Milagres na saúde em Cuba, mesmo sob bloqueios


Publicado em: 6 de junho de 2026

Nuvpreet Kalra, do portal Counterpunch

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Esquerda Online

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Na semana passada, o Centro Cubano de Imunologia Molecular (CIM) anunciou um importante avanço na área da saúde com a VAXIRA, uma vacina para o tratamento do câncer de pulmão. Trata-se de uma conquista admirável, já que esta é a segunda vacina contra o câncer de pulmão desenvolvida em Cuba.

A vacina interrompe a progressão do câncer ao desenvolver o sistema imunológico do paciente para combater as células cancerígenas, comprovadamente prolongando de forma significativa a sobrevida dos pacientes. Desde 2013, a vacina foi monitorada, testada e avaliada em mais de 1.300 pacientes. Ao longo de dez anos, os pacientes tiveram uma sobrevida de, em média, 76,6 meses, com 20% de todos os pacientes que receberam a VAXIRA apresentando uma inesperada sobrevida prolongada. No ano passado, a VAXIRA recebeu o Prêmio de Inovação Tecnológica em Cuba por sua contribuição para a saúde no país. Este é um feito incrível para a humanidade e para a luta contra o câncer – e está sendo feito em um país que enfrenta o bloqueio mais longo e rigoroso da história.

Em 2011, Cuba desenvolveu a CIMAvax, que continua sendo a única vacina contra o câncer de pulmão aprovada no mundo. Essa vacina age induzindo o sistema imunológico a interromper o crescimento das células cancerígenas e retardar a progressão dos tumores. Ela já tratou mais de 5.000 pessoas em todo o mundo e muitas outras milhares de pessoas em Cuba. Dada a imensa importância da vacina, os Estados Unidos concordaram em fazer um acordo especial para testá-la em território estadunidense. O Instituto de Câncer Roswell Park, em Nova York, realiza ensaios clínicos com a CIMAvax desde 2018. Eles conduziram os primeiros ensaios clínicos da CIMAvax nos Estados Unidos. A mesma nação que impõe um bloqueio genocida a Cuba também se beneficia desses avanços históricos na área da saúde.

Esses grandes avanços na medicina para o tratamento do câncer não são as únicas conquistas impressionantes de Cuba na área da saúde.

Durante a pandemia de COVID-19, Cuba produziu cinco vacinas: Ablada, Soberana 01, Soberana 02, Soberana Plus e Mambisa. O país teve uma das menores taxas de mortalidade por COVID-19 no Hemisfério Ocidental – e, em 2021, a taxa de letalidade em Cuba era de apenas 0,59%, comparada à média mundial de 2,2%. As vacinas foram produzidas sem a necessidade de refrigeração especializada, o que significava que podiam ser facilmente transportadas e distribuídas pelo mundo, inclusive para locais onde o acesso a essa infraestrutura seria impossível. Rapidamente, Venezuela, Irã, Vietnã, São Vicente e Granadinas e México adotaram a vacina para proteger suas populações.

Em 2023, Cuba tinha a terceira maior taxa de vacinação por 100.000 habitantes, apesar de os EUA terem proibido o país de importar as seringas necessárias para imunizar sua população. Nesse contexto, Cuba foi o primeiro país do mundo a vacinar bebês e crianças, como parte de seus esforços para reabrir as escolas com segurança.

Cuba, assim como os Estados Unidos, ofereceu suas vacinas contra a COVID-19 ao mundo. Enquanto Cuba doava vacinas para São Vicente e Granadinas e as vendia pelo menor preço possível, os EUA pressionavam outros países a disponibilizarem seus recursos, como embaixadas e bases militares, para terem acesso às vacinas. Isso visava “protegê-los” contra possíveis processos que os vacinados poderiam mover contra os fabricantes. Essa busca pelo lucro foi uma das principais causas da diferenciação na distribuição de vacinas contra a COVID-19 no mundo todo. Em agosto de 2024, em países de alta renda, mais de 222 doses haviam sido distribuídas para cada 100 pessoas. Já em países de baixa renda, esse número era inferior a 46. Em 2021, as empresas farmacêuticas americanas que produziram as vacinas contra a COVID-19 (Moderna, Pfizer, Johnson & Johnson) tiveram de receita impressionantes US$ 31 bilhões. A ideia de que empresas e acionistas devam lucrar com uma pandemia é absolutamente ultrajante.

