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  • O que revela o resultado dessas eleições?

    Ainda é cedo pra fazer análises sobre o cenário pós eleições e a situação é muito complexa e difícil de entender, mas vou arriscar algumas linhas.

    O momento é muito grave. A clássica frase de Gramsci do “pessimismo da razão e otimismo da vontade” nunca foi tão necessária. Ou, na sua versão reelaborada pela minha companheira Gabriela Mota: “trabalhar pelo melhor, preparado para o pior”. É possível que Haddad vença Bolsonaro e vamos batalhar muito por isso, mas precisamos estar muito conscientes de que o desfecho também pode ser a vitória do coiso.

    Se derrotarmos Bolsonaro teremos uma vitória muito importante sobre o neofascismo. Mas já é um fato que, na suprerestrutura, a extrema-direita sai muito fortalecida dessas eleições. O PSL teve um crescimento exponencial de bancada federal, por exemplo, (passando de 1 para 52) se tornando a segundo maior partido do Congresso, atrás do PT (elegeu 56). Houve uma forte onda bolsonarista, que cresceu muito na reta final, e catapultou dezenas de excêntricos reacionários pelo país.

    Esse ultra fortalecimento da extrema-direita (tendo Bolsonaro como maior expressão) precisa ser compreendido. Talvez possa ser explicado também por um giro de peso do pentecostalismo, especialmente na reta final. Isso tem força. Mas uma coisa também é certa, a consciência da população foi muito à direita após o golpe. Isso combinado, evidentemente, com a crise econômica e social que assola o país. Combinado também, por sua vez, com as influências de um processo que é mundial. O neofascismo me parece uma expressão de uma degeneração da consciência, fruto da fase atual do capitalismo, que agoniza numa crise profunda sem solução. Além disso, há outros ingredientes que compõem esse complexo fenômeno, como o moralismo conservador da sociedade brasileira e um crescimento de uma reação machista, racista e lgbtfóbica aos avanços dessas lutas, entre outros.

    Outro ingrediente é o fortalecimento do anti-petismo (anti-esquerda). Há um ódio forte ao PT, um ódio que gera irracionalidade. Por isso, uma parte dos eleitores de Bolsonaro estão cegos. Fanáticos. Porque canalizam toda indignação e mal estar com o momento que vivemos a um bode expiatório: o PT. Isso somado ao mantra difundido amplamente pela mídia e fortalecido pela operação lava jato, de que o grande problema do país é: corrupção, corrupção, corrupção.

    Uma parte, é verdade, são sujeitos que já eram moralmente degenerados, de mau caráter mesmo, e que agora se sentem à vontade pra botar pra fora todo seu ódio. Não tem ódio só do PT, tem ódio de tudo que não é podre como eles são. É impressionante como entre os mais ativos apoiadores de Bolsonaro encontramos os piores tipos que essa sociedade produziu: como o criminoso que ateou fogo no índio Galdino, que deveria estar preso, mas está organizando carreatas para moralizar o país com Bolsonaro.

    Nem todos os eleitores de Bolsonaro são necessariamente assim. Talvez, uma parte possa ser disputável. Temos que testar isso. Precisamos sim fazer um esforço por dialogar com parte desse eleitorado. Sempre com muito cuidado, evidente, porque alguns estão “entorpecidos” e estes são sim capazes de tudo pra defender seu ídolo. Com esses não devemos manter diálogo algum, por segurança mesmo, porque nossa vida vale muito. Desgraçadamente, já temos vítimas desses monstros e precisamos ter muito cuidado.

    Bom, mas é preciso um olhar também para as outras transformações da superestrutura e tentar entender. A direita tradicional levou uma surra! Foi muito mais destruída nessas eleições do que o PT. O PT (e também o PCdoB, vide desempenho importante da Bahia) demonstrou uma importante capacidade de se recompor pós-golpe, mesmo tendo o seu maior líder preso (preso político). Não podemos esquecer, se tivéssemos com Lula Livre ele ganharia a eleição, talvez no primeiro turno, e talvez reduziria o fortalecimento dos “nazi” (ou semi-nazi). Não estou com isso tirando a responsabilidade que o PT também tem sobre chegarmos onde chegamos. Mas o golpe foi contra todos nós e essa eleição reacionária é um desdobramento dele.

    O PT conseguiu demonstrar muita força, ainda que com derrotas importantes, como a não eleição de Dilma. Ao que parece, houve uma onda forte anti-PT na reta final da campanha. Se isso foi um efeito da influência das pesquisas eleitorais nos ânimos dos eleitores na reta final, ou se havia um forte anti-petismo mais “escondido” e que só veio à tona nos momentos finais é algo que precisamos entender. O fato é que o Nordeste salvou o PT (e o Brasil). Isso se deve a elementos mais profundos. Temos que entender. De fato, nos anos dos governos petistas houve um desenvolvimento dessa região, historicamente abandonada desde que o centro econômico do país se transferiu para o Sudeste. Um desenvolvimento nos marcos de um momento de crescimento econômico do país, onde era possível (não significa que correta) a estratégia do “ganha-ganha” (claro que a elite ganhando muito mais). Além disso os programas sociais (também muito limitados) fizeram muita diferença. Nos rincões mais profundos do Nordeste não havia luz, água potável. A fidelidade de grande parte da massa do Nordeste ao PT tem base concreta.

