Semear, uma ferramenta revolucionária útil
Publicado em: 17 de junho de 2026
Coluna Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Coluna Valerio Arcary
Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Equipe Esquerda Online
Guardar rancor é como segurar carvão em brasa para jogar num desafeto.
Você é que sai queimado.
Atribuído à escola budista
1 Existem no Brasil hoje, pelo menos, mais de quinze organizações com alguma presença nacional que se autodeclaram socialistas e revolucionárias de diferentes tradições. Mas não existem quinze estratégias diferentes para a revolução brasileira. O paradoxo exige uma explicação. Quatro partidos legalizados já apresentaram até pré-candidatos à presidência para as eleições de outubro: PSTU, UP, PCB e PCO. Além do PCdoB e PCBR existem correntes internas no PT (Democracia Socialista, Articulação de Esquerda, O Trabalho) e no PSol (Primavera Socialista, Revolução Solidária, Semear, Subverta, MES, Fortalecer, Rebelião Ecossocialista), mas, também, a Brasil Popular que mantém relações com o MST, que merecem ser consideradas como parte de um campo de esquerda radical. A pulverização é ainda maior se ampliarmos o campo de análise para núcleos regionais. Uma boa parte destas organizações tem a percepção de si próprias como o embrião mais sólido do partido revolucionário. Ou seja, estão satisfeitas com suas apostas na autoconstrução. Evoluem de ruptura em ruptura, indiferentes à sua marginalidade, em ininterrupto autoengano. Uma romantização de si mesmas que repousa na expectativa idealizada de que na próxima “esquina perigosa da história” se verá “quem tem unhas para tocar guitarra”. Esta interpretação do leninismo – a teoria do partido-embrião- é, perigosamente, errada por quatro razões: (a) porque é falsa, já que o bolchevismo nunca se autoproclamou o único partido histórico da revolução russa; (b) porque se trata de uma deformação dogmática da experiência leninista; (c) porque nenhuma das organizações existentes tem nas suas mãos uma resposta para o programa da revolução brasileira; (d) porque todas, umas maiores outras menores, não vão além do estatuto de organizações com implantação em setores de vanguarda, sem influência de massas, mesmo minoritária. Esta visão, embora desconectada da realidade, permanece, infelizmente, vigente.
2 Compreender esta desagregação é vital. Em primeiro lugar, ela obedece ao impacto de muitas derrotas. Desde 2016 foram dez anos, muito difíceis. Por isso, pareceram muito mais. O que prevaleceu nesse processo desde o impeachment de Dilma Rousseff e a inversão desfavorável da relação social de forças foi a fragmentação da esquerda radical. Ela se explica, pelo menos, por cinco contradições ou conflitos: (a) remete ao choque entre as deformações sectárias geradas por uma longa marginalidade social e as possibilidades abertas de aumentar a audiência política; (b) remete ao choque entre as deformações no regime interno de partido-fração, e a necessidade de construir organizações que precisam aprender a conviver com a pluralidade democrática; (c) remete ao choque entre as deformações patriarcais-machistas-homofóbicas e a necessidade de relações saudáveis; (d) remete ao choque entre uma geração fundadora dedicada e a necessidade de renovação para o trabalho coletivo, onde não há lugar para caudilhos; (e) finalmente, a última remete ao choque entre o dogmatismo teórico diante das imensas transformações ocorridas no mundo após a restauração capitalista, e as tarefas de um marxismo aberto. Esta dispersão alimentada por derrotas é indivisível, também, da adaptação à rotina de mandatos parlamentares, regionais, e sindicais em “voo solo” que se transformam em um fim em si mesmos, e alimentam rivalidades pessoais. A esquerda “adoeceu” de diferentes tipos de “enfermidades”.
Quem se deixou iludir, imaginando que existia no horizonte a perspectiva de uma situação revolucionária, quando o perigo era exatamente inverso, ou seja, a ameaça de uma situação reacionária, errou. Quem não denunciou o impeachment como um golpe institucional, errou. Quem não se uniu à campanha Lula Livre, errou. Quem não apoiou Lula contra Bolsonaro em 2022 errou.
