Um país diante de algumas verdades chinesas
A esquerda e um projeto de desenvolvimento econômico para o Brasil
Publicado em: 14 de agosto de 2026
Wild China
Muita coisa a gente faz
Seguindo o caminho que o mundo traçou
Seguindo a cartilha que alguém ensinou
Seguindo a receita da vida normal
Mas o que é vida afinal?
Será que é fazer o que o mestre mandou?
É comer o pão que o diabo amassou
Perdendo da vida o que tem de melhor
(Emílio Santiago – verdade chinesa)
Especialistas em autoajuda, “coaches” e até alguns que se dizem analistas econômicos afirmam que o ideograma chinês para a crise também remonta a ideia de oportunidade – a crise para muitos é a oportunidade para aqueles que sabem aproveitar o momento e encontrar ou descobrir um nicho de bons negócios.
Estamos vivendo uma crise de hegemonia no comércio mundial – e na política também – com os sinais cada vez mais visíveis de declínio da hegemonia dos EUA – razão principal dos tarifaços de Trump contra praticamente todas as principais economias do mundo, incluindo o Brasil, e também das intervenções militares que a superpotência ianque tem feito em várias partes do planeta.
Essa crise torna-se mais aguda com a ascensão da China, que de um país periférico na década de 1990 tornou-se um rival em termos de tecnologia, de exportações e capacidade de investimento externo a altura de enfrentar a hegemonia do império do norte e do dólar no comércio e na geopolítica do planeta – esse é o principal fator da política externa e comercial cada vez mais agressiva da pátria estadunidense.
China que é, no momento, nossa principal parceira comercial; destino de 34% de nossas exportações e que tem aumentado ano após ano seus investimentos no Brasil – em 2025 os investimentos chineses em nosso país superaram seis bilhões de dólares, mais que o dobro do que foi investido em 2024 – sendo que os Estados Unidos, tradicionalmente nosso principal parceiro comercial, atualmente responde por apenas 9% de nossas exportações.
O medo de Donald Trump é que a China, via Brasil, estenda seus tentáculos comerciais a toda a região da América latina; como tem feito no sudeste asiático e no continente africano; só que utilizando de táticas totalmente opostas às utilizadas pela terra do tio Sam.
O medo de Donald Trump é que a China, via Brasil, estenda seus tentáculos comerciais a toda a região da América latina; como tem feito no sudeste asiático e no continente africano; só que utilizando de táticas totalmente opostas às utilizadas pela terra do tio Sam.
Enquanto o presidente alaranjado e metido a valentão brigador do norte do continente se utiliza de tarifaços, intervenções militares e até sequestro de um presidente como fez na Venezuela; os chineses se utilizam de acordos comerciais e investimentos – na África, por exemplo, 53 dos 54 países do continente têm acordos comerciais bilaterais com a China com tarifa zero e transações em suas próprias moedas nacionais; apenas Essuatini ficou de fora dos acordos por apoiar Taiwan.
Nosso país está diante de uma aparente disjuntiva; escolher entre duas superpotências mundiais em conflito: de um lado os EUA com sua política de “tiro, porrada e bomba” mais tarifaços e subordinação de nossa economia a seus interesses; do outro a ascendente China e seus acordos comerciais bilaterais com vantagens mútuas e investimentos diretos.
Nas duas tarifas comerciais impostas ao Brasil recentemente (25% e 12,5%) – lembrando que a segunda tarifa foi aplicada contra sessenta países – o representante dos EUA, Marco Rubio, fez exigências disparatadas ao estilo exigir que qualquer medida do governo brasileiro sobre políticas digitais fosse submetida ao escrutínio prévio das big tecs, eliminar tarifas sobre bens industriais dos EUA – algo como isenção fiscal total às montadoras de automóveis como GM e Ford – e ainda quiseram impor restrições a investimentos chineses em nosso país e o acesso ilimitado dos EUA às nossas terras raras.
Na imposição da segunda tarifa, de 12,5%, o Brasil também foi acusado de desrespeitar os direitos humanos, a liberdade de expressão e de perseguição política contra o ex-presidente Bolsonaro – cinismo puro!
O projeto do imperialismo estadunidense para o Brasil e a América latina é nos reduzir a economias primário-exportadoras, mercados para seus investimentos e consumidores dos produtos industrializados e serviços digitais ianques – é a reprimarização total de nossa economia, como no período colonial.
É a “doutrina donroe”; versão trumpista da doutrina monroe do século XVIII, “a américa para os americanos” – com um acrônimo que une as iniciais de Trump e Monroe; agora é a “américa para os americanos, do norte”.
