Faleceu Rogéria, precursora do debate trans na Globo desde 1989



Por: Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

Muitas pessoas de hoje não conhecem a carreira de Rogéria. Poucas pessoas lembram que Rogéria apareceu na Rede Globo na novela Tieta, em 1989, trazendo consigo todo um debate sobre o preconceito contra quem foge dos padrões de gênero. Com o infeliz falecimento de Rogéria na segunda-feira, dia 4 de setembro, deixamos essa pequena homenagem, relembrando o papel à frente de seu tempo que ela desempenhou.

Numa cena reexibida pelo Canal Viva, na terça-feira, no capítulo 111, Ninete aparece num bar e pede um conhaque.

Amintas começa a conversar com ela e tenta chamá-la para sair. Ninete recusa repetidas vezes o convite e se vira de costas. Não satisfeito, ele a molesta, apertando seu traseiro. Imediatamente, ela se vira e lhe dá um belo soco. “O que que foi isso, moça? A senhora enlouqueceu, é?”, indaga ele. “Moça coisa nenhuma, cara!”, responde ela. “Fique o senhor sabendo que meu nome é Valdemar!”

O escândalo se espalha. Algumas pessoas, entre elas um padre, defendem Ninete. A melhor defesa é a da própria Tieta, exibida no capítulo 112 do Canal Viva.

Ricardo, amante de Tieta, reclama:

– Tieta, um homem é um homem, uma mulher é uma mulher. Deus criou cada um com um papel definido, uma função.

– Oxente, e quem não se enquadra nesse papel definido, nessa função, você acha que a gente deve fazer o quê, afogar no mar?

– Não, a gente deve dar toda condição para essa pessoa se corrigir.

– Que que é isso, se corrigir? – responde Tieta, em meio a um riso.

– Para que essas pessoas se tornem normais como as outras!

– Ora, Cabrito, normal? Me olhe sinceramente e me diga: de perto, alguém é normal?

A discussão se alonga. Ricardo questiona se Tieta acha certo que alguém seja tão diferente dos padrões, ao que ela responde:

– Mas o que que tu chama de padrão de comportamento? Ricardo, o que que tu quer, que todo mundo seja igual, que se comporte do mesmo jeito, que siga as mesmas regras? Não, o ser humano não foi feito por decreto. O que é isso, e nós somos máquina, por acaso? Que a gente sai da fábrica tudo bonitinho, enfileiradinho, um atrás do outro, tudo exatamente igual, é isso?

Ricardo vai cedendo aos poucos e concordando com Tieta.

Rogéria, como ativista travesti, sem dúvida será lembrada pela História. Hoje somos nós, pessoas trans de 2017, que estamos levando adiante a luta que Rogéria não pode mais continuar. Essa é a melhor homenagem que poderemos dar a Rogéria.

Foto: cena da novela Tieta, capítulo 111, exibido pelo Canal Viva na última terça-feira, 05 de setembro.

Comentários no Facebook

Post A Comment