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14 Junho, 2017
  • Na Baixada Santista, petroleiros e servidores de Santos convocam assembleias para deliberar sobre greve geral

    Por: Leandro Olimpio, de Santos, SP

    Categorias com forte tradição de luta, servidores de Santos e petroleiros da Baixada Santista começam a discutir a participação na greve geral de 30 de junho contra as reformas de Temer. O Sindipetro Litoral Paulista, que na Refinaria de Cubatão realiza atrasos há cinco dias contra a redução do efetivo operacional, toma sua decisão em assembleia no dia 21. Um dia depois, em 22 de junho, é a vez do Sindserv Santos definir, também em assembleia, como a categoria irá se comportar diante da data articulada de forma unitária pelas centrais sindicais.

    Nos dois casos, os sindicatos vêm corretamente apontando como as reformas atingem diretamente os direitos de suas respectivas categorias. No caso dos servidores, o Sindiserv lembra que “atualmente, de acordo com a Constituição, qualquer cláusula estabelecida em negociação coletiva que for prejudicial ao trabalhador e contrária à norma vigente, é considerada nula. Com a reforma trabalhista não. Prevalece o negociado sobre o legislado”. Já o Sindipetro-LP, em sua convocação, pontua que para além das reformas e da lei da terceirização, uma das principais facetas do golpe em curso é a privatização da Petrobrás com a entrega do pré-sal para o estrangeiro.

    “Desde o ano passado, com o aprofundamento da venda de ativos, os petroleiros estão no olho do furacão. (…) O objetivo de Temer é entregar o país às multinacionais, conforme vem exigindo o mercado financeiro há tempos. O período de dividir a exploração das riquezas nacionais com a elite brasileira ficou para trás. Agora, o objetivo das grandes empresas estrangeiras e seus acionistas é claro: retomar com toda força o seu controle sobre as riquezas brasileiras, dentre elas o petróleo”, opina os petroleiros.

    Esquenta para a greve geral
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    Estabelecido no calendário unificado das centrais como um esquenta para a greve geral, o dia 20 de junho promete ser marcado por paralisações em todo o país. No entanto, para se concretizar, é preciso que desde já o movimento sindical inicie um forte trabalho de conscientização e convencimento em suas bases. No caso da Baixada Santista, essa data também deve ser utilizada como um termômetro para medir a disposição de luta dos trabalhadores. Sem isso, ficará difícil a necessária e ousada tarefa de transformar 30 de junho numa data de greve geral ainda mais forte que a realizada em 28 de abril.

    Ao contrário da preparação para a greve geral de 28 de abril, que contou com ampla movimentação prévia e articulada das entidades sindicais da região, as iniciativas para a construção da greve geral de 30 de junho ainda são tímidas e pontuais na Baixada Santista. Mas a convocação de assembleias em servidores e petroleiros demonstram que é possível reverter esse cenário, pautando desde já a greve geral. Portanto, é fundamental que as demais entidades sigam o mesmo caminho.

    O papel da Frente Sindical
    Não é pequena a importância da Frente Sindical Classista para o sucesso da greve geral na região. Reunindo os sindicatos combativos da Baixada Santista, dentre eles petroleiros e servidores de Santos, a frente vem cumprindo um papel importante para a organização da luta contra a retirada de direitos e o ataque às aposentadorias. Na manhã desta quarta-feira (14), por exemplo, dirigentes dos sindicatos que compõem a frente estiveram no centro de Cubatão para dialogar com a população sobre a necessidade de combater as reformas através da greve geral. Panfletos denunciando as reformas, com a divulgação da greve geral, foram distribuídos aos moradores da cidade.

    Esta atividade, que ajuda a conscientizar a população e ganhar o seu apoio para a luta, deve ser acompanhada de outras iniciativas que já demonstraram ser importantes na greve geral de 28 de abril. Caso contrário, será insuficiente. A primeira delas é a organização unitária da greve geral. Ou seja, é necessário que as centrais e sindicatos da região voltem a se reunir para discutir e encaminhar ações conjuntas para a construção da greve. E a segunda delas, de caráter estratégico, é repetir a convocação de uma assembleia geral que reúna todos os trabalhadores, estudantes e ativistas dispostos a construir um forte 30 de junho. Essas medidas são fundamentais.

