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13 Junho, 2017
  • O giro internacional de Trump: uma adequação à política externa do establishment republicano?

    Por Victor Wolfgang Kemel Amal, Florianópolis/SC

    Entre os dias 20 e 28 de maio, Donald Trump fez seu primeiro giro internacional: visitou Riad (Arábia Saudita), Tel-Aviv, Jerusalém, Belém (Israel-Palestina), Roma, Vaticano, Taormina (Itália), e Bruxelas (Bélgica).  A viagem ocorreu em meio a um aumento da tensão interna nos EUA. Dias antes de embarcar para a Arábia Saudita, Trump demitiu o ex-diretor do FBI, James Comey, responsável pela investigação envolvendo o comitê de campanha do presidente com a inteligência e a diplomacia russas nas eleições do ano passado.

    Os Democratas denunciaram o fato como um caso de obstrução de justiça, potencializando os rumores que circulam em Washington quanto a um possível impeachment de Trump. Os jornais logo compararam o episódio com o ocorrido com Nixon, em 1974, quando então viajou à Arábia Saudita em meio ao escândalo do Watergate, renunciando pouco tempo depois.

    Na quinta-feira passada, dia 8, quando então Trump já havia retornado da viagem, Comey testemunhou no Senado contra o presidente afirmando que ele havia mentido sobre diversos fatos tratados entre eles, alimentando ainda mais a crise política norte-americana.

    Entretanto, a julgar pelo curso tomado pela política externa de Trump, o que se vê, na prática, é uma adaptação cada vez maior ao establishment do partido Republicano. Trata-se, evidentemente, de uma política diferente da dos Democratas. Por outro lado, trata-se também de um distanciamento da orientação da ala mais reacionária de seu staff encabeçado pelo estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon.

    Outros fatos, como o ataque dos Tomahawks norte-americanos à Síria, uma provocação à Rússia, e uma maior flexibilidade frente à China depois da passagem de Trump por Beijing, já indicavam isso. Agora, mais recentemente, esse primeiro giro internacional de Trump parece confirmar essa tendência.

     Arábia Saudita – Irã

    O objetivo principal de Trump em sua visita ao Oriente Médio foi o de reassegurar o apoio dos EUA aos seus aliados na região – Egito, Arábia Saudita, Turquia, Israel, etc. – contra o Irã e seu arco de alianças – Síria, o governo paralelo do Hezbollah no Líbano, o Hamas na Palestina, etc.

    Esse é o significado do acordo da venda de armas no valor de 110 bilhões de dólares fechado com a Arábia Saudita, incluindo algumas armas de alta precisão que tinham sido restringidas por Barack Obama sob o argumento de que os sauditas poderiam utilizá-las contra a população iemenita. O Iêmen vive uma guerra civil decorrente da derrota da Primavera Árabe, onde o governo central sunita, apoiado pelos sauditas, enfrenta os rebeldes xiitas, apoiados pelos iranianos.

    Assim, Trump procurou demonstrar uma clara mudança em relação à política externa mais conciliadora de Obama frente o Irã. Lembremos que, desde a guerra da Síria iniciada em 2011, havia um descontentamento, tanto da Arábia Saudita como de outros países sunitas da região em relação à negativa de Obama em derrubar o governo da Síria pela força. Sabe-se que Assad é tido como um aliado do Irã. Essa situação se agravou, em 2015, quando Obama negociou o fim das sanções econômicas contra o Irã em troca do fim de seu programa de armamento nuclear.

    Entretanto, apesar de fortalecer a Arábia Saudita como o eixo sunita no Oriente Médio, visando, segundo o Secretário de Estado, Rex Tillerson, conter o Irã e sua exportação de radicalismo, Trump nada mencionou em relação à revisão do acordo nuclear promovido por Obama. Lembremos que durante as eleições de 2016, este ponto foi apresentado como chave em seus discursos de campanha.

    Ainda, tendo que se reaproximar da Arábia Saudita, quando se referiu ao combate contra o Daesh (autodenominado Estado Islâmico), Trump tomou cuidado para não utilizar o termo “islamismo terrorista”. A expressão denota uma associação direta entre a religião e o terrorismo. Mas o fato é que ele foi além ao chamar o Islã de uma das maiores fés religiosas do mundo. Esse discurso ideológico de conciliação com o Islã é antagônico aos seus diversos pronunciamentos e tweets, afirmando que “o Islã odeia os EUA”. Difere também de quando escreveu no Twetter, em 2014, que os sauditas deveriam pagar mais pela proteção oferecida pelos Estados Unidos.

