‘This is America’: o canto contra o racismo e a arte como ferramenta de luta social

Felipe Nunes, historiador, compositor e poeta

O ator e cantor Donald Glover nos surpreendeu positivamente na última semana com a divulgação do videoclipe “This is America”, lançado pelo seu trabalho como rapper com o codinome de Childish Gambino. O vídeo, até o momento, supera a marca de 32 milhões de visualizações, três dias após o lançamento.

Desde o seu último álbum primoroso “Awaken, My Love”, onde mistura rock psicodélico com Pop Americano e doses de R&B e Soul, Childish Gambino (Glover) mostrou que não era somente um ótimo ator, como também, despontava com um dos grandes músicos da nova geração norte-americana. “This is America” mostra que Glover pode ir mais longe. Ao unir ironia e tensão para criticar a violência contra a população negra dos Estados Unidos, preenche o videoclipe de referências históricas e atuais sobre o racismo enfrentado pela população negra norte-americana. Além disso, traz a tona o debate sobre posse de armas nos Estados Unidos, em um momento onde a discussão está no centro das atenções, diante dos ataques com mortes em massa cada vez mais cotidianos. Segundo o estudo divulgado em 2013 pela ONG “Violence Policy Center”, 84% das vítimas de homicídio por arma de fogo nos EUA são negros.

O videoclipe traça inúmeras simbologias referentes à cultura americana e ao racismo perpetuado ao longo de séculos. Durante todo o clipe é possível identificar a partir da expressão corporal de Glover, características idênticas ao personagem fictício Jim Crow, figura utilizada em referências às leis de segregação racial nos Estados Unidos que vigoraram entre 1876 a 1965. Em outro momento, Glover aparece diante de um coral americano e em seguida o metralha, uma referência nítida ao massacre de Charleston em junho de 2015, onde Dylann Roof, um branco com 20 anos de idade, matou nove pessoas negras em uma Igreja afro-americana dos Estados Unidos. Ao final do videoclipe, numa outra referência ao racismo que os negros norte-americanos convivem diariamente, Glover aparece correndo de forma apreensiva de policiais.

O videoclipe engloba outras referências do racismo norte-americano, não apenas através das imagens, como também na letra da canção. Em um dos principais refrãos afirma “Isto é a América, não seja pego desprevenido / Veja como estou vivendo agora / Polícia matando agora / Sim isso é a América / Armas na minha área”, fazendo um paralelo direto à tensa realidade dos negros norte-americanos, à violência policial e aàpolítica de armas nos EUA.

“This is America” é impactante, um verdadeiro canto antirracista, não é a toa que virou assunto em todos os lugares, causando espanto, incômodo e admiração em quem assiste. Glover coloca o dedo na ferida e expôs de forma sagaz e irônica o racismo nos Estados Unidos. Dessa forma, recupera uma frase emblemática da cantora Nina Simone, ao afirmar que o artista deve refletir seu tempo. Glover se posiciona e coloca a sua arte a favor da luta contra o racismo, aliando a sua já conhecida qualidade musical como ferramenta de conscientização e disputa na sociedade.

Clipe

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