A guerra no Irã deve aumentar a proliferação nuclear global
Donald Trump justificou sua guerra no Irã sob o pretexto de conter a proliferação nuclear. Porém, à medida que aliados dos EUA passaram a considerar desenvolver arsenais nucleares, ele criou um precedente perigoso para seus inimigos
Publicado em: 17 de março de 2026
defense.gov/USA
Nos ataques em curso dos EUA ao Irã, armas nucleares estão servindo a um propósito familiar: como pretexto para a ação militar que já estava decidida. Em 2 de março, o Secretário de Estado Marco Rubio justificou os ataques como uma tentativa de limitar os danos de um ataque israelense que já estava decidido e de evitar uma situação em que o Irã tivesse “tantos mísseis convencionais, tantos drones e pudesse causar tantos danos, que ninguém consiga conter seu programa militar”.
Ficou ainda menos claro nos últimos dias qual papel a infraestrutura nuclear do Irã – o país não possui armas nucleares, mas tem a capacidade de desenvolvê-las – atualmente desempenha no pensamento estratégico do governo. Algumas notícias recentes sugerem que Trump estaria considerando enviar tropas estadunidenses ao país a fim de remover materiais nucleares, mas existem outros indícios de que acabar com o programa nuclear do país não está em discussão.
O que não significa que os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã não tenham relação com a política de armas nucleares. O quadro atual das armas nucleares, de fato, está se tornando pior, especialmente desde que os ataques começaram: em 2 de março, em um discurso na base de submarinos de Île Longue na Bretanha, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou que o país iria expandir seu arsenal nuclear, atualmente composto por cerca de trezentas armas nucleares. No mesmo dia, França e Alemanha anunciaram que iriam colaborar mais estreitamente em relação à política militar e de segurança envolvendo as armas nucleares da França. “Os próximos cinquenta anos serão uma era de armas nucleares”, nas palavras do presidente francês.
No momento, França e Reino Unido são os dois únicos países europeus com suas próprias armas nucleares. Eles, juntamente com outros membros da OTAN, confiam nos Estados Unidos para a “dissuasão estendida”, o que significa que os Estados Unidos, em tese, responderiam a um ataque nuclear a algum desses países com suas próprias armas nucleares. Porque isso quase certamente exporia os Estados Unidos a um contra-ataque em seu próprio território, esse acordo tem sido visto com alguma apreensão e ceticismo. No momento decisivo, um presidente estadunidense realmente “sacrificaria Nova York por Paris”, nas palavras de Charles de Gaulle?
No entanto, este não deve ser o caso para sempre. Líderes dos países europeus não-nucleares ocasionalmente cogitam em voz alta a possibilidade de desenvolver suas próprias armas nucleares: em meados de fevereiro, o presidente polonês Karol Nawtocki disse que os esforços para reforçar a segurança do país poderiam “até mesmo se basear no potencial nuclear”. O primeiro-ministro do país, Donald Tusk, disse que “a Polônia não quer permanecer passiva quando se trata de segurança nuclear em um contexto militar”. Outros países europeus manifestaram entusiasmo e disposição para participar de um processo de planejamento e discussão sobre política nuclear liderado pela França, denominado de “dissuasão estendida”.
As declarações europeias sobre os planos da França se esforçaram para apresentá-los como um complemento à cobertura oferecida pelas armas nucleares dos EUA e a maior parte da Europa tem apoiado cautelosamente, verbal ou materialmente, os Estados Unidos em seus ataques contra o Irã. Porém, essa mesma cautela revela uma mudança duradoura na política global das armas nucleares, que foi ainda mais consolidada por esses ataques.
Esta mudança foi impulsionada por uma rejeição progressiva da diplomacia em favor da ação militar, ameaçada ou real. Foi o primeiro governo Trump que deixou o Plano de Ação Conjunta Global com o Irã, negociado no governo Barack Obama, o que previa uma supervisão internacional estável das capacidades nucleares do Irã.
Os Estados Unidos e o Irã vinham conduzindo negociações logo antes dos ataques. Alguns analistas, tentando interpretar uma estratégia coerente no caos dos últimos dias, sugeriram que o Irã agora poderia estar mais disposto a aceitar integralmente as exigências dos EUA, mas, como inúmeros analistas observaram, as declarações dos EUA sobre suas intenções não parecem refletir qualquer coisa que se assemelhe a uma estratégia de longo prazo.
