Contagem regressiva para a campanha eleitoral
Publicado em: 15 de julho de 2026
Foto Ricardo Stuckert
Faltam trinta dias para o início da campanha eleitoral. Nela se decidirá, em enorme medida, qual rumo nosso país seguirá diante das profundas mudanças político-econômicas, tecnológicas, geopolíticas e militares promovidas pelo esgotamento do neoliberalismo e avanço da extrema-direita, fenômeno que persiste há pelo menos 10 anos no mundo todo.
Este editorial tem por objetivo sistematizar o cenário em que se darão as eleições em nosso país, com base nos últimos movimentos do governo Trump, na situação do bolsonarismo e do campo popular em nosso país, e naquilo que identificamos como as tarefas prioritárias para a construção de um futuro para a esquerda brasileira.
Trump já prepara a intervenção contra as eleições brasileiras
As eleições na Colômbia e no Peru, ambas decididas por estreitíssima margem – no primeiro caso, com fortes indícios de fraude envolvendo uma empresa estadunidense e, no segundo, decidida pelos eleitores peruanos fora do país –, acenderam o alerta. Trump e Marco Rubio vêm confirmando que a ofensiva contra a América Latina, a chamada “estratégia hemisférica” dos EUA, que atingiu outro patamar desde o 3 de janeiro na Venezuela, é sua maior prioridade. O imperialismo tem por objetivo “fechar” a América Latina, impondo governos alinhados ao seu, custe o que custar.
Devemos, portanto, estar atentos aos expedientes adotados pelos EUA nas últimas eleições latino-americanas. Se a disseminação de fake news já é um método consolidado, outras ferramentas têm sido desenvolvidas: “fazendas” de robôs e deepfakes produzidos com IA, favorecimento algorítmico dos conteúdos da extrema-direita, etc. Há ainda o que foi feito na Colômbia, com o incentivo a conflitos armados nas vésperas das eleições e ampla cobertura midiática para o assunto – promovendo sentimento de pânico social diante da violência e da segurança pública, pauta que é, apesar das profundas conexões entre este setor e o crime organizado, o eixo prioritário da extrema-direita para nossa região. A denominação do CV e PCC como organizações terroristas, que autoriza ações militares diretas dos EUA em solo brasileiro, prepara justamente esse caminho.
Outras medidas de Trump também já estão engatilhadas (“locked and loaded”, como o próprio costuma dizer) contra o Brasil. O novo tarifaço e os ataques ao pix, articulados diretamente com a família Bolsonaro, além do impacto inflacionário da retomada da guerra contra o Irã na última semana, são outras frentes em que os EUAbuscam sobrecarregar e desgastar internamente o governo brasileiro.
Caso atinjam seus objetivos e elejam seus representantes no Brasil, mesmo o crescente desgaste interno enfrentado pelo neofascismo nos EUA pode ser insuficiente para evitar sua consolidação no poder. Com todo um continente submetido e à disposição para a pilhagem de recursos naturais e a superexploração da força de trabalho, não é difícil imaginar um reordenamento e ampliação do bloco burguês que dá sustentação a Trump. O próprio Trump, por sua vez, já deixou nítido seu objetivo estratégico em diversas ocasiões – da nova doutrina de segurança nacional, publicada no ano passado, até o artigo que compartilhou recentemente em suas redes sociais, em que afirma que o Brasil é o próximo desafio. Ou seja: Trump reconhece que as eleições brasileiras são estratégicas para seu projeto. O mínimo que as forças democráticas brasileiras devem fazer é levar a sério o perigo, e trabalhar com táticas que nos permitam preservar a soberania do Brasil e impor derrotas ao líder do neofascismo mundial.
O cenário não permite qualquer euforia
Se é verdade que as últimas pesquisas eleitorais parecem consolidar uma pequena vantagem para a reeleição de Lula, toda a dinâmica de oscilações na conjuntura recente recomenda cautela. Além dos fatores externos da pressão imperialista, fatores internos como o custo de vida ou a massificação do endividamento por meio das bets durante a Copa do Mundo podem produzir impacto suficiente para inverter as tendências atuais. Lula recuperou espaço e Flavio Bolsonaro submergiu em crises em sequência, mas é preciso perseverar em uma campanha que encante e anime o povo brasileiro – e que não fale apenas sobre o balanço do governo – para aprofundar a vantagem conquistada.
Do lado de lá, o envolvimento de Flavio Bolsonaro com seu “irmão” Daniel Vorcaro e o escândalo do Banco Master, além de sua evidente relação com o tarifaço trumpista, tem cobrado seu preço na interrupção da dinâmica de crescimento que se podia observar no início do ano. Mas a persistência de sua ameaça é demonstração da força de seu campo político no país, que articula a massa da burguesia financeira com as parcelas mais precarizadas da classe trabalhadora.
Há que se ver, ainda, qual o alcance, impacto e real objetivo da crise familiar tornada pública por Michele Bolsonaro nas últimas semanas, agora aparentemente encerrada com a carta do patriarca. De um lado, a hipótese mais provável é a de se tratar da preparação da luta pelo pós-Bolsonaro, com Michele entre suas figuras mais fortes por penetrar em setores que seu campo enfrenta dificuldades, particularmente as mulheres evangélicas. Sobre isso, não deve haver dúvidas: Michele é parte de um projeto que, como expresso pelos influenciadores bolsonaristas nas últimas semanas, quer submeter as mulheres aos homens ao ponto de sequer terem garantido o direito ao voto.
