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15 Dezembro, 2016
  • Primeiras conclusões sobre a tragédia de Aleppo

    EDITORIAL 15 DE DEZEMBRO | Aleppo tornou-se o centro das notícias no globo. As barbáries da guerra, os vídeos que apresentam uma cidade em destroços, o sangue de civis e o desespero dos que tentaram fugir. Queremos, a partir deste texto apresentar nossa opinião sobre a tragédia de Aleppo.

    O que é o regime de Assad?

    É um dos mais antigos governos ditatoriais da região, uma espécie de monarquia secular, pois o pai do atual ditador Bashar Al-Assad chegou ao poder em 1971 ficando até sua morte em 2000. Seu filho o sucedeu e governa até hoje.

    Como o conjunto dos regimes liderados pelo chamado nacionalismo árabe, após a derrota contra Israel em 1967, girou para uma colaboração cada vez maior com o imperialismo. As reformas neoliberais a partir dos anos 1990 aumentaram o grau de pobreza no país: às vésperas do levante de 2011, um terço da população se encontrava abaixo da linha de pobreza oficial, 15% desempregados, o que na juventude entre 15 a 24 anos chegava a 1/3 do total.

    Como o regime de Ben Ali na Tunísia, de Mubarak no Egito, o regime sírio era extremamente corrupto e dominado pelo clã ligado aos Assad (seu primo Rami Makhlouf é a pessoa mais rica do país e se considera que controle cerca de metade da economia(!). Esse é o caldo de cultivo que levou às mobilizações de 2011 na Síria e em quase toda a região. Uma particularidade do regime é que constituiu o núcleo das forças armadas composta pelas tropas de elite de forma estreitamente ligada ao clã dos Assad, que se baseia na minoria alauíta. Por isso, se manteve leal ao regime, ao passo que em regimes similares como os da Tunísia e do Egito rapidamente se livraram dos ditadores para manter o regime.

    Um regime cada vez mais pró-imperialista

    Ao contrário do mito, as relações de Assad com o imperialismo eram cada vez melhores, ao ponto de ter sido recebido com honras oficiais por Sarkosy no Palácio Champs Elisees para o desfile de 14 de julho de 2007. O regime sírio apoiou ambas as guerras do Iraque e colaborou estreitamente com o programa de tortura de prisioneiros elaborado pela CIA a partir da invasão do Iraque

    O regime sírio não é pró-palestino

    Em primeiro lugar, após a guerra de 1973, a fronteira com Israel é a mais segura para o regime sionista. Os palestinos exilados na Síria são estreitamente controlados. Durante a guerra civil no Líbano, que enfrentou em um primeiro round a esquerda e os palestinos lá refugiados contra a direita maronita, as tropas sírias entraram para impedir a vitória da esquerda e perpetraram um terrível massacre no campo de Tal Al-Zaatar em 1976. Durante a guerra civil, o campo de Yarmouk, o maior deles, com 100 mil refugiados, foi bombardeado pela artilharia do exército e hoje está praticamente deserto.

    Qual é a posição do imperialismo americano?

    Após a invasão do Iraque, os planos de controle mais direto do Oriente Médio pelo imperialismo norte-americano sofreram um importante abalo, na medida em que os custos materiais e as perdas humanas estavam além do que estavam dispostos a sustentar. Ainda restava o trauma da derrota no Vietnã e porque não poderia controlar outras partes do planeta simultaneamente.

    No começo do levante no mundo árabe, o imperialismo inclusive defendeu os antigos regimes, em particular o de Mubarak, no país mais importante da região, o Egito. Com a queda, procuraram evitar o desastre ocorrido no Iraque, em que desmontaram todo o aparelho de estado construído por Sadam Hussein e o caos reinante dificultou sobremaneira dominar o país. Sua posição era de uma “transição ordenada” em todos os países, ou seja, uma aspiração que se chocava diretamente com as motivações das massas.