    Não podemos deixar de considerar, contudo, o enfraquecimento do PT nacionalmente, e que saiu muito derrotado no Sudeste e Sul. Mas o PSDB e o MDB saem ainda mais trucidados desse processo. Só pela bancada federal: MDB: 66 pra 34; PSDB de 54 pra 29. O “acordo nacional, com o supremo com tudo” ao final não foi capaz de os salvar. O golpe só fortaleceu o neofacismo.

    Nós do PSOL somos muito pequenos, é verdade. Mas saímos muito fortalecidos dessa eleição. Evidente que nos marcos da imensa derrota que é a eleição como um todo: uma eleição profundamente reacionária. Não reelegemos nosso senador, mas dobramos nossa bancada federal, de 5 pra 10. Elegemos nosso primeiro estadual na Bahia. Todos os eleitos são importantes expressões das principais lutas que vivemos no país no último período. Pra não falar de Boulos e Sônia, que mesmo com a pequena votação, saem desse processo respeitadíssimos pelo papel que cumpriram. Semearam, junto com todos os militantes do PSOL, PCB e movimentos da frente que construímos, uma poderosa semente para o futuro. Os tempos são difíceis, mas o PSOL se fortalece como um importante pólo de resistência.

    O jogo ainda está sendo jogado. A disputa eleitoral e a luta nas ruas serão determinantes. Vamos com tudo. Cabeça erguida. Fraquejar jamais!

  • 15 livros para entender e combater o fascismo

    Não é qualquer partido ou movimento de direita que pode ser chamado de fascista. O fascismo é um fenômeno muito específico, uma direita muito específica, com características que a diferenciam de outros movimentos de direita. Quando emergiu na Itália, no imediato pós Primeira Guerra Mundial, o fascismo italiano se notabilizou pela mobilização de milícias armadas que atacaram violenta e mortalmente o movimento operário e a esquerda em geral.

    Sendo um fenômeno característico do período do entreguerras, encontrado em diversas sociedades como movimentos de extrema-direita (como na Alemanha com nazismo, e no Brasil com o integralismo), e em alguns países como a Itália e a Alemanha tais movimentos chegaram ao poder constituindo-se num regime político contrarrevolucionário. A recente emergência de movimentos fascistas em vários quadrantes do globo, incluindo no Brasil, produz uma enorme curiosidade militante sobre o assunto. Daí a necessidade de entender a natureza do fenômeno antes de chamar qualquer governo, instituição ou liderança política de fascista.

    O propósito das linhas a seguir é de oferecer um guia de leituras fundamentais da tradição marxista e historiografia disponíveis em português para a compreensão do fascismo.

    ÍNDICE

    1 Revolução e Contrarrevolução na Alemanha – Leon Trotski

    2  A psicologia de massas do fascismo, de Wilhelm Reich

    3  Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci

    4  Lições sobre o fascismo, de Palmiro Togliatti

    5  Introdução ao fascismo, de Leandro Konder

    6  Ditadura e fascismo, de Nicos Poulantzas

    7   Sobre o fascismo, de Ernest Mandel

    8  Teoria do Desenvolvimento Capitalista, de Paul Sweezy

    9  As origens do fascismo, de José Carlos Mariátegui.

    10  Anatomia do fascismo, de Robert O. Paxton

    11  Mussolini e a ascensão do fascismo, de Donald Sasson

    12  Hitler – um perfil do poder, de Ian Kershaw

    13  Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 1930, de Hélgio Trindade

    14  Integralismo e Hegemonia Burguesa: a intervenção do PRP na política brasileira (1945-1965), de Gilberto Calil

    15  Faces do Extremo, de Tatiana Poggi

     

     


    1 – Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, de Leon Trotski

    Revolução e Contrarrevoluçõa na AlemanhaComo bem definiu Trotski, o fascismo é uma contrarrevolução de baixo para cima, uma contrarrevolução que se vale dos métodos da guerra civil para liquidar com as organizações autônomas da classe trabalhadora. Os principais escritos que Trotski dedicou ao assunto foram compilados por Mário Pedrosa e publicados com o nome de Revolução e Contrarrevolução na Alemanha ainda nos anos 1930. Um dos pontos, aliás, que merece destaque nesses escritos é a crítica do revolucionário russo à orientação da Internacional Comunista que, baseando-se numa definição irresponsável que atribuía o epíteto de “fascista” a mais variada gama de governos e partidos, até ao partido socialdemocrata alemão, tachado pela orientação stalinista de “social-fascismo”. Uma importante contribuição de Revolução e Contrarrevolução na Alemanha é a forma como Trotski discute as diferenças entre os regimes políticos assumidos pelo Estado capitalista, distinguindo, por exemplo, a estrutura das ditaduras fascistas das ditaduras militares e dos regimes bonapartistas.

