A eleição que a extrema-direita julgou ganhar e o povo barrou
Como a mobilização em torno de Lula transformou o segundo turno brasileiro numa disputa pelo futuro
Publicado em: 28 de outubro de 2026
Foto: Ricardo Stuckert
No dia seguinte ao primeiro turno, estudantes se organizaram no campus da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e convocaram uma manifestação. A conversa iniciada nos grupos de WhatsApp ganhou cartazes, reuniu gente e saiu para as ruas. Pelo caminho, moradores se juntaram ao ato. Ainda estávamos tentando compreender o tamanho da derrota quando eles começaram a mudar as condições em que disputaríamos o segundo turno.
Na véspera, Flávio Bolsonaro havia terminado à frente de Lula. O PL elegera 121 deputados federais e assegurara a maior bancada do Senado. O resultado sugeria uma concentração de poder que ia além da Presidência: governos estaduais, força parlamentar, capacidade de pressionar o Supremo e de impor obstáculos a qualquer agenda popular. A diferença presidencial até poderia ser revertida. O peso político daquela noite tornava difícil acreditar na reversão.
Essa diferença entre o que era possível e o que conseguíamos imaginar ajuda a entender o papel dos estudantes. Ao organizar o ato de 5 de outubro, eles tornaram disponível uma resposta que ainda não havia encontrado forma. Era possível fazer alguma coisa. E havia outros dispostos a fazê-la.
Nos últimos dois anos, cenas de mobilização juvenil têm se repetido em países muito diferentes. A educação que se deteriora na França, o aluguel impossível em Portugal, a falta de água e de energia em Madagascar, a universidade sob ataque na Argentina: em cada lugar, uma experiência cotidiana alcança um limite e se torna intolerável. A passagem à ação permanece incerta. O sofrimento pode isolar, produzir vergonha, alimentar o ressentimento. Pode também encontrar uma palavra, um destinatário e uma organização.
No Brasil, essa passagem aconteceu dentro de uma disputa eleitoral em que já conhecíamos o adversário e o que ele representava. A memória do bolsonarismo dava consistência à ameaça. Para os estudantes, o risco tinha a forma de cortes, ataques à universidade e desqualificação do conhecimento. Outros setores reconheciam seus próprios motivos para reagir. Nas semanas seguintes, esses motivos começaram a se encontrar.
A polarização entre direita e esquerda mobilizava maneiras diferentes de viver o conflito. A extrema direita oferecia ao ressentimento uma promessa de vingança. Havia alguém a punir, um direito alheio a revogar, uma posição social a restaurar. Na campanha de Lula, foi ganhando força uma experiência de pertencimento: a possibilidade de reconhecer a própria ação no que fazíamos juntos.
Isso não significa que o medo e a raiva estivessem ausentes do nosso lado. Eles estavam presentes, inclusive na urgência de impedir a vitória de Flávio. Mas o destino desses afetos começou a mudar. A ameaça que podia nos deixar à espera de uma derrota passou a convocar uma tarefa. O que cada um sentia encontrava uma relação com o que os outros faziam.
Essa mudança ocorreu num terreno em que o neoliberalismo havia avançado muito além das propostas econômicas. Sua eficácia aparecia nas imagens de uma vida bem-sucedida, na maneira de explicar um fracasso, no constrangimento de depender dos outros. A prosperidade era apresentada como uma saída individual. Para chegar a algum lugar, seria preciso afastar-se da condição de quem estava ao lado.
Uma das expressões mais reveladoras desse processo é a recusa de “ser CLT”. Ela carrega a rejeição a empregos ruins, salários insuficientes e relações de trabalho humilhantes. Carrega também uma fantasia de ascensão em que ser trabalhador se torna uma identidade provisória, quase um equívoco a corrigir. Alguém continua vendendo seu trabalho todos os dias, mas é convidado a desejar a vida a partir do lugar do futuro patrão.
A condição material e a imagem de si se afastam. Aquilo que poderia aproximar pessoas submetidas à mesma exploração passa a ser vivido como uma semelhança da qual é preciso escapar. O colega aparece como concorrente; a necessidade de proteção, como fraqueza; o sucesso dos poucos, como prova de que os demais não se esforçaram o suficiente.
Uma eleição também se disputa nessas identificações. Há nela uma dimensão inconsciente: a maneira como uma palavra nos atinge, uma humilhação nos captura ou uma história nos permite reconhecer algo de nós mesmos. Votamos com argumentos, interesses e expectativas, mas também com fantasias sobre quem somos, quem gostaríamos de ser e o lugar que imaginamos ocupar para os outros.