    No último período, a política americana passou a ser a procura algum tipo de compromisso com os russos para uma transição com ou sem Assad. A política anunciada por Trump é a de negociar com os russos um acordo mantendo Assad. Era a política a que tendia Obama e mais ainda a política abertamente enunciada por Trump. A declaração de Assad à TV russa difundida ontem, 14/12, é certeira: “se Trump puder lutar genuinamente contra o terrorismo, ele pode ser nosso aliado natural”. Mais claro, impossível. Não por acaso, também na Europa, começa-se a falar de Assad de forma mais respeitosa, como na entrevista recente que a RTP portuguesa fez com ele, aproveitando-se da oportunidade da eleição do Guterres como Secretário-Geral da ONU.

    Ao mesmo tempo, apoiou-se nas potências regionais, particularmente a Arábia Saudita, a Turquia e o Qatar. Israel, pelo rechaço que possui no mundo árabe, só foi chamado a atuar de forma indireta. Ao não poder invadir a Síria para controlar os movimentos populares, procuraram cooptá-los, utilizando a carta da divisão sectária entre os diversos ramos religiosos e/ou étnicos, em particular a oposição entre xiitas e sunitas. Para as monarquias do Golfo e para a Turquia, o levante nos países árabes era também um perigo mortal e usaram a cartada sectária para desviar o seu caráter democrático e social. Nesse ponto, tinham total acordo com o regime de Assad.

    Ao contrário das esperanças dos que começaram as imensas mobilizações de 2011 na Síria, o regime reagiu com uma repressão brutal das forças policiais, o que levou a que os comitês revolucionários locais se armassem para enfrentar a repressão. A aposta do regime foi ainda mais brutal e colocou as forças armadas e a aviação. As cenas que todos vimos das cidades destruídas em bombardeios aéreos mostram a brutalidade de um regime que não hesita em bombardear os seus cidadãos. A utilização de produtos tóxicos, as execuções sumárias, as vinganças terríveis sobre as áreas que resistiram levaram a que haja 11 milhões de refugiados (5 milhões fora do país) em uma população de 23 milhões. Como pode ser considerado um regime como este?

    A militarização do conflito facilitou a conquista da supremacia por parte dos grupos islâmicos. Desde as mais “moderados”, como a Irmandade Muçulmana, patrocinados pelo Qatar e Turquia, aos vários tipos de salafistas e jihadistas receberam grande apoio da Arábia Saudita. Quem tinha armas para distribuir conquistou mais espaço.

    Sobraram ainda grupos não fundamentalistas na resistência? É difícil afirmar com certeza, mas até março deste ano ainda ocorreram manifestações anti-governamentais coordenadas contra o regime e contra o sectarismo fundamentalista em 100 lugares na Síria, incluindo Damasco, Aleppo e outras grandes cidades.

    O Estado Islâmico faz parte da coalizão que luta contra o regime? 

    Em primeiro lugar, a posição do regime foi a de estimular diretamente o fortalecimento das alas mais extremistas. Para isso, em 2011, libertou centenas de presos jihadistas, inclusive alguns que lideraram as duras organizações mais radicais, o autodenominado Estado Islâmico (EI) e a Nusra, filial da Al Qaeda na Síria.

    O EI adotou a tática de não combater o regime e procurar conquistar áreas da oposição. E o regime em nenhum momento os atacou. Por isso, mantém uma pequena capital provincial, Raqah, há mais de dois anos sem serem incomodados pelas tropas e pela aviação do governo.

    Suponhamos que o regime seja anti-imperialista pelo menos parcialmente, isso justifica o bombardeio de áreas civis?