    (Publicado no Brasil pela Editora Sundermann)

    2 – A psicologia de massas do fascismo, de Wilhelm Reich

    Psicologia de massas do fascismoTrabalhando na fronteira do diálogo entre o marxismo e a psicanálise freudiana, o revolucionário alemão Wilhelm Reich começou a escrever em 1932 o livro que no fim de 1933 seria publicado com o nome de A psicologia de massas do fascismo. Buscando investigar a adesão de setores de massa aos movimentos fascistas, o nazismo em particular, Reich buscou em aspectos culturais marcados pela repressão sexual (o que, podemos dizer, estrutura opressões odiosas como o machismo, a homofobia etc.) a predisposição de setores da pequena burguesia de aderirem a movimentos que prometem ordem, liderados por figuras carismáticas que representam uma espécie de “pai salvador”, um pai autoritário capaz de resolver todos os problemas. É claro, dialogando com o marxismo, Reich está atento ao contexto da crise do capitalismo, do fracasso/bloqueio da revolução alemã como base objetiva de tal processo.

    Disponível aqui em PDF

    3 – Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci

    O marxista italiano Antonio Gramsci vivenciou o drama de assistir em sua terra natal a emergência do fascismo que lhe levou à prisão de 1926 até o fim de seus dias. Antes de ser preso, quando trabalhou como jornalista e liderança do movimento dos conselhos de fábrica em Turim, como depois quando se tornou dirigente do Partido Comunista Italiano, Gramsci escreveu uma série de análises seminais sobre o assunto, compiladas no segundo volume dos Escritos Políticos recentemente editado no Brasil. Depois de preso, como é conhecido, Gramsci escreveu três dezenas de cadernos escolares com uma apurada reflexão sobre a teoria política, dentro das quais existe todo um manancial conceitual importante para entender o fenômeno do fascismo, como os conceitos de crise orgânica, cesarismo, guerra de posição, revolução passiva e transformismo.

    Os Cadernos do Cárcere são um texto árido, e uma das muitas razões deve-se ao fato de que seu autor teve que burlar a censura fascista desses escritos. Daí que seja recomendável o uso de comentadores como auxílio à leitura, como o livro O Laboratório de Gramsci, de Alvaro Bianchi e o Dicionário Gramsciano, recentemente editado no Brasil. Naqueles de número 13 e 22 é onde existe o maior número de notas dedicadas ao assunto.

    Disponível aqui em PDF (Volume I)

    4 – Lições sobre o fascismo, de Palmiro Togliatti

    Após a comprovação do desastre da linha seguida pelo Partido Comunista da Alemanha, com a ascensão do nazismo, liquidação da esquerda e instalação do regime fascista alemão, a Internacional Comunista se viu diante de um impasse: como rever a linha política e continuar parecendo coerente? Uma das contribuições interessantes nesse processo foi um curso dado pelo dirigente comunista italiano Palmiro Togliatti, que no verão de 1935 ofereceu um curso na Escola Quadros da Internacional em Moscou, material que só em 1970 seria publicado com o nome de Lições sobre o fascismo. Há no curso uma densa explicação das características do regime fascista italiano, particularmente das instituições criadas pelo fascismo para integrar as massas populares, sejam os sindicatos fascistas, sejam as instituições culturais dedicadas à organização do “tempo livre” (o tempo fora do trabalho).

    Leitura online (Scridb)

    5 – Introdução ao fascismo, de Leandro Konder

    Introdução ao fascismoO filósofo marxista brasileiro Leandro Konder dedicou um importante livro sobre o assunto na década de 1970. Introdução ao fascismo foi escrito, entre outras razões, para combater a tendência de diversas correntes da esquerda de caracterizar as ditaduras militares latino-americanas como fascistas. Assim, através de uma erudita retomada das principais teorias explicativas do fascismo, desde aquela produzida por contemporâneos, como pela historiografia produzida após a Segunda Guerra Mundial, Konder escreveu um dos melhores textos em língua portuguesa sobre o assunto.

    Republicado pela editora Expressão Popular

     

    6 – Ditadura e fascismo, de Nicos Poulantzas

    Fascismo e ditaduraEm 1970, o cientista político marxista Nicos Poulantzas produziu uma obra de grande envergadura: Ditadura e Fascismo: a III Internacional face ao fascismo. Como o próprio título diz, Poulantzas fez o resgate do grande debate entre os intelectuais marxistas no período de emergência do fascismo, destacando as contribuições e os limites de autores como Gramsci, Togliatti, Trotski, August Thalheimer, entre outros, Poulantzas também contribui na compreensão das diferenças entre as ditaduras que o Estado capitalista pode apresentar (particularmente: ditadura fascista, ditadura militar, bonapartismo).

