Pular para o conteúdo
Especiais
array(1) { [0]=> object(WP_Term)#20988 (10) { ["term_id"]=> int(6141) ["name"]=> string(25) "50 anos do golpe no Chile" ["slug"]=> string(25) "50-anos-do-golpe-no-chile" ["term_group"]=> int(0) ["term_taxonomy_id"]=> int(6141) ["taxonomy"]=> string(9) "especiais" ["description"]=> string(0) "" ["parent"]=> int(0) ["count"]=> int(19) ["filter"]=> string(3) "raw" } }

50 anos do golpe no Chile

Neste mês de setembro o Esquerda Online inicia um especial sobre o cinquentenário do golpe no Chile, que terminou com os mil dias do governoda da Unidade Popular.

As razões para isso são muitas. Nomeamos algumas delas:

O processo chileno se deu em um contexto de lutas muito importantes no sul do continente: Argentina, Bolívia, Chile, Peru e Uruguai.

O que se passou no Chile foi uma grande demonstração da força da classe trabalhadora e seus aliados, os pobres da cidade e do campo e setores da classe média. Nunca antes, os trabalhadores chilenos lutaram tanto, com tanta força e radicalização.

O imperialismo americano, desde o começo do governo, conspirou para derrubá-lo, o que deve ser recordado para novos processos de luta na região, o chamado “quintal” dos EUA.

O governo da Unidade Popular foi a culminação de quase um século de lutas em um país em que a organização política dos trabalhadores estava fortemente estabelecida com o partido socialista e o partido comunista que tinham juntos quase 300 mil militantes. A Democracia Cristã se dividiu e surgiram organizações de esquerda, como o MAPU, a Esquerda Cristã e Cristãos pelo Socialismo

O primeiro ano foi de grandes avanços, tanto no campo social como na reapropriação das riquezas naturais e na nacionalização de empresas monopólicas. A partir das primeiras medidas do governo, a classe trabalhadora queria mais e superar os limites evidentes do programa da UP. E a oposição de direita começou a contestar isso diretamente, com um locaute de quase um mês em 1972

A reação das massas foi fortíssima e derrotou o locaute financiado pelo imperialismo americano e o grande capital.

A partir daí, os limites da UP começaram a aparecer. E o governo não estava à atura das esperanças que despertou e buscou uma saída conciliatória incluindo os comandantes das forças armadas no gabinete. O que foi um erro grave e permitiu que as forças da direita se recuperassem da derrota no locaute.

O ponto mais crítico foi a confiança no caráter profissional e constitucionalista das forças armadas, sem buscar se apoiar na simpatia que havia na base das forças armadas contra o golpismo.

O terrível desfecho da experiência foi dramático. Até hoje as imagens da força aérea chilena bombardeando o palácio presidencial horrorizam o que era o prelúdio da sangrenta ditadura que matou mais 3 mil pessoas, incluindo exilados no país que era “o asilo contra a opressão”.

Os brasileiros exilados eram mais de 3 mil, alguns dois quais foram presos e torturados e assassinados, como Túlio Quintiliano.
Para agradecer à hospitalidade do Chile, cerca de 100 ex-exilados brasileiros estão no país desenvolvendo importantes atividades.

A ditadura brasileira teve um papel fundamental no combate contra o governo Allende, na preparação do golpe e no apoio ao novo regime chefiado pelo infame Pinochet.

A sombra se abateu não só sobre o Chile. Desde 1971, uma onda de ditaduras militares se estabelecem no sul do continente (pela ordem cronológica, Bolívia, Uruguai, Chile, Peru e Argentina. A sinistra Operação Condor assassinou opositores em vários países.

A recuperação das liberdades democráticas em todos esses países foi um fator de alento, mas o surgimento e a força das correntes neofascistas nos últimos anos faz com que devamos olhar com cuidado as lições da experiência chilena.

Entrevista com Martín Correa: “Os atores na ocupação militar de Wallmapu e no golpe são basicamente os mesmos”

Deposto por um golpe militar em 11 de setembro de 1973, Salvador Allende foi eleito presidente do Chile pelo Partido Socialista (PS) em 1970 (Fundação Salvador Allende (FSA)

Por Paula Huenchumil

A revanche. O Golpe na Araucânia1′ é o mais recente livro do historiador Martín Correa, que aborda a repressão militar nas comunidades mapuches, como resposta à restituição de terras ancestrais implementada pela Unidade Popular. “A violência com que agem é explicada pelo velho e atual sentimento racista em relação ao povo mapuche”, diz.

