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50 anos do golpe no Chile

Neste mês de setembro o Esquerda Online inicia um especial sobre o cinquentenário do golpe no Chile, que terminou com os mil dias do governoda da Unidade Popular.

As razões para isso são muitas. Nomeamos algumas delas:

O processo chileno se deu em um contexto de lutas muito importantes no sul do continente: Argentina, Bolívia, Chile, Peru e Uruguai.

O que se passou no Chile foi uma grande demonstração da força da classe trabalhadora e seus aliados, os pobres da cidade e do campo e setores da classe média. Nunca antes, os trabalhadores chilenos lutaram tanto, com tanta força e radicalização.

O imperialismo americano, desde o começo do governo, conspirou para derrubá-lo, o que deve ser recordado para novos processos de luta na região, o chamado “quintal” dos EUA.

O governo da Unidade Popular foi a culminação de quase um século de lutas em um país em que a organização política dos trabalhadores estava fortemente estabelecida com o partido socialista e o partido comunista que tinham juntos quase 300 mil militantes. A Democracia Cristã se dividiu e surgiram organizações de esquerda, como o MAPU, a Esquerda Cristã e Cristãos pelo Socialismo

O primeiro ano foi de grandes avanços, tanto no campo social como na reapropriação das riquezas naturais e na nacionalização de empresas monopólicas. A partir das primeiras medidas do governo, a classe trabalhadora queria mais e superar os limites evidentes do programa da UP. E a oposição de direita começou a contestar isso diretamente, com um locaute de quase um mês em 1972

A reação das massas foi fortíssima e derrotou o locaute financiado pelo imperialismo americano e o grande capital.

A partir daí, os limites da UP começaram a aparecer. E o governo não estava à atura das esperanças que despertou e buscou uma saída conciliatória incluindo os comandantes das forças armadas no gabinete. O que foi um erro grave e permitiu que as forças da direita se recuperassem da derrota no locaute.

O ponto mais crítico foi a confiança no caráter profissional e constitucionalista das forças armadas, sem buscar se apoiar na simpatia que havia na base das forças armadas contra o golpismo.

O terrível desfecho da experiência foi dramático. Até hoje as imagens da força aérea chilena bombardeando o palácio presidencial horrorizam o que era o prelúdio da sangrenta ditadura que matou mais 3 mil pessoas, incluindo exilados no país que era “o asilo contra a opressão”.

Os brasileiros exilados eram mais de 3 mil, alguns dois quais foram presos e torturados e assassinados, como Túlio Quintiliano.
Para agradecer à hospitalidade do Chile, cerca de 100 ex-exilados brasileiros estão no país desenvolvendo importantes atividades.

A ditadura brasileira teve um papel fundamental no combate contra o governo Allende, na preparação do golpe e no apoio ao novo regime chefiado pelo infame Pinochet.

A sombra se abateu não só sobre o Chile. Desde 1971, uma onda de ditaduras militares se estabelecem no sul do continente (pela ordem cronológica, Bolívia, Uruguai, Chile, Peru e Argentina. A sinistra Operação Condor assassinou opositores em vários países.

A recuperação das liberdades democráticas em todos esses países foi um fator de alento, mas o surgimento e a força das correntes neofascistas nos últimos anos faz com que devamos olhar com cuidado as lições da experiência chilena.

As lições do golpe de Estado chileno. Entrevista com o ex-deputado constituinte e senador peruano Ricardo Napurí

Esta é uma entrevista com Ricardo Napuri sobre o processo chileno. Napuri, com seus 98 anos, é um veteraníssimo socialista peruano, que foi senador e deputado, com uma longa presença no movimento dos trabalhadores latino-americanos. Um de seus mais conhecidos papéis foi o de secretário pessoal de Ernesto Che Guevara em Cuba, aonde chegou poucos dias após a revolução.