     

    7 – Sobre o fascismo, de Ernest Mandel

    Um pouco mais difícil de encontrar, mas não menos importante, é o livro do marxista belga Ernest Mandel sobre o assunto. Há apenas uma edição portuguesa, da editora Antídoto, onde consta o texto do dirigente trotskista seguido de alguns dos textos de Trotski presentes na já mencionada compilação Revolução e Contrarrevolução na Alemanha.

    Disponível no Marxists Internet Archive, em português
    Disponível em espanhol (PDF)

     

    8 – Teoria do Desenvolvimento Capitalista, de Paul Sweezy

    No livro do economista marxista americano Paulo Sweezy Teoria do Desenvolvimento Capitalista há um importante capítulo sobre o Fascismo. O autor basicamente apresenta e desenvolve a teoria do fascismo elaborada pelo marxista austríaco Otto Bauer na década de 1930, integrando-a à sua teoria sobre a dinâmica do capitalismo monopolista.

    Disponível aqui em PDF

     

     

    9 – As origens do fascismo, de José Carlos Mariátegui

    O marxista peruano José Carlos Mariátegui viveu na Itália quando da ascensão do fascismo. Uma série de artigos publicados naquele país foram reunidos pelo historiador Luis Bernardo Pericás no livro As origens do fascismo. A própria introdução ao volume escrita por Pericás apresenta elementos fundamentais para a compreensão do fascismo italiano.

    Publicado pela Alameda Editorial

     

     


    HISTORIOGRAFIA

    10 – Anatomia do fascismo, de Robert O. Paxton

    O livro do historiador e cientista político americano Robert Paxton Anatomia do Fascismo é uma das melhores publicações disponíveis no Brasil. Além de uma erudita exposição dos principais processos que caracterizaram o fenômeno do fascismo na Itália e na Alemanha no período do entreguerras, há um apurado ensaio bibliográfico com a apresentação sumária da importante e vasta historiografia sobre o assunto.

    Publicado pela Editora Paz e Terra

    11 – Mussolini e a ascensão do fascismo, de Donald Sasson

    O livro do historiador americano Donald Sasson é um dos melhores textos em português sobre a ascensão do fascismo na Itália. Traz uma contribuição teórica importante que é a de desmontar a hipótese de que o fascismo possa ser referido como um movimento supostamente “revolucionário”.

    Disponível para leitura online (Scribd)

    Hitler – um perfil do poder12 – Hitler – um perfil do poder, de Ian Kershaw

    Autor de uma extensa produção sobre o assunto, o historiador britânico Ian Kershaw é autor de duas biografias de Adolf Hitler disponíveis em português. A primeira é o pequeno livro Hitler – um perfil do poder, onde entre outras coisas trata dos principais episódios da história política alemã que permitiram a emergência do movimento nazista e a ascensão de Hitler.

     

    13 – Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 1930, de Hélgio Trindade

    O primeiro grande estudo sobre o primeiro movimento fascista brasileiro, a tese de doutorado de Hélgio Trindade Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 1930 é um trabalho historiográfico obrigatório.

     

     

    14 – Integralismo e Hegemonia Burguesa: a intervenção do PRP na política brasileira (1945-1965), de Gilberto Calil

    Nessa obra, o historiador marxista brasileiro Gilberto Calil investiga a reorganização do movimento integralista no Brasil após o fim do Estado Novo e sua atuação durante o regime de 1945-1965 através da legenda do Partido da Representação Popular (PRP). O trabalho aponta a importância política que a agremiação teve especialmente na região sul do país, como também a atuação de seus ativistas entre as forças políticas, militares e empresariais que articularam o golpe de 1964.

    Faces do Extremo, de Tatiana Poggi15 – Faces do Extremo, de Tatiana Poggi

    Há uma enorme carência de pesquisas e publicações sobre os movimentos fascistas mais contemporâneos, e uma contribuição importante nesse terreno é o livro da historiadora Tatiana Poggi, Faces do Extremo – o neofascismo nos EUA 1970-2010. Fruto de sua tese de doutorado, sua pesquisa abordou três organizações neofascistas americanas – National Alliance, White Aryan Resistance e Aryan Nations – atuantes até hoje, inserindo-as no processo mais geral de emergência da direita neoliberal naquele país.

     

    VEJA MAIS

    Esquerda Online lança curso sobre o fascismo. Assista aqui os vídeos

     

  • Ernest Mandel: Estado forte e fascismo

    Em épocas de crescimento das forças reacionárias e conservadoras, da chamada extrema-direita, é muito comum a palavra fascismo reaparecer no discurso político. O fascismo foi um movimento-regime político característico do entre guerras e que chegou ao poder em países europeus como Itália, Alemanha, Portugal, Espanha, entre outros. Em outros países chegou a ter forças consideráveis, como no Brasil, com o movimento Integralista, mas nunca chegou a se transformar em um regime político.

