Crise energética e impactos sociais: o cotidiano sob bloqueio em Cuba
Relatos de Cuba - 2
Publicado em: 29 de março de 2026
Militantes do PSOL (Grupo Semear) integraram o comboio internacional Nuestra América, uma iniciativa de ajuda humanitária ao povo cubano diante do agravamento das condições de vida na ilha. Esse cenário se intensificou especialmente após o endurecimento do bloqueio econômico, ocorrido durante o segundo mandato de Donald Trump, mais especificamente a partir de 3 de janeiro de 2026, quando ocorreu o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, afetando diretamente o fornecimento de petróleo da Venezuela a Cuba, sua matriz energética e, consequentemente, o cotidiano da população.
A delegação brasileira foi composta por sindicalistas — professores das redes estadual e municipal de São Paulo, metroviários e petroleiros —, além de parlamentares comprometidos com a solidariedade internacional. Ao longo da missão, participamos de reuniões com ministérios, embaixadores e movimentos sociais, aprofundando o diálogo sobre os desafios enfrentados pelo país.
O ponto alto ocorreu no dia 21 de março, em um ato no ICAP (Instituto Cubano de Amizade dos Povos), quando foi entregue a primeira leva de insumos e medicamentos arrecadados pelo comboio Nossa América de Solidariedade Humana e Ativa a Cuba. As doações, vindas de diferentes partes do mundo, expressam um esforço internacionalista concreto. No dia 23, chegou à ilha uma flotilha marítima com novos carregamentos, incluindo placas de energia solar e itens de primeira necessidade.
Mas como vive hoje o povo cubano?
A crise energética está no centro da resposta. Para além do embargo econômico que acompanha os primórdios da Revolução, a manutenção de Maduro em cativeiro na cidade de Nova Iorque e a consequente tutela sobre o governo venezuelano intensificaram a pressão econômica na região. A imposição de tarifas sobre países latino-americanos levou à ruptura de uma série de acordos bilaterais entre Cuba e seus vizinhos, envolvendo, principalmente, o Programa Mais Médicos, que historicamente representa uma importante fonte de divisas para a ilha caribenha — como nos casos de Jamaica, Honduras e Guatemala —, além da ruptura de relações diplomáticas, como ocorreu com a Costa Rica, que retirou sua embaixada de Cuba.
>> Leia também: Cuba hoje: entre o cerco econômico e a resistência de um povo
É importante ressaltar que, ao ser classificada pelos Estados Unidos como nação patrocinadora do terrorismo, somada às frequentes ameaças de invasão, Cuba também teve seu setor turístico — segunda maior fonte de divisas do país — duramente afetado.
Desde então, Cuba já enfrentou sucessivos apagões. Foram ao menos nove grandes eventos de interrupção desde o agravamento recente desse cerco. Quando deixamos o país, o fornecimento de energia ainda não havia sido plenamente restabelecido em diversas regiões.
Em muitas áreas, a instabilidade energética atinge níveis extremos, com interrupções que duram até três dias consecutivos. Em outras, a eletricidade chega de forma intermitente, muitas vezes apenas durante a madrugada — entre duas e quatro da manhã —, obrigando a população a reorganizar completamente sua rotina nesse curto intervalo. É nesse tempo que as pessoas precisam bombear água, cozinhar, lavar roupas e realizar tarefas básicas antes de enfrentar longos deslocamentos a pé, frequentemente por quilômetros, até o trabalho.
Esse cenário deteriora profundamente as condições de vida e compromete até mesmo o acesso à alimentação. Diante da escassez, muitas famílias voltaram a cozinhar com lenha, intensificando o corte de árvores e agravando também a crise ambiental.
Os impactos são igualmente severos nos serviços públicos. A educação, uma das maiores conquistas da Revolução, segue funcionando, mas sob fortes restrições. Na educação básica, o país — que erradicou o analfabetismo e construiu um sistema educacional de alto nível — viu-se obrigado a reduzir o ensino integral, realidade consolidada por décadas, para jornadas de meio período, como forma de economizar energia. As universidades, por sua vez, encontram-se de portas fechadas, com dificuldade em manter até mesmo o funcionamento mínimo do ensino a distância, por motivos evidentes.
Durante a visita, estivemos na escola primária Combatentes de Bolívia, no bairro de Nuevo Vedado, em Havana, nas proximidades da residência de Aleida Guevara. A unidade atende cerca de 390 crianças, organizadas em 18 turmas. Sua estrutura é simples, mas funcional. A direção relatou os desafios enfrentados e as adaptações necessárias diante da crise, evidenciando o esforço para manter o direito à educação mesmo em condições adversas.
Na saúde, o impacto é ainda mais dramático. O embargo energético sobre os hospitais provoca um efeito em cascata devastador. Além da escassez de insumos básicos — como seringas, bolsas de soro e agulhas —, a falta de eletricidade compromete toda a estrutura de funcionamento: equipamentos laboratoriais param, medicamentos que exigem refrigeração perdem eficácia, bancos de sangue ficam vulneráveis e tratamentos dependentes de máquinas, como ventilação mecânica e hemodiálise, tornam-se inviáveis. O resultado é um colapso progressivo da capacidade hospitalar, com aumento direto dos riscos à vida.
Ainda assim, mesmo sob esse cenário de crise extrema, Cuba segue sustentando suas estruturas sociais essenciais, com instituições sob controle estatal, reafirmando, na prática, um projeto de sociedade que resiste — não sem custos —, mas com uma impressionante capacidade de organização e consciência coletiva.
Nesse sentido, afirmamos como programa político a defesa incondicional do direito à autodeterminação do povo cubano e de todos os povos latino-americanos. Isso exige a ampliação e o fortalecimento das campanhas de solidariedade internacional protagonizadas pela classe trabalhadora brasileira. Defendemos, ainda, a intensificação da pressão política e social para que o governo Lula contribua para a ruptura do bloqueio imposto a Cuba, adotando medidas concretas de apoio, entre elas a articulação internacional para o envio de petróleo humanitário — destinado ao atendimento de demandas urgentes da população cubana, como a circulação de alimentos, o funcionamento de hospitais e ambulâncias, escolas e universidades, além dos serviços de bombeiros e defesa civil na proteção da população vulnerável a furacões e outras intempéries próprias do Caribe. Lula possui autoridade política para atuar com gestos dessa natureza, como prática do internacionalismo e da defesa da soberania dos povos frente às imposições imperialistas.
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