    Seu posicionamento na Arábia Saudita reflete, sem dúvida, uma política dura contra o eixo xiita adotada pelo establishment republicano. O anúncio, depois da passagem de Trump pelo Oriente Médio, do embargo dos países membros do Conselho de Cooperação do Golfo ao Qatar sob o argumento de que o país financia a Irmandade Mulçumana, a Al-Qaeda e o EI, reforça isso. Mas mesmo assim, isso é ainda menos extremado que o discurso de campanha de Trump que envolvia desestabilizar a frente nuclear com o Irã.

     Israel-Palestina

    Durante sua passagem por Israel, Trump se encontrou com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e também com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

    Tal como na Arábia Saudita, demonstrou uma mudança em relação à política do ex-presidente democrata. Desde sua última visita ao Oriente Médio, Obama passou pela Arábia Saudita e Egito, mas não por Israel, o que foi entendido como uma provocação por parte de Netanyahu. Além disso, a abstenção dos EUA na votação da ONU, em 2016, quanto à legalidade ou não dos assentamentos israelenses, foi inédito e causou grande alvoroço nas relações EUA-Israel.

    Durante as eleições, Trump pregou uma política oposta a essa ao defender a expansão dos assentamentos de Israel. Além disso, afirmou que pretendia mudar a embaixada dos EUA de Tel-Aviv, onde se situa atualmente, para Jerusalém, ocupada pelos sionistas após a guerra de junho de 1967. Isso indicava um choque frontal com a proposta de paz defendida por Abbas, já que este defende um acordo baseado no retorno das fronteiras prévias à guerra de 1967, o que inclui a porção leste de Jerusalém.

    Em absoluta contradição com seu discurso de campanha, Trump afirmou estar disposto a se dedicar pessoalmente para promover a paz entre israelenses e palestinos. Claro, não mencionou em nenhum momento o reconhecimento do Estado Palestino, basilar para a negociação. Isso denota não haver intenção de qualquer negociação real. Contudo, tampouco voltou a falar em transferir a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém. Isso praticamente coloca a questão da relação Israel-Palestina no seu curso normal, ou seja, o tradicional apoio dos EUA a Israel e um discurso de paz com os palestinos que não sai do papel.

    Não por acaso, enquanto transcorria a visita de Trump, os palestinos organizaram grandes protestos e greves em solidariedade aos mais de 1500 presos políticos palestinos nas cadeias de Israel que realizavam uma greve de fome. A greve foi iniciada por Marwan Barghouti, dirigente do Fatah, principal organização da Organização para a Libertação da Palestina, que está preso há 15 anos. Os manifestantes bloquearam ruas e levaram milhares de pessoas à Cisjordânia e a faixa de Gaza para dizer basta à ocupação de sua terra e às prisões de suas lideranças.

    Após 41 dias, estes encerraram seu movimento ao conseguirem a promessa de importantes concessões pelas autoridades israelenses no terrível regime a que são submetidos. Estima-se que existam hoje em torno de 6.500 palestinos em prisões israelenses. Por outro lado, o impopular Mahmoud Abbas celebrou a vinda de Trump chamando-lhe de “homem da paz”, ainda que o presidente norte-americano, como dissemos, não tenha dado nenhuma sinalização do reconhecimento da Cisjordânia palestina.

    Europa

    Em seu quinto dia de viagem, antes de seguir para os encontros da OTAN e do G7, Trump chegou à Roma para uma visita ao Papa Francisco. Na ocasião, o Papa, um defensor das pautas ambientais, deu para Trump um livro escrito por ele próprio sobre a necessidade do combate ao aquecimento global.

    Seu objetivo foi claramente o de pressionar o presidente norte-americano a manter os EUA no Acordo de Paris durante a reunião do G7, que ocorreria três dias depois na cidade de Taormina, na Itália. Se por um lado, a relação do Vaticano com Trump, sem dúvida, mostrou-se um tanto quanto diferente da campanha (quando houve troca farpas entre o Papa e Trump), por outro, refletiu uma maior sintonia com a União Europeia.

     Bélgica – OTAN

    Um dia depois, Trump chegou a Bruxelas para o encontro da OTAN (Organização Militar do Atlântico Norte), aliança militar transatlântica que envolve os EUA, Canadá, Turquia e diversos países europeus. Como sabemos, havia muita expectativa nessa reunião. Durante sua campanha, Trump afirmou que a OTAN havia se tornado obsoleta, uma máquina burocrática de gastos sem fim, o que questionava a importância da aliança na atual ordem mundial. Contudo, parece que uma vez mais, a realidade concreta se impôs.