Por outro lado, no entanto, não se deve descartar a hipótese de a luta pela supremacia no campo bolsonarista passar por reviravoltas ainda em 2026. A luta política no Brasil dos últimos anos tem demonstrado que grandes giros à direita estão sempre à disposição tática. Por isso, também é recomendada cautela com a crise familiar publicada na imprensa e redes sociais diariamente como em um reality show, ocupando espaço midiático e garantindo que a família Bolsonaro se mantenha na pauta sem o desconforto das relações com Vorcaro e Trump. As dificuldades enfrentadas por Flavio Bolsonaro já envolvem palanques e alianças eleitorais, e um rearranjo de última hora não deve ser considerado fora do baralho: o que a maioria da burguesia no Brasil quer ainda é uma alternativa a Lula sem os embaraços trazidos por Bolsonaro e seus filhos.
Derrubar a 6×1 mantém-se na ordem do dia
Por importante que seja o impacto potencial do conflito interno bolsonarista para a disputa eleitoral, a profunda divisão política que atravessa o país mantém a tendência de um resultado final decidido por muito pouco. E há ainda outro fator que devemos considerar na contenção da euforia, que são as dificuldades e limites do próprio governo Lula. São inquestionáveis os avanços e o importante papel cumprido pelo presidente Lula nos últimos 4 anos, mas os obstáculos objetivos – a composição do Congresso e a relação de forças – e subjetivos do governo – a predileção pelo caminho dos acordos em relação ao do enfrentamento e mobilização – também pesarão sobre este processo eleitoral. O papel da esquerda, nesse sentido, é tensionar estes limites, com a defesa de propostas e linhas que recobrem ao povo brasileiro a capacidade de sonhar com um presente e um futuro pelos quais se valha a pena lutar.
Exemplo importante destes limites e desafios é a luta pelo fim da escala 6×1. Se é verdade que essa luta conquistou o alcance que tem porque traduziu em conquista concreta de direitos um sonho e uma necessidade de fácil compreensão – a vida além do trabalho –, a pauta hoje encontra-se travada nas mãos do Senado, que de outro lado mantém o governo refém de um ataque orçamentário iminente.
Lula acertou ao abraçar a pauta e enfrentar a burguesia neste tema. E acertará se, caso o Senado confirme que não votará a pauta antes das eleições, transformar esta em uma de suas principais bandeiras de campanha. Ficará para uma discussão futura se, mesmo com todo o apoio do governo e todo o alcance da mobilização pelo fim da 6×1 nas redes sociais, não terá faltado mais força organizada nas ruas para tornar a pressão incontornável para Davi Alcolumbre e as federações patronais. Mesmo acertando em tudo o mais e com o apoio do governo, reforça-se a ideia de que o melhor – e talvez único – caminho para a conquista de direitos é sempre a luta do povo organizado. Este é o caminho que a esquerda deve trilhar, seja para reeleger Lula, seja para, caso sejamos vitoriosos, seu próximo governo.
Brasil soberano e qualidade de vida para o povo
Para todas as forças democráticas e que acreditam no direito de o Brasil se autogovernar, a máxima prioridade continua sendo a reeleição de Lula para a presidência. Para as forças da esquerda como o PSOL, que, além disso, entendem que é preciso fortalecer um projeto de país que ofereça direitos e qualidade de vida para seu povo e não para um punhado de empresários, soma-se à reeleição de Lula a tarefa de eleger um Congresso comprometido com esse projeto.
Para atingir esses objetivos, nosso desafio é extrair as devidas lições do último período. Por central que seja a garantia das condições mínimas para combater a extrema-direita, é necessário ultrapassar o mínimo e construir outras possibilidades de futuro. Isso significa combater a resignação que empurra cada trabalhador e trabalhadora a lutar contra seus próprios pares, e que rebaixa os horizontes de transformação. A luta pelo fim da escala 6×1 é prova viva de que é possível sonhar outros sonhos e, mais do que isso, melhorar profundamente a vida do povo de forma concreta. Nossas candidaturas devem expressar um projeto de transformação, capaz de encantar e mover os setores populares em torno das bandeiras que defendemos.
Nesse sentido, o projeto que defendemos é de um Brasil radicalmente soberano, para enfrentar a instabilidade mundial com real autonomia estratégica. Isso significa reindustrializar o Brasil com forte desenvolvimento tecnológico, promovendo uma transição energética que posicione o país na vanguarda da luta contra a emergência climática e que dê qualidade aos nossos postos de trabalho. Que garanta que nossos recursos naturais, como as terras raras, sejam utilizados para o bem do povo brasileiro, e não para alimentar as indústrias estrangeiras. A defesa do pix é expressão do que o Brasil pode fazer de si próprio se olhar para seu povo antes de se preocupar com os rentistas.
É preciso combater o neofascismo enfrentando suas raízes político-econômicas e materiais mais profundas: o desamparo, a precarização, o sofrimento e o individualismo entranhados na sociedade pelo neoliberalismo. O Brasil precisa de uma economia política antifascista se pretendemos virar essa página da nossa história. Para isso, o caminho é ampliar direitos e qualidade de vida para o povo de um lado, e de outro restringir os obscenos e imorais privilégios da ínfima minoria.
Este caminho só é possível se combinar: a luta pela conquista de maioria social, possibilidade provada pela luta pelo fim da 6×1, por meio de uma agenda de avanço de direitos que signifiquem melhoria objetiva e imediata na vida do povo; a luta ideológica permanente, defendendo nossas ideias, valores e visão de mundo em todas as frentes, disputando mentes e corações para o presente e o futuro que defendemos; e a participação popular constante, nas ruas e nas redes, não como uma mera peça de comunicação, mas como a afirmação do poder que o povo organizado pode construir para si próprio. As melhores experiências da esquerda mundial nos últimos anos têm mobilizado esses três eixos. Podemos e devemos adaptá-los à realidade brasileira, com um projeto para nosso povo e a América Latina, para derrotar o neofascismo. À luta!









