China e Rússia se contrapõem à Trump e defendem “multilateralismo” em discurso na ONU

Por: Victor Amal, de Florianópolis, SC

Durante a 73ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), na semana passada, em que mais uma vez o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, defendeu a “América Primeiro” (America First) e criticou a globalização, os representantes da China e da Rússia fizeram apelos contra o isolacionismo e unilateralismo norte-americano.

Na última sexta-feira (28), o ministro de Relações Exteriores chinês, Wang Yi, apresentou a China como o grande país defensor do multilateralismo na política internacional. Segundo ele, é necessário insistir na utilização da diplomacia e negociação em organizações internacionais para a resolução de conflitos, referindo-se à atual guerra comercial entre EUA e China.

Após a eleição de Donald Trump em 2016, os EUA passaram a se engajar em uma guerra comercial com a China que vem ganhando contornos cada vez mais radicais. Em setembro, Trump anunciou o aumento de 10% sobre a tarifa de importação de U$ 200 bilhões em produtos chineses.

O ministro Wang, contrapondo-se ao discurso de Trump, afirmou que os conflitos comerciais devem ser resolvidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), através de negociações julgadas por juízes imparciais, e não por medidas unilaterais aplicadas pelos países dominantes.

Já o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, criticou os dispositivos de sanções econômicas aplicados pelos EUA e União Europeia contra seu país após a crise ucraniana de 2014, quando os russos anexaram a península da Crimeia. Segundo ele, tratam-se de instrumentos de “chantagem política, pressão econômica e força bruta”.

Ainda, Lavrov afirmou que a Rússia é o principal país comprometido a negociar um caminho para a paz na Síria e o acordo de desnuclearização do Irã. De acordo com o ministro, a saída unilateral dos EUA do acordo de interrupção do programa nuclear iraniano é uma violação das resoluções da ONU, que aprovaram o acordo.

De fato, os dois países, China e Rússia, atuaram em unidade contra os EUA.  

A parceria sino-russa
Por último, os representantes chinês e russo alertaram contra o retorno da “política de grandes potências” do século XIX, em que potências mais fracas se aliavam para destronar uma potência mais forte. Apesar de todo o discurso em defesa do multilateralismo pregado pelos dois países, esta manifestação soou como um alerta para os EUA.

A realidade é que China e Rússia vêm desenvolvendo desde os anos 1990 uma parceria estratégica que, nesta década, tomou proporções significativamente maiores. Além da aproximação econômica entre os países, a coordenação militar e estratégica sino-russa (China e Rússia) também vem aumentando.

Em setembro deste ano, a Rússia organizou o anual teste e apresentação de manobras e tecnologia militares chamado Vostok 2018. Este ano, entretanto, o evento ganhou ampla repercussão por dois motivos: 1) foi o maior em mais de três décadas, desde o fim da União Soviética; 2) contou com a participação da China.

Este foi o maior exercício militar ocorrido em território russo desde 1981. Participaram 300 mil soldados; mil aviões de guerra; 36 mil peças de equipamento, incluindo 1.100 tanques de guerra; e mais de 50 navios de combate. Os chineses, convidados para o exercício, participaram com 3.200 soldados, 900 peças de equipamento e 30 aviões de guerra.

De acordo com o ministro de Defesa chinês, o objetivo dos exercícios era fortalecer a parceria entre os países e testar táticas de combate conjunta e coordenada. Além disso, foi um alerta para a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), liderada pelos Estados Unidos, de que outros países também estão investindo em defesa e, em caso de guerra, estão preparados para isso.

Uma realidade desafiadora que revela a instabilidade cada vez maior da atual situação mundial.

 

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