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  • Não somos cortina de fumaça

    Não tenho a intenção de ter a verdade sobre a avaliação do governo em curso no Brasil e muito menos indicar como as pessoas devem reagir, especialmente nas redes sociais, em relação aos descalabros do presidente e seu séquito. Frente a tantos reveses em nossa história contemporânea, o caminho da resistência, a meu ver, precisa ser construído com vontade real de dialogar, sem sectarismo e dogmatismo.

    Parto da premissa, entretanto, de que a discussão sobre azul e rosa, que a fala da Ministra Damares Alves traduziu em vídeo e viralizou nos primeiros dias do governo, não é uma cortina de fumaça para nos fazer esquecer os temas realmente importantes, quais sejam os relacionados à agenda econômica. É óbvio que Bolsonaro foi eleito com o compromisso de retirar direitos da classe trabalhadora, para que os patrões, os ricos, os do andar de cima possam ter fatias maiores de lucro, às nossas custas. É também óbvio que os que se juntaram a ele nesse projeto o fizeram para garantir a contrarreforma da previdência, a entrega das riquezas naturais, a desregulamentação da política ambiental, entre outras tantas agendas regressistas. Querem um Estado Mínimo para os pobres e máximo para os ricos.

    Essa constatação não nos faz, porém, ter que desconsiderar o fato, na minha compreensão, de que a discussão sobre gênero, etnia/raça, orientação sexual seja apenas uma forma de distração para que não observamos o realmente importante.

    Aliás, para começo de conversa, eu imaginava que essa discussão tinha sido superada, pelo menos nos setores progressistas. Parece que não. Essa ideia de que gênero, raça/etnia, orientação sexual… dividem a classe ou distraem sobre os temas realmente relevantes durou todo século XX, acho que já chega. Se formos pensar nesses termos tenho que contar uma coisa: a classe já é dividida. Ela tem mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTs, jovens, idosos, religiosidades, locais de nascimento. Cada pessoa e grupo vai viver suas relações materiais a partir de seu lugar. Na sociedade brasileira, que é oligárquica, machista, racista, capacitista, idadista, lgbtfófica, essas diferenças são fatores de desigualdades e opressões. Então, se para você amiguinho, homem, cis, escolarizado, branco, dos setores médios, Damares é uma piada e as declarações do governo são cortina de fumaça, para todas nós outras, não é fumaça; é fogo que nos queima, que já queimava, mas que agora ganha autorização para queimar. No país que “mais mata LGBTs no mundo: 1 a cada 19 horas”, “lidera ranking mundial de assassinatos de transexuais”, “feminicídio é causa de 87% dos assassinatos de mulheres em MG” não podemos achar que essa questão é secundária, distracionista.

    Não faltaram questionamentos de internautas, pós eleições e posse de Bolsonaro, se já estavam autorizados a “matar viados” e se “pretos já estavam de volta à senzala”. Eles estão numa cruzada para nos eliminar. Não só por uma questão econômica, que tem uma importância inegável, mas por uma questão simbólica, expressa na chamada “ideologia de gênero”.

    Essa ideia traduz todo desconforto que sentem com o avanço do feminismo, das cotas, da presença de negros e negras nas universidades, de LGBTs afirmando seu direito de existir, de pobres em aeroportos e por aí vai.

    Li agora no facebook um internauta afirmando que gosta da Damares porque ela o diverte. Infelizmente não consigo me divertir com isso. Seria engraçado se ela não fosse ministra de Estado e se não tivesse poder. Se ela fosse apenas a pastora e todo mundo pudesse escolher livremente ir ou não ir ao seu culto. Mas não. Ela traduz uma concepção. Gênero foi central na campanha de Bolsonaro e será central em seu governo. Damares cumpre um papel estratégico. Assim como Michele cumpriu na posse. Dentro de marcadores conservadores, dentro de um projeto de voltar mulheres, negros, indígenas, LGBTs, pessoas com deficiência para um lugar menor, de onde as elites gostariam que nunca tivéssemos tido a ousadia de pensar em sair.

    Eles têm razão. Gênero é realmente perigoso. Essa categoria de análise vem para dizer que as relações humanas são construções sociais e não naturais e nos dá força para sermos o que quisermos. Gênero, de fato, acaba com um tipo tradicional de família no Brasil. Aquela construída a partir da violência da casa grande, do mando do homem branco e da exploração de mulheres e crianças. Aquela família fundada na violência, que não aceita a orientação sexual de cada pessoa, está ameaçada pela discussão de gênero.

    Neste sentido é preciso procurar compreender as razões pelas quais esse governo foi eleito, a partir dessa proposta de retomar o que para eles é uma idade de ouro das relações sociais, dessa era em que “menino veste azul e menina veste rosa”. Não temos que compreender só o papel das fakenews nessas eleições, mas o que pode ser pensado como o sequestro do cristianismo pelo pensamento conservador. Bolsonaro afirmou na posse que vai acabar com o politicamente correto. Está legitimando o racismo, o machismo, a lgbtfobia no Brasil e isso é muito grave. É compreensível que os que tem privilégios lutem pela sua manutenção.

