energia em casa ou em restaurantes, ajudam a iluminar a rua, facilitando os caminhos. É preciso registrar que apesar da escuridão, não tivemos em momento algum a sensação de insegurança pública. Imaginamos o que aconteceria se algo assim ocorresse no Rio de Janeiro, onde a violência endêmica faz com que muitos/as moradores/as, especialmente se forem negros/as, convivam com o medo cotidiano. Nas cidades cubanas não observamos policiamento ostensivo, com armas letais apontadas para fora, como vemos diariamente nas ruas cariocas.
Vejam, caros/as leitores/as: este era um país em que a revolução socialista enfrentou os “grandes problemas” que faziam da Cuba pré-revolução, um país então de 5,5 milhões de habitantes, profundamente desigual, conforme escreveu Fidel no “Programa del Moncada” em 1953, em seu manifesto de autodefesa conhecido como “La Historia me Absolverá” e se tornou o manifesto político do Movimento 26 de Julho: 1) a concentração das melhores terras em mãos estrangeiras sem cultivo; 2) a ausência de industrialização, com predomínio de produção de bens primários, e domínio da produção açucareira por um conglomerado de 04 companhias americanas; 3) o grave problema da moradia, com mais de 33% de cubanos vivendo em moradias insalubres em favelas, cortiços, barracões e mais de 2 milhões pagando aluguel; 4) a falta de trabalho, que obrigava mais de 30% da população a viver de jogos, prostituição, mendicância; 5) o analfabetismo que atingia 22% da população e a reduzida escolaridade; 6) a dramática condição de saúde da maioria da população acometida de doenças parasitárias decorrentes do pauperismo, além de tuberculose, febre tifoide, entre outras, leitos insuficientes e acesso a hospitais mediado pelo clientelismo político, e mortalidade infantil de 60 por cada mil nascidos vivos. (Dados e informações do Centro Fidel Castro Ruz)

A revolução socialista enfrentou e extirpou esses problemas: realizou reforma agrária; manteve pequenas propriedades privadas no campo e nas cidades (cada cubano pode ter até 3 moradias, sendo uma na cidade e 2 no campo ou litoral); nacionalizou empresas e diversificou a produção; transformou as mansões burguesas em “solares” (moradias comunitárias) e construiu amplos conjuntos habitacionais em toda a Ilha, acabando com os chamados “assentamentos” provisórios e habitações insalubres e assegurando casas dignas, ainda que modestas, a 100% da população, sem pessoas dormindo nas ruas; acabou com o desemprego e garantiu trabalho para todos/as; derrotou o analfabetismo – é uma população 100% informada e culta -, instituiu o mais amplo e desenvolvido sistema de saúde pública, reconhecido em todo o mundo. São conquistas sociais que mesmo os países capitalistas que se consideram os mais “desenvolvidos” não alcançaram.

Muitas dessas conquistas sobreviveram ao bloqueio americano até os anos 1990, mas estão em risco profundo, principalmente após o cerco total recente que vem provocando a mortalidade infantil, que dobrou no último período, segundo denúncia do governo cubano na ONU, passando de cerca de 4,2% para 9,1%, de mil nascidos vivos. Portanto, essa perda de conquistas sociais fundamentais da Revolução é verdadeiramente dramática e revoltante. Pelas gentilezas e dignidade presentes nas trocas que tivemos com o povo cubano em várias de suas camadas estamos convencidas de que nas seis décadas de revolução, “o homem novo, a mulher nova” proclamados e defendidos por Che Guevara começaram efetivamente a se constituir. Forjou-se, sim, uma consciência moral e social pautada pela solidariedade, respeito, gentileza, amabilidade e profundo compromisso com a pátria, o internacionalismo e o socialismo. A pergunta que ecoa e que mesmo cubanos e cubanas não têm resposta hoje, é: o que vai se passar com Cuba? A revolução socialista será capaz de resistir a tão profundos ataques e contradições? Será possível garantir a vitória do espírito socialista e patriótico que “vive en mí” como afirmavam as/os manifestantes no 1 de maio, diante das pioras agudas de suas condições objetivas de existência?
