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MUNDO

Estado Espanhol e a normalização da extrema direita

Na última semana foram anunciados acordos locais entre o PP e VOX, ampliando o risco de um governo nacional formado por uma direita radical e uma corrente neofascista

André Freire, da redação
Perfil no Instagram de Santiago Abascal

No último dia 28 de maio, ocorreram eleições locais (regionais e municipais) no Estado Espanhol. Os resultados representaram um duro golpe no governo estatal (nacional) liderado pelo PSOE (Partido Socialista), e formado também pelo Podemos e Esquerda Unida. Portanto, um governo de coalizão, inédito na história do país ibérico.

A vitória da direita foi categórica, ao ponto de ser chamada por parte da imprensa local de “Tsunami Azul”, cor identificada com o Partido Popular (PP), principal partido da direita tradicional espanhola. O PP ganhou de forma expressiva, em número absolutos de votos (deixando o PSOE para trás, numa diferença de mais de 800 mil de votos), foi também o mais votado na maioria das regiões e cidades e ainda conseguiu maioria absoluta em Madrid.

E, o que torna o resultado ainda pior, é o crescimento e consolidação do VOX, partido de extrema direita. Esta organização nefasta para os direitos dos trabalhadores, imigrantes e de todos os oprimidos, inclusive identificada com o franquismo e o neofascismo, mais que dobrou sua votação, chegando a praticamente a 8% dos votos. Assim, o VOX se consolida como a terceira força política no país, se colocando numa posição decisiva para que o PP consiga formar governos em muitas regiões e cidades.

Lembrando, que no Estado Espanhol é vigente um regime parlamentarista, em todas as esferas de governo (nacional, regional e municipal). Ou seja, para se chegar a formar governo, é necessário ter maioria nos parlamentos, como partido ou através de alianças.

Inclusive, mesmo onde o PP governa sozinho, estas administrações já expressam uma adesão acrítica deste partido a várias pautas levantadas pela extrema direita – VOX, sobretudo numa atitude e com medidas contra os direitos dos imigrantes e dos oprimidos. O governo de Isabel Ayuso, à frente da Câmara de Madrid (reeleita com maioria absoluta agora), é a maior expressão da radicalização à direita do PP.

Diante do resultado das eleições locais, o Primeiro-Ministro Pedro Sánchez, do PSOE, já no dia seguinte de proclamados os resultados, dissolveu o parlamento nacional, antecipando as eleições estatais para o dia 23 de julho, anteriormente ela estava prevista para dezembro deste ano.

A perigosa normalização da extrema direita

No último sábado, dia 17 de junho, terminou o primeiro prazo para a realização de acordos e coligações, e foi a data marcada para a posse dos novos governos locais – onde já se pôde constituir maiorias.

O saldo dos acordos políticos de constituição de novos governos não deixa dúvidas: O VOX anunciou que estará presente em 140 governos locais, sendo que em cerca de 110 participando em minoria em acordos com o PP.

Nas grandes cidades, com mais de 50 mil habitantes, PP e VOX estarão coligados em 23, em várias delas o PSOE tinha sido o partido mais votado (por exemplo, em 4 capitais de províncias: Toledo, Burgos, Valladolid e Guadalajara), mas a aliança entre direita e extrema direita conseguiu maioria para formar governo (a soma do PP e do VOX ficou maior da do PSOE e seus aliados).

Além das cidades, nos governos regionais, PP e VOX já anunciaram um acordo na Comunidade Valenciana e preparam um outro na Extremadura. Foi no estádio de futebol, em Valência, que o craque brasileiro Vini Jr. sofreu aquele absurdo e criminoso ataque racista, que ganhou repercussão internacional,

Na região de Castela e Leão já existia, desde 2020, um governo formado por um acordo entre PP e VOX. Entretanto, este era o único governo formado pela aliança entre direita e extrema direita no Estado Espanhol. Acordos estes que agora se expandiram qualitativamente, se tornando totalmente normalizados na vida política espanhola.

