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Quando a dor negra vira mercadoria. O amistoso da seleção e o antirracismo infértil.

Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

A CBF em suas redes sociais convida os torcedores para o amistoso entre Brasil e Espanha, o “jogo por uma luta secular”, com o slogan “uma só pele, uma só identidade”. Na entrevista, o técnico Dorival Júnior opina “se aconteceu o ato racista, as pessoas devem ser punidas”. O capitão do time espanhol respondendo sobre a existência do racismo no país ibérico diz “acredito que a Espanha não seja racista, cresci com pessoas de todas as cores e todos os tipos”. 

Do lado brasileiro, o atleta Vinicius Junior, 23 anos, autor do gol do título do Real Madrid na Champions, e vítima de incontáveis casos de violência racial, responde sozinho às perguntas dos repórteres sobre o amistoso. Câmeras e microfones apontados para ele. Os jornalistas, todos brancos, questionam Vini sobre a violência racial, como ele se sente sendo vítima de racismo, como busca reagir aos ataques racistas, qual a resposta que espera das autoridades. 

Vini Jr declara que cada vez sente menos vontade de ir a campo. Chora. Os jornalistas aplaudem. A entrevista acaba. A CBF utiliza as fotos do atleta negro chorando e posta em suas redes sociais com a legenda: “emocinou”.

A empresa CBF achou uma ideia lógica fazer um amistoso para combater o racismo. Não houve nenhuma cobrança mais firme da federação brasileira para as autoridades espanholas, para a FIFA ou UEFA. Diante do fato do principal jogador brasileiro ser vítima de ataques racistas de torcedores espanhóis, a ideia da CBF é jogar contra a Espanha, na Espanha, em um estádio lotado de espanhóis. Isso sem falar no chamado para a partida no melhor estilo negação do racismo e mito da democracia racial. 

A federação espanhola, a mídia do país, os torcedores que frequentam estadios, o Estado espanhol, não reconhece a violência racial que Vini e outros negros sofrem e não fazem nada para encerrar a mesma. A CBF, que é uma empresa, achou uma forma de fazer dinheiro em cima disso.

O Antirracismo virou um negócio. Vemos cada vez mais livros, cursos onlines, palestras e orientações pessoais para desconstrução no melhor estilo coaching, que falam sobre como ser antirracista. Como ser uma empresa antirracista? Como ser um educador antirracista? Como ser uma pessoa antirracista? É fácil encontrar uma série desses materiais em qualquer livraria ou pesquisa na internet. 

A roda das relações raciais girou no Brasil. É impossível a manutenção do mito da democracia racial no século XXI da forma que ele foi construído e ajudou a construir o século XX em nosso país. O protesto negro fez o Estado brasileiro assumir a existência do racismo, e gerou um curto circuito nas ideologias racistas. Se antes a Rede Globo lançava livros para dizer que não existia racismo no Brasil, hoje, ela vende exposições sobre práticas antirracistas no mercado de trabalho.

A vitória do movimento negro brasileiro: o reconhecimento da existência do racismo em nosso país por parte do Estado e da maioria da população, tem seus efeitos. Desde um crescimento de ideias sobre igualdade racial, combate ao racismo, maior representatividade, importância do voto em pessoas negras comprometidas com a pauta, e com o encurtamento da distância entre o movimento negro organizado e a população negra no geral. Até, por outro lado, a utilização de ideias de combate ao racismo como nicho de mercado, como algo vendável para ser popular e acessível, como um produto que precisa ser consumido, esvaziando assim o conteúdo da luta racial e reduzindo a mesma ao acúmulo de postos dentro da hierarquia racista.

As atitudes racistas e a questão racial, por meio dessa lógica que a esvazia, são reduzidas a questões individuais, morais, ou até de escolhas do sujeito: “Não quer que sua empresa seja racista? Assuma que exista uma desigualdade entre negros e brancos no mercado de trabalho e contrate alguns negros”.

A própria ideia de racismo estrutural passou a ser reduzida. Se os teóricos que desenvolveram a relação sobre raça e estrutura da sociedade fizeram isso para apontar a relação do modo de produção capitalista com as desigualdades raciais. Hoje, o racismo estrutural se tornou uma forma para empresas, ex-BBBs, e cantoras pops aliviarem a própria consciência: “cometemos o ato de racismo estrutural, pedimos desculpas e vamos estudar sobre o assunto”. 

A transformação da luta negra para transformação da sociedade em um fenômeno de marketing, estética e álibi para aliviar a mente, não é algo isolado, mas sim um reflexo dos tempos que vivemos. A crise de acumulação de capital e o modelo neoliberal precisam ampliar a taxa de lucro do sistema, e assim o fazem com um processo de expansão, onde o capital passa a acessar áreas que antes não tinha contato.