    É preciso grande esforço para sair desse lugar e precisa de vontade também, por isso muita gente fica aí se escondendo na “cortina de fumaça” para não enfrentar o gosto pelos privilégios.

    O que temos para dizer é que não estamos dispostas a recuar. Vamos continuar afirmando nosso direito de ser e existir na diversidade. Nossos corpos políticos continuarão ocupando todos os espaços que quisermos para afirmar nossos desejos, sonhos e projetos. A sabedoria popular diz que onde há fumaça, há fogo. Então vamos procurar compreender essa “fumaça” para termos melhores condições de agir. Ao invés de nos incomodarmos com as discussões de gênero, raça/etnia, orientação sexual, gerações, deficiências, religiosidade, podemos pensar que esses elementos são dimensões culturais da classe trabalhadora, e que sem eles não é possível compreendê-la.

    O fogo que incomoda pode ser a chama da revolução.

    *Professora na Universidade Federal de Uberlândia, mãe, ativista por direitos, atua no movimento feminista e movimento sindical docente. Foi presidenta da ADUFU-SS.
  • Promoção do filho de Mourão retoma velhas práticas da ditadura

    O novo governo chega ao seu décimo dia acumulando confusões entre as figuras do alto escalão. Só que a última não se trata dos já corriqueiros desencontros entre as falas de Bolsonaro e a sua equipe ministerial, mas do primeiro caso de nepotismo que tomamos conhecimento na gestão da “nova era”. Por mais que a grande imprensa titubeie em chamar as coisas pelo seu devido nome, não há outra definição para a súbita ascensão do filho do vice-presidente Mourão no quadro de funcionário do Banco do Brasil. A partir de agora, Antonio Mourão trabalhará ao lado de Rubens Novaes, presidente do BB, e receberá um salário de R$ 35 mil, quase o triplo do que recebeu até o mês passado.

    Na agenda de governo apresentada ao público na semana passada por Onyx Lorenzoni, consta que nos primeiros 10 dias todas as nomeações deveriam ser feitas observando as regras do Decreto 7.203, que veda o nepotismo. A observação sobre os riscos das nomeações iniciais alertava que “o sistema não previne totalmente nomeações polêmicas, que podem posteriormente ser questionadas e causar desgaste”. Mas, ao que tudo indica até o momento, mesmo que a promoção tenha causado mal-estar entre os ministros e pego de surpresa o próprio presidente, ela será sustentada até o fim. O BB já enviou um informativo para todos seus funcionários justificando a escolha, assim como o vice-presidente foi a público defender o mérito do filho.

    A verdade é que, uma vez no poder, os militares têm a prática de usar sua localização para enriquecer. Na ditadura foram inúmeros os casos que mostraram como a participação no governo era uma “porta giratória” para assumir cargos de alto-escalão em empresas públicas e privadas. O histórico da acumulação financeira do General Ernesto Geisel é escandaloso. Durante o seu governo (1974-79), além do início da distribuição de propinas na Petrobrás – inclusive delatada oficialmente na Operação Lava Jato -, houve o favorecimento da instalação da multinacional Dow Chemical Company no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. Assim que deixou o governo, em 1980, Geisel assumiu a presidência dos conselhos da Copene e da Norquisa, empresas do ramo petroquímico que, consequentemente, possuíam relações estreitas com o grupo estrangeiro. Ao contrário dos boatos divulgados nas redes sociais, o General não morreu pobre, bem pelo contrário: fazendo uma estimativa a partir dos atuais salários da carreira militar e dos executivos da Petrobrás, meu amigo Enio Buchionni estima que Geisel recebia cerca de R$ 127 mil.

    O atual governo civil-militar tem tudo para seguir a tradição de corrupção da ditadura brasileira. Falando nisso, Bolsonaro e seu filho Flávio, agora senador pelo Rio de Janeiro, até o momento não conseguiram responder qual a origem e a intenção da movimentação financeira realizada entre Fabrício Queiroz e a primeira dama Michele Bolsonaro. Será que o Super Moro resolverá essa questão?

    Vídeo – Entenda como foi a corrupção na Ditadura Militar

     

  • Qual é a melhor tática na eleição para presidente da Câmara dos Deputados?

    As virtudes dos homens são semelhantes ao vôo dos pássaros.
    A ave que se habitua com a paisagem rasteira perde o gosto pela altura.
    Sabedoria popular indiana

    Marcelo Freixo é o melhor candidato que a esquerda poderia apresentar para a presidência da Câmara dos Deputados. Por três razões. Primeiro, porque na eleição para este cargo não se trata da eleição do representante de uma bancada. O tamanho da bancada do PSol não é a questão. Trata-se de lançar um deputado que tenha, por sua trajetória, a autoridade política para se projetar, para dentro e fora da Câmara, como um freio, um contra-peso aos abusos de poder do governo Bolsonaro, e ao Bloco que pretende lhe oferecer sustentação incondicional.

