A Guerra no Irã e o agravamento da crise climática

No Brasil, a guerra reforça pressões internas por expansão da indústria fóssil


Publicado em: 1 de abril de 2026

Dante Mariano, de Aracaju (SE)

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Dante Mariano, de Aracaju (SE)

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Sabemos que a guerra no Irã, iniciada há cerca de um mês pelos Estados Unidos e seus aliados, constitui mais uma intervenção militar que nada tem a ver com a promoção da democracia burguesa. Donald Trump sequer se preocupa em apresentar uma justificativa consistente para o conflito ou em buscar apoio popular, deixando evidente que seus objetivos estão distantes de qualquer compromisso com a liberdade política. O que está em jogo, de forma central e estratégica, é a reorganização da geopolítica da exploração do petróleo.

A guerra emerge como uma disputa mais ampla pelo controle do mercado global de energia, com efeitos diretos sobre a expansão do petróleo, ampliação da disputa por mercados energéticos estratégicos e consequente agravamento da crise climática global.

A guerra emerge como uma disputa mais ampla pelo controle do mercado global de energia, com efeitos diretos sobre a expansão do petróleo, ampliação da disputa por mercados energéticos estratégicos e consequente agravamento da crise climática global.

Essa situação de instabilidade no Oriente Médio, já tem como consequência imediata a alta dos preços dos combustíveis fósseis e o reforço de políticas voltadas à expansão da produção. Nos Estados Unidos, por exemplo, medidas emergenciais ligadas à guerra buscaram ampliar a oferta de combustíveis e atender pressões tanto da indústria petrolífera quanto do agronegócio, evidenciando a força desses setores na definição de políticas energéticas.
Conjuntamente, a guerra acentua o aumento da exploração de petróleo e gás em outras regiões, como forma de compensar a instabilidade da exploração e da produção no Oriente Médio; vale lembrar que nesta região, estão concentradas 46% das reservas de petróleo do mundo (considerando Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes, Irã e Iraque) e 20% da produção mundial.

Conflitos armados são fontes diretas de emissões de gases de efeito estufa

Segundo dados do Climate and Community Institute, apenas nas primeiras semanas da guerra, milhões de toneladas de CO₂ foram liberadas na atmosfera, em grande parte pela intensificação da atividade petrolífera e da queima de gás, seja para o deslocamento de estruturas militares, tropas, aparatos militares como aviões e navios de guerra, produção de armamento e munições, ou até mesmo na consequente destruição de cidades e incêndios gerados pela ação militar. Portanto, a guerra não apenas reforça a dependência de combustíveis fósseis, mas também contribui diretamente para o aquecimento global.

Uma análise da situação internacional não pode fazer uma separação entre guerra e crise climática. O sistema capitalista depende da destruição (direitos, territórios, modos de vida, etc) para se reproduzir; as guerras modernas materializam essa lógica, atuando como grandes vetores de emissões, devastação ecológica e colapso de políticas ambientais, alimentando um ciclo em que destruição, reconstrução e agravamento climático se retroalimentam. Nesse processo, recursos que poderiam garantir uma transição ecológica são destinados à indústria bélica, trazendo à tona a lógica do capital, que lucra com a guerra e funciona como motor a combustão das emergências climáticas, impedindo as transformações necessárias para o enfrentamento ao colapso ambiental em curso.

No Brasil, a guerra reforça pressões internas por expansão da indústria fóssil

O conflito internacional tem sido utilizado como argumento para intensificar o lobby em favor da exploração de gás e petróleo, no Congresso Nacional, apresentando esses combustíveis como solução para a segurança energética do país. Esse tipo de discurso ganha mais força em momentos de crise, quando a urgência econômica se sobrepõe às questões socioambientais.

A questão central é que essa expansão da exploração dos combustíveis fósseis ocorre em um momento de agravamento acelerado da crise climática. Dessa forma, cria-se um ciclo preocupante: a guerra eleva o preço e a centralidade do petróleo; isso fortalece o lobby por sua exploração; a expansão dos fósseis agrava a crise climática; e os impactos recaem com maior intensidade sobre países do Sul Global, como o Brasil.