Isso é feito com a expansão física, onde o capital passa a adentrar na exploração do oceano, do espaço sideral, a desmatar e privatizar florestas. Também se dá com o desmonte de serviços públicos, como aposentadoria, sistema de saúde, etc; e vendas de empresas estatais de água, eletricidade, petróleo, gás e etc. Porém o capital em sua lógica de dominar tudo e todos, domina a própria sociabilidade. O próprio Estado se torna parte da mercado no modelo neoliberal e as próprias relações entre os sujeitos são capturados nesse movimento. Tudo passa a fazer parte da esfera produtiva do lucro, tudo passa a ter um valor de troca. E assim também o é com a luta antirracista.

A luta negra que vira mercadoria. A mente de titânio do dirigente da CBF que pensou na realização do jogo amistoso em questão, se adequa aos dias atuais: “Afinal, se vendem livros sobre antirracismo, palestras, manuais, por qual motivo não se deve vender uma partida de futebol? Se vendemos uma partida de futebol, por qual motivo não vamos comercializar a dor e as lágrimas de um jovem negro como Vini?”

O novo momento da luta negra no Brasil e no mundo permite a superação do mito da democracia racial, porém, a burguesia se reorganiza. Na luta política tudo é ação e reação. É possível identificar táticas diversas no campo burguês para lidar com a massificação das ideias de igualdade racial. O campo democrático-liberal da burguesia brasileira busca reduzir a questão racial a um tema de identidade e usar essa armadilha, junto da transformação do antirracismo em um produto para domesticá-lo. 

O antirracismo de marcado nunca vai conseguir libertar o negro. Por diversos fatores. Seja por trabalhar numa ótica individual de mérito, culpa e ascensão. Seja por não chegar na origem da hierarquia racial, ficando apenas na superfície. E seja também por no momento que comercializa a luta racial, trata do espirito do negro, suas ideias, sua vontade, sua libertação na lógica do mercado, ou seja, o desumaniza. 

Por outro lado, a parcela da burguesia que alimenta e foi ganha pela extrema direita, também tem a questão racial como um centro, e faz dois movimentos. O primeiro é tentar, por meio da força, recompor o mito da democracia racial, ideia exposta no “somos todos brasileiros” de Jair Bolsonaro. A segunda, é o confronto direto e crescimento de ideologias de supremacismo racial, que se materializa no número gritantes de casos de racismo, violência física, e grupos neonazistas no Brasil. 

As duas táticas desse grupo, por mais que pareçam contraditórias, são correspondentes. É a brancura buscando reafirmar-se como universal, e no momento que isso é impossibilitado pela força do protesto negro, a brancura assume sua identidade enquanto branquitude, e busca se afirmar por meio da eliminação do Outro que a faz surgir.

De fato aqueles dentre nós, da esquerda brasileira, que querem fazer avançar o protesto negro no país, devem ficar atento em como a burguesia reage e age a partir de nossas ações, buscando pensar as melhores formas de reagir as de nosso campo adversário. 

Vivemos um momento histórico, pela primeira vez a maior parte da população se considera negra, se existe uma maioria social que reconhece e está disposta a superar a desigualdade racial no país. É preciso que o conjunto do movimento negro se organiza para apresentar projeto para a população, para ganhar a maioria da sociedade, para fazer disputa de visão de mundo, e sobre os rumos do antirracismo que queremos. É preciso um movimento negro que se coloque para disputa do Poder.

Se Angela Davis falou que “não ser racista não basta, é preciso ser antirracista”. Em tempos de disputa sobre os rumos do antirracismo, precisamos apontar o que queremos. Acredito que não basta ser somente antirracista, é preciso construir um movimento negro para o Poder.

Em tempos de disputa sobre os rumos do antirracismo, precisamos apontar o que queremos. Acredito que não basta ser somente antirracista, é preciso construir um movimento negro para o Poder.

No mais, e voltando a falar sobre a partida de futebol e Vini Jr, não sei o que esperar do jogo. Mas sei que nesse, ou na próxima, Vini, que joga no maior clube de futebol do mundo, com a camisa mais lendária desse time, vai sofrer violência racial, nada vai ser feito além de hashtag e pessoas elogiando sua luta. 

Vini Jr e todos os atletas agredidos por conta de sua cor de pele precisam ser acolhidos. Cuidados. Terem sua saúde mental cuidada e principalmente, terem seus agressores responsabilizados e condenados. Não expostos ao máximo e extremo.

Sei que Vini Jr entrará para a história como um dos grandes nomes do esporte brasileiro, não somente pelo que faz e fará dentro de campo, mas também pelo que faz fora dele. Quebrar o silêncio do mundo do futebol para denunciar o racismo é doloroso. A vida não é um filme do Spike Lee, nem todos se tornam Muhammad Ali, os que aplaudem lágrimas não sabem o peso delas, os que glamourizam a luta e o punho erguido não erguem os destroços quando caem. 

Nós, por aqui, seguimos. Enfrentamos um leão a cada dia, e batalhamos o combate a violência racial e por uma sociedade mais igualitária. Precisamos para isso, retomar o antirracismo para o movimento negro e tira-lo da mão do Itaú e do mercado. Precisamos lutar para construir maioria social junto da maioria numérica. Precisamos nos manter vivos e fazer a coisa certa. Até a vitória.