    Com o protagonismo conquistado nas últimas lutas, a Frente pode mais uma vez pressionar os sindicatos filiados à CUT e Força Sindical a organizarem a greve geral em suas categorias. Sabemos das vacilações da maior parte do movimento sindical cutista, que secundariza a luta direta em virtude do projeto Lula 2018. Sabemos também que muitos dirigentes da Força Sindical, preocupados apenas com a extinção do imposto sindical, restringem sua atuação à negociação de “perdas menores”. Entretanto, não ter uma política concreta de exigência a essas centrais é fechar os olhos para o fato de que elas, infelizmente, ainda dirigem categorias importantes da classe trabalhadora. Na região não é diferente e a participação fundamental de estivadores, rodoviários, portuários e outros setores na greve geral de 28 de abril é prova disso.

    “Sabemos que entre as organizações de esquerda, sindicatos e centrais existem diferenças sobre qual a saída para a crise. Aqui na região não é diferente, há diversas leituras para esse período tão crítico e conturbado. Mas, em compensação, há um grande consenso: é preciso colocar a classe trabalhadora em movimento, em luta, para barrar as reformas. E isso se faz com greve geral. Com esse acordo, é plenamente possível reeditar a unidade construída na greve geral de 28 de abril e garantir uma mobilização ainda mais forte. Em cada baia de trabalho, em cada sala de aula, é preciso discutir com os trabalhadores e estudantes a greve geral. É nossa tarefa número um daqui pra frente”, opina Raphael Guedes, que é professor das redes estadual e municipal de ensino em Praia Grande, e coordenador do Movimento por Uma Alternativa Socialista na Baixada Santista.

  • OPINIÃO | Quem está doente é o sistema social: notas sobre saúde mental e militância

    Isabel Keppler, de Natal, RN
    *psicóloga e militante da Liberdade, Socialismo e Revolução (LSR/CIT-PSOL)

    Saúde e militância tem sido um tema recorrente. Aqui apresento alguns elementos, frutos de leituras e debates coletivos com ideias que há tempos venho sistematizando com o intuito de apresentar algo mais elaborado, mas a cada texto novo que sai, sinto necessidade de expor tais reflexões. Dessa forma, adianto aqui ser apenas um esboço e início de conversa.

    Primeira coisa é talvez uma reflexão sobre o que é ser militante. É preocupante que seja visto como um estranho, porque queremos que todos e todas se envolvam na luta coletiva para mudar o sistema, e por isso é importante desmistificar o “ser militante”.

    Somos pessoas de carne e osso que vivemos, temos conta pra pagar, amamos, trabalhamos, nos divertimos, sofremos e entendemos que é possível e necessário construir outra sociedade em que a exploração não seja condicionante.

    Entendemos que saídas individuais são casuais e/ou insuficientes. O empenho e o esforço individuais não serão capazes de resolver nossos problemas. É preciso sair dessa juntos.

    A militância ajuda a identificar nossos problemas e organiza as saídas pra eles. Entender como a sociedade funciona na raiz, refletir como superar suas contradições, e organizar a superação dentro da força que temos (quantos somos, correlação etc.) é uma dedicação a mais, e despende tempo, energia, dedicação, mas parte da compreensão de que a luta política é uma necessidade.

    O nosso maior problema é o sistema, e não a militância

    Então, considero importante partir da compreensão de que nosso maior problema é o sistema, e não a militância. E na medida em que há um acirramento, com maiores ataques dos patrões e governos, isso implica não apenas objetivamente, mas psicologicamente em nós. Somos nós e os nossos que ficam desempregados, que são vítimas da violência crescente, que morrem de frio, de fome, que veem limites para o futuro. Isso nos causa mais ansiedade, mais angústia, nos deprime.

    Nesse sentido, resistir e buscar saídas coletivas é produzir saúde, e não doenças. É difícil, mas isso talvez seja o remédio mais efetivo, a maior entrega que fazemos, maior prova de amor e de vontade de viver. Rejeitamos ser explorados e nos negamos a aceitar as coisas como estão. É ainda uma vacina, porque temos também conquistas imediatas quando lutamos.

    O que nos propomos a fazer não é, ou não pode ser, um trabalho voluntário. Não pode ser visto como um martírio, tampouco uma recreação em que encontramos pessoas legais e organizamos manifestações quase como catarses para aliviar nossa raiva contra as injustiças.

