Mudar o mundo uma cabeça por vez

Por: Gabby Maturana, de Campos dos Goytacazes, RJ

A frase dita duas vezes durante o filme Felicidade por um fio ecoou na minha cabeça por horas. A transição capilar bem mais que uma mudança de estética, acaba por transformar sua relação com o mundo. Ao deixar de tingir os cabelos grisalhos e, ou aceitar a textura natural sem alterar física ou quimicamente os fios, proporciona em quem a realiza uma nova experiência com o mundo, principalmente quando se é negro.

O filme Felicidade por um fio (Nappily Ever After) nos apresenta a história de Violet Jones, que a partir de um constrangimento (leia-se racismo) sofrido na infância tornou-se obcecada por sua aparência, centralmente, por seu cabelo.

Como uma boa comédia romântica, trouxe os dilemas morais das relações amorosas e dessa vez é possível que tenha retratado a história de amor de diversas mulheres negras. Independentemente das diferenças entre o racismo vivenciado no Brasil e o norte-americano, seja ele de origem ou de marca[1] fato é que junto com o cabelo natural nasce uma nova pessoa posto que ao exemplo do Brasil que ao vender sua imagem de democracia racial vendeu também um padrão de beleza onde classificava pela cor como cada mulher em sua tonalidade de pele deveria ser tratada e Gilberto Freire não me deixa mentir “branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar[2].

Na tentativa de se tornar esteticamente mais aceitas ou menos desprezadas pela sociedade mulheres modificam seus fios. Mais que isso, a negação ao cabelo natural é passada de geração em geração. Há diversos relatos em páginas da web do costume de tirar um dia da para todas as mulheres da casa se reunirem para alisarem o cabelo que deveria ser conservado por toda a semana. Mas esse processo que a princípio parece um ritual de mulheres da família tem como pano de fundo o cheiro de cabelo queimado, as feridas no couro cabeludo devido o pente quente. Fez surgir o dito popular dos salões de beleza: “pra ficar bonita tem que sofrer!”

Embora mulheres tenham resistido ao alisamento, a grande maioria cedeu ou ainda cede em “deixar o cacho mais solto”, “diminuir o volume” ou “ter menos trabalho pela manhã”. As mil maneiras de se esconder o racismo que anos escravizam mulheres a sentirem dor para sentirem-se belas. A transição capilar tem trazido consigo a pluralidade do belo, do confortável e principalmente amor e respeito por si próprio.

Somos ensinadas a não gostar do nosso corpo, cabelo porque não nos víamos nos meios de comunicações e falando em mulheres negras nas decisões políticas lá é que somos raridade mesmo. Se a transição capilar tem em seu potencial uma transformação estética que faz mulheres negras redescobrirem seu lugar no mundo.

O ritual de se cuidarem juntas ainda persiste, agora no lugar do pente quente entram soluções caseiras de como nutrir, cuidar e principalmente de conhecer o cabelo natural. Ver o cabelo crescer é lidar em alguns não tão raros casos com a rejeição, mas é saber que quem fica lhe ama bem do jeitinho que você é. Se a transição capilar é realmente uma cabeça por vez mudando para assim mudar o mundo que seja uma jornada rumo a uma nova sociedade, livre de racismo, justa e igualitária.

[1] NOGUEIRA, O. (1985), “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil”. _____. (org.), Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais. 1ª edição 1959. São Paulo, T. A. Queiroz.

 

[2] FREYRE, G. Casa-grande e senzala. Formação da família brasileira sob regime de economia patriarcal. São Paulo. Global. 2006.

 

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