    Nos anos 1960, com o ascenso do movimento estudantil e dos trabalhadores, principalmente após a avalanche de mobilizações de 1968, o termo fascista voltou a tona para caracterizar alguns movimentos conservadores de direita que surgiam nos países europeus, contrários à socialdemocracia e ao comunismo. É nesse contexto que o intelectual e dirigente político belga, Ernest Mandel, escreve em 1969 um pequeno folheto intitulado O fascismo.

    Para auxiliar no debate atual, principalmente o brasileiro, no qual o bolsonarismo adquire uma força eleitoral de massas, queremos retomar algumas das ideias de Mandel, pois achamos que ela pode servir como um guia para a ação política da esquerda brasileira.

    O fascismo clássico

    A maior parte do folheto de Mandel não é nada de novo: o objetivo dele é apresentar a teoria de Trotsky sobre o fascismo, principalmente baseado na experiência alemã. Para Mandel, a teoria de Trotsky tinha seis elementos principais:

    1. O fascismo surge como elemento político de força para resolver uma crise profunda da economia capitalista;
    2. A democracia é o regime político preferido pela burguesia, porém, em momentos excepcionais, um regime com o executivo forte aparece como a solução para a crise social;
    3. O fascismo se apoia num movimento de massas que aplica o terror aos movimentos sociais, atacando-os e destruindo as organizações democráticas e populares;
    4. A base desse movimento é a pequena burguesia: afetada pela crise social, a pequena burguesia se desloca para um movimento “salvador da pátria” e para uma solução de força;
    5. A ditadura fascista só ocorre se houver uma destruição prévia dos movimentos sociais e suas organizações;
    6. O fascismo no poder aplica a política da grande burguesia fundindo o movimento de massas com o poder do Estado.

    Para Mandel, partindo de Trotsky, “cada elemento é provido de uma certa autonomia e conhece uma evolução determinada sobre a base das suas contradições internas; mas elas só podem ser entendidas como totalidade fechada e dinâmica, e só a sua interdependência pode explicar a ascensão, a vitória e o declínio da ditadura fascista” (MANDEL, 1987, p. 33). Nesse sentido, apesar da definição aparecer fechada, se aplicarmos a lógica do desenvolvimento desigual e combinado, é possível que algumas dessas condições se desenvolva em ritmo diferente das outras, isto é, o processo de fascistização não é uniforme, nem harmônico.

    Estado forte e fascismo

    Durante os anos do entre guerras e também no pós-II guerra, surgiram movimentos nacionalistas das burguesias dos países dependentes, como o peronismo na Argentina e o Pan-africanismo. Alguns teóricos, principalmente socialdemocratas, mas também comunistas, chamaram muitas vezes esses movimentos de “fascistas” pelo regime de Estado forte que implementaram em seus países. Para Mandel, o fascismo tem a ver com um movimento da época imperialista e está ligado diretamente a resolver a crise a favor dos monopólios econômicos, das grandes empresas e bancos. Nesse sentido, o movimento fascista seria mais comum em países imperialistas como os europeus e os EUA, mais do que em países dependentes como o Brasil ou a Argentina. Os movimentos nacionalistas burgueses em países dependentes não eram movimentos fascistas porque liderados por um “líder carismático”. Essa era sua aparência, pois por trás desses líderes havia uma disputa da mais-valia entre a burguesia nacional e a burguesia imperialista.

    Nesse sentido, Mandel chama a atenção para diferenciar dois conceitos importantes: o de fascismo e o de Estado forte. O Estado forte significa que a burguesia toma uma medida de força a partir do aparato político, reforçando a repressão aos movimentos sociais, sem exterminar as organizações dos trabalhadores. Nesse sentido, o fundamento do regime político de um Estado forte, que poderíamos denominar de um regime autoritário ou ditatorial, seria o fortalecimento do aparato político-militar (polícia, exército e judiciário). A diferença com o fascismo seria que, este último, se apoia num movimento de massas, principalmente na pequena burguesia ou nas chamadas classes médias: “Aqui se encontra a diferença total entre o fascismo que organiza os elementos desesperados da pequena burguesia, utiliza-os para aterrorizar as grandes cidades e as regiões operárias e o “Estado forte” autoritário que, certamente, utiliza a violência e a repressão, pode administrar duros golpes no movimento operário e nos grupos revolucionários, mas revela-se incapaz de aniquilar as organizações operárias e de atomizar a classe trabalhadora.” (Ibidem, p. 71)

    É preciso fazer uma diferenciação que é importante: o Estado forte é uma forma de Estado, isto é, de organização das instituições do Estado capitalista de forma com que as liberdades democráticas sejam restritas de acordo com a correlação de forças; o fascismo é, ao mesmo tempo, um movimento político e uma forma de Estado forte. A diferença é que esse Estado forte, para chegar a se concretizar, se apoia num movimento de massas e não apenas em cúpulas das instituições do Estado e realiza, na prática, uma política de desorganizar os movimentos sociais e democráticos.

