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BRASIL

O povo, o “padre” e o bandoleiro

Fábio José de Queiroz, de Fortaleza, CE
Reprodução/Redes Sociais

Neste artigo, trato fundamentalmente de atores dessa reta derradeira de uma campanha eleitoral que pode conduzir o país ou ao gueto definitivo do fascismo ou abrir caminho para afirmação da resistência popular, antessala de um novo momento da luta de classes, no qual as pautas dos pobres da cidade e do campo voltem a adquirir protagonismo.

O povo trabalhador e a onda vermelha

O povo pode ser acusado de tudo, menos de deserção. As massas populares estão dando uma demonstração de que resistem às ameaças do fascismo e de seu candidato Jair Bolsonaro. Apesar da coação do empresariado, o tristemente célebre assédio pelo voto, a classe trabalhadora insiste em eleger Lula para derrotar o genocida. Esse é o contexto.

Esse sentimento de trabalhadoras e trabalhadores não é obra do acaso. Ele nasce da constatação de que um novo mandato do candidato do PL significaria a última pá de cal nos direitos daqueles(as) que vivem da venda de sua força de trabalho. O plano de desvincular o salário-mínimo e os benefícios da previdência da inflação passada é parte dessa infâmia.

A onda vermelha que ganha as ruas, que aglomera nas esquinas, que balança as bandeiras e, com efeito, enche as praças,  escolas e fábricas de esperança, indiscutivelmente, é a resposta de um povo que não deserta e exige o protagonismo de suas pautas.

O teatro político e os salteadores

O teatro político, contudo, muitas vezes, tenta deslocar o foco para outros cenários e personagens. É aí que aparecem os salteadores de estradas tentando retirar o foco das grandes questões nacionais. No caso concreto da eleição, no Brasil, os personagens adquirem corporeidade nas figuras de um “padre” e de um bandoleiro de colarinho branco. 

O “padre” Kelmon, ligado ao Movimento Cristão Conservador (MCC), que foi utilizado como ponto de apoio ao presidente-genocida, recebeu 0,1% dos votos no primeiro turno. O seu papel não era a obtenção de votos, certamente, mas o de atacar a esquerda e, em particular, Luis Inácio Lula da Silva. Esse senhor falava e agia por Bolsonaro. Enquanto as grandes questões eram deixadas de lado, discutia-se a figura desse pária da luta política.

Da mesma forma que o Sr. Kelmon, agora é a vez de Roberto Jefferson “roubar a cena”. Quase que sem exceções os jornalistas e os políticos, as pessoas simples e os agentes do mercado discutem os fuzis e as granadas como a questão mais candente da conjuntura política. Não que isso não seja importante se discutir o problema, mas jamais separadamente da estratégia e da pauta populares. Essa é uma lição importante que nos deixa a luta política em curso. Aliás, essa questão serve de mote para que possamos definir as nossas tarefas centrais nos próximos dias.

Que fazer?

Sem desprezar esses episódios, os trabalhadores e as suas organizações – partidos, sindicatos, movimentos sociais etc. – devem executar firmemente a sua tarefa: derrotar Bolsonaro no dia 30 de outubro, elegendo Lula Presidente. Elegendo Lula por aumento real no salário-mínimo, pela construção de moradias populares, por investimentos na educação e na saúde, por reformas agrária e pelo cancelamento da lei do teto dos gastos e das demais contrarreformas que torpedearam as conquistas populares. 

Por que, porém, as massas do povo não devem desprezar os episódios já citados? Não devem menosprezar precisamente porque eles sinalizam que esse setor belicoso de extrema-direita está disposto a tumultuar a cena política e a reduzir a democracia aos seus desígnios fascistas, até porque já tentaram isso repetidas vezes. Tanto mais vivas e intensas se tornem as batalhas em torno ao segundo turno, mas esse setor provocará, tentando intimidar e desmobilizar o espectro vermelho, único capaz de enfrentar e derrotar as falanges fascistóides. 

Em suma, a partir do momento em que de um lado as camadas populares, os estudantes, as mulheres e as demais forças sociais progressistas ganharam as artérias das cidades, alterando o seu cotidiano, e de outro, empresários e fascistas de batina e de terno e gravata buscaram fazer uso de seu poder e de suas prerrogativas, ficaram nítidas três coisas: (1) as vertentes fascistas seguem ativas e nutrem a ideia de um golpe dentro do golpe (2) como decorrência, não resta dúvida de que os planos do “padre”, de Jefferson, de Guedes e de toda massa teocrática, militar, parlamentar e extraparlamentar do fascismo são os de Bolsonaro e, por fim, (3) só o furacão vermelho pode varrer a extrema-direita, dilacerar os seus planos nefastos e abrir caminho para salvaguardar a democracia política e reiterar os direitos da maioria trabalhadora.

POR FIM…

A prorrogação do projeto fascista significa o sinal mais efetivo da desintegração da democracia política. Por isso, nós, socialistas, não podemos defender as liberdades individuais e coletivas post festum. É preciso fazer isso agora e isso passa, sim ou sim, pela eleição de Lula. Até o dia 30 não haverá tempo para salto alto e acomodação. Só a luta coletiva conduzirá Lula ao triunfo e o triunfo do velho metalúrgico será um triunfo do povo, que será o sujeito da trama política, e não a ralé da sociedade burguesa: o suposto padre, o bandoleiro, o economista neoliberal e o chefe dos salteadores da ultradireita (momentaneamente instalado na presidência da república, e da qual será apeado pelo povo trabalhador).

A faixa de terra recém-adquirida pela mobilização popular necessita ser valorizada, mas ainda é insuficiente. É preciso seguir mobilizando por Lula lá. O dia 30 não pede de nós menos do que isso!