“O povo mapuche, a imprensa servil e tendenciosa, os militares e a oligarquia local ávida por riquezas”, são os atores que o pesquisador Martín Correa Cabrera coloca como “as principais entidades sociais, tanto da ocupação militar de Wallmapu a partir de 1862, quanto do golpe cívico-militar, a partir de 1973”.

O doutor em Antropologia, que ao longo de sua trajetória profissional estudou a história dos processos de espoliação territorial sofridos pelo povo mapuche, lançou, 50 anos após o golpe de Estado, seu novo livro A revanche, golpe na Araucânia (CEIBO Ediciones), no qual explica a repressão militar nas comunidades mapuches.

O livro coloca que “os acontecimentos ocorridos nos anos, meses e dias antes e depois do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 no Wallmapu (território mapuche em seu idioma), quando o horror e a repressão se instalaram como no resto do país, mas com um acréscimo que faria a diferença, tornando tudo ainda mais perverso: o racismo”.

Nesta entrevista, Correa analisa como a ditadura afetou as famílias chilenas e mapuches na Araucânia. “O Relatório Rettig2 indica que, em termos percentuais, a Araucânia é a região que tem os maiores níveis de repressão, morte e perseguição, em relação à população total da região.”

“O Relatório Rettig3 indicou que, em termos percentuais, a Araucânia é a região que tinha os maiores níveis de repressão, morte e perseguição, em relação à população total da região.” Ele também explica o nome do livro e aborda o caso da ‘Caravana da Morte em Galvarino’, onde se enquadra o caso de Julio Ñiripil Paillao, “um garoto de 16 anos que é retirado de sua casa e assassinado na frente de sua família. A seguir, a ‘caravana do horror’ continuou seus atos enlouquecidos e impunes em uma casa vizinha, indo de casa em casa, à noite, ameaçando.”

O senhor faz um paralelo de dois processos: a ocupação militar no Wallmapu, com o que foi conquistado pelo povo mapuche durante o processo de Reforma Agrária.

O que proponho no livro é que as entidades sociais, os elementos que fazem parte tanto da ocupação militar do Wallmapu quanto do golpe de Estado na Araucânia, são basicamente os mesmos.

Ou seja, estamos diante de um povo que habita ancestralmente o território, que é o povo mapuche e um setor da sociedade, que é a oligarquia regional-nacional, que decide ocupar aquele território que não lhe pertence, pelo qual, o habitante ancestral é estigmatizado pela imprensa que pertence à mesma oligarquia. Estamos falando de El Mercurio -ao longo da história-, do Correo del Sur, na época, e do Diario Austral mais tarde, que pertence à cadeia El Mercurio; e, por fim, o Exército, que é convidado e cobrado a participar desse processo, a partir de 1862 e depois, no golpe cívico-militar, a partir de 1973.

Se analisarmos os discursos políticos de um momento e de outro, a imprensa dos dois processos, há poucas diferenças, apenas as do seu tempo. Também nos resultados, a morte, a perseguição, no caso do golpe de Estado, não só contra o povo mapuche, mas também contra aqueles que apoiaram o processo promovido por Salvador Allende e a Unidade Popular; há também uma continuidade entre aqueles que tomaram as terras mapuche originalmente, colonos e indivíduos privados, e aqueles que as recuperam durante os meses imediatamente após o golpe, os filhos e netos dos colonos e indivíduos privados.

O que foi feito no processo do golpe de Estado e da contrarreforma agrária foi voltar à situação territorial, política e econômica do momento da ocupação militar.” Em seguida, o Exército entrou violentamente em território mapuche, com as expedições punitivas realizada de 1867 a 1871 e que percorrer do rio Malleco até o Cautín, ida e volta, queimando sementeiras, casas de famílias mapuche sequestrando animais; durante o processo do golpe de Estado de 1973, basicamente acontece a mesma coisa, há avanços punitivos, com o rastro de morte, tortura e violência que isso traz, com o roubo de todos os bens e benfeitorias feitas pelos assentamentos, cooperativas e centros de reforma agrária mapuche-camponeses, para os quais nada foi devolvido. Isso ainda faz parte da dívida histórica ignorada pelo Estado chileno com o povo mapuche, sobre a qual não se fala, se ignorada e nega.