Contradições e desafios da Revolução
As análises sobre a (im)possibilidade do socialismo em um só país vêm de longa data na tradição marxista. A restauração do capitalismo de forma violenta e predadora no leste europeu desde a simbólica queda do Muro de Berlim (1989) e dissolução da URSS (1991), são elementos factuais que corroboram aquela tese de Trotsky e outros. Uma ilha situada a menos de 200 km do imperialismo norte-americano, que já foi o centro difusor da máfia ítalo-americana como atesta o histórico Hotel Nacional, inaugurado com pompa em 1932, que realizou uma revolução icônica e resistiu a várias iniciativas contrarrevolucionárias, veio se deparando, nesses 65 anos de transição ao socialismo, com inúmeras dificuldades e contradições. Muitas delas impostas pelo capitalismo mundializado pós-soviético em sua sanha expansiva, num novo contexto geopolítico que recrudesceu os embargos sobre a ilha, mas algumas também provocadas pelas respostas governamentais ao longevo bloqueio. Sobre o cerco cada vez mais crescente e pusilânime, é óbvio: Cuba está impedida de negociar insumos fundamentais para a sobrevivência cotidiana da população com qualquer país, sob ameaça de tarifas e taxas a serem impostas pelo imperialismo americano.

Nos poucos, mas intensos, dias vividos em Cuba, é impossível não constatar (e ouvir) contradições que emergem dos processos e dinâmica interna, que revelam a existência (e também necessidade objetiva) de um forte desejo de mudanças, que não é necessariamente contrarrevolucionário, mas pode chegar a ser, destacadamente entre uma juventude que não vislumbra futuro para si e que sai da Ilha para buscar trabalho e condições econômicas para ajudar as famílias, o que é muito preocupante, e para o que corrobora a asfixia no cotidiano atual. Considerando Cuba como um país em transição ao socialismo e as dificuldades da construção isolada, tem-se que desde o Período Especial nos anos 90, a condução político-econômica realizou escolhas que introduziram relações de mercado, mesmo que sob estrito controle estatal, por meio da criação de micro, pequenas e médias empresas (MIPYMES) em 2021. Foi uma mudança histórica e profunda na legislação, que permitiu ao Estado e ao setor privado instaurar empresas privadas na Ilha, após quase seis décadas de nacionalização e estatização.
Foi uma saída para a lida com a decadência da produção açucareira, do turismo e a retirada russa da ilha, que nunca foi compensada pelas relações com a Venezuela, mesmo que estas tenham talvez adiado uma crise mais profunda, como a atual. A crise se instala efetivamente e se agudiza com o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, e o nítido retrocesso das relações da Venezuela com Cuba, implementadas pela atual presidenta da Venezuela, Delcy Rodriguez. Mas seus sinais já vinham de antes: os impactos da pandemia de Covid na ilha não se mostraram no número de óbitos, um dos menores do mundo proporcionalmente à população, ao contrário do Brasil, e o esforço do eficiente sistema cubano de saúde pública que pesquisou e produziu cinco vacinas e exportou médicos para o mundo. Contudo, o fluxo do turismo que aportava divisas para a ilha descendeu vertiginosamente. Pudemos observar in loco essa situação, agravada pela crise atual: os hotéis dos cayos estavam fechados, exceto em Santa Maria, onde de 10 hotéis apenas 1 estava em funcionamento, com equipes de trabalhadores/as revezando turnos em função dos problemas de combustível e alimentação. Em La Habana, os museus estavam com funcionamento descontínuo e restaurantes se esforçavam para manter cardápios adaptados aos produtos existentes. Mas é duro ver a famosa sorveteria Copélia semifechada, sem seu famoso e icônico sorvete de “morango y chocolate”, e a maioria de cubanos e cubanas sem condições financeiras de frequentar os “paladares”1, e restaurantes privados que proliferaram rapidamente.