Biotecnologia

Cuba lidera o mundo nos avanços em vacinas. Não é por acaso que Cuba consegue desenvolver avanços de ponta na área da saúde. Mas como isso é possível? Cuba desenvolveu um setor biotecnológico de ponta estatal e que opera em prol do interesse do povo, não do lucro. Não há busca pelo lucro na produção de vacinas; a pesquisa e o desenvolvimento visam o benefício coletivo, e os recursos são compartilhados para aprimorar o processo de desenvolvimento científico. Esta é exatamente a situação oposta nos países capitalistas, onde a biotecnologia é uma grande competição dominada por empresas farmacêuticas que visam o lucro, o que muitas vezes significa que, quando há grandes avanços na área da saúde, eles não são acessíveis à população.

Em 1981, Cuba inaugurou o Centro de Pesquisa Biológica, apesar do bloqueio que impedia a entrada de equipamentos e materiais e o acesso a revistas científicas e medicamentos. Nos primeiros nove anos, o Centro produziu três produtos. Entre 1990 e 2000, produziu 18, e, entre 2001 e 2010, mais de 40. Esse número continua a crescer ainda hoje. O Centro floresceu e se tornou um setor biotecnológico de ponta, responsável por importantes avanços na área da saúde. Cuba produziu a primeira vacina humana do mundo contendo um antígeno sintético para Haemophilus influenzae tipo B.

Em 1989, Cuba produziu a primeira vacina contra a meningite B do mundo durante um surto grave da doença no país. Essa foi a primeira vacina já produzida para proteger contra a meningite B e foi exportada para imunizar pessoas em países de toda a América Latina. Os Estados Unidos aprovaram sua primeira vacina contra a meningite B em 2014.

No ano seguinte, em 1990, Cuba produziu uma vacina para a hepatite B. Eles se juntaram a apenas outros cinco países como fabricantes de vacinas contra hepatite B: França, Coreia do Sul, Estados Unidos, Indonésia e Grã-Bretanha. Como o bloqueio dos EUA tornou praticamente impossível e muito cara a importação da vacina, Cuba produziu a sua própria vacina e eliminou a hepatite B em menos de 15 anos.

Em 2006, Cuba desenvolveu o Heberprot-P, o único medicamento no mundo capaz de reduzir em 75% a taxa de amputações em pacientes com úlceras diabéticas nos pés. Em 10 anos, já era utilizado em 23 países, tratando mais de 400.000 pessoas com úlceras nos pés. Em 2024, os Estados Unidos chegaram a romper o próprio bloqueio e aprovaram o medicamento para testes e uso em seu território. A mera ideia de que estadunidenses que sofrem de diabetes possam ser tratados com medicamentos cubanos enquanto são alimentados com propagandas contra Cuba e financiam uma guerra contra os próprios pesquisadores e cientistas cubanos que os ajudam revela o quão desumano é esse bloqueio.

Em 2015, Cuba tornou-se o primeiro país do mundo a eliminar a transmissão vertical (de mãe para filho) do HIV e da sífilis. Cuba conseguiu isso graças ao seu modelo socialista, razão pela qual não é celebrada pela grande mídia nem vista pelos estadunidenses como um centro de avanços na saúde. Essa conquista histórica para o mundo foi resultado do sistema universal de saúde cubano, que integrou programas de saúde materno-infantil com o tratamento de HIV e outras ISTs. Cuba possui uma das menores taxas de AIDS do mundo e a menor das Américas, graças à distribuição gratuita de tratamento antirretroviral desde 2001. Seus programas de vacinação erradicaram doenças (como a difteria em 1979, o sarampo em 1993, a coqueluche em 1994 e a rubéola em 1995) que continuam causando morte e sofrimento em todo o mundo. Cuba também desenvolveu o maior controle da hipertensão do mundo.

Os mesmos princípios que levaram Cuba a produzir avanços médicos de ponta são semelhantes aos que a levaram ao sucesso na eliminação de doenças. O modelo de vacinação de Cuba é motivado pela proteção de sua população. O Programa Nacional de Imunização, iniciado em 1962, salvou a vida de pelo menos 560.000 crianças que, se não fosse pelo programa, teriam contraído doenças. Isso se baseia em quatro diretrizes: equidade na distribuição de vacinas, integração da vacinação na atenção primária à saúde, inclusão da participação ativa da comunidade e fornecimento gratuito de vacinas. Esses princípios indicam a importância central da saúde de toda a sociedade, e não os interesses corporativos ou a ganância.