    Se é verdade que, por um lado, houve sérios atritos entre o presidente americano e os líderes europeus, por outro, a retórica de questionamento do papel da OTAN se desvaneceu. Ao final, tudo se reduziu a um jogo de pressões para equacionar as contribuições financeiras dos países membros em evidente atraso.

    Logo no começo da visita à Bruxelas, Trump teve uma reunião às portas fechadas com os líderes da União Europeia, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, e Jean Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia. Tusk afirmou que, apesar de haver concordância em diversos temas, existia uma diferença de percepção entre Trump e os europeus em questões essenciais, principalmente sobre o papel da OTAN na Europa e como lidar com a ameaça da Rússia.

    Isso pareceu ser confirmado, posteriormente, no discurso de Trump na cerimônia da aliança, quando pela primeira vez na história um presidente norte-americano não mencionou o artigo 5º da OTAN: o ataque a um dos membros da aliança é considerado um ataque a todos.

    Sem dúvida, esse é um tema bastante sensível se considerarmos que desde o início da guerra na Ucrânia, em 2014, existe uma insegurança por parte dos europeus quanto à possibilidade de uma investida da Rússia contra os países membros da OTAN. Esta situação é mais sentida, em primeiro lugar, pelos países do Báltico e da Polônia, na medida em que fazem fronteiras com a Rússia. Contudo, também é sentida por todos os países-membros da aliança desde que a Rússia passou a promover contrapropaganda, ataques cibernéticos e financiamento de agrupamentos de extrema direita anti-União Europeia dentro dos próprios países da Europa Ocidental como França, Alemanha e Inglaterra.

    Mas ao mesmo tempo, Trump apontou exaustivamente para a não-assiduidade dos países membros da OTAN quanto ao pagamento de suas cotas ao fundo que ainda atingem o mínimo de 2% do PIB para investimentos militares. Afirmou que se todos os países estivessem em dia, isso significaria um acréscimo de 190 bilhões de dólares no orçamento, montante que poderia ser usado no combate ao terrorismo, insinuando uma displicência no combate ao que hoje significa uma ameaça à própria Europa.

    Todos esses debates revelam que as relações dos EUA com os principais países membros da OTAN estão numa zona de turbulência. Mas isso ainda está longe de significar uma mudança mais radical na política de Trump para a OTAN. Lembremos que os governos republicanos sempre tiveram mais conflitos no seio da OTAN do que democratas. Assim, uma coisa é não citar explicitamente o artigo 5º num discurso ou reivindicar um “equilíbrio fiscal” entre os países membros. Outra, muito diferente, é trabalhar de fato para descartá-la enquanto aliança. Isso seria uma verdadeira hecatombe na atual ordem mundial. A OTAN, criada em abril de 1949, constituiu-se em peça-chave para o domínio global norte-americano no pós-guerra.

    James Mattis, chefe do Pentágono, foi claro ao dizer o que realmente pretendiam os EUA. Afirmou que a OTAN é um “pilar fundamental” para Washington, mas a “defesa da liberdade” tem “um custo necessário”. Segundo ele, o montante com o qual os Estados Unidos contribuem “já não pode carregar uma participação desproporcional na defesa dos valores ocidentais”.

    Na verdade, o aumento dos gastos militares é uma exigência antiga dos Estados Unidos, que, em 2014, durante a cúpula no país de Gales, conseguiu que seus aliados se comprometessem a aumentar seus gastos militares para até 2% do PIB nacional antes de 2024. Entretanto, somente cinco dos 28 países da Aliança cumprem com esse objetivo – Estados Unidos, Reino Unido, Grécia, Estônia e Polônia – mas outros, como a França (1,78% em 2016) e a Espanha (0,91%), exigem que se leve em conta o impacto nas contas públicas de operações militares realizadas no exterior.
    Ao final, vários países, como Alemanha, Reino Unido e Dinamarca, defenderam a posição de Mattis. Este é o caso da ministra alemã, Ursula von der Leyen, para quem “os americanos têm razão” e é “de justiça” que os europeus aportem uma contribuição também para que esta não recaia “excessivamente” sobre Washington.