Diante de uma aparente situação de terceiro excluído – escolher entre EUA e China – a esquerda brasileira se vê diante da necessidade de apresentar um projeto estratégico de desenvolvimento econômico para nosso país como alternativa ao projeto da extrema direita; um projeto que deve ter como elemento central nossa reindustrialização.
A indústria brasileira chegou a responder por 45% de nosso PIB em seu auge em 1985, hoje corresponde a pouco mais de 23% do PIB, semelhante ao agronegócio – no início da década de 1980 nossa produção industrial equivalia a três vezes as produções industriais da Coreia do Sul e da China, somadas.
O agronegócio cresceu às custas de nossa desindustrialização da década de 1990 para cá; ele não tem nada de “tec” ou “pop”, simboliza nossa decadência econômica, agride o meio ambiente, põe em risco nossa soberania alimentar com uma produção basicamente para o mercado externo, bem ao estilo da Plantation açucareira imposta aqui pela metrópole portuguesa no período colonial – monocultura de exportação, latifúndio e trabalho escravo, nos dias de hoje substituído pelo trabalho de baixa qualificação e precarizado.
Não por acaso o agronegócio é recordista de denúncias no ministério do trabalho por condições laborais análogas à escravidão – o agro responde por mais de 50% das denúncias de trabalho em condições análogas à escravidão em nosso país, segundo dados do ministério do trabalho e emprego. (mte.gov.br)
O agro simboliza o projeto de país da extrema direita neofascista. Ao contrário do que muitas figuras da esquerda afirmam, eles têm um projeto para o Brasil; que foi explicitado na convenção do PL, Partido Liberal, que lançou o filho do genocida a presidência para a eleição deste ano – um projeto que coincide totalmente com os objetivos do governo de Donald Trump.
Estiveram presentes na convenção – além do candidato primogênito da família de milicianos – como convidados o genocida do Oriente Médio – o nazi-sionista Netanyahu, online – e, de corpo presente, o histriônico presidente da Argentina; o dublê de capanga e menino de recados de Donald Trump – Javier Milei.
Essas duas figuras nefastas simbolizam o projeto do neofascismo para o país; um estado iliberal, uma espécie de ornitorrinco político que reúne o pior de dois mundos: o autoritarismo político e o mais rasgado liberalismo econômico, algo semelhante ao anarcocapitalismo de Javier Milei na Argentina – um sistema que dá total liberdade econômica ao capital e impõe uma semiescravidão aos trabalhadores com jornadas diárias de até 12 horas sem pagamento de horas-extras, salários pagos em alimentos e restrições a ação dos sindicatos.
O outro convidado; Netanyahu – o açougueiro do Oriente Médio – simboliza a política de guerra civil/guerra social de extermínio dos ricos contra os pobres através do armamento do “andar de cima” contra a patuleia do “andar de baixo” e a utilização das polícias estaduais e municipais como grupos de extermínio nas periferias pobres das cidades brasileiras seguindo o exemplo do mais que autoritário presidente do El Salvador, Bukele.
Estamos diante de dois projetos antagônicos de desenvolvimento para o Brasil; o da extrema direita sabuja do imperialismo ianque, que sai às ruas com bandeiras do Brasil e dos EUA comemorando cada sanção de Trump contra o nosso país e o da esquerda – que pretendo resumir neste texto como uma contribuição ao debate.]
Nossa primeira “verdade chinesa” é que devemos aproveitar esse cenário de disputas geopolíticas e comerciais imposto pelos EUA, que gera um conjunto de desafios relacionados à nossa economia, para afirmarmos um projeto de desenvolvimento econômico que não implique na submissão ao império do norte ou na condição de satélite de uma superpotência ascendente – é hora de aproveitarmos a oportunidade e reconhecermos a necessidade; a esquerda deve utilizar o debate eleitoral para apresentar ao conjunto da população um projeto de país oposto ao projeto neofascista.
Para isso é necessário romper com o concesso de Washington, o conjunto de medidas econômicas impostas pelos centros nevrálgicos do mundo capitalista a todos os países da periferia desse modo de produção; redução do tamanho do Estado com privatizações de empresas e serviços públicos, flexibilização direitos trabalhistas com enfraquecimento dos sindicatos através de legislações antissindicais e campanhas de desmoralização dessas entidades, abertura econômica total e desenfreada das economias dos países periféricos ao capital internacional e desregulamentação dos mercados financeiros – as medidas do consenso de Washington tornaram-se mantras do chamado neoliberalismo.
