Uma quarta-feira que mudou o rumo da história do Brasil
Publicado em: 28 de outubro de 2026
Manhã do dia 07 de outubro, quarta-feira. Eu estava ainda muito abalado com a derrota que havíamos amargado no domingo, buscando de todas as formas organizar as pessoas para a imensa batalha que teríamos pela frente, respondendo mensagens, buscando encontrar palavras de consolo e de força – que faltavam mesmo dentro de mim.
Nessa noite, teria uma plenária de LGBTI+ do DF para atuar na campanha da virada, fruto de um grupo de WhatsApp que eu havia criado logo no susto do resultado e que já contava com cerca de 1.000 pessoas. O dia seria longo, de muito trabalho. Mas não imaginava o que estava prestes a presenciar.
Por volta das 09h, o deputado federal recém-eleito por São Paulo Guilherme Cortez me ligou. Atendo o telefone meio sem entender. Guilherme estava em Brasília para se reunir com Lula, a coordenação da campanha e a bancada de parlamentares da esquerda. Ele havia chegado sozinho e então me pediu para acompanhá-lo, auxiliando-o na sua agenda. Eu disse sim, obviamente. Desliguei o telefone, corri para um banho rápido, peguei meu único terno e, antes das 10h, estava entrando em uma das salas de conferências no subsolo do hotel Brasil 21.
Assim que entrei, comecei a percorrer o salão com os olhos para encontrar o meu amigo e deputado. Nessa altura, ainda estava longe de entender que a mudança já havia começado. Guilherme não estava no plenário, mas na mesa que conduzia a reunião, ao lado do vice-presidente Alckmin, do presidente do PT, Edinho Silva, do deputado Janones, das deputadas jovens do PT Luna Zaratini (SP) e Ana Júlia (PR), dentre outros.
Logo que me posicionei, percebi que naquele momento estava havendo uma disputa sobre a mesa. Acertadamente, presentes reclamavam – o que estava do meu lado gritava – que a deputada de 21 anos, Ana Elisa (PT/MG), não estava na mesa. Ana foi convidada, sendo saudada pelo presidente Edinho como uma mulher jovem negra, que estaria completando a mesa. Ouvi gritos de “ela teve 500 mil votos”, como quem diz: não é só questão de representatividade identitária. E foi assim que percebi que os ânimos combinavam com o momento de altíssima tensão que circulava do lado de fora.
Edinho fez sua fala, um balanço da campanha, mas sendo pouco assertivo sobre como sairíamos daquela situação. Não demorou para o senador Humberto Costa pedir questão de ordem, logo ao final da fala de Edinho, cobrando que as demais intervenções fossem objetivas na linha para virar aquela eleição. E então ficou nítido que a direção da campanha até aquele momento estava destituída. Na mesa, duas direções se intercalavam, a da derrota do 1º turno e a que conduziria à virada que vimos concretizada no último domingo – o que, naquele momento, estava longe de ser uma certeza para os presentes e para mim.
As falas que se sucederam buscaram adotar justamente o que havia sido cobrado pelo senador: objetividade, algumas mais ou menos felizes nessa tarefa. Como sairíamos daquela situação? O clima era de tensão e confusão. Dentro de mim ia crescendo uma angústia. Olhava o plenário e estava nítida a apreensão. Alguns falavam sem ter a palavra, reclamando da falta de materiais, cobrando melhor organização da campanha. Isso se dividia com um igualmente nítido clima de lealdade ao presidente Lula e de disposição para fazer o que fosse preciso, em defesa do Brasil e da democracia. Mas faltava uma direção.
Ao longo do debate, foi sendo traçada a estratégia: reduzir as abstenções, alertar para os riscos que representava a eleição da família Bolsonaro, mobilizar os idosos, a juventude e fazer uma revolução na comunicação da campanha. Chegou o vice-presidente Alckmin, que falou sobre as possibilidades da virada, com uma fala direta, bem-humorada. O clima foi mudando. Para o final, ficaram os jovens para fazer suas falas. Guilherme me pediu papel e caneta. Luna Zaratini rabiscava em um pedaço de papel os pontos da sua fala, de forma apressada. As falas, uma a uma, foram recompondo as esperanças – com certeza as minhas, mas arrisco dizer que as de todos os presentes. Naquele momento, éramos quase que um só. Lembro bem da intervenção do dep. Janones – que viria a ser o nosso General dentro de alguns dias. Falou sobre o seu canal, que já funcionava durante a campanha, mas muito longo do que veio a se tornar. Falou sobre isso, explicou didaticamente como iria remodelar o comércio de atenção da campanha e do povo brasileiro e foi traçando, com sua fala ansiosa, corpo rijo, boca levemente seca por não ter pausas entre as palavras e, sobretudo, com muita força, como seria a virada nas redes. Outros falaram, como a dep. Jandira Feghali e Luna Zaratini, que a disputa das redes seria feita em comum com as ruas.