    A utilização desses métodos é inaceitável por qualquer regime. Os marxistas não são indiferentes aos problemas humanitários, apenas acham que o enfoque apenas humanitário não resolve os problemas mais centrais da sociedade. Mas na situação atual na Síria, ninguém pode se recusar a exigir saídas humanitárias. O fim imediato dos bombardeios, o suprimento de víveres e remédios, o fim das execuções sumárias e as vinganças que já começaram não são questões secundárias. Não é por outra razão que Trotsky, ainda jovem, dizia ao ver os horrores da Guerra dos Balcãs no início do século passado que os marxistas não são indiferentes aos massacres.

    Os acontecimentos de Aleppo terão uma enorme repercussão na região, significando uma imensa derrota para os levantes iniciados em 2011, talvez até marcando o final desse período. Mas a mensagem é que não se pode ser de esquerda de forma consequente e não se opor radicalmente a uma catástrofe infligida pelo governo à população. Também é uma demonstração sobre que tipo de sociedade e que métodos que a esquerda pretende apresentar para a sociedade. Massacres certamente não são aceitáveis, descredencia quem os apoia: suja de sangue inocente a mão de seus entusiastas.

    Foto: Omar Sanadiki / Reuters

  • Dez hipóteses de interpretação do fim do ciclo histórico do petismo

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Não deixes que as tuas lembranças pesem mais do que as tuas esperanças
    Sabedoria popular persa

    1. Pensar o futuro da esquerda depois do impeachment de Dilma Rousseff, e do deslocamento da influência do lulismo sobre a classe trabalhadora, exige perspectiva histórica. Um ciclo político de quase quatro décadas se encerrou com duas derrotas que, embora mais ou menos simultâneas, merecem ser analisadas em separado. Porque têm significado, proporções e sentidos quase inversos. A primeira foi a derrota política do núcleo dirigente do PT diante de suas bases sociais, confirmada nas recentes eleições municipais. A mais importante, porém, foi a inversão desfavorável da relação social de forças que permitiu a posse de Michel Temer e a muito ampla coalizão que oferece sustentação aos planos de austeridade liderados por Meirelles. Enganam-se, dramaticamente, tanto os que consideram que ambas foram regressivas, quanto os que vêm ambas como progressivas. Erros de avaliação estratégica têm consequências diferentes de erros táticos. A história deixou lições incontornáveis.

    2. Ao longo deste ciclo histórico ocorreram muitas oscilações nas relações de forças entre as classes, umas favoráveis, outras desfavoráveis para os trabalhadores e seus aliados. Eis um esboço de periodização: (a) tivemos um ascenso de lutas proletárias e estudantis, entre 1978/81, seguido por uma estabilização frágil, depois da derrota da greve do ABC de 1981, até 1984, quando uma nova onda contagiou a nação com a campanha pelas Diretas já, e selou o fim negociado da ditadura militar; (b) uma nova estabilização entre 1985/86 com a posse de Tancredo/Sarney e o Plano Cruzado, e um novo auge de mobilizações populares contra a superinflação que culminou com a campanha eleitoral que levou Lula ao segundo turno de 1989; (c) uma nova estabilização breve, com as expectativas geradas pelo Plano Collor, e uma nova onda a partir de maio de 1992, potencializada pelo desemprego e, agora, da hiperinflação que culminou com a campanha pelo Fora Collor; (d) uma estabilização muito mais duradoura com a posse de Itamar e o Plano Real, uma inflexão desfavorável para uma situação defensiva a partir da derrota da greve dos petroleiros em 1995; (e) lutas de resistência entre 1995/99, e uma retomada da capacidade de mobilização que agigantou-se, em agosto daquele ano, com a manifestação dos cem mil pelo Fora FHC, interrompida pela expectativa da direção do PT e da CUT de que uma vitória no horizonte eleitoral de 2002 exigiria uma política de alianças, que não seria possível em um contexto de radicalização social; (f) estabilização social ao longo dos dez anos de governos de colaboração de classes entre 2003 e junho de 2013, quando uma explosão de protesto popular acéfala levou milhões às ruas, um processo interrompido ainda no primeiro semestre de 2014; (g) finalmente, uma inversão muito desfavorável com as mobilizações reacionárias gigantes da classe média insufladas pelas denúncias da LavaJato, entre março de 2015 e março de 2016, quando alguns milhões ofereceram a sustentação para o golpe jurídico-parlamentar que derrubou Dilma Rousseff, encerrando o ciclo histórico.