Se, por um lado, as MIPYMES são um canal de entrada de divisas, insumos e mercadorias na Ilha, mantendo um mercado ativo, já que podem importar legalmente sob controle e pagamento de impostos ao Estado, as mudanças impetradas provocaram um processo de dolarização informal nas relações mercantis e inflação galopante. Entre 1994 e 2021, o Peso Conversível Cubano (CUC) mantinha paridade fixa de 1 CUC para 1 dólar norte americano. Mas em 2021 o CUC foi extinto e substituído pelo Peso Cubano (CUP) e, desde então, vem ocorrendo uma desvalorização do CUP, que impacta diretamente na inflação e no acelerado e incontrolável aumento de preços. Como muitas das mercadorias chegam à Ilha importadas pelas MIPYMES (privadas, estatais ou mistas), os preços são estabelecidos em dólares e convertidos em CUP. No câmbio oficial, 1 USD equivale a aproximadamente 120 CUP, mas no dia a dia, nunca conseguimos fazer câmbio com essa taxa. Na prática, é o mercado paralelo (informal) que determina o câmbio, equivalendo 1 USD a 500 pesos cubanos, sendo este o valor utilizado para serviços (transporte) e comida. Em quase todos os cardápios dos “paladares” há duas colunas de preços: em dólar e em CUP, utilizando a conversão U$1-500 CUP.
Conhecemos em Trinidad uma grande feira de rua, com imensa variedade de mercadorias, desde comidas (vimos feijão e arroz brasileiros), carnes (principalmente porco, carneiro e frango), frutas e verduras produzidas em Cuba, até eletrodomésticos (panelas airfryer, televisão, máquina de lavar roupa e uma infinidade de lanternas, ventiladores recarregáveis etc.).
Mas os preços, dolarizados e convertidos em CUP são proibitivos para a maioria da população, com salários corroídos pela inflação. Não existem gigantescas disparidades salariais, o salário médio cubano corresponde a 4.000 CUP, o que corresponde a 8 USD na economia real (ou 34 USD no câmbio oficial), mas não conseguem pagar os preços das mercadorias dolarizadas. O quilo de arroz e feijão (comida base do dia a dia cubano) era vendido na feira a preço variando entre 600 e 700 CUP; uma caixa com 30 ovos chegava a 4.000 CUP (USD 8). “A Libreta de Abastecimento”, que todas as famílias cubanas têm direito desde a Revolução, corresponde aproximadamente a 1.500 pesos por pessoa por mês, mas só pode ser utilizada para retirar os alimentos básicos nas “tiendas” estatais, muitas delas esvaziadas de insumos devido aos bloqueios, o que obriga cubanos e cubanas a utilizar os salários para comprar alimentos nos mercados paralelos, mediadas pelas MIPYMES que realizam suas compras na Zona Franca do Porto de Mariel, e cujos preços são majorados pelo transporte, especialmente para o interior, devido ao aumento dos preços de combustíveis, escassos devido ao bloqueio.
Essa situação vem provocando o reaparecimento da desigualdade social entre quem tem acessos possibilitados pelas “novas” relações mercantis e a maioria que não tem recursos suficientes para acessá-las e não consegue suprir suas necessidades a partir dos aportes estatais, e vê sua vida se degradar dia a dia, enquanto muitos/as se beneficiam das novas regras. Essa desigualdade reaparece com recorte racial, pois é visível que os “novos” microempreendedores, os donos dos restaurantes privados, os proprietários de táxis, são pessoas brancas. Mas são negras as pessoas que abordam turistas nas ruas pedindo medicamentos, comidas e dinheiro, que vendem nas calçadas qualquer coisa que possa interessar aos turistas, que remexem os lixos acumulados e não recolhidos por falta de combustível, ou os que passam o dia sentados em frente aos “solares” degradados em que vivem, porque não têm trabalho.
“Patria o Muerte, Venceremos”

A vida cotidiana em Cuba está realmente difícil e não se pode romantizar o cotidiano desgastante da população, privada de suas históricas conquistas, e submetida à escassez de comida, medicamentos e reaparecimento de moradias insalubres. Seguramente, a principal causa destas condições objetivas é o cerco genocida contra a população, que não pode ser explicado apenas pelo empenho ideológico estadunidense em colocar fim ao regime socialista. Suas principais determinações são os interesses econômicos capitalistas para exploração da imensa riqueza material e imaterial que forma Cuba.