    Queremos construir um projeto de transformação e isso exige sacrifício, mas esse sacrifício só vale se fizer sentido, se entendermos como está intrínseco a melhorar nossas vidas, e condições de vida. Dizer que “a militância cobra muito” é uma alegação abstrata.

    Uma metáfora: suponhamos que temos uma montanha e precisamos chegar ao topo. Para isso, podemos construir um elevador ou uma escada, ou então escalar na raça. É difícil e não temos uma receita pronta, vamos testando o melhor método para chegar lá. Mas alcançar o topo é preciso, e não adianta culpar a escada, o elevador, o caminho, ou quem está tentando construir. É preciso junto identificar os problemas e achar a solução. Quando responsabilizamos a militância pelo nosso adoecimento mental, estamos responsabilizando o instrumento (ou o caminho). Além de ser infrutífero é também simplista, porque o topo da montanha continuará lá, a ser alcançado.

    É preocupante que alguns textos, ou mesmo discussões em bares tenham esse tom, na minha visão, equivocado. Se erramos na avaliação, erramos na conclusão. Se alegamos que a militância é que esmaga a vida pessoal e a saúde mental dos militantes, a conclusão é apostar em cuidar de sua vida individual, ou considerar-se um mártir que as pessoas vão admirar, mas de forma alguma vão fazer igual.

    Por isso, a primeira coisa que devemos enfatizar é: o que nos esmaga e nos engole, o que mata nosso tempo de lazer, nosso tempo de amar, nossa saúde e nosso riso, é o sistema capitalista, que promove desigualdade social na medida em que gira em torno do lucro e da concentração de riquezas de poucos. É um mundo saudável para os 1%.

    A Reforma da Previdência é o exemplo mais atual disso. O rombo é uma falácia. Enquanto empresas devem milhões para o Estado, a proposta é aumentar a idade para se aposentar mesmo que em alguns estados ultrapasse a expectativa de vida da população. É uma reforma para privilégio de uma minoria em detrimento da maioria.

    Nós defendemos um mundo para os milhões, e não mais para os milionários. E lutar por isso é lutar por nossa saúde, por nossas vidas. É produzir saúde, e não doença.

    Quando a militância provoca também sofrimento

    A militância pode, de fato, ser um elemento que contribui pro adoecimento. Para isso, é preciso que a esquerda formule sobre o tema. Em 2011, fiz uma monografia sobre o tema, e aqui coloco alguns pontos que desde então tenho elaborado a partir de leituras, vivências e debates coletivos sobre o assunto:

    1. O desafio de construir o mundo de amanhã com homens e mulheres do mundo hoje: somos sujeitos desse mundo, de carne e osso. Temos contradições, temos nossos problemas. O fato de entendermos que precisamos mudar o sistema não nos torna, de imediato, sujeitos alheios às contradições desse mundo. Temos que nos cuidar para não reproduzir ou reproduzir o mínimo possível as piores características e personalidades que esse modo de produção capitalista produz ou alimenta: individualismo, ego, vaidade, competitividade, e claro, a opressão. Tais características nos divide, nos destrói e enfraquece o nosso projeto. Precisamos ao maximo criar entre nós espaços fraternos, solidários, colaborativos, livres de opressão, com respeito às diferenças, não eliminando nossas divergências de forma autoritária, mas crescendo com elas. Temos que ter o esforço coletivo de sermos o mais próximo possível de sujeitos de uma nova sociedade e nova sociabilidade. Isso não é fácil e não tem receita pronta, mas é um princípio que deve estar presente naqueles que se dispõem à militância.

    2. Dissociação de vida e militância
    2.1. A relação entre indivíduo e sociedade é produto desse modo de produção. Defendemos uma sociedade mais coletivista, e menos individualista. Mas hoje sofremos pressão de uma dicotomia vida pessoal x coletivo ou vida pessoal x militância. A noção de “eu e o mundo”, “eu e a sociedade”, de como o indivíduo se relaciona enquanto ser social, é produto também do modo de produção.