O que foi feito no processo do golpe de Estado e da contrarreforma agrária foi voltar à situação territorial, política e econômica do momento da ocupação militar, voltar ao latifúndio, reconstruir a antiga estrutura agrária, e quem participa são os mesmos grupos sociais e políticos, em ambos os processos históricos.

– O nome do livro, A revanche, explica que ele nasceu da repressão militar nas comunidades, como resposta à restituição de terras ancestrais e ao projeto político implementado pela Unidade Popular.

– Claro que há um momento em que a estrutura política, social, agrária, sanitária mudou significativamente no Chile, em geral, mas no Wallmapu mudou radicalmente, e, com isso, a direita e uma parte importante da Democracia Cristã viam que estavam perdendo, em um caminho sem volta, os benefícios e prerrogativas que só eles tinham, e – o que era ainda pior – o povo mapuche era quem estava sendo ‘beneficiado’ com aquilo que afirmavam que pertencia a eles, as terras, e também o apoio do Estado e de seus órgãos para alcançar seu desenvolvimento, até então apenas recebido pela oligarquia, regional e nacional.

“Esse processo, de tamanha profundidade, não envolvia apenas o povo mapuche e o mundo da agricultura; o setor da saúde, por exemplo, era seriamente afetado. Havia um projeto político-social de saúde pública que se arrastava, uma medicina intrahospitalar e cara, frente a qual o projeto da Unidade Popular propõe e leva a cabo uma medicina enfocada na saúde preventiva, comunitária, educativa, popular, e isso necessariamente afetou os interesses –e o bolso, claro- da corporação da saúde, encabeçada pelo Colégio Médico, um organismo de classe, que fazia greves de longa duração e conspirava contra o projeto de saúde pública da Unidade Popular, assunto que está absolutamente documentado.

Nessa linha, chama a atenção – e está publicado tal e qual no livro – que um dos primeiros decretos emitidos pelo Governador Militar de Cautín, o Decreto nº 4, estivesse destinado a nomear um novo diretor do Serviço Nacional de Saúde, um militar, é claro.

Aí vemos novamente o papel da imprensa e o discurso golpista, que difundiu a ideia de que os hospitais estavam se preparando para a “campanha” e para a guerrilha. Em decorrência do exposto, no Decreto n°11 eles convocaram a que se apresentassem no Regimento de Tucapel numerosos responsáveis pela saúde, entre eles o Dr. Hernán Henríquez Aravena, que era chefe zonal do Serviço Nacional de Saúde das províncias de Malleco e Cautín, que foi executado e depois desapareceram com seu corpo, e é por isso que o hospital de Temuco atualmente tema seu nome. Uma história que não é contada, que não é divulgada e quem vai ao Hospital de Temuco vê o seu nome à entrada do edifício e, no entanto, pouquíssimas pessoas sabem por que é que ele tem esse nome; o mesmo acontece com o Dr. Arturo Hillern, que construiu o hospital de Cunco, que leva seu nome, e também foi executado e está desaparecido.

É o caso de Jécar Nehgme (pai), agente de saúde e líder do setor de saúde de saúde em Temuco, também foi executado, e cujos restos mortais, após sua família ter movido céus e terras, foram encontrados. Médicos e estudantes de medicina que participaram desse processo, sofreram o mesmo.

“A revanche consiste em, junto com a violência desencadeada, fazer as coisas voltarem ao que eram antes do governo de Unidade Popular e, para isso, vale tudo.” Quero dizer com isso que na Araucânia não só o povo mapuche foi afetado, com suas vidas e suas terras, mas também os funcionários agrícolas, o governador Gastón Lobos, professores, estudantes, todos torturados e executados no regimento de Tucapel e na base aérea de Maquehue.

Então, basicamente A revanche consiste em, de mãos dadas com a violência desencadeada, voltar as coisas ao que eram antes do governo de Unidade Popular e, para isso, vale tudo.

Em relação ao papel da imprensa, em seu livro A História da Espoliação você também a analisa. No caso da ditadura, o que destacaria?

– Ao analisar a imprensa percebe-se a similitude entre o que existia na imprensa dos meses anteriores ao golpe de Estado com a imprensa dos anos anteriores à ocupação militar do Wallmapu, os mapuches, os camponeses, aqueles que participavam dos assentamentos, se em algum momento foram bárbaros. Eram estigmatizados como ladrões e bêbados e agora eram terroristas e extremistas. Tudo isso publicado com grandes manchetes.