O segundo turno desarranjou parte dessa gramática. Jovens que pareciam destinados a buscar soluções privadas para problemas compartilhados começaram a produzir uma experiência coletiva. Continuavam diferentes entre si. Tinham suas referências culturais, seus modos de falar, suas razões para entrar na campanha. O pertencimento permitia que essas diferenças participassem de uma ação comum.
A mobilização articulada por André Janones deu uma forma particularmente nítida a isso. O Exército do Lula reunia centralidade política, orientação direta e tarefas que podiam ser cumpridas. Havia nessa combinação uma intuição quase leninista sobre o papel da organização: uma disposição dispersa ganha força quando encontra objetivo, coordenação e meios de intervir.
O nome “exército” também merece ser levado a sério. Ele oferecia a quem estava diante de uma tela um lugar numa força reconhecível. Compartilhar uma mensagem, chamar alguém, conversar com um eleitor ou organizar a ida às urnas adquiria o sentido de participar de uma luta. Cada um recebia uma tarefa e podia reconhecer nela sua contribuição.
É nesse ponto que organização e laço social se encontram. A pessoa deixa de ser apenas destinatária de uma campanha e passa a experimentar que a campanha também precisa dela. O gesto pequeno encontra consequência. O que parecia insuficiente quando feito sozinho ganha outra dimensão ao ser repetido, modificado e sustentado por milhares de outros.
A centralidade dessa articulação convivia com iniciativas que surgiam em muitos lugares. Estudantes, artistas, trabalhadores da cultura, movimentos populares, sindicatos, comunicadores e comunidades de fãs entraram com seus próprios repertórios. As ruas alimentavam as redes, as redes convocavam para as ruas, e a disputa chegava à conversa em casa, ao trabalho, ao grupo de amigos. A política voltava a passar por relações que nenhuma peça de propaganda conseguiria substituir.
O conteúdo de classe da eleição se tornou mais visível nesse movimento. A defesa da democracia encontrava a universidade, o salário, a cultura, a proteção social. Cada setor tinha algo a perder, e a possibilidade de perder junto ajudava a reconhecer o que havia em comum.
No último debate, Flávio Bolsonaro recorreu aos “nove dedos” de Lula. Procurava uma maneira de diminuir o adversário e encontrou uma marca deixada pelo trabalho em seu corpo. Lula respondeu falando do acidente, da fábrica, da idade que tinha quando perdeu o dedo. A mão que deveria servir ao escárnio passou a contar uma história.
A vergonha proposta pelo ataque mudou de endereço. O que havia de constrangedor naquela cena era o desprezo por uma experiência que milhões de trabalhadores conhecem. Lula pôde responder a partir de sua própria vida, e sua resposta alcançou outras vidas: gente diminuída pela escolaridade, pela origem, pelo modo de falar, pelo trabalho que faz.
O preconceito contra Lula sempre dependeu dessa proximidade. O homem sem diploma, o nordestino, o sindicalista, aquele que supostamente fala errado: cada ataque procura desautorizar uma trajetória e, com ela, a possibilidade de que outros como ele ocupem o poder. Naquele debate, esse mecanismo ficou exposto. Ainda precisaremos estudar o alcance eleitoral do episódio. Seu sentido de classe pôde ser reconhecido no momento em que aconteceu.
A relação entre sofrimento, identificação e ação coletiva atravessa as lutas que estamos vendo em outros países. Na Europa, a juventude politiza a dificuldade de construir uma vida autônoma. Estudar e trabalhar já não asseguram a possibilidade de sair da casa dos pais, pagar aluguel e planejar os próximos anos. Uma promessa de futuro falha justamente quando deveria começar a se realizar.
Na França e na Grécia, as condições da educação aproximaram estudantes e trabalhadores dos serviços públicos. Na Espanha e em Portugal, a moradia tornou visível o conflito entre a vida dos habitantes e a rentabilidade das cidades. Na Itália, as grandes mobilizações pela Palestina reuniram jovens e sindicatos, e os trabalhadores portuários deram consequência material à solidariedade. Uma causa distante encontrava meios de se tornar ação no lugar onde cada um estava.
Na América Latina, essa passagem tem uma história feita de organizações, conquistas e derrotas. As mobilizações recentes na Argentina voltaram a mostrar sua força. A defesa da universidade pública encontrou aposentados, trabalhadores, movimentos sociais e organizações de pessoas com deficiência. Cada setor chegava com uma urgência que o governo Milei procurava administrar como problema separado.
Ao ocupar o mesmo espaço político, essas urgências passaram a se esclarecer mutuamente. O aposentado não conseguia viver de sua renda, a universidade perdia recursos, a família precisava de assistência, o trabalhador temia pelo emprego. A aproximação permitia reconhecer uma política de ajuste atravessando situações distintas. O dano que cada um suportava encontrava uma explicação social e uma possibilidade de resposta.