A primeira vítima destes acordos são as pastas dedicadas ao tema da igualdade, que existiam em várias administrações locais, devido ao avanço das lutas dos setores oprimidos nos últimos anos. Boa parte dos acordos formalizados entre o PP e VOX suprimem imediatamente estes cargos dedicados ao combate a todo tipo de opressão.

Como as eleições locais são consideradas uma prévia das eleições estatais, existe um grave e preocupante risco: a depender dos resultados das eleições de 23 de julho, um acordo nacional entre PP e VOX, abre a possibilidade de um governo no Estado Espanhol formado por uma direita radical e uma extrema direita franquista e neofascista. As últimas pesquisas de opinião apontam diretamente esta grave possibilidade.  E, também, estes acordos locais contam com o total apoio tanto do líder do PP, Alberto Feijóo, como do líder do VOX, Santiago Abascal.

Os acordos locais agora, e esta possibilidade de um governo nacional, significam uma derrota terrível para os direitos sociais e democráticos da maioria da população do Estado Espanhol, sobretudo para as populações imigrantes – especialmente as racializadas, as mulheres, a comunidade LGBTQIA+ e o conjunto dos explorados e oprimidos.

Os acordos políticos de governos entre PP e VOX, transformam o Estado Espanhol atualmente na “capital europeia de normalização da extrema direita”, mas este processo ultra reacionário está longe de ser exclusivo da política espanhola.

O atual governo italiano e o novo governo da Finlândia são só os exemplos mais recentes desta normalização perigosa – governos formados por acordos de partidos da direita tradicional e de extrema direita. Também expressam esta normalização a forma natural de convivência, em órgãos dirigentes da União Europeia, com governos de extrema direita como o da Polônia e da Hungria.

E este processo reacionário pode se ampliar ainda mais no parlamento europeu, a partir das novas eleições marcadas para o ano que vem. Recentes pesquisas de opinião indicam a possibilidade de um expressivo crescimento das bancadas de organizações da extrema direita, como no caso da AFD na Alemanha.

Derrotar a extrema direita, nas lutas e nas eleições

A força e a resiliência que a extrema direita vem ganhando em várias regiões do globo não é parte de uma realidade meramente conjuntural, se explica muito mais por elementos estruturais da situação política internacional.

Em especial, devido às graves consequências sociais da crise da economia capitalista, iniciada em 2007-08 que, com variações de intensidade, se mantém até hoje. Diante da crise econômica, social e política, as grandes empresas e bancos, com destaque também para o chamado poder midiático, acabam por alentar e apostar, cada vez mais, em alternativas mais duras da direita e, inclusive, da extrema direita.

Esta crise se acelerou muito na Europa dos dias de hoje, com a eclosão – a mais de um ano atrás – da Guerra na Ucrânia, e as suas brutais consequências para os direitos democráticos, sociais e o nível de vida da maioria esmagadora das populações, especialmente entre os imigrantes.

Este processo se combina também com a incapacidade de sucessivos governos responderem positivamente a esta situação, incluindo governos hegemonizados pela centro-esquerda, com a participação de organizações de esquerda, como no caso do atual governo espanhol.

É fundamental que a esquerda socialista compreenda que o combate à extrema direita, sobretudo as suas forças mais identificadas ao neofascismo, é uma tarefa permanente e prioritária em todo o próximo período.

Esta tarefa passa principalmente pela intervenção nas lutas e mobilizações, a partir de uma política permanente de frente única, que unifique os movimentos sociais e as organizações de esquerda, na busca por derrotar estrategicamente as forças mais radicais da direita e da extrema direita.

Entretanto, seria um erro infantil ignorar a importância dos processos eleitorais para este combate, mesmo com todos os seus limites. Por exemplo, agora, nas eleições nacionais de 23 de julho no Estado Espanhol, qualquer política de boicote, voto nulo ou secundarização da luta na arena eleitoral, vinda de organizações da esquerda socialista, se revela como um grave erro político.

Se existe realmente alguma possibilidade de se evitar a concretização de um eventual governo PP – VOX nas eleições de 23 de julho, esta possibilidade precisa ser tratada com toda a importância que merece.