A espoliação faz parte da memória mapuche e constitui a base para os processos de recuperação territorial

Há notícias – que são publicadas no livro, são mostradas, acho que é um bom e necessário exercício que sejam vistas novamente – que diziam que “há rumores” de que no Complexo Florestal e Madeireiro de Panguipulli estariam chegando muitos “tupamaros”. que eles iriam até a cidade, segundo “fontes bem-informadas”, mas não havia notícias confiáveis sobre isso. O mesmo aconteceu com o ataque ao Assentamento Nehuentue, na costa de Temuco, onde os mapuches teriam uma “escola de guerrilha”, onde estariam fabricando bombas antitanque… nada disso aconteceu, mas isso não importava, porque os cidadãos viram no Diário Austral, que terror foi inoculado, e isso aconteceu nos dias imediatamente anteriores ao golpe de Estado, e depois, nos dias imediatamente após o golpe, publicaram – também em grandes manchetes – que “todos os guerrilheiros foram controlados”.

No caso do Complexo Florestal e Madeireiro de Panguipulli, por exemplo, foi apontado que um grande contingente de guerrilheiros, fortemente armados e liderados pelo comandante Pepe, havia atacado o posto de controle dos Carabineiros de Neltume, o que era falso, e que até o capelão dos Carabineiros testemunhou, em um processo judicial realizado após o fim da ditadura, que isso nunca aconteceu, que nunca houve um confronto, Como se entende que onde havia muitos guerrilheiros não houve nenhum soldado ou policial morto? Não foram encontrados restos mortais, pois não os havia. Mas isso serviu para semear o terror e, em seguida, militares, com uma lista entregue por civis e acompanhados por eles, procurassem casa por casa os supostos “terroristas”, que foram detidos e executados.

Então, assim como em um determinado momento, em 1862, a imprensa publicou rumores de que os “selvagens araucanos”, como eram descritos, atacariam os pobres e honestos fazendeiros da fronteira, e que era necessário e imperativo que o Exército os defendesse e pusesse fim ao estado de barbárie, nos dias que antecederam o golpe também foi assim. “Eles estão fortemente armados”. A violência golpista foi agora legitimada.

“No processo de Contrarreforma Agrária, e nos dias antes e depois do golpe, a participação dos civis foi muito importante, e isso está documentado; e esses civis continuam a viver na região”. As estatísticas de vítimas de desaparecimentos forçado indicam que, depois da Região Metropolitana, os maiores números estão na Região de Bío Bío e na Região de Araucanía.

– De fato, e não apenas isso, o Relatório Rettig indicou que, em termos percentuais, a é a região que tem os maiores níveis de repressão, morte e perseguição, em relação à Araucânia população total da região.

A isso devemos acrescentar que muitas famílias nunca fizeram denúncias, e isso se compreende: não iriam denunciar nos mesmos lugares onde seus parentes tinham sido sequestrados e torturados, e então, diante dos membros das comissões Rettig e Valech4, deve-se entender que há um fio condutor: um Estado que ocupa militarmente o território, que depois domina as famílias mapuches, que apoia os indivíduos privados na expulsão das terras antigas, que desenvolve um processo de Reforma Agrária e de Contrarreforma Agrária, é o mesmo Estado, com governos diferentes, mas o mesmo Estado, com que confiança uma família cujo parente foi torturado ou executado vai se expor? Não é fácil e deve ser compreendido.

Depois, há também a situação de que, no processo de Contrarreforma Agrária, e nos dias antes e depois do golpe, a participação de civis é muito importante, e isso está documentado, e esses civis continuam vivendo a região, então eles continuam se encontrando nas praças, nas feiras, nas ruas, nos campos, não é fácil. Eles são seus vizinhos, e essa é uma das razões pelas quais os níveis de reclamações não são tão altos.

Nesse contexto, o senhor considera que houve um componente racista no golpe de Estado?

– A violência com que se atuou é explicada, necessariamente, pelo velho e atual sentimento racista em relação ao povo mapuche, e essa é uma pedra angular do processo que descrevemos: a violência especialmente virulenta que ocorre aqui, com tintas carregadas de racismo antimapuche, e para explicar isso no livro não há apenas depoimentos das famílias atingidas resgatadas dos relatos evacuados pelo Estado, mas também o trabalho dos arquivos judiciais que são realizados desde 2005, onde os nomes dos que participaram, militares e civis, vêm à tona, nomes que tanto no Relatório Rettig quanto no Relatório Valech não aparecem, aqui são mostrados, a verdade completa é mostrada.