    Vale lembrar que Mandel escreveu no final dos anos 1960, momento de grande ascenso das lutas sociais. Para ele, o prognóstico era de que com avanço do movimento estudantil e também dos trabalhadores, e com a prosperidade das camadas médias, o fascismo não se reergueria nos países imperialistas, ainda que a tendência a um Estado forte fosse uma possibilidade. Porém, o fascismo como possibilidade não deixou de existir: “Os germes dum renascimento potencial do fascismo estão contidos na praga, conscientemente espalhada em alguns países imperialistas, constituída pela mentalidade racista e xenófoba (contra os negros, os não-brancos, os trabalhadores imigrantes, os árabes, etc.), na indiferença crescente para com os assassinatos políticos num país como os Estados Unidos, no ressentimento irracional para com os «acontecimentos desagradáveis» que são cada vez mais frequentes na arena mundial, e no ódio, igualmente irracional, pelas minorias revolucionárias e não conformistas («a câmara de gás é o que vos faz falta», «o campo de concentração é o vosso lugar!», eis o gênero de insultos lançados à cara dos manifestantes do S.D.S. em Berlim Ocidental, na Alemanha Federal e nos Estados Unidos pelos defensores da «lei e da ordem»).” (Ibidem, p. 73-74)

    Além disso, uma das questões que Mandel considera, indiretamente, é a questão da possibilidade da transição entre um regime de Estado forte e um regime fascista. Ele cita o caso da Espanha de Franco: iniciou-se como uma ditadura fascista e terminou como um Estado forte (Ibidem, p. 72). Poderíamos afirmar que a transformação contrária seria possível: um Estado forte se transformar em um regime fascista?

     

    Considerações finais

    Como dissemos no início, mais do que uma resposta, procuramos refletir a partir do texto de Mandel sobre fenômenos atuais. Nos parece que o que Mandel considera como “germes potenciais” do fascismo se expressa no fenômeno político do bolsonarismo no país: o preconceito, racismo, xenofobia, a indiferença com assassinatos políticos, a irracionalidade com as minorias revolucionárias e não conformistas.

    Porém, não é possível afirmar que o bolsonarismo é um tipo de fascismo clássico: apesar de considerarmos que existe uma crise econômica forte (queda aproximada de 6% desde 2014) e que existe um deslocamento das camadas médias e também de parte dos trabalhadores para soluções de força conservadora, não há um movimento forte de destruição das organizações democráticas e sociais. Não há, até o momento um salto de qualidade na luta de classes, uma passagem à guerra civil. Apesar disso, como é possível ver em diversos relatos de ameaças e também de ações contra lideranças das lutas sociais, é possível afirmar que se não existe um movimento fascista organizado que possa aplicar métodos de guerra civil, existem germes de um movimento fascista, com grupos moleculares, ainda em desenvolvimento, que encontraram em Jair Bolsonaro uma unidade para sua atuação. Esse momento de transição entre o potencial movimento fascista e o movimento fascista de fato é justamente o que nos dificulta em caracterizar o processo. Para nós, essa diferenciação pode ser entendida como um semifascismo ou protofascismo, isto é, um fascismo em potencial.

    Pode ser que, num primeiro momento, se se concretiza a vitória eleitoral de Bolsonaro, a tendência inicial seja de caminhar para um Estado forte, isto é, de reprimir as liberdades democráticas para conseguir implementar um plano econômico e social em benefício ao grande capital, principalmente imperialista no país. Em mais de uma ocasião, ele e seu vice já demonstraram que podem endurecer o sistema para implementar sua política. O problema é que esse Estado forte vai andar em paralelo aos germes do movimento fascista no país e, no desenrolar da luta de classes, pode acelerar o desenvolvimento do próprio fascismo, isto é, da transição de um Estado forte para um regime fascista, no qual se cumpriria as palavras de Bolsonaro de “botar um ponto final no ativismo no Brasil” ou de “fuzilar a petralhada”. O que decidirá esse futuro é justamente os conflitos políticos de classe atuais, incluindo as eleições, e os resultados que eles tiverem na luta contra essa onda conservadora e em defesa das liberdades democráticas e dos direitos sociais.

    Bibliografia

    Ernest Mandel. El fascismo. Madrid: Akal, 1987.

  • Sob impacto

    Virgínia Fontes*, de Niterói, RJ

    É muito difícil escrever sobre essas eleições proporcionais e sobre o primeiro turno das eleições presidenciais. A maioria de votos em Jair Bolsonaro era prevista, embora não na proporção em que apareceu. A estranhar, a grande diferença entre as pesquisas prévias e os resultados do primeiro turno. O segundo turno reabre a contagem e reabre os embates. Reverteremos o cenário.

