Pelo direito de torcer contra


Publicado em: 18 de julho de 2026

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

Compartilhe:
Ouça a Notícia:

Nos anos 80 era comum que parte da população brasileira tivesse uma certa dificuldade de diferenciar a ficção da realidade. Aqui não cabe fazer juízo ou uma interpretação deste fato. Mas, este acontecimento é algo registrado na história. Atrizes e atores que em novelas de grande audiência atuavam em papel de vilões mais de uma vez relataram que foram agredidos e xingados na rua por conta daquilo que interpretavam dentro da TV. Parte da população transmitia a raiva que sentiam do personagem na ficção o mundo real, punindo aquele que interpretava.

Esta reflexão é a primeira aspas deste texto, um prólogo, antes de entrarmos em seu assunto verdadeiro.

A Copa do Mundo mexe com paixões. Não apenas futebolísticas, mas também sociais. Ela molda o imaginário popular sobre sua nação e sobre o outro.

A partir do futebol criam-se mitos, heróis, identidades, e se rompe com elas. Seria inimaginável uma Argentina sem o gol de Maradona contra os ingleses em 86. Ou o que seria do Brasil diante de si e diante do Mundo sem os gols de Pelé em 58.

O jogo é um espelho da alma de um povo e de uma Nação. Mas, em essência, ele não é a materialização desse povo, seus pecados e glórias, nem do espírito de uma Nação. Ele é um espelho, um reflexo, uma imagem distorcida da realidade. O problema, é, portanto, quando se confunde a foto com a realidade.

Existe uma normalidade em eventos esportivos entre países que é o fato de levarmos os sentimentos geopolíticos e extra campo para dentro dele. Isto é normal, pois afinal, os jogadores atuam sobre uma bandeira, um hino e representam um país.

Então é comum torcermos para aqueles países com o qual mais nos identificamos. Isto é normal no mundo todo. Como brasileiros, o corriqueiro é termos uma identidade com aqueles com quem temos um passado compartilhado, ou seja, países africanos e países sulamericanos.

Os jogadores representam a seleção daquele país, eles não são o país em si. O jogo não é uma revanche da luta de classes. Escolher seleção x ou y para apoiar não faz ninguém superior moralmente ou eticamente.

Mas, novamente, o futebol é apenas um reflexo. Os jogadores representam a seleção daquele país, eles não são o país em si. O jogo não é uma revanche da luta de classes. Escolher seleção x ou y para apoiar não faz ninguém superior moralmente ou eticamente.

Sim, sendo eliminada nossa seleção, é possível preferir um país europeu como campeão, seja lá por qual motivo for. Seja pelo fato de que seu jogador preferido por obra do destino nasceu dentro daquelas fronteiras, seja por gostar do tipo de jogo da seleção escolhida. Este fato não pressupõe apoio ao colonialismo deste país.

Do mesmo modo, é possível escolher torcer por seleções com identidades culturais e sociais mais próximas a de nosso país, como as sul-americanas. Porém, isto não transforma ninguém em um Simón Bolívar ou em um propulsor da integração de nosso subcontinente. Por mais que em seu imaginário tal torcedor se veja como parte do exército de San Martín.

A polêmica do submundo da vanguarda da esquerda é sobre a seleção Argentina.

As acusações acontecem entre os lados. Alguns que apoiam a Argentina são acusados de relativizar o racismo de parte da torcida. Estes, se defendem afirmando que os países europeus são imperialistas, e que torcem para o país vizinho pelo fato da proximidade cultural entre nós e eles.

O debate, que deveria ser futebolístico, se tornou político, ou pior, se transforma num moralismo identitário. O emocional dentro de campo passa a ser uma disputa racional entre a história dos países. O que deveria prevalecer era a identificação entre o torcedor e a seleção que estará em campo, mas se torna um culto identitário para ver qual lado está mais alinhado a causas progressistas. Como diante das novelas dos anos 80, agora se confunde a seleção com a Nação e com o povo.