Todos os países que aplicaram a cartilha neoliberal estão falidos, como a Argentina que não possui dólares para pagar importações e sua dívida externa, ou em estado pré-falimentar como o Brasil que tem a maior taxa de juros reais do planeta – graças a um banco central controlado pelo capital financeiro.
Enquanto a maioria das economias mundiais chafurdavam ou patinavam no lodaçal neoliberal, a China tornou-se uma superpotência – com o perdão pelo mineirês, “comia pelas beiradas” – utilizando cada vez mais o Estado como dirigente e impulsionador da atividade econômica e da inovação, o desenvolvimento tecnológico.
O país que fazia produtos descartáveis, com baixa tecnologia e vendidos nas regiões de comércio popular do Brasil, como Saara no Rio de Janeiro e Rua 25 de março em São Paulo, através da ação do Estado como impulsionador e dirigente da atividade econômica tornou-se uma superpotência a ponto de rivalizar com os Estados Unidos – quando os líderes das potências mundiais abriram os olhos, se depararam com um gigante tão grande e tão poderoso a ponto de provocar reações desesperadas como vemos hoje por parte dos EUA para manter suas hegemonia econômica e o papel do dólar como moeda mundial.
A partir de 1990 – no auge do vendaval neoliberal – a China graças a ação do Estado tirou aproximadamente 100 milhões de pessoas da miséria absoluta, mas que isso; a partir da ação do próprio Estado também passou a se tornar uma grande potência exportadora e também um grande polo de desenvolvimento tecnológico capaz de rivalizar e produzir as tecnologias que antes eram monopolizadas pelos Estados Unidos.
A China condensou o tempo da história; as três etapas em que economistas e historiadores dividem a revolução industrial (o século XVIII simbolizado pelo motor a vapor; o século XIX que têm como marca a eletricidade e o motor a explosão que permitiu a invenção do automóvel e a terceira fase iniciada na segunda metade do século XX, marcada pela revolução que vivemos atualmente com a internet e a automação) foram condensadas em um período de pouco mais de cinquenta anos em um país atrasado e rural, que convivia com miséria e insegurança alimentar endêmicas – os chineses aceleraram o tempo da história; através do planejamento estatal a China construiu um caminho próprio de desenvolvimento.
Quando o Donald Trump resolveu estrangular a Huawey impedindo que empresas estadunidenses fornecessem chip ou sistema operacional para grande empresa chinesa – ou seja; ela não mais teria acesso aos sistemas Android e IOS – a resposta veio a cavalo: tempos depois os Estados Unidos descobriu estupefato que na China havia dois sistemas operacionais, não apenas um, Harmony Os (desenvolvido pela Xiaomi) e Hyper Os (da própria Huawei).
Não parou por aí, depois o tio Sam descobriu que a Huawei é capaz de fabricar seu próprio chip, não dependia mais do fornecimento desse equipamento por parte de empresas estadunidenses.
Em 2025, no auge das ameaças de Donald Trump contra o Brasil no primeiro tarifaço, quando fomos ameaçados de perder acesso ao sistema GPS e também que as grandes empresas de pagamento nos Estados Unidos – Visa e MasterCard – poderiam deixar nosso país; conhecemos a Union Pay chinesa, a maior plataforma de pagamentos do mundo, que insinuou desembarcar por aqui além de conhecermos o BDS (Bei Dou) – sistema de geolocalização global substituto do GPS.
Se Xi Jimping – líder chinês – vivesse no Brasil e tivesse algum senso de humor diria: “seus problemas acabaram!” – antigo bordão utilizado no antigo humorístico casseta&planeta.
Aqui cabem duas verdades chinesas; a primeira é que devemos encontrar um caminho próprio de desenvolvimento independente das duas superpotências, rompendo com a agenda neoliberal e seu consenso de Washington.
Por mais que reconheçamos os êxitos da via chinesa, não podemos cair no deslumbramento e apoiar o regime chinês de partido único – é um regime autoritário, para ser elegante.
Seu sistema econômico – autointitulado “economia socialista de mercado” – embora com presença hegemônica do Estado em setores estratégicos da economia; é um mercado controlado pelo Estado, não é socialismo – é algo como um capitalismo de Estado.