A abordagem de Cuba em relação aos cuidados com a saúde é indicativa da natureza da revolução: servir os cubanos e os oprimidos ao redor do mundo. Antes da revolução de 1959, 300 crianças por ano ficavam paralisadas pela poliomielite. Uma das primeiras medidas do governo revolucionário foi a imunização da sociedade cubana Em 1962, a campanha contra a poliomielite foi lançada, mobilizando 100.000 membros de comitês revolucionários recém-fundados para realizar um censo populacional e vacinar todas as crianças. Em poucos meses, a poliomielite foi erradicada em Cuba, tornando-se um dos primeiros países do mundo a alcançar esse feito. A poliomielite ainda é uma das principais causas de paralisia e morte em todo o mundo.

Essas conquistas na área da saúde beneficiam profundamente as pessoas no mundo, proporcionando acesso a novos tratamentos e curas, vacinas e medicamentos acessíveis e a preços módicos, além de modelos para a assistência médica. Mas outro elemento inspirador do sistema de saúde cubano é a sua solidariedade internacional.

Cuba devolveu a visão a mais de quatro milhões de pessoas por meio de seu programa conjunto com a Venezuela, a Operação Milagre. Cuba enviou mais de 600 mil profissionais de saúde em missões médicas para 160 países em resposta a pandemias, epidemias, desastres naturais e outras crises em que nenhum outro país agiria. O país treinou e continuou treinando médicos do Sul Global gratuitamente para que pudessem retornar aos seus países de origem e exercerem a medicina.

Cuba realiza essas conquistas milagrosas para a humanidade enquanto enfrenta um bloqueio que causa escassez de medicamentos em farmácias por todo o país, impede o acesso de pesquisadores a periódicos da área da saúde e dificulta a entrada de equipamentos, peças de reposição e materiais de laboratório que poderiam facilitar e agilizar a realização de pesquisas. O bloqueio dos EUA deve ser visto como um ataque à própria humanidade. Trata-se de um ato de guerra genocida contra uma população que exporta médicos para o mundo todo, perpetrado por um império que exporta bombas, aviões de combate e soldados invasores.

Cuba já teve uma das menores taxas de mortalidade infantil do mundo. Mas, desde 2019, com o aumento de mais de 250 sanções contra Cuba, as taxas de mortalidade infantil subiram 148%. Estima-se que isso tenha custado a vida de 1.800 crianças. Este é o resultado material de um bloqueio que visa matar, punir e destruir um país só por afirmar sua própria soberania. Mesmo assim, a taxa de mortalidade infantil de Cuba é menor do que a dos Estados Unidos. Os EUA impõem o bloqueio a Cuba para tentar alegar que Cuba é um “Estado que fracassou”, o que também significa que seu sistema de saúde universal e gratuito “fracassa”; tudo para manter seu sistema de saúde deplorável, que opera puramente com fins lucrativos, apesar do nível de mortes, falências e sofrimento que causa aos estadunidenses pobres.

A verdade é que, mesmo com esse bloqueio genocida, Cuba mantém os princípios de sua revolução e a motivação para melhorar o mundo.

Como Fidel Castro disse em 2003: “Nosso país não lança bombas sobre outras pessoas, nem envia milhares de aviões para bombardear cidades; nosso país não possui armas nucleares, armas químicas ou armas biológicas. As dezenas de milhares de cientistas e médicos do nosso país foram educados com o objetivo de salvar vidas. Seria absolutamente contraditório a esse conceito colocar um cientista ou um médico para trabalhar na produção de substâncias, bactérias ou vírus para matar outros seres humanos”.

Nuvpreet Kalra é Produtora de Conteúdo Digital da CODEPINK. Ela se graduou em Política e Sociologia na Universidade de Cambridge e concluiu o mestrado em Igualdade na Internet na University of the Arts, em Londres. Como estudante, participou de movimentos de desinvestimento e descolonização, bem como de grupos antirracistas e anti-imperialistas. Nuvpreet ingressou na CODEPINK como estagiária em 2023 e agora produz conteúdo digital e para mídias sociais. Na Inglaterra, ela trabalha com grupos de libertação palestina, abolicionismo e anti-imperialismo.

Traduzido por Anderson Santana, do Eol


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