Mario Hernandez

Iniciamos um programa especial dedicado ao 40º Aniversário do Golpe de Estado no Chile. Nosso convidado é Ricardo Napurí, que abandonou o Chile quatro dias antes do golpe, depois de permanecer meio ano exilado nesse país. A entrevista é de Mario Hernandez, publicada no jornal Página/12 e reproduzida pelo sítio Rebelión, 25-09-2013. A tradução é do Cepat. Eis a entrevista

Quando o convidei, você fez referência à contracapa do jornal Página/12 do último domingo. Consegui ler hoje. Nela, José Pablo Feinmann atribui a culpa do golpe de Estado ao MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) dizendo, entre outras coisas: “Os integrantes do MIR foram funcionais para os golpistas… Não, Allende não era um burguês conciliador. Era um socialista temível”. Que se pretenda instalar na opinião pública argentina este “relato” e especialmente na juventude, que em grande medida desconhece o processo político chileno da Unidade Popular (UP), parece-me uma canalhice política da parte de José Pablo Feinmann, a não ser que seja produto de sua ignorância a respeito da história política latino-americana. Você que teve a oportunidade de viver a experiência da última etapa do governo de Salvador Allende, quais eram as forças políticas atuantes no Chile, antes do golpe, e qual era seu comportamento em relação ao governo da Unidade Popular?

Napuri: Quero fazer uma pequena digressão. Eu me encontrei com Salvador Allende em 1971, no mesmo momento em que Fidel Castro estava no Chile ou estava para chegar.

Quando você foi buscar apoio para a revolução que estava ocorrendo na Bolívia nesse momento.

Napuri: Isso é muito importante porque praticamente aí Allende define seu projeto estratégico e tático, o que dá uma visão do drama que sobrevirá em 1973. Na Bolívia, governa um general de esquerda, Torres, e funciona uma Assembleia Popular de camponeses, operários, estudantes e organizações sociais. De tipo soviético, mas com as particularidades bolivianas. E existe a ameaça de um golpe de Estado, que o general Banzer acabará realizando.

Nesse momento, você estava na Bolívia e os companheiros bolivianos solicitam que você faça um contato com Allende.

Napuri: Sabendo-se que eu o conheci em Buenos Aires, no estúdio de Silvio Frondizi, quando o visitou em 1955/6. Eu era o encarregado de relações exteriores do grupo Praxis. Assim, vinculei-me com os socialistas chilenos. Não tinha amizade com Allende, mas, sim, um conhecimento distante. Por essas circunstâncias, ao tomar conhecimento Moler1, que era o secretário de Lechín…

O dirigente histórico da Central Operária Boliviana (COB).

Então, pediram-me que fosse ao Chile dizer para Allende que lhe convinha que [o presidente da Bolívia] não caísse, que o golpe era praticamente iminente e que se o [presidente da Bolívia] caísse, cairiam [uma série] de governos progressistas, entre outros o chileno, conforme ocorreu depois. A ideia era simples. Que lhes enviassem alguns instrutores militares brasileiros, que estavam exilados [no Chile] e armas automáticas, não muitas. Eu aceitei. A empreitada era muito difícil. Allende havia assumido como presidente em novembro de 1970, eu viajei no início de 1971 e minha missão poderia ser mal interpretada.

Inclusive, como uma provocação.

Napuri: Claro. Contudo, conversei com meus amigos Enrique Sepúlveda e Oscar Waiss, que era o diretor do jornal governista “La Nación”, e eles fizeram a mediação com Allende. Embora o ambiente estivesse preparado, ele não conhecia o caráter de meu pedido. Conto isto em meu livro, “Pensar América Latina”, com mais detalhes, mas o central foi que eu o apresentei aquilo que os companheiros bolivianos me pediram, acrescentando que os “momios”2 e o imperialismo estavam por trás da queda de seu governo e que se apoiando na esquerda teria um refúgio e, além disso, porque o Peru tinha nesse momento um governo militar que sempre ameaçava resgatar Arica, que é o porto que perdeu, em 1879, na guerra contra o Chile. Além disso, na Argentina também governavam militares. Respondeu-me: ‘Ricardo, não posso lhe ajudar, nem aos companheiros bolivianos, pois se esqueceram de que eu sou um social-democrata, apesar de que na II Internacional todos nós sejamos de esquerda, nós não acreditamos na revolução armada, nem violenta. Assumimo-nos como representação do povo e a “via pacífica ao socialismo” não é uma palavra de ordem qualquer. Acreditamos que podemos abrir caminho para o socialismo no quadro da democracia burguesa. Eu não posso justificar a existência e menos ainda promover ou ajudar uma revolução do caráter da cubana ou da bolchevique’.