    Freixo está ameaçado de morte há anos, antes e depois do assassinato de Marielle Franco. Ninguém na atual Câmara tem um estatuto sequer, remotamente, comparável ao de Freixo na luta pelas liberdades democráticas e civis que estão, gravemente, ameaçadas. Ele é um gigante moral diante do anão sinistro Rodrigo Maia.

    Segundo, porque é impossível formar um campo de oposição de esquerda com o o PDT de Ciro Gomes. Ciro Gomes já deixou claro que não está disposto a lutar aliado ao PT, e sinalizou que irá manter uma posição construtiva, propositiva, circunstancial diante do governo Bolsonaro. Não se trata de uma avaliação de quais serão as bandeiras de esquerda que Ciro Gomes está disposto a defender. O problema é se Ciro Gomes e seu bloco estão ou não comprometidos a ser oposição consequente a Bolsonaro. E quem não for oposição ao governo Bolsonaro não tem futuro.

    Terceiro, porque o apoio do PT a Freixo do PSol deixará o PCdoB, por enquanto, aliado ao PDT de Ciro Gomes e à articulação por ele liderada, diante de um dilema político incontornável.

    O caminho sugerido por alguns petistas de apoiar uma candidatura do PCdoB contra Freixo é, além de precipitado, muito perigoso. Porque levará o PT a se curvar diante da articulação promovida por Ciro Gomes. Quando o que se trata, taticamente, é de pressionar o PCdoB a se separar de PDT e PSB.

    Autoengano é a mais infantil forma de ilusão. É também a pior, porque é autoimposta. A esquerda parlamentar não tem chance alguma de ganhar a eleição para presidente da Câmara de Deputados. Simplesmente, não é possível. A atual composição da Câmara é a mais direitista desde o fim da ditadura. Mesmo considerando o número de desmiolados que existe no Bloco de apoio a Bolsonaro, não é razoável pensar que irão se arriscar a perder esta posição estratégica de poder. Sendo assim a tática deve estar orientada para a projeção de um campo de oposição de esquerda intransigente, irreconciliável com o governo Bolsonaro, sério e articulado.

    Se o PT hesitar por muito mais tempo em apoiar Marcelo Freixo estará jogando a favor de Ciro Gomes e contra a formação da Frente Única da esquerda que é necessária e possível. Portanto, contra si mesmo. Tiro no pé.

    O PSol inicia este mandato com um movimento tático brilhante.

    Foto: EBC

  • Nomeação do filho de Mourão irrita funcionários do BB e desmascara Bolsonaro e Novaes

    Até hoje, a maioria dos funcionários do Banco do Brasil sequer sabia que tinha como colega o filho do General Mourão, vice-presidente da República. Mas, neste dia 8 de janeiro, souberam pelos principais veículos da imprensa que esse “ilustre colega”, Antonio Rossell Mourão, acaba de ser promovido a assessor especial do novo presidente do Banco, Rubem Novaes. Com a promoção, Antonio, que até então era assessor na área de agronegócio, terá seu salário triplicado, passando a receber mais de R$ 36 mil por mês.

    A ascensão meteórica do filho do vice-presidente causou enorme indignação entre os funcionários do banco, que trabalham duro e buscam se qualificar para alcançarem uma pequena promoção, em um ambiente de pressão e, muitas vezes, de assédio moral. Na intranet do Banco, choveram comentários de indignação.

    A promoção de Antonio veio a público apenas um dia após o discurso de posse de Rubem Novaes, que afirmou que uma das suas responsabilidades é “fazer com que os brasileiros voltem a se sentir honrados de serem brasileiros”. Disse ainda que as instituições têm a responsabilidade de reverter o quadro que o país viveu nos últimos anos e que “os dirigentes das instituições devem restabelecer a confiança da população e de empresários do setor privado para que a economia e a credibilidade no país sejam fortalecidas”.

    Na mesma cerimônia, Bolsonaro afirmou que, pela primeira vez, os bancos públicos tinham sido blindados de nomeações políticas. Falou também em transparência, colocando em dúvida operações do Banco do Brasil com grandes empresas nas gestões anteriores, ao afirmar que “aqueles que foram a essas instituições [bancos públicos] por serem amigos do rei, buscar privilégios, ninguém vai persegui-los, mas esses atos, essas ações, esses contratos tornar-se-ão públicos”.

    A nomeação de Antonio Mourão contradiz todo o discurso de ética e combate à corrupção de Bolsonaro e sua equipe. Discursos bonitos são ditos sobre a época em que “o rei era outro”. Mas, no reinado de Bolsonaro e Mourão, parece que os privilégios dos amigos (ou filhos) do rei continuam sendo a regra.

    Foto: Reprodução