“No livro aparecem os nomes de alguns responsáveis pela repressão, o que eles fizeram, o tratamento dado aos ‘índios’ é comum.” No livro aparecem os nomes de alguns dos responsáveis pela repressão, o que fizeram, como fizeram, a violência militar, civil e policial, o tratamento aos “índios” é comum, além disso devemos entender que o horror se faz na impunidade que lhes dá não só o comando, ou o toque de recolher e a escuridão da noite, mas também a geografia e as regiões rurais ermas, tudo foi feito, e na mais completa impunidade.

Um elemento que deve ser revelado é o que diz que a repressão, a tortura, as execuções, foram feitas na frente de famílias, comunidades, inoculando o terror, semeando o medo, e os parentes foram então forçados a cavar as sepulturas de seus parentes executados, sob o escárnio fardado e a ameaça de que voltariam no dia seguinte para jogar parafina nos corpos e queimá-los se não o fizessem. Isso está documentado, mas não está contabilizado.

– É uma história invisível?

– É uma história invisível, negada, que não é contada, parte da vergonha do Chile, como aconteceu com o processo de ocupação militar em Wallmapu, que não faz parte do currículo educativo. Eu, como historiador, tenho uma responsabilidade, pessoalmente acredito que devo tornar públicas estas situações, a verdade e a justiça foram sacrificadas em benefício de uma reconciliação que não chegou, e nem foi alcançada, e não será alcançada na medida em que a verdade não seja enfrentada em toda a sua amplitude.

O Relatório Rettig, sobre verdade e reconciliação, não acrescentou a palavra justiça, e creio que é o momento, mesmo que seja tarde, porque agiu-se com a maior impunidade, as famílias mapuche e chilena têm direito à justiça, e a sociedade tem o direito de saber o que realmente aconteceu, com nomes, sobrenomes e lugares.

– No livro se fala sobre uma ‘Caravana da Morte’ em Galvarino

Sobre o que sabemos sobre a ‘Caravana da Morte’, liderada pelo general Sergio Arellano Stark, faço uma espécie de paralelo com o que aconteceu em Galvarino, onde também havia um grupo armado, onde também participam civis, policiais e militares, que em duas noites executaram cinco membros do povo mapuche, sem qualquer militância política, e isso tem a ver com o fato de que em Galvarino o processo de Reforma Agrária foi muito importante, forte e bem realizado.

“Em Galvarino há o caso de Julio Ñiripil Paillao, um adolescente de 16 anos, retirado de sua casa e assassinado na frente de sua família.” Lá o que eles fizeram foi sair à noite e levar sob custódia membros do povo mapuche que nem eram militantes. Insisto, isso não importava. É um caso emblemático, um garoto de 16 anos que foi tirado de sua casa e assassinado na frente de sua família, e então a “caravana do horror” continuou seu ato enlouquecido e impune em uma casa vizinha. Foram de uma casa para outra, à noite, ameaçando, foram duas noites de terror em Galvarino, Isso faz parte da memória mapuche, é um assunto que se fala, que todo mundo conhece, mas a sociedade chilena ignora.

Carabineiros, militares, não raro civis, percorriam o campo, invadindo, e apontando o dedo, é uma vingança contra o processo… Acho que eles também fizeram isso como algo simbólico; com esses casos punimos e aterrorizamos todo o território mapuche, mesmo aqueles que não participaram do processo de reforma agrária, nós os punimos por serem mapuches.

Original no site chileno Interferencia

1 Nota da edição brasileira do EOL: a Araucânia é uma região do Chile e esse nome provém de como os espanhóis chamavam a região habitada pelos mapuche.
2 Nota da edição brasileira do EOL: Nome dado ao Relatório de 1991 da Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação sobre as violações dos direitos humanos cometidos pela ditadura chilena.
3
4 Nota da edição brasileira do EOL: A Comissão Valech foi criada pelo governo chileno em 2003 para investigar prisões e torturas durante a ditadura militar e, com um pequeno intervalo segue funcionando com o mesmo nome até hoje, produzindo extensos relatórios sobre o assassinato e desparecimento de pessoas. https://pt.wikipedia.org/wiki/Comiss%C3%A3o_Valech