    Isso deve ser colocado em questão quando nos dispomos a construir um projeto coletivo. Não devemos priorizar um em detrimento de outro. Nosso esforço e dedicação em transformar o mundo devem estar alinhados com nossa vida cotidiana, e caminhar lado a lado. É um desafio enfraquecer o individualismo e fortalecer a ideia de individualidade. Abrir mão de nossos egos, vaidades, e das ilusões em saídas individuais em que tentamos nos destacar sem nos preocupar com aqueles ao nosso redor. Em contrapartida, cultivar as individualidades. Somos seres sociais, com características particulares e habilidades que podem contribuir para o coletivo. Temos também nossos desejos que dão sentido a nossa vida e precisamos conciliar a nossa luta coletiva com nossos momentos para amar, para ler o que nos interessa, para aprender novas habilidades, para conversar com quem nos identificamos. Dar tempo para isso é inclusive importante para nos deixar mais fortes.

    2.2. Alienação na militância. Como disse antes, militância exige sacrifício e com isso temos tarefas. Mas na medida em que as tarefas se limitam a tarefas, dissociando-se de sentido e de proposta, torna-se adoecedor. O “reunísmo”, em que nos perdemos reunião seguida de reunião, que encaminha outra reunião; o distanciamento com gente real, com vidas reais, dentro dos bairros, das escolas, dos locais de trabalho para limitar-se em debates internos na vanguarda da esquerda; elementos como esses produzem desgaste.

    O praticismo, pragmatismo, com pouca formação teórica que nos ajuda a entender onde nos localizamos diante da História (essa mesma, com H maiúsculo) nos faz ser engolidos pela pequena política de pensar eleição após eleição, ou manifestação após manifestação. Considerar a militância apenas como uma tarefa provoca perda de sentido. No limite, não fazemos isso por voluntarismo. Enquanto mulher, minha militância está atrelada com me defender e em como sobreviver a esse mundo machista, por exemplo. Mas também enquanto sujeito histórico, conhecer experiências anteriores, como a vivida na Revolução Russa ou na ditadura no Brasil, ajudam e muito a dimensionar nossas lutas e nossas tarefas.

    3. Por fim, não é excesso de partido/organização política que adoece os militantes, e sim a falta.
    Frase polêmica. Explico: uma organização politica deve ser como um corpo. Devemos atuar juntos de acordo com as condições de cada parte desse corpo, de cada célula. Uma organização deve se construir partindo da realidade concreta da conjuntura em geral, mas também partindo da realidade concreta interna.

    Isso só é possível se todas as partes desse corpo estiverem inseridas de forma ativa, apresentando sua disposição e disponibilidade. É preciso ter uma mediação entre o que é preciso fazer e o que a organização tem condições de fazer.

    É preciso que as instâncias encaminhem metas e tarefas, porque o que nos propomos a fazer é complexo e precisa de planos. Essas metas e tarefas devem ser elaboradas conjuntamente, e ainda que exijam esforço e sacrifício, precisam ser viáveis de se fazer com o número de pessoas que têm. Caso contrário, ou adoecem atingindo, ou se frustram jamais atingindo.

    É recorrente, ao compreenderem a militância como adoecedora, apontarem “a organização/o partido” como insensíveis para com seus militantes e que exigem demais. Ora, mas o que é “a organização/o partido”? Não é um ente abstrato. É concreto, composto por seres de carne e osso desse mundo. Se está pesado para um, como divide e reorganiza? A cobrança não vem – ou não pode vir – imposta de uma burocracia, reproduzindo uma lógica empresarial em que um chefe determina as tarefas e os funcionários obedecem, mesmo que se destruam, para cumprir. Tampouco a queixa deve ser feita dessa forma.

    Primeiro, como já disse antes, a realidade nos exige e muito! Quando a coisa aperta, as tarefas aumentam e os esforços também. Agora, por exemplo, com tais reformas antipopulares sendo encaminhadas e com uma greve geral por construir, não é (ou não pode ser) um Comitê Central ou um dirigente que vai pressionar o militante a se engajar mais, mas a própria situação objetiva!

    Em segundo, é compreensível que existam momentos difíceis na vida individual que exijam até mesmo afastamento das atividades, mas isso deve ser discutido com os demais membros, na medida do possível. Isso porque a organização precisa se reorganizar quando uma pessoa se afasta, como também quem se afasta não deve ser “abandonado” por seus camaradas.

    Assim, para que seja possível construir um projeto coletivo sensível às necessidades para atingir os objetivos e que considere as condições objetivas para isso, é preciso uma organização interna sólida e com democracia interna, onde os temas possam ser colocados e debatidos politicamente.