    Além das discussões em torno ao gasto militar, o encontro terminou o primeiro de seus dois dias com a aprovação da implantação, “o quanto antes”, em Nápoles, de um centro para coordenar as informações sobre a luta contra o terrorismo extremista, especialmente no Oriente Médio e no Norte da África.

     Itália – G7

    Sua última parada foi na cidade italiana de Taormina, na Sicília, para participar do encontro do G7, grupo formado pelos EUA, Canadá, Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Japão, considerados os sete países mais ricos do mundo (excluindo a China). O principal tópico discutido foi o Acordo de Paris sobre o clima.

    Esse acordo, promovido pela ONU e encabeçado pelo ex-presidente Obama, foi negociado durante o COP-21, em Paris, e assinado em dezembro de 2015 por 192 países, incluindo EUA, China, Rússia e Índia, os maiores poluidores do planeta. Seu objetivo foi o de limitar em até 2 graus centígrados o aumento da temperatura global, uma meta bastante modesta face os problemas ambientais vividos hoje e que certamente virão no futuro.

    Trump, desde sua campanha, vem afirmando que irá retirar os EUA do acordo o mais rápido possível. Argumentava haver uma conspiração chinesa para diminuir o crescimento econômico norte-americano através das supostas ameaças do aquecimento global. Disse também que a retirada do acordo iria reestabelecer os postos de trabalho ligados à indústria do carvão nos país, gravemente afetada pelas políticas ambientais restritivas.

    Houve grande pressão contrária, tanto por parte de setores econômicos e políticos norte-americanos, quanto dos líderes de nações estrangeiras, fazendo com que o presidente colocasse a decisão quanto à permanência ou não dos EUA no acordo em suspenso. Entretanto, poucos dias depois de retornar ao país, anunciou que os Estados Unidos se retirarão do Acordo de Paris. Embora nesse aspecto tenha mantido uma continuidade entre a retórica de campanha e sua ação efetiva, trata-se de um ponto de vista comum com a maioria do establishment do Partido Republicano que nunca viu o acordo com bons olhos.

    As contradições de uma readequação

    Passados praticamente seis meses de governo, cada vez mais encurralado pelas investigações de sua relação com a Rússia durante a campanha eleitoral, Trump parece estar se adequando à política do establishment republicano, no qual é obrigado a se amparar para não ser destroçado pela oposição democrata.

    Isso o obrigará a distanciar-se cada vez mais dos setores da ultradireita que estiveram à frente de sua campanha. Não por acaso, depois de ter se retirado do Conselho de Segurança por ordem de Trump, já existem especulações quanto à continuidade de Bannon como estrategista-chefe da Casa Branca.  Aliás, chama a atenção o fato de que, embora ele fizesse parte da comitiva que acompanhou Trump no giro internacional, sua presença brilhou pelo silêncio.

    Como esse setor da ultradireita irá reagir caso se consolide o que parece ser cada vez mais uma readequação da política externa da administração Trump é um tema a se acompanhar. O mais provável é que isso não deverá passar de forma incólume. Assim, tudo indica que, seja por onde seja, Trump não terá paz.

     

  • 13 de junho de 2013, quatro anos depois

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    Os profetas anarquistas da “propaganda pelos fatos” podem falar até pelos cotovelos sobre a influência estimulante que exercem os atos terroristas sobre as massas. As considerações teóricas e a experiência política demonstram o contrário. Quanto mais “efetivos” forem os atos terroristas, quanto maior for seu impacto, quanto mais se concentra a atenção das massas sobre eles, mais se reduz o interesse das massas por eles , mais se reduz o interesse das massas em organizar-se e educar-se. Porém a fumaça da explosão se dissipa, o pânico desaparece, um sucessor ocupa o lugar do ministro assassinado, a vida volta à sua velha rotina, a roda da exploração capitalista gira como antes: só a repressão policial se torna mais selvagem e aberta. O resultado é que o lugar das esperanças renovadas e da excitação artificialmente provocada vem a ser ocupado pela desilusão e a apatia. – Leon Trotsky

    Foi somente há quatro anos. Mas, parece que foi há muito mais tempo. Porque estes últimos quatro anos estiveram entre os mais intensos, em contraste com as duas décadas anteriores, entre 1993 e 2013, em que prevaleceu a estabilização do regime democrático presidencial, inclusive com a alternância eleitoral entre PSDB e PT. Junho de 2013 precipitou uma oportunidade de mudança. Abriu uma brecha, e isso foi grandioso. Depois, a oportunidade se perdeu, por variadas razões, e isso foi triste.