Também não se pode ignorar as críticas de cubanos e cubanas, que defendem o socialismo e estão dispostas a morrer pela pátria, mas que sinalizam o que consideram escolhas econômicas equivocadas da burocracia estatal, como por exemplo, o fim da paridade dólar/peso cubano, o elevado investimento estatal em hotéis de luxo para um turismo enfraquecido, enquanto muitos “solares” estão quase em ruínas, um certo abandono da produção açucareira, que hoje obriga Cuba a importar açúcar, o reduzido investimento em produção rural diversificada, especialmente frutas e verduras, um elevado gasto com manutenção de privilégios para pessoas vinculadas aos setores militares, certa lentidão na transição energética que poderia gerar menos dependência da energia fóssil. Estes são frequentemente apontados como “erros” cometidos pelo governo na tentativa de enfrentar o bloqueio.
As lutas e movimentos por um socialismo democrático vem ganhando cada vez mais adeptos, seja nos movimentos feministas que conquistaram a legalização do aborto – realizado no sistema público desde 1965 – e uma nova e avançada legislação que alterou o Código de Família em 2022, seja nas lutas LGBTQIA+, que venceram a repressão e opressão retratadas no famoso filme Morango y Chocolate (Direção de Juan Carlos Tabío, Tomás Gutiérrez Alea, 1993, Vencedor do Prêmio Goya), e que hoje tem o direito ao casamento inscrito na Constituição do país desde 2019. Temos notícias de que em julho de 2021, sob o impacto econômico e social da pandemia, houve manifestações dissidentes no país, sobre as quais lemos, mas nada escutamos nessa nossa passagem, e que certamente sinalizam as contradições em curso.
Os indícios da necessidade de cambiar são sensíveis: “Cuba está mudando aceleradamente e ainda não sabemos o que sairá dessas mudanças”, nos disse um cubano já aposentado; “Os cubanos não estão preparados para o capitalismo, mas precisamos de mudanças para seguir vivendo”, também ouvimos de uma jovem com nível universitário que trabalha como garçonete em um restaurante privado. Voltamos de Cuba com a convicção de que a consciência revolucionária consolidada nesses 65 anos forjou o compromisso com o chamado “pátria ou morte”. Resta saber se o mundo permitirá que estas mudanças sejam construídas de forma soberana pelo seu povo confrontando suas contradições, ou serão resultado do genocídio silencioso que está sendo imposto pelo imperialismo americano com anuência e/ou covardia internacional, erodindo o projeto socialista e profundamente humanista de Che, Camilo e Fidel.

De nossa parte, seguiremos na solidariedade internacionalista, fortalecendo que mais uma vez o povo cubano assegure com suas mãos, corações e mentes seu próprio destino. Apostamos no que vimos e sentimos. A esperança reside na inspiração insurgente que marca a experiência histórica deste povo desde a Sierra Maestra – lembrada no Centro Fidel Castro, no emocionante Memorial Che Guevara e na Casa del Mate (Santa Clara) – até o 1 de maio de 2026. A liberdade criativa e revolucionária atravessa movimentos culturais atuais como a Fábrica de Arte Cubana (FAC – La Habana), o espaço cultural El Mejunje em Santa Clara, bem como a arte cubana de ontem e hoje que está nas ruas, nos museus, na Fusterlandia, na musicalidade impressionante, do mais tradicional Chan Chan às expressões atuais. A resiliência e fé na vida e no futuro estão no sorriso e na gentileza de um povo que está lutando bravamente contra forças poderosas, como dizia Fidel na epígrafe deste texto. Que tudo se reúna em uma sinergia que imponha freios ao imperialismo e ao neofascismo, e assegure a paz, por Cuba livre e soberana.
*Todas as fotos foram tiradas pelas autoras durante a viagem à Cuba em maio de 2026.
1 A designação “paladares”, segundo nos contaram, foi inspirada no nome do restaurante Paladar, na primeira versão da novela Vale Tudo, muito popular por lá, ademais como as telenovelas brasileiras em geral, como faziam questão de nos dizer em inúmeras conversas. No livro Ir até Havana (2025), Leonardo Padura confirma essa versão.










