Autonomia universitária não é erro, é democracia
Publicado em: 16 de março de 2026
Foto: Nah Jereissati/ADUFC-Sindicato
Protesto de professores, servidores e estudantes da UFC, a primeira universidade do país a sofre intervenção por parte do governo Bolsonaro (2021)
Diante de um recente editorial da chamada grande (sic!) imprensa com o título “Foi um erro acabar com a lista tríplice para reitor das universidades federais”, um desses veículos evocou o caso de outros órgãos da administração pública no Brasil e fora, cuja eleição para chefiá-lo passa por um processo interno que também forma listas tríplices para que um soberano todo-poderoso possa então fazer a nomeação final, no exercício de um poder discricionário quase medieval e monárquico, incompatível com a realidade democrática do século XXI.
Não surpreende que o editorial parta de um jornal que em abril de 1964 festejou, também com um editorial chamado “Ressurge a democracia”, um ato autoritário e discricionário. Esse editorial sustentava, entre outros trechos: “Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo”.
Como se sabe, o período iniciado em 1964 fez graves violações a direitos de toda ordem e impôs a censura prévia à imprensa e todo tipo de manifestação pública, política ou cultural, violando o trabalho de jornalistas e matando alguns, como Vladimir Herzog. Atualmente, no século XXI não é plausível pensar que algum ou alguma jornalista defenderia a censura de seu trabalho, por parte de “um chefe de poder”.
O período da ditadura 1964-1985, saudado por boa parte das oligarquias econômicas e políticas brasileiras, também impôs censura às universidades, infiltrou militares como interventores nas suas estruturas de gestão e promoveu “expurgos” (palavra empregada pelas próprias juntas censoras) de estudantes, professores e trabalhadores julgados sumariamente como subversivos inimigos da pátria. Gente que tinha o pensamento crítico como ofício foi exonerada, perseguida e precisou se exilar para sobreviver, quando conseguiu.
A importância de afirmar a autonomia universitária – que por óbvio não se encerra, e somente começa com a eleição de suas e seus dirigentes pela própria comunidade – é tão óbvia quanto se afirmar que a imprensa precisa ser livre e que os direitos humanos, políticos e sociais precisam ser garantidos.
Não pode haver uma sociedade minimamente humana, desenvolvida e democrática sem a liberdade de pensamento, condição fundamental para construir mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais. É evidente que tal liberdade de pensamento precisa estar subordinada aos desígnios coletivos e alguns valores mínimos de caráter ético, sem os quais a vida humana associada se transforma em barbárie. A universidade pública se sente comprometida com esses valores, assim como, acreditamos, também a imprensa.
Por isso o que deve ser atacado em tempos tão sombrios e violentos como os que estamos vivendo não é a autonomia das instituições sociais, mas a fragilidade das democracias contemporâneas, sempre em risco de serem capturadas; a eterna tentação fascista que nos ronda; os ataques ao conhecimento científico e à livre circulação de informações; o estilo de vida depredador que está acabando com as condições naturais de vida no planeta.
Nos parece que, juntamente com outras instituições democráticas, e sempre de forma responsável pelo bem viver comum, a universidade autônoma e a imprensa livre podem ser agentes fundamentais de transformação social para uma vida mais justa, equilibrada e solidária para todas pessoas.
📢 O Senado aprovou o fim da lista tríplice para escolha de reitores das universidades públicas! Agora vai pra sanção do presidente Lula!
🎓 Este dispositivo foi implantado na reforma universitária e previa que a universidade enviasse uma lista de 3 nomes para que a presidência…
— Esquerda Online (@esquerdaonline) March 13, 2026
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