    No calor dos acontecimentos três campos se definiram: (a) de um lado, as forças que defendiam o caminho da continuidade das mobilizações de Junho com dois desdobramentos, o fortalecimento da auto-organização juvenil-popular, e a união com o movimento operário organizado, e trabalharam pela proposta de um dia de greve geral em 11 de julho, e 30 de agosto; (b) de outro lado, os que se alinharam com a fórmula da Constituinte Exclusiva pela Reforma Política, formulada pelo governo Dilma; (c) por último, mas não menos importante, aqueles que se entusiasmaram com as iniciativas da tática dos Black Blocs, e a agitação por atos de destruição simbólica.

    Quatro anos depois não deve nos surpreender que a disputa ideológica sobre o significado de Junho de 2013 permaneça aberta. Surgiram várias hipóteses de interpretação. Elas se dividem, em primeiro lugar, em dois grandes campos de análise que são incompatíveis.

    De um lado estão aqueles que compreendem as mobilizações entre março de 2015/16 como herdeiras de uma onda conservadora que já teria se manifestado em Junho de 2013. Essa tem sido uma narrativa construída em defesa do balanço dos doze anos de governos liderados pelo PT e do lulismo.

    Como todo discurso ideológico funcional, ou seja, que ambiciona credibilidade, este tem um grão de verdade. Aconteceu um giro reacionário da classe média entre 2013 e 2015. Em alguns momentos de junho de 2013, pela primeira vez, desde o fim da ditadura militar, núcleos fascistas desceram às ruas, e conseguiram uma audiência importante contra a esquerda, em geral, e o PT, em particular. O auge deste conflito foi o assalto contra as bandeiras vermelhas. Estes episódios antecipavam o que aconteceu, dois anos depois, em março de 2015/16: uma avalanche de classe média nas ruas, inspirado na LavaJato, exigindo a derrubada do governo liderado pelo PT que culminou com o golpe parlamentar do impeachment de Dilma Rousseff. Mas esta interpretação é unilateral.

    Do outro lado, aqueles que rejeitam este fio de explicação. Ou seja, aqueles que não concordam que a ideia de uma continuidade, ou de uma sequência ininterrupta entre os dois processos seja a chave de interpretação. Entre a explosão popular de mal estar social popular que se expressou nas ruas em junho de 2013, e a fúria ressentida de setores da classe média engajados em uma campanha para derrubar Dilma Rousseff, com programa de ajuste fiscal, e direção reacionária, existiu uma mudança na situação política.

    Nem o impulso, nem a potência, nem a organização, nem os sujeitos sociais das marchas de 2015/16 foram os mesmos de 2013. Mas, a diferença mais importante é que Março de 2015/16 tinha uma organização política (MBL, Vem para a Rua, Revoltados online), e um programa reacionário de luta pelo poder.

    Junho de 2013 colocou em movimento, na escala de muitos milhões, em centenas de cidades, uma nova geração de trabalhadores e jovens que reclamavam por direitos: queriam mais verbas para o financiamento do transporte público, da educação pública, da saúde pública, e se manifestavam contra o gigantismo das obras dos estádios para a Copa do Mundo e Olimpíadas, ou seja, contra a corrupção.

    A grandeza de Junho não merece ser diminuída. Milhões de pessoas em quatro centenas de cidades, com manifestações de rua de exuberante radicalidade, foi algo magnífico e inusitado. Junho teve como impulso a luta contras o aumento das passagens nos transportes públicos, portanto, a pressão da inflação. Teve como alicerce, no início, a iniciativa do MPL (Movimento pelo Passe Livre), porém, agigantou-se, espontaneamente, em manifestações por direitos sociais, de norte a sul. Em muitas cidades superou a grandiosidade das Diretas Já de 1984.

    Terminou se dispersando pela acefalia: a ausência de um projeto, de um programa e uma direção. Teve um protagonismo, majoritariamente, proletário e popular, embora a classe média tenha descido, também, às ruas. Foi expressão de uma espontaneidade autêntica que só as mobilizações que encontram eco profundo na consciência de milhões pode alcançar. Mas sobre as debilidades de Junho não surgiu um consenso na vanguarda ampla que esteve à frente da convocação através das redes sociais na internet. Esta acefalia relativa foi expressão da força de Junho, mas também da sua fraqueza. Não existiu organização à altura da mobilização durante as semanas de lutas que Junho abriu. Tampouco depois se conseguiu avançar em organização independente. Se refletirmos em perspectiva histórica, esta debilidade parece significativa. As principais mobilizações políticas do século XX em escala mundial, especialmente as urbanas, conheceram as mais variadas formas de auto-organização desde o início. Em junho nasceram experiências fantásticas de assembleias de ativistas no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e Porto Alegre, mas foram fugazes.