Lula estava chegando. Mas antes, Edinho chamou o Guilherme para mais próximo e falou algo no ouvido. Guilherme voltou para o seu lugar e fez o mesmo com Ana Elisa. Fiquei observando aquilo, tentando entender. Logo em seguida, olho o meu celular e tinha a mensagem do deputado: “Edinho deixou eu e a Ana Elisa pra falar quando o Lula chegar”. Uma demonstração simbólica poderosa de que aquele 2º turno apostaria no futuro.
Depois de um longo momento de dúvidas, falas rateadas sem muito critério, informes feitos sem muito preparo, sobre o envio de materiais e afins, deu o tempo e Lula chegou. O presidente entrou forte, de cabeça erguida, com todos de pé, cantando. Guilherme e Ana Elisa fizeram suas falas. Saudaram a grandeza do presidente Lula e seu papel na história do Brasil, ao mesmo tempo que criticaram a linha da campanha. Gui, como um representante consciente de sua geração, reclamou: temos de estar à altura do nosso tempo contemporâneo. E, assim, no acumulado de tudo o que acontecia naquela sala, foi sendo traçado um novo rumo para a campanha. E para o Brasil.
Lula fez uma intervenção lúcida de quem estava com os pés firmes no chão e sabia do perigo. Ao mesmo tempo, uma fala de quem já conheceu milagres que são produzidos pelo povo em ação. Reclamou da sua campanha. Naquele mesmo dia, a imprensa vazou que Lula teria dito: essa foi a campanha mais desorganizada de que eu já participei. E foi. E foi mesmo o que disse, mas disse muito mais do que isso. Ele era o candidato e não fugiu desse papel. Disse assim: eu não tenho telefone. Eu acredito que nada supera o olho no olho, na rua, o encontro com o povo. E terminou dizendo que, mesmo assim, naquele mesmo dia, mais cedo, havia feito seu primeiro vídeo selfie. O que arrancou muitas palmas dos presentes. Estávamos todos no mesmo tom.
Esse trecho da sua fala, para mim, tem a cara do que vimos acontecer no Brasil. Uma mobilização social única, que rompeu barreiras entre o digital e o analógico, entre o síncrono e o assíncrono, entre o passado e o presente. E, assim, um pai virou uma mãe e pariu a oportunidade de um novo futuro para o nosso Brasil.
Ao final da fala do presidente, montou-se a foto do Lula em meio aos jovens de centenas de milhares de votos. Lula recebia um banho de futuro. Acabou a reunião. Guilherme sumiu, pensei que havia entrado em outra sala com Lula e outros parlamentares. Enquanto isso, ali mesmo no plenário, presenciei o Janones convocando o nosso exército, dizendo que iríamos fazer história, que iríamos vencer a Meta, que Lula iria entrar no grupo se batêssemos não sei qual das metas, mandando explodir, sentar o dedo. Talvez ele tenha falado isso em 2 minutos ou 2 segundos, não sei. Logo saiu e o Guilherme voltou.
Dali, os deputados jovens saíram para um almoço comum na casa da deputada Camila Jara (PT). Fui acompanhando o Guilherme. Ele me disse: Lula vai fazer uma collab comigo. Olhei no celular: ele tinha, naquele momento, pouco mais de 800 mil seguidores no Instagram. A collab entrou e, em menos de 5 minutos, já havia crescido mais de 30 mil seguidores. E não parou – hoje, somam mais de 2 milhões. Depois de comer rápido, Guilherme foi conversando, também rapidamente, com um a um dos presentes na sala. Eu não fazia ideia do que conversavam. Depois descobri que estava articulando uma caravana nacional entre as universidades, que viria a mobilizar milhares de jovens pelo país – mais de 3 mil aqui em Brasília, na UnB. A reunião havia acabado, mas alguma coisa que começou ali continuava se espalhando pelas redes, pelas universidades e pelas ruas.
Quando entramos naquela sala no subsolo do Brasil 21, ainda carregávamos o peso da derrota de domingo e a incerteza sobre o que viria pela frente. Quando saímos, nada estava ganho – mas alguma coisa havia mudado. Uma campanha começava a encontrar uma nova direção, uma militância recuperava a esperança e uma virada, ainda improvável, começava a ganhar forma
Olhando para trás, vejo com enorme gratidão que eu tenha presenciado de um momento-tempo que condensou uma viragem histórica no Brasil. Quando entramos naquela sala no subsolo do Brasil 21, ainda carregávamos o peso da derrota de domingo e a incerteza sobre o que viria pela frente. Quando saímos, nada estava ganho – mas alguma coisa havia mudado. Uma campanha começava a encontrar uma nova direção, uma militância recuperava a esperança e uma virada, ainda improvável, começava a ganhar forma. Faltavam menos de três semanas para a eleição. Seriam dias de uma luta imensa, talvez a maior que já tivemos. Naquela quarta-feira, ainda não sabíamos como essa história terminaria. Mas, olhando agora, consigo ver: alguma coisa do Brasil que venceria no domingo começou a nascer ali.
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