    Não é possível um assunto como esse ter conclusão. Esses são apenas alguns apontamentos. Está colocado o desafio da esquerda organizar mais debates e formular mais sobre o tema da saúde, e não só para os militantes como pra população em geral. Temos uma concepção de saúde individualizante, que trata o indivíduo, na maior parte das vezes medicalizando, quando sabemos que o nosso sistema também está doente. Podemos e devemos nos apropriar do tema da saúde e construir nossas propostas. Que possamos avançar mais nesse debate!

    Foto: Yellow Pink (1929) | Kandinsky

  • Se nada der certo, nos fiamos no povo brasileiro

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior*, colunista do Esquerda Online
    Publicado originalmente no jornal A Tarde

    As cenas se repetem numa velocidade vertiginosa e causam um profundo desconforto: no Rio Grande do Sul, alunos de duas escolas particulares organizam uma festa chamada “se nada der certo” em que debocham de trabalhadores de profissões ocupadas, sobretudo, por negros; em São Paulo um tatuador é filmado tatuando a frase “eu sou ladrão e vacilão” na testa de um adolescente que teria tentado roubar uma bicicleta; no Rio de Janeiro uma criança morre após ter recusado o atendimento por uma médica que alegava que seu expediente havia chegado ao fim; em Salvador uma grande escola particular organiza um “Dia do Mico” e dois adolescentes se fantasiam de membros do grupo racista norte-americano Ku Klux Klan e ainda posam para foto ao lado de um jovem que simula a saudação nazista.

    Não bastassem as notícias que nos últimos anos nos assombraram, como o espancamento seguido de morte de uma mulher deficiente mental confundida com uma sequestradora de crianças para rituais satânicos; ou o adolescente negro que após um roubo foi preso a um poste por rapazes brancos e de classe média alta que lhe ataram ao pescoço um dispositivo de prender bicicletas, os significados de todas essas cenas de barbárie dão a sensação que o Brasil não deu certo. Acrescente-se a isso as muitas mortes de jovens negros da periferia, recentemente reveladas no Atlas da Violência e que passam por ser apenas estatísticas que quase não chocam a ninguém, e a sensação se converte em quase certeza.

    Nossa autoestima tem declinado a olhos vistos. Em torno de escândalos de corrupção e em meio ao espetáculo público que o desgoverno de Temer e o Congresso nos têm proporcionado ao longo do último ano, com denúncias robustas e sobejas demonstrações de que a corrupção é gigantesca, além do fato de que os governantes querem nos impor reformas rejeitadas pela maioria dos brasileiros, não há sentimento maior do que a indignação e o escárnio. Falta vergonha na cara dos governantes, mas falta também empatia da parte daqueles que permanecem distantes da realidade de um país cuja desigualdade gritante é a principal responsável pela maioria de nossos males.

    Na semana em que o tema principal do noticiário político do país foi o julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE, as imagens e os fatos do cotidiano são chocantes, mas apenas confirmam os caminhos tomados por uma parte do país que se espelha no andar de cima. Nesta senda infausta, que reforça o nosso complexo de vira-latas, as perspectivas de que possamos sair do atoleiro que nos enfiamos parecem cada vez mais distantes. Como lampejos de esperança apenas a certeza de que somos um povo que, mesmo vivendo na dificuldade, cultivamos a alegria, a solidariedade e a resiliência, embora nunca a resignação. Contra um país de desesperança resta-nos a expectativa de que, como brasileiros, somos mais do que nos fazem acreditar as nossas classes dominantes.

    * Doutor em História. Professor da UFBA.

    Foto: Diretas Já

  • ‘Blitz da Amarração’, da Prefeitura Regional de Pinheiros, é denunciada por racismo religioso

    Da Redação

    O prefeito regional de Pinheiros, em São Paulo, Paulo Mathias, PSDB, foi protagonista de um vídeo, divulgado nas redes sociais, de uma campanha da Prefeitura Regional com o mote #DesamarraJá, que teria como objetivo remover anúncios irregulares das paredes da cidade. Mas, as apreensões divulgadas no vídeo remetem apenas  a divulgações de religiões afro-brasileiras. A Coordenação Nacional do ILABANTU, Instituto Latino Americano de Tradições Bantu, divulgou uma nota de repúdio à ação preconceituosa.