    A maior fragilidade de junho é que não deu origem a novas organizações, superiores às existentes. Fortaleceu as existentes, é verdade. Mas não aconteceu um processo qualitativo na reorganização dos movimentos, que vem desde 2003/04. O que a história das lutas populares sugere é que sem organização não é possível avançar na luta por um programa.

    Pela primeira vez, desde os anos oitenta, uma manifestação popular não reconheceu autoridade na direção do PT e da CUT. Lula não apareceu em nenhuma oportunidade, nem expressou qualquer opinião. Porque uma parte do imenso mal estar social se dirigia, também, contra os governos municipais (como em São Paulo) estaduais, e nacional liderados pelo PT. Não foi possível à esquerda anticapitalista oferecer um ponto de apoio, suficientemente, forte para levar as mobilizações para um patamar mais elevado.

    Por ultimo, não fosse bastante o balanço demolidor da experiência ao longo dos últimos quatro anos, o argumento de Trotsky na epígrafe é suficiente para ajudar a compreender o perigo da tática dos Black Blocs. A obsessão pela destruição de vitrines e ataques contra os caixas automáticos dos bancos foram o pretexto usado pelos governos para uma repressão cada vez mais violenta que teve consequências para a continuidade do movimento. Nunca saberemos em que medida exata, mas teve. Já as sequelas deixadas pela aventura substitucionista ficaram escancaradas depois do episódio da morte do cinegrafista no Rio de Janeiro em fevereiro de 2014 que, se não foram irreparáveis, foram muito graves.

    Em resumo, o impulso rebelde e progressivo de Junho de 2013 foi vencido, depois do esgotamento de um semestre inteiro de mobilizações, da morte trágica do cinegrafista, e sob a pressão da iminência da Copa do Mundo.

    De todo este processo resta uma lição estratégica. Na luta social quando não se avança, recua-se. Foi a derrota de Junho de 2013 que abriu o caminho para Março de 2015/16.

  • Em Alagoas, manifestantes realizam ato em defesa da autonomia universitária e do HU

    Entidades sindicais, estudantes e usuários participaram da manifestação no Hospital Universitário

    Por: karal Nico, de Maceió, AL

    Na manhã desta segunda-feira (12), os representantes dos sindicados dos técnico-administrativos (Sintufal) e dos docentes da Ufal (Adufal), além de estudantes, trabalhadores e usuários do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), realizaram um ato em defesa da autonomia universitária e do HU.

    Entenda o caso
    Na quarta-feira (7) foi publicado no Diário Oficial da União a exoneração da superintendente do Hospital Universitário da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Profa. Dra. Maria de Fátima Siliansky de Andreazzi.

    O curioso é que uma semana antes de sua exoneração a gestora havia criticado, em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, os desmontes da saúde pública e avaliado negativamente o modelo de gestão do hospital-escola a partir da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh)

    E uma clara atitude de perseguição política e grave afronta à autonomia universitária, o presidente da Ebserh, Kléber Morais, nomeado pelo governo ilegítimo de Michel Temer, resolveu exonerar Fátima Siliansky.

    A medida de Kléber Morais fere a previsão constitucional de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial das universidades.

    O Ato
    Foi contra esta absurda ingerência e em defesa de uma Saúde de qualidade que os servidores, estudantes e usuários do HU realizaram o ato desta manhã.

    O ato Iniciou às 8 horas com várias falas dos participantes. Davi Fonseca, coordenador geral do Sintifual, declarou: “Não podemos permitir que trabalhadores sejam jogados contra trabalhadores. Não existe nenhuma possibilidade de que os servidores da Ebserh percam os seus empregos conquistados por concurso público. O conflito é de modelo de gestão. Defendemos a natureza desse hospital como sendo uma escola e 100% SUS”.

    Já a senhora Eliete Araújo garantiu a sua participação no ato afirmando: “Esse hospital é público e pertence à Ufal e ao povo. Por isso, estou aqui para apoiar vocês. Queremos o HU sendo gerido pela Ufal”.