A segunda é que somente o Estado pode fazer grandes investimentos de risco a longo prazo, somente o Estado pode mobilizar grandes quantidades de recursos e investir em setores estratégicos para nosso desenvolvimento econômico – o capital privado se comporta como rentista; participa dos lucros da produção cobrando pesados juros sem contribuir com o processo produtivo – o rentismo é um parasita da economia real.
O neoliberalismo desmontou o parque industrial brasileiro com a abertura sem limites à concorrência das potências capitalistas – Coreia do Sul e China fizeram o oposto, por caminhos diferentes a partir do Estado protegeram sujas indústrias.
FHC, não apenas “apagou” o país em 2001 no final de seu mandato – graças a privatização do setor elétrico fomos condenados a racionar energia e a pagar os investimentos da empresas privadas nas redes de transmissão e, literalmente, tomar banho de bacia ou caneca – ele também entregou uma das três maiores fabricantes de aviões comercias do mundo – a EMBRAER – que desenvolveu sua tecnologia enquanto empresa estatal, acabou com nossa nascente indústria de informática liberando as importações de concorrentes sem impostos ou taxas, entregou nossos recursos do subsolo ao capital estrangeiro com a privatização da Cia Vale do Rio Doce e das siderúrgicas… – esse senhor e seus dois mandatos presidenciais simbolizam o neoliberalismo no Brasil.
Essas duas verdades acima devem ser a base do projeto da esquerda para nosso Brasil soberano.
O governo deve reassumir a administração direta do banco central como primeiro passo de uma agenda de desenvolvimento em nosso país que aumente o poder de compra de nossa população, que reduza as desigualdades sociais e reindustrialize o Brasil estimulando o crédito e o investimento produtivo; só um banco central independente do mercado financeiro e acima deste é capaz de realizar tal tarefa.
Recuperar o controle do banco central pelo Estado é o primeiro passo decisivo para a redução da taxa de juros em nosso país; o Brasil paga os maiores juros do planeta em termos reais para o capital financeiro.
A taxa de juros reais no Brasil é de aproximadamente 9% ao ano – atualmente temos 14% de juros ao ano com uma inflação próxima de 5% – o que significa que o capital financeiro tem uma remuneração, no mínimo, três vezes mais que o crescimento anual do nosso PIB – um PIB que cresce no máximo 3% ao ano em seus melhores momentos, devido aos juros exorbitantes.
Os juros reais de 9% ao ano, são uma remuneração maior, quase o dobro, que a taxa de lucro média da maioria dos empreendimentos capitalistas, que gira em torno de 5%; isso é um chamado a um não investimento produtivo, é um convite a especulação financeira – a taxa de juros não pode ser superior ao crescimento do produto interno bruto e também não pode ser superior ao lucro dos investimentos produtivos.
Reduzir a taxa de juros é fundamental para estimular o investimento produtivo e também estimular o crédito; o que pode criar um ciclo de estímulo ao investimento produtivo e também de estímulo ao consumo de massa – possibilitando o que em economia chama-se crescimento econômico sustentável.
Reduzir a taxa de juros a partir do controle estatal do banco central também possibilitaria reduzir o peso dos serviços da dívida pública no orçamento, sobrando mais recursos para investimento nas áreas sociais – educação, saúde, pesquisa e tecnologia, transporte, etc. – e também para estimular a produção de bens e serviços considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional e para a melhoria das condições de vida da grande massa de nossa população.
O exposto acima implica em romper a lógica do ajuste fiscal, uma das imposições do consenso de Washington; nosso país vive sob a lógica do “equilíbrio” das contas públicas desde os anos 1990 – um dos legados de FHC – que, sob o argumento da austeridade e do combate ao déficit público, devem ser superavitárias reduzindo drasticamente o espaço no orçamento para as áreas sociais e políticas públicas.
A lógica do combate ao déficit público é uma falácia completa, para não dizer que é um conto do vigário; os números quando bem manipulados ou devidamente torturados “falam” o que quisermos ouvir – matemática e contabilidade nunca foram ciências exatas.
O chamado déficit público é, de fato, tecnicamente déficit primário; algo como considerar receitas e despesas do governo excetuando as despesas financeiras, serviços da dívida pública (juros e amortizações) – desconsidera-se o que o governo para de juros e parcelas da dívida e do resto faz-se uma operação simples de retirar da receita que sobrou os demais gastos – trata-se de uma manobra contábil e conceitual para proteger o capital financeiro de qualquer ajuste nas contas do governo.