    Nesse momento, é hora de unir todas as forças democráticas, as forças civilizatórias, todas as forças que conservam a humanidade como valor fundamental, as variadas forças da esquerda, todas as forças que defendem a vida, para enfrentar algo que todos pensávamos ter ficado para trás. Algo que deveria estar no passado distante, como a defesa da tortura, os atos e gestos retomando as práticas do nazi-fascismo. Ele volta a pairar como ameaça concreta sobre todos os seres humanos.

    Estou tristíssima. E estou com medo. Não o medo paralisante, mas o que acende a luz de alerta. O que nos deixa atentos e alertas. Precisamos estar prontos para interferir, para não permitir que um retrocesso dessas proporções atinja o país. O medo é real, pois Bolsonaro sobe em palanque ensinando menininhas a empunhar armas, enquanto seus seguidores não hesitam em humilhar mulheres que cuidam de crianças em praças, não têm vergonha de amedrontar mães que amamentam como se isso fosse indecente, nem de espancar seres indefesos. O medo é real e acende a luz de perigo.

    Medo principalmente pois Bolsonaro, que é a continuidade do governo Temer tenta se apresentar como se fosse a mudança. É a continuidade econômica, apoiando o ataque feito pelo parlamento-mídia-empresariado contra os direitos dos de baixo. É a continuidade econômica, com olhos de ave de rapina sobre o que Temer ainda não conseguiu destruir do patrimônio público, como a previdência pública que ainda assegura aposentadorias a milhões. É a continuidade de Temer pela entrega das chaves dos cofres públicos aos empresários. Mas, pior ainda, a continuidade de Temer através de Bolsonaro é a continuidade da crise. Bolsonaro é apenas a maior escala da política de Temer. Que só piorou a crise. Mas com Bolsonaro ela pode ser ainda pior, e derreter a moeda brasileira, como está ocorrendo com a Turquia ou com a Argentina. As magras poupanças dos pequenos serão devoradas, mas alguns endinheirados ganharão com a especulação. Terá valido a pena esse dinheiro cheio de sofrimento? O que restará na terra arrasada?

    Bolsonaro é a continuidade de Temer, com o aprofundamento da violência e da insegurança. Violência e insegurança que já existem há muitos anos e que pesam mais sobre a maioria da população pobre. Pesa nos trens, nos bairros, nas festas, nas famílias. Como se sabe, o Rio de Janeiro continua a ser o laboratório da experiência dessa violência de dentro e de fora do Estado, que se veste de roupas de Exército, de polícia, de milícia e do tráfico para se impor pelo terror. Contra tudo e contra todos. Não há pesquisa, não há investigação. Atuam tristemente de maneira parecida. As favelas do Rio conhecem bem essa violência e estão fartas dela. Jogar mais bombas e atirar covardemente desde helicópteros sobre toda a população, como faz o tráfico e fez o governo Temer não diminuiu a violência. Seu aumento brutal nos anos Temer será continuado por Bolsonaro. A pequena violência dos pequenos furtos nos bairros ricos talvez volte a ser punida com a morte imediata. A frio e sem Justiça. Já vimos que ousar pensar diferente, ousar enfrentar pelo argumento ou pela Justiça pode ser punido com o extermínio, como aconteceu com Marielle Franco e com Anderson Gomes no governo Temer. A família Bolsonaro faz questão de se associar a mais essa violência. Democracia? Estado de direito?

    Na sequência do governo Temer, agora na figura de Bolsonaro, ninguém sabe se haverá alguma Justiça. É sempre bom lembrar que quando a grande maioria não tem justiça nem direitos, as minorias descobrem que suas próprias vidas pouco valem.

    Os ricos se cercarão de mais de muros, mais arames farpados e concertinas, mais carros e helicópteros blindados, pois a violência sobre as maiorias trará o combate a cada dia mais perto. Seguramente muitos fugirão para longe, quando a situação apertar. Irão para os Estados Unidos ou Europa, onde as leis ainda valem para todos. Lá, sabem que não podem desdenhar os que lhes servem. E aqui? Vigilantes, faxineiros, cozinheiras, babás, manicures, motoristas, enfermeiros, professores… Serão tratados como gente?

    Na corrupção, Bolsonaro será diferente de Temer? O MDB de Temer é o campeão, e lembramos das malas de Geddel. Mas também o PT, o PSDB e praticamente todos os partidos foram atingidos. O partido de Bolsonaro mudou de nome, para desvencilhar-se das denúncias. De Partido Social Cristão tornou-se Partido Social Liberal… A história brasileira é povoada pela corrupção. Corrupção começa pelo alto, pelos grandes, que não pagam impostos, que têm descontos para pagar o que deviam quando atrasam, que levam seus dinheiros para o exterior ilegalmente e podem trazê-los de volta, lavados e limpos de impostos, por ofertas de Temer. Para corromper alguém é preciso ter dinheiro e em todos os casos, os grandes empresários foram ativos na corrupção. Será que um congresso povoado de empresários riquíssimos e de políticos como Bolsonaro, que diz que fará tudo o que os empresários querem será limpo? O mais provável é que um governo Bolsonaro imponha mordaças e que só apareça o que for conveniente para eles. Será que todos os empresários são iguais? Ou devemos esperar que alguns se levantem contra a monstruosidade que se anuncia?