Às vezes o óbvio precisa ser dito, não se está contra a Argentina como Nação ou contra o povo argentino. As pessoas estão contra o futebol do país e seus jogadores. Afinal, somos rivais dentro de campo.

Alguns passam a tratar uma rivalidade futebolística dentro de campo com uma rivalidade geopolítica. Às vezes o óbvio precisa ser dito, não se está contra a Argentina como Nação ou contra o povo argentino. As pessoas estão contra o futebol do país e seus jogadores. Afinal, somos rivais dentro de campo.

Alguns vão dizer que a rivalidade foi criada por Galvão Bueno, mas isso pouco importa. Ela se materializou através da história recente no imaginário popular. E afinal, venhamos e convenhamos, toda rivalidade exclusivamente futebolística é inventada.

A rivalidade entre Brasil e o país vizinho começa com o narrador, mas tem um fator dentro de campo, que é a internacionalização do futebol de clubes com brasileiros e argentinos disputando anualmente o posto de melhor da América nos torneios continentais.

É um consenso hegemônico na sociedade brasileira a rivalidade entre clubes de nosso país e clubes argentinos. Portanto, não se deveria estranhar ou se acusar de um sentimento anti-argentino ou de uma tentativa de politizar o debate apelando para um sentimento identitário de uma suposta Pátria Latina América.

A posição de se torcer pela Argentina numa integração sul-americana é uma desculpa moral e ética, e tudo bem aqueles que a usam, mas isso precisa ser dito. Semelhante aos que se recusam torcer para a Argentina pelos casos de racismo por parte da torcida. Justo. Mas o racismo não acabará independente da torcida, e escolher o país vizinho não tornará ninguém racista.

Eu torço contra a Argentina. Eu sou o que publicamente se chama de anti. Torço pela derrota de meu rival futebolístico da mesma forma que torço pelo sucesso do meu clube de coração. O futebol também existe dentro desse aspecto, da rivalidade gratuita, do ódio saudável sem sentido e ilógico.

E isto, não pode ser tirado de mim.

“A Argentina não pode ganhar! Por quê?” Perguntou um velho comunista. “Não, a Argentina não pode”, digo eu. Porque são nossos rivais e nós estamos cada vez piores dentro de campo.

“O brasileiro não quer que a Argentina ganhe por inveja.” Esse é o novo argumento de alguns que querem apaixonadamente que Messi levante a taça.

Eu direi, sim. Sinto inveja e tudo bem. Toda rivalidade passa por isso quando o adversário empilha conquistas. Então digo em alto e bom som: Em defesa do direito a ter inveja.

Gilda é um filme estadunidense do fim dos anos 40 que se passa em Buenos Aires. Nele vemos um dono de cassino, seu amigo e funcionário, e Gilda. A musa, casada com o primeiro, porém apaixonada e com um secreto passado com o segundo. Uma das frases que se repete no filme é que o ódio entre pares esconde um sentimento de sedução.

Odiar um rival futebolístico, torcer para sua derrota, vaiar seu melhor jogador, tudo isso faz parte da sedução que é o futebol.

Em apenas 3 ocasiões torcerei para a Argentina. Na luta social de seu povo por igualdade. Na luta de seu povo contra o imperialismo. E caso a seleção Argentina jogue contra o flamengo.

Em apenas 3 ocasiões torcerei para a Argentina. Na luta social de seu povo por igualdade. Na luta de seu povo contra o imperialismo. E caso a seleção Argentina jogue contra o flamengo.

De resto, a desgraça e a derrota da seleção do país vizinho é minha alegria.

O artigo acima representa a opinião do autor e não necessariamente corresponde às opiniões do EOL. Somos um portal aberto às polêmicas e debates da esquerda socialista


Compartilhe:

Contribua com a Esquerda Online

Faça a sua contribuição