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A rebelião do Chile de outubro de 2019 e o Brasil de junho de 2013

A rebelião do Chile de outubro de 2019 tem paralelos com a do Brasil de junho de 2013. A diferença é que a esquerda lá se abraçou com o povo e não com os governos que aumentaram as tarifas e reprimiram os protestos

Henrique Carneiro

Ativista Antiproibicionista e professor de História da Universidade de São Paulo (USP)

Em 11 de setembro de 1973, o mundo despertou com as imagens terríveis do palácio presidencial do Chile sendo bombardeado por aviões e tanques das forças armadas num golpe de estado em que o presidente eleito Salvador Allende e milhares de pessoas foram assassinadas.

Eu tinha apenas 13 anos naquela época e vi, estarrecido, como as ditaduras se instalam em meio ao sangue e a pólvora. O país que tinha apresentado ao mundo um projeto socialista que começou nacionalizando a maior riqueza do Chile, o cobre, foi convertido num laboratório do neoliberalismo e do terrorismo de estado.

Campos de concentração se combinaram com a privatização, a desigualdade social se articulou com a proibição dos partidos políticos e dos sindicatos, a perda dos direitos trabalhistas se vinculou com a destruição das aposentadorias, a repressão aos indígenas Mapuches se justificou com a construção de hidrelétricas e a desnacionalização das águas e dos bosques.

Desde que o mais poderoso movimento social do continente foi afogado em sangue que esperávamos que um dia o povo do Chile iria de novo levantar a cabeça e se rebelar.

Ao longo dos anos, não houve silêncio nem conformismo. Centenas de jovens foram assassinados nas ruas protestando. A ditadura foi obrigada a realizar um plebiscito em que perdeu. O ditador se retirou, mas a ditadura continuou nas sombras. Foi preciso uma ordem de prisão europeia para que o pior ditador das Américas fosse preso em Londres. O regime cedeu concessões democráticas, mas a estrutura militar repressiva nunca foi desmontada, embora muitos oficiais tenham sido julgados e condenados, a polícia dos carabineiros continuou reprimindo brutalmente o povo e as lutas sociais.

Nos últimos anos, o PS de Michelle Bachelet, filha de um general assassinado pela ditadura, se alternou no poder com Sebastián Piñera, ao longo de quase duas décadas, sem nenhuma mudança estrutural nas condições de desigualdade e repressão.

O movimento dos estudantes contra os aumentos das tarifas não foi um relâmpago em céu claro. Já havia antecedentes de enormes lutas estudantis. A diferença que ocorreu, a partir de 14 de outubro de 2019, foi que os estudantes, ao pularem as catracas do metrô, serviram como catalisadores que galvanizaram o movimento popular. Foram um fermento que estendeu a todo o povo uma revolta que germinava.

A comparação com o que ocorreu no Brasil em junho de 2013 é inevitável. O gatilho foi o mesmo: o aumento das tarifas. O protagonismo juvenil foi igual, com pequenas manifestações se espalhando e recebendo o apoio popular. O impacto de uma mobilização que desencadeia a revolta social foi ainda maior que no Brasil, com a transformação de um país apresentado pelo presidente como um “oásis” em um clamor uníssono de panelaços pela saída desse mesmo presidente que, em plena TV, anunciou que estava em guerra contra o seu povo.

Sua esposa, ainda mais ridícula, foi gravada chamando os protestos de “invasão alienígena”. Sendo o homem mais rico do seu país e um dos maiores bilionários do mundo, o presidente Piñera, tentou inicialmente desprezar o movimento, depois chamou os militares para combatê-lo decretando estado de emergência e, diante do crescimento do terremoto, começou a recuar revogando o aumento e depois pedindo perdão e elevando salários e aposentadorias.
Mas, nesse momento, o que está em questão não são mais 30 centavos, mas 30 anos de opressão. Uma greve geral de 48 foi decretada e as maiores manifestações vistas no país em muitas décadas passaram a exigir a saída dos militares e do presidente. Em uma semana apenas o país passou do marasmo para uma situação revolucionária!

A maior diferença deste movimento com as revoltas de junho de 2013 no Brasil é que no nosso caso, o prefeito do PT, Fernando Haddad, se abraçou com o governador Alckmin do PSDB para, juntos, apresentarem o aumento e defenderem a repressão da polícia contra os manifestantes. No Chile, o prefeito da terceira maior cidade do país, Valparaíso, Jorge Sharp, ficou ao lado dos protestos, assim como toda a esquerda do país.

O problema de junho de 2013 no Brasil não foi que houvesse de tudo nas multidões nas ruas, mas que nos palácios Haddad, do PT, estivesse abraçado com o Alckmin do PSDB, que comandava a repressão.

Não foi o MPL e as multidões que despertaram para a luta e o protagonismo social que erraram. Foi o PT, que ficou contra as multidões. Se isso facilitou o golpe e desprestigiou o PT e quase o tornou incapaz de mobilizar massas, até mesmo para a sua própria defesa, a responsabilidade não foi das massas populares que fizeram junho de 2013, mas do PT que ficou contra elas!

No Chile, ao contrário do Brasil, há uma esquerda enraizada nos protestos sociais e uma enorme memória histórica dos horrores do período ditatorial.

A greve geral abriu a via de um movimento profundo. Se a classe trabalhadora não recuar restará ao governo a alternativa de mais endurecimento, com o massacre de centenas de mortos, além das duas dezenas já ocorridas, e com o reestabelecimento de uma ditadura militar. A disposição popular é de derrotar o governo, impedir o retorno da ditadura e forçar o recuo dos militares para os quartéis.

O resultado desse confronto no Chile vai definir o destino do nosso continente. Nossos corações hoje palpitam junto com as cidades chilenas em revolta.

Que se abram as alamedas do futuro e que os chilenos, mais uma vez, iluminem a América e conquistem a liberdade e a igualdade!

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