O país já enfrenta uma situação crítica de vulnerabilidade climática, com centenas de municípios expostos a riscos combinados de eventos extremos e fragilidade fiscal, o que limita a capacidade de resposta do Estado. Essa pressão gerada pelas guerras, tende a ampliar a pressão sobre novos empreendimentos de exploração de gás e petróleo como, os projetos de águas profundas SEAP (Sergipe Águas Profundas), termoelétricas, e exploração na margem equatorial brasileira, região de grande diversidade biológica e sensibilidade ambiental, que abriga um conjunto de espécies ameaçadas de extinção, grandes áreas de manguezais – importante ecossistema na captura de gases de efeito estufa -, e território de morada e de trabalho de milhares de famílias, de povos e comunidades tradicionais: indígenas, campesinas, quilombolas, pescadoras e ribeirinhas.

Associado a esse cenário, há uma intensa pressão do agronegócio no Congresso Nacional sobre as pautas socioambientais. Principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa no país – decorrentes sobretudo do desmatamento (46% do total) e da agropecuária (28%) -, o setor, por meio de sua bancada, impulsiona projetos que representam sérios riscos de retrocessos nas políticas socioambientais.

Entre os principais, está o aprofundamento da flexibilização do licenciamento ambiental, reduzindo critérios técnicos, ampliando dispensas de estudos de impacto ambiental e transferindo decisões para a esfera política. A tentativa de enfraquecer o Código Florestal, diminuindo a proteção de ecossistemas sensíveis e avançando sobre direitos de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, por meio de medidas como o Marco Temporal, a mineração em terras indígenas e a limitação da consulta prévia e informada (OIT 169). Também ganham força propostas que ampliam a regularização fundiária de áreas ocupadas ilegalmente, estimulando a grilagem e consolidando o desmatamento.
Há ainda riscos de alteração nas Unidades de Conservação, fragilização da Lei da Mata Atlântica e expansão desregulada dos setores de energia e mineração, inclusive em áreas sensíveis e no fundo oceânico, sem garantias socioambientais. Além de mudanças na política de resíduos sólidos, priorizando a incineração e consequente marginalização de catadoras e de catadores de resíduos. Nas cidades, esse conjunto de medidas tende a intensificar o racismo ambiental, com mais pressão sobre periferias urbanas e população negra, redução de áreas verdes e agravamento das desigualdades socioambientais. Associados a tudo isso, há ainda o subfinanciamento das políticas ambientais, que comprometem a fiscalização por parte dos órgãos ambientais.

A pressão por expansão do petróleo, associadas ao agronegócio e fragilização legal socioambiental, tendem a aprofundar a crise climática e a desigualdade social, principalmente nos países periféricos, seja pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa, seja pelo avanço sobre territórios ambientalmente sensíveis, territórios indígenas e de comunidades tradicionais

A pressão por expansão do petróleo, associadas ao agronegócio e fragilização legal socioambiental, tendem a aprofundar a crise climática e a desigualdade social, principalmente nos países periféricos, seja pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa, seja pelo avanço sobre territórios ambientalmente sensíveis, territórios indígenas e de comunidades tradicionais. Em vez de uma transição energética socialmente justa, o que se observa é uma reatualização do modelo do capital fóssil, impulsionada por conflitos geopolíticos e interesses econômicos de curto prazo.

O resultado é uma contradição central do presente: enquanto a crise climática exige redução urgente das emissões, a dinâmica da guerra e do mercado global empurra países e governos na direção oposta, aprofundando tanto a dependência do petróleo quanto os riscos sociais e ambientais associados a esse modelo, colocando em xeque o futuro da classe trabalhadora. A luta contra as guerras e pela paz, portanto, ganha também a dimensão da luta socioambiental a partir da estratégia ecossocialista.

Dante Mariano é biólogo, militante ecossocialista e assessor parlamentar


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