Os últimos governos dos EUA têm adotado uma postura bastante tolerante em relação a possíveis cenários de proliferação, especialmente quando envolvem países que os Estados Unidos consideram aliados. A reação do governo Biden ao anúncio feito em 2023 pelo então presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol, de que a Coreia do Sul consideraria fabricar suas próprias armas nucleares, foi, no mínimo, discreta.
O governo Trump parece decidido a fechar um acordo com a Arábia Saudita, lhes proporcionando os meios para produzir energia nuclear. Ao contrário da abordagem do governo Biden nas negociações para o acordo, Trump e sua equipe informaram ao Congresso que pretendem não incluir um protocolo adicional (ou “acordo 123”, em referência à seção relevante da Lei de Energia Atômica) que criaria salvaguardas contra o uso do programa para a produção de armas nucleares. A Arábia Saudita, que tem apoiado os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, tem abertamente indicado que desenvolveria uma arma nuclear caso o Irã o fizesse.
O Subsecretário da Guerra, Elbridge Colby, respondeu à possibilidade de surgirem novos países com armas nucleares na Europa afirmando que “penso que faríamos mais do que apenas tentar dissuadi-los […]. Obviamente, no mínimo, nos oporíamos veementemente a isso”. Esta não é uma declaração firme. Existe uma sensação de que, apesar de toda sua retórica violenta na defesa de sua posição de superpotência global, as pessoas mais poderosas dos Estados Unidos consideram que conter a proliferação está simplesmente além de suas capacidades. Ao contrário disso, é mais um risco a ser administrado por meio de suas forças militares, seja pelo uso direto da força, seja invocando o papel dos Estados Unidos na defesa nacional de um aliado.
Acima de tudo, este último passo em direção à normalização e integração das armas nucleares como base política global num futuro indefinido foi acelerado pelos Estados Unidos, que realizaram ataques preventivos sem qualquer esforço de uma justificativa coerente para suas ações. Hoje, em 2026, a base industrial-militar da Polônia está longe de ser capaz de produzir armas nucleares ou os meios para utilizá-las. Mas talvez isso seja apenas uma confirmação do ritmo dessa mudança: em algumas décadas, isso pode não ser mais verdade.
À medida que a guerra na Ucrânia se prolonga, a Europa está empregando esforços [20] para desenvolver capacidades de produção militar em seus Estados-membros e para criar e sustentar [21] vínculos entre diferentes indústrias militares nacionais europeias. Com o tempo suficiente e nas contingências certas, novos programas europeus de armas nucleares podem ser impulsionados pela partilha, aberta ou não, de informação tecnológica, conhecimentos especializados, materiais e instalações entre os governos europeus.
Isto nem mesmo teria sido possível se não fosse pelo fato de que os Estados Unidos estão gradualmente abandonando os esforços para impedir o surgimento de novos países com armas nucleares, apesar de sua obrigação legal de fazê-lo nos termos do Tratado de Não Proliferação. É tentador descartar o ataque ao Irã como algo que, no fundo, não seja mais brutal do que a política externa dos EUA nas décadas anteriores. Em muitos aspectos, isso é verdade: está claro que tanto as pessoas que perpetram os ataques quanto as vozes mais veementes que os criticam têm o Iraque e o Afeganistão em primeiro plano em suas mentes.
Mas é igualmente importante perceber quem está se sentindo vulnerável aqui. Se alguns dos aliados mais próximos dos Estados Unidos agora vislumbram vantagens em se mover em direção à longa estrada da independência do “guarda-chuva nuclear” daquele país, é um indicativo real dos limites de seu poder e também de que sua posição hegemônica global tem um prazo de validade. Mais países estão dispostos a conduzir o tipo de diplomacia pela força, que os Estados Unidos vêm exemplificando, criando um quadro muito mais complexo e perigoso sob o “guarda-chuva nuclear” dos EUA.
Traduzido de The Iran War Will Probably Increase Nuclear Weapons Globally, por Paulo Duque, do Esquerda Online
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