    Assista ao vídeo

    Leia a íntegra da nota:

    O NOTA DE REPÚDIO À OPERAÇÃO BATIZADA COMO “BLITZ DA AMARRAÇÃO” REALIZADA PELA PREFEITURA REGIONAL DE PINHEIROS – SP 

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    Em parceria com fiscais da Prefeitura da cidade de São Paulo, Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana, o Prefeito Regional de Pinheiros, Paulo Mathias, do PSDB, resolveu montar uma “grande operação” em prol do interesse público dos munícipes, a qual batizou de “Blitz da Amarração”. O objetivo seria remover anúncios irregulares que “emporcalham a cidade”, apreender o material e punir os responsáveis.

    Ocorre que, o tipo de material apreendido e divulgado em vídeo nas redes sociais refere-se apenas a anúncios supostamente relacionados com religiões afro-brasileiras. Ora, há inúmeros outros tipos de anúncios colocados de maneira irregular, por que então uma predileção no “combate à amarração”?

    Sabemos que o racismo brasileiro possui um amplo repertório de atuação, especializando-se em hierarquizar – consciente ou inconscientemente – atribuindo estereótipos negativos aos referenciais culturais, sociais e espirituais pertencentes à população negra. Porém, quando denunciamos a injustiça racial pela perpetuação de desigualdades, ela é justificada como chiste ou mal-entendido.

    É notório o fato de que diante dos processos formais de desenvolvimento urbano, aliados à perspectiva consumista da modernidade capitalista, milhares de mentes recebem, diariamente, informações distorcidas através dos bombardeamentos midiáticos, o que corrobora para infundir o racismo, a intolerância religiosa, o preconceito e a discriminação.

    Em todas as religiões há falsas profissões, falsos líderes, sacerdotes corruptos e abusadores. O que não toleraremos é esse tipo de comunicação de representante de órgão público que programa uma ação dirigida, exclusivamente, a anúncios referentes a religiões de matrizes africanas, reforçando estereótipos e preconceitos inerentes ao racismo institucional, impregnado em nossas instituições.

    O modo de ser de uma metrópole, cujos valores são o consumismo, a velocidade, o interesse privado sobreposto ao interesse público, o desemprego que desponta, a necessidade de sobrevivência, a destruição das faunas e floras, a poluição dos recursos hídricos e o desrespeito à biodiversidade tornam os espaços urbanos, cada vez mais, espaços hostis ao desenvolvimento dos Povos e Comunidades de terreiro. Sobretudo nas dimensões paulistas, que, dentro dessas dinâmicas dessacralizadoras, acabam por produzir modificações no interior de seus códigos e tradições, fato combatido e não compactuado pela própria comunidade de terreiro.

    Sugerimos ao Prefeito da cidade de São Paulo e seus Prefeitos regionais a se adequarem às dinâmicas da cidade conclamando as comunidades de terreiro para estabelecer políticas públicas que auxiliem na manutenção de suas tradições e assegurem os direitos constitucionalmente garantidos de liberdade de culto e crença e de proteção aos locais de suas liturgias. (CF, artigo 5º, inciso VI). Vale dizer ainda, que a apresentação destas demandas ocorre de forma transversal, na medida em que, as reivindicações não são somente por garantia e viabilidade institucional das culturas tradicionais de origem africana, mas ao direito à saúde, alimentação, moradia, segurança, educação e melhores condições de vida a toda população afro-brasileira e africana na diáspora.

    Nesta perspectiva o ILABANTU se configura como uma organização coletiva voltada ao amadurecimento das pautas reivindicatórias dos Povos de Comunidades Tradicionais de Matriz Africana frente aos diálogos com o poder público.

    Não iremos permitir que nossa religião, criminalizada e duramente perseguida por órgãos oficiais até o Código Penal de 1940 continuem a sofrer agressões, sob pena de apuração de crime de responsabilidade por intolerância religiosa.

    Repudiamos, veementemente, ações que reproduzem a inegável herança racista proveniente da colonização e escravidão de populações africanas no Brasil.

    São Paulo, 13 de junho de 2017.

    A Coordenação Nacional do ILABANTU
    Instituto Latino Americano de Tradições Bantu

    Leia ainda: Lei não proíbe sacrifício religioso em animais, decide TS-SP

    Créditos : Roger Cipó