Com essa resposta, não defendia o processo chileno que contava com perigos reais. Os Estados Unidos conspiravam para fazê-lo cair. Sua principal posição era: não acredito na luta armada, não acredito na guerra civil, na revolução socialista, apesar de se considerar a si mesmo socialista, mesmo que, para além do nome, possam ser agentes da burguesia, como ocorre na atualidade com os partidos socialistas europeus ou o próprio socialismo chileno pós-Pinochet.

Não aceitou. No entanto, onde está a importância o mérito desta conversa e dessas definições? No fato de que, dois anos depois, a história superou suas previsões. O processo chileno tornou-se revolucionário. Aqui passou pela TV, para que se perceba que isto não é uma fabulação e que não cometo nenhuma falácia, a conversa de Fidel Castro com Allende na qual este lhe diz que, no quadro da sociedade burguesa, o socialismo é um desafio para seu partido e para o Chile. Além disso, garante-lhe o caráter democrático das Forças Armadas. Fidel só se atina a olhá-lo, como que dizendo: ‘Para onde caminha, este tosco?’, mas não lhe respondeu nenhuma palavra. Allende confirmou e lhe disse o mesmo que tinha me dito. A história é a história e a realidade é a realidade. O caráter radical das reformas lideradas pela Unidade Popular (UP) desencadeou um processo revolucionário real como se viu no filme “La Batalla de Chile”, que também está passando na TV. A burguesia se amparou no imperialismo e tomou todas as medidas necessárias para que esse processo não vingasse. E o sujeito social fundamental, como mostra o filme, são as massas, que, apoiando o governo que acreditavam como seu, dizem: defenderemos este processo e a única forma é com o poder popular.

Façamos uma pequena pausa, para novamente tentarmos um contato com James Petras, nos Estados Unidos, que também esteve presente nesse momento e lugar. […] Não será possível o contato. Acabo de confirmar que não está em sua casa. De alguma maneira, quero torná-lo presente por meio de um breve relato que pertence ao seu livro “Escribiendo historias” chamado “Conversación em el patio” e que ilustra a situação prévia ao golpe:

