Violência indígena pós-eleições no Brasil

Não há democracia enquanto povos indígenas forem assassinados no Brasil


Publicado em: 7 de novembro de 2026

João Viktor, de Belo Horizonte (MG)

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Esquerda Online

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Crédito José Cruz/Agência Brasil
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A onda de violência deflagrada contra os povos originários no Brasil após o segundo turno das eleições expôs, com a maior gravidade, a articulação profunda entre a extrema-direita reacionária, o agronegócio e o capital extrativista. Episódios de terrorismo de campo registrados no país, com dramático epicentro em Mato Grosso do Sul, deixaram patente que a derrota nas urnas não significou a desarticulação das milícias rurais e dos grupos armados. Pelo contrário, a frustração política do fascismo converteu-se em agressão direta e imediata contra as comunidades indígenas, revelando que a preservação da ordem capitalista no campo brasileiro continua a depender da eliminação física e do apagamento de populações racializadas. Diante dessa realidade, torna-se urgente denunciar que a democracia liberal burguesa não passa de uma abstração formal enquanto o direito à vida e ao território dos povos originários for sacrificado em nome do lucro e da violência latifundiária.

A conflagração pós-eleitoral manifestou-se em uma sucessão de agressões coordenadas, amplamente denunciadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). No Mato Grosso do Sul, o clima de intimidação armada instaurado por proprietários rurais para coagir o voto de comunidades Guarani e Kaiowá desembocou, após a apuração das urnas, em atropelamentos intencionais em Coronel Sapucaia, levando à morte de indígenas e à formalização de denúncias perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), e em assassinatos de lideranças e famílias por motivação político-fundiária no município de Naviraí. A barbárie ganhou contornos etnocidas e biológicos quando a Okybywa (casa de reza) de uma rezadeira de 90 anos foi reduzida a cinzas na Aldeia Jaguapiré, em Tacuru (MS), enquanto áudios veiculados por agentes locais e servidores públicos articulavam abertamente o envenenamento de fontes de água potável em Tacuru e Dourados. O tom exterminador da extrema-direita, verbalizado na promessa de “matar essas pragas na água”, exigiu a intervenção urgente do Ministério Público Federal (MPF), investigações da Polícia Federal e a presença da Força Nacional de Segurança Pública.

Para além do contorno conjuntural das eleições, a compreensão desses acontecimentos exige ancorar a análise nos referenciais teóricos da crítica da economia política e da filosofia crítica contemporânea. Sob a ótica marxista, o capitalismo agrário transforma a terra de espaço de vida e reprodução sociocultural em estrita mercadoria e ativo financeiro. O que se testemunha no campo brasileiro é a vigência permanente da acumulação por espoliação: a usurpação violenta e contínua dos bens comuns e dos territórios ancestrais como mecanismo indispensável para restaurar e expandir a rentabilidade das commodities globais. A resistência indígena, ao defender a inalienabilidade das terras originárias, contesta frontalmente a lógica da mercantilização total, opondo à sanha lucrativa do veneno e do desmatamento um projeto comunitário de preservação dos biomas e sustentabilidade da vida.

Paralelamente, o conceito de necropolítica, formulado pelo filósofo Achille Mbembe, permite compreender a tecnologia de poder que submete corpos e territórios indígenas ao regime da descartabilidade. A necropolítica manifesta-se na capacidade do poder soberano, e de seus tentáculos paramilitares, de ditar quem deve viver e quem deve morrer, construindo zonas de exceção onde o direito é suspenso. No cenário brasileiro, opera-se uma simbiose entre a agressão direta praticada por milícias privadas do agronegócio e a necropolítica estatal da omissão deliberada. Essa omissão manifesta-se no desmantelamento das redes de saúde e educação, no represamento de processos demarcatórios e no abandono sanitário que vitima cotidianamente centenas de crianças indígenas, configurando uma política sistemática de “deixar morrer” que complementa o terror das armas e das ameaças químicas.

Essa engrenagem de violência evidencia os limites da democracia formal. A soberania popular não pode ser reduzida à celebração periódica de rituais eleitorais enquanto o poder econômico do latifúndio impõe o terror e o derramamento de sangue nas periferias e nos territórios tradicionais. Como defende a APIB, a verdadeira soberania nacional e popular está indissociavelmente vinculada à demarcação, homologação e proteção de todas as Terras Indígenas do Brasil. Garantir o direito originário ao solo é conter a devastação ambiental, defender a biodiversidade e afirmar o poder soberano do povo contra as imposições do capital financeiro e das oligarquias rurais.

Em conclusão, a superação da barbárie promovida pela extrema-direita e pelo extrativismo predatório exige a construção de um programa político abertamente anticapitalista e de alcance de massa. A vitória nas urnas foi apenas um passo inicial; a derrota definitiva do fascismo no campo depende da responsabilização criminal de todos os mentores e executores dos ataques pós-eleitorais, do desmantelamento imediato das milícias rurais, da derrubada definitiva da tese inconstitucional do Marco Temporal e da homologação de todos os territórios ancestrais reivindicados pelos povos originários. É tarefa inadiável da esquerda socialista, dos movimentos sindicais e das organizações populares colocar a causa indígena no centro da luta de classes no Brasil. Afinal, o sangue indígena derramado expõe as feridas abertas de uma república incompleta: não há democracia enquanto povos indígenas forem assassinados.


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