De acordo com o orçamento de 2025, o governo dispunha de R$ 5,054 trilhões dos quais R$ 2,135 trilhões foram gastos com a dívida pública – mais de 42% – e daquilo que restou o governo injeta diretamente “na veia do capital” R$ 700 bilhões a títulos de isenções fiscais, R$ 516 bilhões para o agronegócio como plano safra e para o bolsa família, que atende 48 milhões de pessoas, R$ 168 bilhões. (dados do ministério da fazenda e auditoria cidadã da dívida).
Para os porta-vozes da Faria Lima o problema é o bolsa família; que tem sido alvo de uma campanha permanente da extrema direita nas mídias e na imprensa – cortar do orçamento 48 milhões de pessoas para proteger o privilégio de 1% da população.
Na realidade, a lógica do déficit primário – que exclui da conta os gastos com a dívida pública – é uma artimanha contábil para esconder o verdadeiro déficit do governo; o déficit nominal – este sim, faz a conta certa incluindo os gastos com os serviços de agiotagem da dívida pública.
Se perguntarmos a uma pessoa comum diante dos números onde cortar os gastos – R$ 2,135 trilhões para um pequeno número de famílias abastadas ou R$ 168 bilhões para 48 milhões de brasileiros – é de supor que a esmagadora maioria opte pelo corte do “bolsa banqueiro” da dívida pública.
Já que estamos falando de dinheiro, também é fundamental uma reestruturação profunda de nosso sistema tributário – cobrança de impostos.
O brasil possui um sistema de impostos regressivo e profundamente injusto; regressivo porque quanto maior a renda menor o imposto – possuímos uma alíquota única e variados mecanismos de isenção fiscal onde o peso da contribuição é maior no segmento mais empobrecido da população – e tem impostos embutidos nos preços dos produtos, fazendo que pobres e ricos paguem o mesmo imposto ao comprar alimentos, livros, roupas, etc – é uma política de Robin Hood ao contrário.
Nossos impostos ao invés de taxar salários e consumo como fazem atualmente; devem taxar patrimônio e renda (lucros, dividendos, herança) e as fortunas dos mega ricos.
Nosso país também tem condições de garantir sua soberania alimentar – eliminando a fome endêmica que assola grande parte de nossa população – com uma política de reforma agrária e de incentivos – dinheiro mesmo – do governo a agricultura familiar e aos pequenos e médios produtores rurais que produzem alimentos para o mercado interno; o agro – nem pop e nem tec – é um parasita que consome uma enormidade de recursos públicos e produz apenas para exportação – contribuindo com a escalada nos preços dos alimentos em nosso mercado interno.
Nossa pátria tupiniquim pode, e deve, voltar a ser um país industrializado; a indústria produz produtos de maior valor agregado – que contém mais trabalho humano qualificado – gerando empregos de melhor qualificação e melhor remuneração; criando uma demanda maior por desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, por mais investimentos em pesquisa e educação escolar – da educação básica à universidade.
A reindustrialização pode contribuir para nosso desenvolvimento tecnológico respeitando o meio ambiente com o incentivo ao emprego de energia limpa – solar, eólica – e recursos renováveis.
Podemos nos inspirar no modelo chinês: formação de joint ventures (empresas brasileiras se associam a empresas do exterior que queiram investir no Brasil com a garantia de transferência de tecnologia), exigência de que parte dos componentes dos produtos sejam fabricados por empresas nacionais e o uso da clássica engenharia reversa – o desmontar e remontar as coisas, herança do tempo em que as crianças brincavam com brinquedos de verdade.
Por último – não menos importante – temos a necessidade de investimentos em pesquisa e educação – educação básica, centros de pesquisa e universidades públicos – com as verbas públicas devendo ser destinadas apenas às instituições públicas de ensino e pesquisa.
Melhorar as condições salariais e laborais do conjunto de professores, principalmente de educação básica, e pesquisadores para melhorarmos o nível educacional e cultural de nossa população – ciência e tecnologia devem ser disseminadas com o aumento do nível educacional e cultural de nossa população e se tornarem assuntos das fofocas cotidianas e das conversas de botequim.
Os recursos para este sonho possível sairão do fim dos incentivos fiscais ao agronegócio e aos capitalistas que não geram empregos e avanços tecnológicos, de um novo sistema tributário mais justo e que combata a sonegação fiscal, da redução das taxas de juros e, consequentemente, da dívida pública – que deverá ser repactuada.
Estes deverão ser – seguindo a filosofia chinesa, mote deste artigo – os primeiros passos de uma longa – mas prazerosa – caminhada que começa com nossa vitória eleitoral contra o neofascismo e o imperialismo trumpista.
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