Na Bolívia e no Equador, organizações indígenas, camponesas e sindicais deram corpo a conflitos sobre combustíveis, renda e trabalho. No Peru, a contestação juvenil encontrou a crise de representação e a insegurança cotidiana. A luta latino-americana carrega essa capacidade de organizar necessidades materiais e disputar o poder que decide sobre elas, embora suas direções e seus resultados permaneçam abertos.
Em Madagascar e no Marrocos, água, energia, saúde e educação levaram jovens às ruas. No Quênia, o custo de vida se entrelaçou à contestação do poder; na Tanzânia, a exigência de participação democrática encontrou repressão brutal. No Nepal, na Indonésia e nas Filipinas, a ostentação das elites e as denúncias de corrupção expuseram a distância entre vidas que se desenrolam no mesmo país.
A corrupção adquire conteúdo material quando aparece na obra de proteção contra enchentes que não foi feita, no benefício parlamentar que contrasta com o salário, no privilégio que bloqueia o acesso a um emprego. A denúncia pode politizar a desigualdade. Sua direção depende das forças capazes de organizá-la.
Nos Estados Unidos, o No Kings aproximou a defesa da democracia, a resistência à perseguição de imigrantes e a oposição às políticas de Trump. Diferentes formas de ameaça passaram a ser reconhecidas como parte de um conflito compartilhado. O vínculo democrático ganhava consistência na defesa de pessoas concretas diante da violência do Estado.
Há uma ascensão contestatória nessa paisagem, mas ela se produz num terreno disputado. A extrema direita também oferece laços. Pode reunir pessoas em torno de uma perseguição e fazer da hostilidade ao outro uma experiência de pertencimento. As mobilizações xenófobas na África do Sul mostram como a frustração social pode ser dirigida contra outros trabalhadores.
Madagascar expõe outra dificuldade. A juventude ajudou a derrubar um governo, mas os militares assumiram o poder. Mais tarde, participantes do movimento voltaram a sofrer repressão ao cobrar as mudanças pelas quais haviam lutado. Entre produzir uma ruptura e conduzir o que vem depois existe uma disputa que a intensidade das ruas, sozinha, não resolve.
Foi nesse mundo que conseguimos reverter a eleição brasileira. Encontramos uma relação entre mobilização, organização e liderança capaz de sustentar uma alternativa nacional. Lula oferecia um nome em torno do qual experiências diferentes podiam se reunir, uma memória de conquistas e uma história reconhecida. A juventude, as ruas e as redes devolveram movimento a esse nome. A liderança e a ação coletiva se transformaram nesse encontro.
A força nordestina, a vitória em Minas Gerais, os resultados nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre e a queda da abstenção registram a mudança entre os turnos. Precisaremos compreender melhor quanto veio da transferência de votos, da adesão de eleitores de outras candidaturas e do aumento do comparecimento. Essa investigação será importante também para sabermos o que a mobilização conseguiu alcançar.
Por sua escala, pelo adversário derrotado e pelo lugar do Brasil no mundo, considero essa a mais importante vitória do ciclo internacional de contestação que estamos acompanhando. A afirmação permanece aberta ao debate. Ela se apoia na capacidade de transformar uma energia social em disputa vitoriosa pelo governo, enfrentando uma extrema direita que acabara de demonstrar sua força eleitoral e institucional.
Fazer o L pode ganhar, assim, um sentido que atravesse as fronteiras brasileiras. O gesto comporta a história de uma vitória construída onde já se instalava a expectativa da derrota. Outros poderão reconhecer nele uma possibilidade para suas próprias lutas.
O Congresso conservador continua eleito. A extrema direita mantém poder econômico, presença institucional e meios de organizar o ressentimento. E quem participou da campanha volta às jornadas de trabalho, às contas, aos cuidados com a família. A intensidade daquelas semanas terá de encontrar formas de existir dentro dessa vida.
Esse talvez seja o problema político que a vitória nos entrega. Como criar lugares em que a participação tenha consequência, em que alguém possa falar, ser ouvido e reconhecer sua ação numa conquista? Como sustentar a organização sem reduzir as pessoas à espera de uma nova convocação? O laço produzido no segundo turno precisará suportar diferenças, conflitos e o tempo menos excitante de construir.
No campus da UFF, os estudantes começaram organizando uma manifestação quando o resultado ainda nos deixava sem resposta. Ao agir, produziram uma possibilidade que outros puderam reconhecer e ampliar. Agora, depois da vitória, teremos de encontrar formas de manter aberto esse lugar: o de quem chega com sua própria razão para lutar e descobre que pode fazer alguma coisa com os outros.
*Psicanalista, mestre pela UFRGS e diretor do Instituto SIG – Psicanálise & Política
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