Petras: “[…] Viajei para o Chile em julho de 1973. O país estava polarizado. O mais execrável era o comportamento da polícia, que contemplava passivamente a forma como os direitistas atacavam os estabelecimentos que não entravam nas greves contra o governo. Se as forças armadas girassem à direita, na direção dos empresários, tudo estaria perdido. O presidente Allende e os comunistas decidiram incluir alguns generais no gabinete. Os comerciantes retinham as mercadorias, os donos de terra não faziam a semeadura, as greves continuavam. Os trabalhadores ocupavam as fábricas, os camponeses ocupavam a terra, os moradores percorriam o centro da cidade exigindo linha dura do governo em relação aos especuladores. A Força Aérea sobrevoava Santiago, o transporte coletivo estava parado, respeitáveis homens de negócios se apertavam em táxis, insultando os militares: “Covardes! Por que não derrubam o governo?”. Eles próprios não queriam se arriscar. No final de agosto, as tensões eram altas, mas após tantos falsos alarmes, todos estavam esgotados e procuravam voltar à rotina. Fui almoçar com alguns amigos da Corporação de Fomento da Produção. ‘Se passarmos a primavera, neste ano, teremos uma boa colheita’. ‘Assim que reorganizarmos o sistema de transportes, a produção industrial irá subir’. Procuravam ser otimistas. O golpe estava na esquina. O problema era quando. Saímos do restaurante no meio da tarde. Boa comida, vinho excelente, bons amigos. Um vendedor anunciava o vespertino “Última Hora”. Olhei a manchete: “Três generais renunciam”. Eram os únicos constitucionalistas que estavam no alto comando. “Não posso acreditar”. Pedro me olhou. ‘E é fim. O tempo acabou’. É o momento de ir embora, pensei. Peguei um táxi e fui ao Palácio La Moneda. Subi ao piso superior. ‘Preciso ver Orlando Letelier’. Está ocupado. ‘Preciso vê-lo, por favor, aqui está o meu cartão’. Estava ocupado, muito ocupado, mas encontrou um tempo para mim. ‘O que está acontecendo Orlando?’ ‘Muita pressão. Ameaça de guerra civil. Por isso, renunciaram’. O ‘não à guerra civil’3 significa que eles possuem as armas. O que ocorre com a esquerda? Pegou-me pelo braço e me indicou que fôssemos ao pátio. ‘É melhor que conversemos aqui’. Começou a me explicar as negociações com a oposição, a lealdade dos oficiais substituintes. ‘Pinochet é muito leal. Foi meu ajudante. Você ficaria surpreso’. Eu não o escutava. ‘Preciso de minhas passagens, vou-me’. Não tinha sentido discutir, ele precisava ficar. ‘Vou-me – disse-lhe –, penso que isto está perdido’. ‘Você deve ficar, precisamos de você’. Eu ficaria numa guerra civil, mas não em um massacre’. ‘Isso não acontecerá. Temos aliados’. Balancei a cabeça negativamente. Não acreditava no que me dizia enquanto voltávamos para o escritório. Quais possibilidades de triunfo existiam se o próprio ministro não podia conversar com privacidade em seu escritório? Viajei no dia seguinte. Quatro dias depois, um milhão de trabalhadores marchou em apoio ao governo. Uma semana mais tarde ocorreu o golpe militar” […].

Esta foi a experiência de James Petras, naquele momento.

Napuri: No dia 4 de setembro, ocorreu a celebração da vitória eleitoral da Unidade Popular (UP), três anos antes.

Nesse dia, um milhão de trabalhadores se mobilizou. Como se, explica semelhante mobilização, e uma semana depois o golpe? É preciso esclarecer que embora Salvador Allende tenha assumido com um terço do eleitorado, o apoio cada vez mais aumentava. Nas eleições municipais de 1971, atinge 51% e nas legislativas de 1973, 44%.

Napuri: Voltemos ao mesmo assunto. O presidente Allende tinha a convicção de que os problemas da revolução deveriam ser resolvidos no quadro da democracia parlamentar e burguesa, tanto é assim que se atreveu a dizer para Fidel Castro que confiava nas Forças Armadas. Naqueles anos, dizia-se que os militares chilenos e uruguaios eram democráticos, por não terem dado golpes de Estado, habituais na América Latina ao longo do século XX, sem compreender que as instituições atuam de acordo com os momentos políticos e as relações de força entre as classes, quando veem o perigo que chamam de institucional, mas que na realidade trata-se do perigo da revolução. O limite do progressismo de qualquer general ou das Forças Armadas latino-americanas, por exemplo, os casos de Velasco Alvarado ou do próprio Perón, é a revolução. No Chile, o programa da Unidade Popular era radical, expropriou-se o cobre, houve uma reforma agrária. Foram muitas medidas avançadas em um quadro de polarização social, no qual o imperialismo estava disposto a que isso não ocorresse e alinhou todas as forças burguesas, que no Chile eram forças reais, com votos. Era uma direita que tinha quase 50% da votação popular, inclusive na atualidade. Eles, sim, estavam dispostos a combater. Eu pude constatar isto e Petras também deve ter feito o mesmo, quando diziam não tememos nem a guerra civil, nem o golpe de Estado. No entanto, a Unidade Popular não queria nenhuma das duas.