    Após as falas, os manifestantes deram um abraço simbólico no Hospital e em seguida realizaram uma caminhada pelos corredores conversando e explicando a gravidade do ocorrido aos demais usuários.

    Veja imagens

  • Viver é melhor do que sonhar: a relação entre a militância e a saúde mental

    Por: Gabriel Santos, de Maceió, Alagoas

    Todo militante de uma organização, ou movimento social, que tenha certo tempo de militância, às vezes nem isso, conhece ou sabe de algum companheiro que se afastou das lutas diárias por causa de problemas psicológicos, muitas vezes ansiedade e, ou depressão.

    O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estado Unidos estima que cerca de 125 mil pessoas são hospitalizadas por ano em decorrência de depressão. Entre 50 a 70 mil pessoas cometem suicídio anualmente por conta dessa doença. No Brasil, quase 6% da população sofre da depressão ultrapassando a média mundial. Somente no ano passado, mais de 75 mil pessoas foram afastadas de seus empregos no Brasil por conta da doença psíquica.

    Diversas pesquisas mostram que o adoecimento mental está ligado também ao modelo de vida que temos hoje. A este sistema capitalista que explora e oprime.

    No seio das organizações de esquerda, como este problema é visto? Como a saúde mental e a dor subjetiva dos militantes são tratadas? E qual o motivo que faz com que tantos companheiros se afastem para “acalmar a cabeça”? O objetivo deste texto não é trazer respostas, mas sim criar dúvidas e questionamentos. É ao mesmo tempo um desabafo e uma auto-crítica, por me ver nos dois lados das ações.

    Antes de tudo, acho que é preciso reconhecer alguns fatos: existe dor na militância, é preciso reconhecer isto. Assim como é preciso apontar que militantes podem adoecer de maneiras invisíveis.

    Aqueles que entram no projeto revolucionário, de uma luta anticapitalista, na construção de um Partido, onde se busca construir outro tipo de sociedade, ainda vivem na sociedade que buscam superar, e muitas vezes repetem na militância cotidiana e na organização vícios da sociedade capitalista.

    Falamos da pressão por produtividade no trabalho, mas repetimos a mesma cobrança nos militantes. Cobramos resultados com base em números. Ignoramos que, para além da militância, o companheiro ao lado tem também sua vida pessoal, seus problemas, seus anseios, seus desejos, seus medos, trabalho estressante, problemas familiares e de relacionamento, entre outros.

    A frustração com o esforço empreendido em determinada luta. O desgaste físico, emocional, psicológico e das relações para conseguir efetivar tais pautas. Muitas vezes nos esquecemos que são pessoas de carne e osso que estão fazendo esta política, e muitas vezes, também esquecemos que somos feitos deste mesmo material, nos cobrando de forma absurda.

    Militar requer sacrifício. É abrir mão voluntariamente de seu tempo em nome da construção de algo maior. É dedicar parte de sua vida em nome de um projeto. Um projeto que não pode ser individual. Mas, um projeto comum, coletivo. E apesar disto, custa dizer que nos falta empatia e sensibilidade, para todos nós.

    Militar requer sacrifício, sim, porém, não podemos cobrar a dose desse sacrifício que o outro está disposto a empreender. A cobrança deve ser mediante o sacrifício que o outro fez, e aquilo que ele pode suportar. Militar pode afastar uma pessoa da organização. É preciso reconhecer isto. Como o histórico líder trotskista James Cannon afirmou, “o trabalho de massas é um trabalho duro, e devora muita gente”.

  • Estudantes e professores fazem ato pela escola da Vila São Pedro em São Bernardo do Campo

    Por Lígia Lopes Gomes, de São Bernardo do Campo

    Na quarta-feira, dia 7 de junho, estudantes e professores da Escola Estadual Maurício de Castro, na Vila São Pedro, em São Bernardo do Campo, fizeram um protesto contra as péssimas condições de estudo. Segundo a estudante Keyla, aluna da 8ª série, membro do Conselho da Escola e uma das organizadoras do ato, isto foi uma resposta necessária aos problemas que enfrentam. “Não queria que tivesse chegado a esse ponto, mas acabou chegando e acho que foi a única forma que a gente tentou fazer algo para poder mudar”, disse a aluna.

    Keyla explicou que a escola funciona em três períodos – manhã, tarde e noite – e que antes contava com sete inspetores, mas atualmente conta com apenas uma, que está na escola há 23 anos. A inspetora trabalha nos períodos da tarde e noite, o que faz com que as aulas no período da manhã não contem com esse tipo de apoio. A escola tem aproximadamente 1500 alunos, dois andares de salas e mais de 30 turmas.O resultado desse descaso são portas quebradas e uma grade retirada da parede.