    Será que essa violência contra os de baixo exprime a religião e a religiosidade do povo brasileiro? Sei que não. Muitas famílias querem uma vida mais tranquila, com menos assaltos, com menos sobressaltos. Melhor transporte, melhor saúde, mais e melhores escolas, universidades para seus filhos e netos. Essas famílias têm razão, e lutaram muito por uma vida correta. Não devem o que conseguiram a ninguém e se houve políticas que as beneficiaram, era apenas uma questão de justiça. Como essas famílias farão quando a injustiça dominar com Bolsonaro, como Temer já começou a fazer? Quando Bolsonaro ainda aumentá-la? Como farão se desgraçadamente seus filhos forem agredidos, apenas por morarem em subúrbios ou terem cor de pele diversa de seus agressores? Terão mais uma vez de silenciar, por medo? Seus padres e pastores dizem ter compromisso com o seu sofrimento. Estarão do lado de seu sofrimento ou serão prostrados por seus algozes, eles também atemorizados?

    A censura está às portas, e pela violência. Silenciamento acrescido de atemorização direta, pela violência de novos grupos que nem sabemos quem são, pois não se identificam e atacam escondidos… Mas que já circulam de camisetas ‘bolsonaro’, que já atiram a esmo nas ruas, que impedem aulas, que intimidam os que discordam, que proíbem a cultura. O que farão quando o chefe estiver no governo?

    Não tenho dúvidas de que em todo o espectro político há gente digna. Do centro e da direita, das religiões e dos clubes deverão emergir vozes em defesa do ser humano e das liberdades democráticas. O horror do totalitarismo é a única coisa democrática a sobreviver quando um pesadelo desse tipo se estabelece. O totalitarismo persegue, discrimina, humilha, tortura e assassina. Em primeiro lugar ataca aqueles que escolhe como inimigos, os que pensam diferente dele. A liberdade de pensamento acaba. Reclamar pode ser uma sentença de morte.

    Essa violência pode voltar-se contra qualquer um, inclusive os filhos de poderosos, que discordem por uma razão ou outra. O horror pode ser ainda mais arbitrário e designar como inimigos grupos ou setores inteiros da população, até mesmo da própria classe dominante. Isso já ocorreu na Alemanha, quando os judeus, pobres ou riquíssimos, foram perseguidos. Foram expropriados, perseguidos, assassinados. Reduzidos ao mesmo pó que os demais, os comunistas, os homossexuais, os ciganos e algumas religiões. Apenas por existirem.

    Não é possível normalizar e comparar candidaturas como a de Bolsonaro e a de Fernando Haddad. Por mais horror que agora alguns poderosos tenham a Lula, depois de enriquecerem como nunca em seu governo, precisam lembrar que o candidato é Fernando Haddad e não Lula. Que os governos Lula jamais impuseram uma ditadura totalitária. E esse é o risco brutal que corremos. Se imaginam que conseguirão controlar Bolsonaro, que o disciplinarão, precisam lembrar-se que sequer o Exército conseguiu esse feito.

    A imprensa precisaria cumprir seu verdadeiro papel e interrogar sobre o que todos sabem (a violência, a desigualdade, o anti-feminismo, o racismo, a difusão de falsas informações). Esclarecer sobre os programas, interrogá-los a fundo e não transformar os debates num pastiche esterilizado.

    A imprensa brasileira está acostumada a amedrontar a maioria da população, para garantir suas próprias posições. Mas agora, que o medo da barbárie é real e palpável, finge que não está acontecendo nada. Mesmo seus pares, os jornalistas estrangeiros, se espantam. Como é possível tratar a truculência de Bolsonaro e de seus sequazes como se fosse ‘normal’?

    Não há dúvidas do que fazer. Organizar a defesa da humanidade e construir as brechas que permitam ir além do pesadelo no qual estamos mergulhados. Temos muitas críticas ao PT, mas nesse momento ele é a única possibilidade de que não trucidem tudo o que humanidade conquistou. Todos perderemos algo. É pouco diante do imenso abismo com o qual Bolsonaro nos ameaça.

    Esse é um grito de alerta. O Brasil não pertence a alguns grandes proprietários nem aos que pregam a violência gratuita. A defesa da vida começa com cerrar fileiras com Fernando Haddad, e com todos os que defendem que humanidade e democracia não são palavras vazias. Votar agora é mais importante do que nunca.

    * Virgínia Fontes, historiadora, professora-pesquisadora da EPSJV e da Universidade Federal Fluminense (UFF), e autora do livro “O Brasil e o capital-imperialismo.

    Foto: José Cruz/Agência Brasil