Não se prepararam para nenhuma das duas alternativas, mas, do outro lado, a direita se preparou.

Napuri: Totalmente. Quarenta mil caminhoneiros fizeram greves, os estudantes universitários, o Parlamento, várias vezes, chegou a decretar a ilegalidade do governo. Era uma espécie de guerrilha das organizações opositoras que dividiam o trabalho a partir das instruções que o imperialismo apresentava e quando as massas diziam ‘poder popular, poder popular, caminhemos ao socialismo’, o governo e Allende, que era um orador brilhante, respondiam-lhes: ‘não, vamos seguir por esta rota’. Quando chega o momento da radicalização, como descreve James Petras, já enfrentavam uma crise dentro da Unidade Popular porque o Partido Socialista, majoritariamente orientado por Altamirano, joga-se à esquerda e propõe “avançar sem conciliar” e [Miguel] Henríquez do MIR defende o “governo dos trabalhadores”, ao passo que Allende se alia com o Partido Comunista para “consolidar o que temos” e se abre para [acordos com] a Democracia Cristã (DC), quando esta já tinha decidido dar o golpe de Estado. A DC manobrou, participando de duas ou três reuniões, sabendo que vinha o golpe. Não é que Allende fosse um traidor, nada disso, mas sua concepção política da revolução era pacifista.

Estive no Chile em janeiro de 1943, tinha 18 anos e muito pouca experiência política, havia atuado apenas no movimento estudantil secundarista e um pouco na Universidade. Participei das proclamações de Volodia Teitelbaum para senador e de Carlos Insunza para deputado pelo Partido Comunista, num ato operário nas redondezas de Santiago. Um ato muito numeroso, com trabalhadores que desfilavam muito disciplinados, com bandeiras, crianças, mulheres e homens. Com uma apresentação artística, participava [o conjunto] Inti Illimani. O ato foi atacado pelo grupo fascista Pátria e Liberdade, que chegou em motos com porretes e correntes. Os trabalhadores se defenderam, enquanto os carabineiros olhavam, até que os agressores são cercados em um terreno baldio. Então, eles intervêm para permitir que escapassem. No palco, os dirigentes pediam calma, para não entrarem no jogo da provocação golpista, para deixar que atuassem os “companheiros” carabineiros, enquanto Inti Illimani entoava a canção da Unidade Popular, “Venceremos”. Dantesco. Esse fato me fez romper ideologicamente com o reformismo, ainda que não fosse militante – estava vinculado ao Partido Comunista argentino através de minha participação na Diretoria Juvenil Metropolitana do Encontro Nacional dos Argentinos (ENA). No Chile, vi o reformismo em ação, impedindo os trabalhadores de dar uma boa surra nos fascistas, invocando-se a defesa da democracia.