    Além da falta de inspetor, a escola também ficou vários dias sem trabalhadores de limpeza, o que a deixou em uma situação ainda mais lamentável. A professora de sociologia, Soraia Neves, aponta que além da falta de funcionários, faltam também materiais básicos.

    A Vila São Pedro é um dos bairros mais populosos de São Bernardo do Campo e tamanho descaso pode ser compreendido como um projeto político do governo Alckmin, que há quase dois anos foi derrotado em seu projeto de fechamento de escolas pela onda de ocupações dos estudantes. Agora ele vem aplicando a política de fechamento de turmas e redução de custos de maneira silenciosa, que não merece destaque na grande imprensa, mas é muito sentida pelos professores e alunos. Conforme a professora Soraia aponta, “tem, na verdade, essa visão de que existe escola para pobre e existe escola para rico, né? As escolas de bairros de classe média, mesmo sendo públicas, você percebe que é um trato maior. Inclusive do próprio governo”.

    O ato do dia 7 de junho foi um passo na luta pela Escola da Vila São Pedro. Provavelmente foi o mais importante até agora, porque foi organizado e conduzido pelos estudantes, que, segundo a professora Soraia, “escreveram as músicas e as palavras de ordem. Além do problema de falta de funcionário, eles colocaram outros problemas”. O ato contou com apoio do Sindicato dos Professores de São Bernardo do Campo.

  • Vidas negras não são propriedade pública

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Alguns fatos que ocorreram no país, nos últimos dias, têm revelado exemplos ostensivos de impunidade e condescendência com determinados indivíduos na sociedade.

    Em Salvador, dois colégios particulares foram palco de dois episódios que revelaram crueldade, racismo, elitismo e desleixo com a população da cidade. No primeiro, os alunos fizeram uma espécie de gincana com o título “Se nada der certo”, caracterizando-se de pessoas de classes mais baixas travestidas de cargo de limpeza e fala embargada com erros de português. No segundo episódio, ainda em Salvador, alunos de um outro colégio particular se caracterizaram de Ku Klux Kan para desfilar pela escola e tirar fotos com outros alunos.

    Já em São Paulo, um adolescente teve a sua testa tatuada com os dizeres “sou um ladrão e vacilão”, após ser acusado de cometer um furto que até então não foi provado. Mas, ao contrário disso, circula um vídeo na internet com o garoto tendo a sua testa tatuada, o que comprova o crime de tortura contra ele.

    O que se assemelha em relação a esses três fatos é o ódio e a negligência com a humanidade das pessoas negras e pobres. Para determinados indivíduos brancos e de classe média alta, a população pobre e negra não tem potencialidade sobre si mesma, por isso merece ser motivo de chacota, ou terem suas vidas manipuladas a mercê de valores fascistas que se sustentam na ideia de que o Estado beneficia criminosos com os Direitos Humanos e deixa os “cidadãos de bem” em perigo.

    Nada disso é verdade. A maioria da população morta e encarcerada é negra. É também a maioria da população que ocupa cargos de limpeza, que embora honesta, é precarizada, injustiçada, mal remunerada e negligenciada em relação ao comprometimento de direitos trabalhistas.

    Ambas instituições educacionais de Salvador, que são de mensalidades que superam o salário de muitos trabalhadores da periferia e que teoricamente têm um ensino de excelente qualidade, nunca se preocuparam em realizar atividades curriculares voltadas para o debate do machismo, racismo, LGBTfobia, os impactos da precarização da educação básica e as consequências da pobreza. Mas fizeram questão de se eximirem da culpa ao serem julgados pelas atitudes elitistas e racistas do seu corpo discente e docente.

    As políticas públicas precisam deixar de ser um tapa buracos social e passar a trabalhar os olhos da sociedade para a humanidade das pessoas que residem na periferia, ou nas ruas. Criar formas de humanizar pessoas brancas e de classe média alta, que ao verem pessoas negras, agem como animais sedentos por sangue e mutilação.

    Estamos cansados de sermos negligenciados enquanto seres humanos. Nossos corpos não são propriedade pública. Queremos que todos os “Rafael Braga” recebam o mesmo tratamento que todos os “Andreas Von Richthofen” recebem quando cometem algum ato infracional.

    Foto: Reprodução