3 A corrente interna do PSol que se denomina Semear surgiu, neste primeiro semestre de 2026, na contracorrente das divisões, da unificação da Insurgência e da Resistência. Esta, por sua vez, teve origem na cisão com o PSTU, e da fusão de vários agrupamentos em 2018. Essas duas decisões, decidir a hora de romper, e decidir a hora de unir explicam sua existência. Olhando para trás a grande questão é saber se elas passaram a prova da história. É verdade que há rupturas que são política e, programaticamente, imaturas e desnecessárias, portanto, lamentáveis. Infelizmente, não são incomuns. Grupos políticos podem se dispersar por rivalidades pessoais entre as lideranças, e as mais variadas disputas pelo controle de espaços e posições de poder, sem que haja clareza sobre as diferenças políticas. São conflitos previsíveis e contornáveis. Mas, assim como há rachas imprudentes e até desleais, há rupturas sérias e honestas, ainda que dolorosas. A construção de correntes marxistas nunca foi linear. Caminhando pela estrada ocorrem aproximações e desentendimentos em função das avassaladoras pressões da luta de classes. A partir de 2015/16, a classe trabalhadora se fraturou. Uma parcela importante, entre aqueles com direitos, contratos e renda média, os remediados, perdeu esperança no governo Dilma Rousseff, foi envenenada pela LavaJato, e atraída pelo discurso radical da extrema-direita. Quem se deixou iludir, imaginando que existia no horizonte a perspectiva de uma situação revolucionária, quando o perigo era exatamente inverso, ou seja, a ameaça de uma situação reacionária, errou. Quem não denunciou o impeachment como um golpe institucional, errou. Quem não se uniu à campanha Lula Livre, errou. Quem não apoiou Lula contra Bolsonaro em 2022 errou. A divisões se confirmaram pela evolução das posições nos últimos anos como inevitável. Algum ressentimento mútuo é compreensível, porque ninguém é de ferro, e as derrotas doem. Mas não nos devem cegar diante do futuro. O que é necessário é persistir na construção de uma ferramenta útil, preservando a humildade de saber que há revolucionários em outras organizações.
4 As unificações colocam, igualmente, riscos. Já ocorreram unificações apressadas que não se consolidam, e acabam precipitando explosões. A unificação que originou a Semear foi um processo lento e bem sucedido. A formação do bloco PTL (PSol de Todas as Lutas) compondo uma maioria que garantiu a campanha de Boulos à presidência em 2018 e à prefeitura de São Paulo em 2020, a defesa da tática da Frente Única de Esquerda na campanha Fora Bolsonaro em 2021, a defesa do apoio à candidatura Lula desde o primeiro turno em 2022, mesmo com Alckmin na chapa, tudo foi controverso na esquerda radical. Nunca houve monolitismo. Não menos importante, nesse processo se consolidou o bloco Semente com a Subverta que foi além dos alinhamentos táticos. A militância lado a lado forjou uma convergência estratégica. Confiança é algo muito delicado e precioso, porque demanda maturidade e paciência. O tempo é uma medida chave na luta política. Não adianta ter, apaixonadamente, razão sozinhos. Paciência exige ter a lucidez de que, embora o tempo seja de urgência, não adianta tomar decisões desconhecendo a consciência, o humor, o estado de espírito das massas, da vanguarda e da própria militância. A jovem Semear é somente uma corrente revolucionária em construção, muito aquém das necessidades colocadas pela luta de classes. Mas assumimos a responsabilidade na reorganização da esquerda radical no Brasil, indo além da nossa tradição histórica. Nosso desafio imediato é construir a unificação com a Subverta. Reconhecemos ainda a existência de outras coletivos revolucionários, e estamos dispostos a explorar novas possiblidades de unificação.
Quando uma corrente acumula acertos e conhece crescimento acelerado há a armadilha do orgulho. O excesso de altivez nos faz mais sectários. Esse perigo é fatal.
5 Os últimos dez anos foram os mais difíceis desde o fim da ditadura. O país de dividiu e a extrema-direita confirmou uma capilaridade social de implantação assustadora. Estamos diante de muitos perigos. Não há sequer qualquer garantia de Lula será reeleito. Não existem nem lideranças nem organizações infalíveis. Todas são em distintos graus imperfeitas, limitadas, com os defeitos e vícios de suas virtudes. As oscilações da conjuntura podem favorecer desvios oportunistas ou ultraesquerdistas. Mas há, também, um perigo, aparentemente, invisível. Quando uma corrente acumula acertos e conhece crescimento acelerado há a armadilha do orgulho. O excesso de altivez nos faz mais sectários. Esse perigo é fatal. Viemos de longe. Valeu a pena. Honestidade intelectual é importante. Ela é o cimento da força moral. Mas todas as correntes inspiradas na tradição de Leon Trotsky são ainda muito minoritárias. Nossa história revela nossas fragilidades. Mas houve nesse caminho tão longo, também, grandeza.
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