Napuri: Precisamos tirar múltiplas lições do processo chileno. Porque não foi apenas o Chile. Caiu também Velasco Alvarado, no Peru, por um golpe dos militares. Eu me encontrei com ele assim que assumiu a presidência, por intermédio de um amigo comum designado como ministro da Mineração, Fernández Maldonado, e perguntou-me qual a razão do peronismo ter durado tanto tempo. Eu lhe respondi, entre outras coisas, porque se apoiou nas massas, não importa se controladas, e assim freou os militares e as forças oligárquicas hostis até onde pôde. Além de aplicar uma política de assistencialismo muito profunda. Velasco responde-me: ‘Eu não posso fazer isso porque sou um militar orgânico. Não posso ir para onde está a base dos movimentos de massas e sua organização porque esse não é o meu mundo. O que eu conheço é o mundo militar’. Então, disse-lhe: Nessas condições, você pode cair. E caiu. Há muitas experiências em outros países nesse mesmo sentido. O que ocorreu com Salvador Allende não foi excepcional. O problema é quando cresce a revolução que eles próprios desatam, consciente ou inconscientemente, e não estão em condições de dar o salto qualitativo como foi feito em Cuba, França, em 1789, ou a revolução bolchevique em 1917. Então, eles retrocedem, mas já tinham liberado as forças hostis. Os dois sujeitos políticos importantes da situação chilena eram, [por um lado] as forças burguesas, através de suas instituições, partidos políticos, setores econômicos, etc. Uma frente que foi ordenada pelo imperialismo, assim como fez na Venezuela contra Chávez, inclusive financiando os vinte partidos opositores. Do outro lado, as massas, que como se vê em “La Batalla de Chile”, [que] sempre falam de seu governo, do governo dos trabalhadores, que confiam em Allende, mas que, ao mesmo tempo, pedem armas para se defender diante da possibilidade de guerra civil. O golpe [significa uma mudança nisso], caso contrário, teria desatado uma guerra civil. Agora, retomemos o que disse Feinmann, que propõe retirar-se de cena e entregar o processo revolucionário, porque ele não acredita na revolução. Atacando o MIR, culpa a esquerda pela queda do regime e apoia a política de Allende e do PC em buscar uma aliança com a DC, que já era golpista, e em fazer um retrocesso geral, mantendo o processo nos marcos do capitalismo, sendo que a ofensiva da burguesia era total, incluindo a eliminação física dos opositores. Essa é a lição. É muito profunda, com todo o respeito que merece Allende, que foi consequente com suas posições até a morte, mas as consequências para o Chile foram terríveis, porque quando se abandona as massas e os processos revolucionários, não há nenhuma garantia para o que virá. No Chile, foi um genocida, Pinochet. Allende passa para a história atirando em si próprio, em seguida, vem o genocida que permaneceu quase 20 anos assolando a realidade chilena. O mesmo ocorreu com Perón, com a chegada dos genocidas de “La Libertadora”. As lições são profundas, tem a ver com a história, com a relação de forças entre as classes, com o fato da opção entre a história, com a relação de forças entre as classes, com o fato da opção entre defender esse capitalismo selvagem com os monstros que foi gestando, ou a busca de uma resposta se apoiando no povo. Não importa o que surja. A figura do poder popular é muito linda porque é algébrica. Não pensemos no socialismo ou comunismo, mas no poder popular, que significa que nós, o povo, queremos substituir os que propugnam o golpe militar, que estão aliados com o imperialismo e querem levar o Chile aos restos do passado e da história. O importante é o poder popular, mas possuem medo, apesar de desatarem sua força. Ficam no meio como presunto do sanduíche. A burguesia ataca, os trabalhadores ficam desarmados e vem o genocida.

Vamos ouvir o discurso final de Salvador Allende, instantes antes do ataque ao Palácio de La Moneda. Que impressão as últimas palavras de Allende produz novamente em você? Suponho que você já fez isto muitas vezes.

Napuri: Tomo duas ideias que apresentou. A primeira, que os militares e a reação têm força e a segunda que os processos não se estagnam e a história será resolvida em favor dos trabalhadores. Essas duas ideias são trágicas. Primeiro, não é verdade que no Chile a correlação de forças sempre foi favorável à direita. Em certo momento, até houve um setor militar institucionalista representado pelo general Prats.

Que depois será assassinado, em Buenos Aires, num atentado terrorista em 1974.

