Sobre a polêmica da #SeNadaDerCerto

Por: Morghana Benevenuto, de Porto Alegre, RS

Terceiro ano do Ensino Médio. Ano no qual estamos nos formando no colégio, ano em que fechamos mais uma etapa em nossa vida, e o ano no qual temos a difícil decisão de escolher qual faculdade queremos cursar, ou se queremos fazer uma faculdade. Bom, para uma pequena parte da população é isso que significa o último ano na escola, e para essa mesma pequena parte da população, não fazer uma faculdade e seguir uma profissão que não tenha prestígio social é sinônimo de “não dar certo na vida”. Sim. Isso mesmo que você acabou de ler, não dar certo na vida.

Para os jovens brancos, da Instituição Evangélica de Novo Humburgo (IENH), no Rio Grande do Sul, por exemplo, não dar certo na vida virou, inclusive, tema de uma festa que é tradição no último ano do Ensino Médio. A #SeNadaDerCerto foi o que incentivou esses alunos a se “fantasiarem” de profissões como a de faxineira, caixa de supermercado, gari, churrasqueiro e até morador de rua. Essa #SeNadaDerCerto também já foi tema de outra escola privada em 2015, dessa vez de Porto Alegre, o colégio Marista Champagnat.

A escola de Novo Humburgo lançou uma nota dizendo que a atividade visava “trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular, de forma alguma foi fazer referência ao não dar certo na vida”. Justificou também que “atividades como essa auxiliam na sensibilização dos alunos quanto à conscientização da importância de pensar alternativas no caso de não sucesso no vestibular e também a lidar melhor com essa fase”. Na nota também publicada pelo site Bomborns, a instituição pede desculpas pelo mal entendido e diz que a atividade não teve como objetivo discriminar profissões.

A Black Face da Democracia Racial
Sim, cara, gente branca, a #SeNadaDerCerto é racista!

Dear White People (Cara Gente Branca) é uma série Netflix que discute as diferentes formas que o racismo se expressa em uma universidade norte-americana, mas também como ele se manifesta na sociedade. Inicialmente, a discussão sobre racismo gira em torno de uma festa chamada Black Face, onde pessoas brancas se fantasiam de negras. E além de se fantasiarem, o que já um tanto problemático, estigmatizam completamente o que é ser negro, os colocando como sinônimos de bandido, traficantes, entre outros.

Episódio da série Cara Gente Branca, na Netflix | Foto: Reprodução

Episódio da série Cara Gente Branca, na Netflix | Foto: Reprodução

Mas, no país da democracia racial essa festa nunca aconteceria. Se fantasiar de ‘nega maluca’ no Carnaval!? Faz parte do nosso passado, pois somos um país de miscigenados. A moda agora é se fantasiar de profissões ocupadas majoritariamente por pessoas negras e dizer que isso é sinônimo de não dar certo na vida.

Talvez uma boa parte desses jovens não tenha parado para refletir o quanto o tema #SeNadaDerCerto foi carregado de racismo. Talvez porque vivemos no Brasil, onde impera o mito da democracia racial, onde somos todos supostamente iguais e essas “brincadeiras” quando problematizadas sempre chocam aquela parcela da sociedade branca que acredita que pobreza é uma questão de escolha, que cotas raciais são benefício e não direito, que a meritocracia em um sistema injusto desigual é eficiente, pois tudo é uma questão de escolha.

Quem dera se fosse…
Em 2014, a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) desenvolvida pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em cinco grandes capitais brasileiras (Porto Alegre, Fortaleza, Recife, Salvador e São Paulo), mostrou que em três dessas cidades o nível de desemprego era maior entre os negros (80%). Os negros só são maioria no setor de construção (987 empregados contra 716 brancos) e nos serviços domésticos (846 contra 540), áreas que historicamente pagam menores salários e demandam um grau de instrução mais baixo. Esses empregos serviram de fantasia para vários alunos que não correspondem a esses dados, pois são brancos e de classe média.

Mesmo com todos os retrocessos que estamos vivendo, o debate político e, especificamente, o debate sobre opressões, vem ganhando cada vez mais espaço, principalmente no mundo do cyberativismo, por isso revolta ver que ainda existam jovens que expressem um pensamento tão elitista, mas ao mesmo tempo não surpreende. O mito da democracia racial está tão impregnado em nossa sociedade que muitos simplesmente invisibilizam quem ocupa esses empregos, porque quem ocupa esses empregos é desumanizado constantemente.

A Maria não é a Maria, é a tia da limpeza; seu João não é o João, é o zelador; a Vera não é a Vera, é a tia do lanche, é a babá, é a gari, é a catadora de latinhas, tudo, menos uma pessoa. Se esses jovens vissem a tia da limpeza como a Maria, talvez não se vestiriam de “tia da limpeza”, porque talvez entenderiam que ela, assim como a maioria das mulheres negras, não teve as mesmas oportunidades que eles e nem vive em um sistema que buscou em algum momento proporcionar políticas que de fato promoveriam uma qualidade de vida melhor e diminuiriam a desigualdade de gênero, raça e classe

Aqueles adolescentes refletiram na sua “brincadeira” os valores preponderantes da nossa elite, e os valores que o Estado ainda busca manter. As reformas Trabalhista e da Previdência são um reflexo dessa mentalidade de que a pobreza é culpa do pobre, logo ele que trabalhe até morrer, enquanto os ricos mantêm seus privilégios.

Foto: Montagem Reprodução Facebook

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