Napuri: Quatro meses antes do golpe, disse a Allende: “Aqui, há generais golpistas, apoie-nos e faremos o mesmo por você”, e este respondeu-lhe que era institucionalista e que iria até o fim. Como já havia antecipado para Fidel, acreditava no caráter democrático das Forças Armadas. Então, nega apoio a Prats e esses militares são reprimidos. Não é verdade que a direita sempre estivesse na ofensiva, não é assim. Em determinado momento, ela foi totalmente a favor das massas populares. O que Allende não compreendeu, por sua condição de socialista reformista, com todo o respeito que eu possa ter por sua pessoa, é que os trabalhadores e os de baixo criam um mundo e um poder real. Por acaso, a Revolução Francesa não foi o mundo dos de baixo que se levantam? Por acaso, foi a burguesia que foi na dianteira? Em toda revolução as massas são os atores diretos, inclusive na russa e na chinesa. Allende não via assim por causa de sua concepção elitista representativa da democracia, no sentido de que é necessário resolver tudo através dos representantes e por não se acreditar que as massas devam se expressar diretamente. Não percebe que a força está no processo revolucionário e o abandona. Restam-nos poucos minutos. Voltemos ao início, a respeito do papel do MIR e de sua responsabilidade no golpe de Estado, conforme afirma Feinmann.

Napuri: É claro que não. O MIR forneceu a equipe de defesa para Allende. Pascual Allende, que era seu sobrinho, contou essa história. O MIR jogou todas as cartas em apoio a Allende. O que não é dito é que as massas criaram organismos de defesa, como as organizações camponesas de autodefesa e, sobretudo, os cordões industriais, sobre os quais o PC e todos os elementos de ordem da Unidade Popular disseram: ‘isto não está conosco’, porque estavam na linha contrária de defesa da ordem institucional, para que as massas não escapassem de seu controle. As massas começaram a criar seu poder e se seu governo o tivesse provido, teria sido um poder social real, que teria levado à revolução socialista. Tinham medo dessa revolução. O MIR não desempenhou nenhum papel de provocação porque caiu com Allende. Sempre apoiou o governo e nunca foi mais longe. Tanto é assim, que quando começou seu compromisso com Cuba era um grupo guerrilheiro e mudou sua condição a um partido que trabalhou com as massas e os trabalhadores e apoiou por esquerda a Unidade Popular e caiu com ela. O que Feinmann esconde por trás dessa crítica é que as massas não devem se auto-organizar, não devem criar seu próprio poder acumulativo, não devem se rebelar, não devem fazer revoluções, logo, precisam defender o sistema capitalista.

Temos buscado dar para este 40º aniversário do golpe no Chile um caráter de reflexão e ensinamento, por isso nós temos fugido das homenagens que estão sendo feitas, nestes dias, exaltando principalmente a figura de Salvador Allende, inclusive a Câmara da Cidade de Buenos Aires irá votar a construção de um monumento numa praça da cidade. Também procuramos fazer as críticas com o maior respeito.

Napuri: Em meu livro, “Pensar América Latina”, eu o trato com um enorme respeito, inclusive pela forma como decidiu morrer.

Isso não impede que façamos um balanço crítico porque o futuro nos interessa. Lembro-me que fui orador, em 11 de setembro de 1973, na Faculdade de Filosofia e Letras da UBA, que funcionava na rua Independência, e que enfatizei algo pelo qual fui muito criticado, mas passaram 40 anos e não me arrependo: o fato de Salvador Allende ter morrido com uma metralhadora na mão, não o exime de suas responsabilidades políticas. Acredito e concordo com algo que você diz em seu livro: o processo chileno foi uma revolução traída. Acredito que esse é o balanço que precisamos fazer e nisso Salvador Allende teve uma grande responsabilidade.

Napuri: E todo o grupo da Unidade Popular, fundamentalmente o PC, que era que era o partido mais conservador desta frente.

1 Edwin Moler foi militante do POR boliviano no começo dos anos 1950 durante o auge da revolução boliviana de 1952 e depois entrou no Movimento Nacionalista Revolucionário

2 Nota da edição do Esquerda Online: Denominação que os chilenos de esquerda davam aos reacionários. A partir da ditadura de Pinochet a denominação muda para uma mais conhecida: “fachos”

3 Nota da edição do EOL: a palavra de ordem “Não à guerra civil” foi esgrimida pelos militantes do PC por meses pouco antes do golpe de Pinochet…