    3. Este ciclo foi a última fase da tardia, porém, acelerada transformação do Brasil agrário em uma sociedade urbana; a transição da ditadura militar para um regime democrático-eleitoral; e a história da gênese, ascensão, apogeu e declínio da influência do petismo, depois transfigurado em lulismo, sobre os trabalhadores; ao longo destes três processos a classe dominante conseguiu, aos “trancos e barrancos”, evitar a abertura de uma situação revolucionária no Brasil como aquelas que a Argentina, Venezuela e Bolívia conheceram, embora, mais de uma vez, tivessem se aberto situações pré-revolucionárias que foram, habilmente, bloqueadas e contornadas, recuperando-se a governabilidade.

    4. A eleição em 2002 de um presidente com origem social na classe trabalhadora em um país capitalista semiperiférico, como o Brasil, foi um acontecimento atípico. Mas não foi uma surpresa. O PT já não preocupava a classe dominante, como em 1989. Um balanço destes treze anos parece irrefutável: o capitalismo brasileiro não esteve nunca ameaçado pelos governos do PT. Os governos do PT foram governos de colaboração de classes. Favoreceu algumas poucas reformas progressivas, como a redução do desemprego, o aumento do salário mínimo, o Bolsa-Família, e a expansão das Universidades e Institutos Federais. Mas beneficiaram, sobretudo, os mais ricos, mantendo até 2011 o tripé macroeconômico liberal intacto: a garantia do superávit primário acima de 3% do PIB, o câmbio flutuante em torno dos R$2,00 por dólar e a meta de controle da inflação abaixo de 6,5% ao ano. Não deveria surpreender o silêncio da oposição burguesa, e o apoio público indisfarçável de banqueiros, industriais, latifundiários e dos investidores estrangeiros, enquanto a situação externa foi favorável. Quando chegou, em 2011/12, o impacto da crise internacional aberta em 2008, o apoio incondicional da classe dominante fracionou-se.

    5. Por isso, embora o Brasil seja menos pobre e ignorante que há dez anos, não é menos injusto. O balanço histórico é devastador: a direção lulista se deixou transformar em presa da operação LavaJato, desmoralizou-se diante da classe trabalhadora e da juventude, e entregou as classes médias enfurecidas nas mãos do poder da Avenida Paulista, abrindo o caminho para um governo Temer ultrarreacionário. Não foi para isso que uma geração lutou tanto. Lula conquistou, entre 1978 e 1989, a confiança da imensa maioria da vanguarda operária e popular. A proeminência de Lula foi uma expressão da grandeza social do proletariado brasileiro e, paradoxalmente, de sua simplicidade ou inocência política. Lula conquistou, entre 1978 e 1989, a confiança da imensa maioria da vanguarda operária e popular pelo seu papel corajoso à frente das greves. Uma classe trabalhadora jovem e com pouca instrução, recém-deslocada dos confins miseráveis das regiões mais pobres, sem experiência de luta sindical anterior, sem tradição de organização política independente, porém, concentrada em dez grandes regiões metropolitanas e, nos setores mais organizados, com uma indomável disposição de luta. As ilusões reformistas de que seria possível mudar a sociedade sem um conflito de grandes proporções, sem uma ruptura com a classe dominante, eram majoritárias e a estratégia do “Lula lá” embalou as expectativas de uma geração.

    6. A classe trabalhadora não foi capaz de manter o controle sobre as suas organizações e os seus líderes, depois da inversão da correlação de forças entre as classes, em 1995, quando da vitória eleitoral de FHC, embalado pelo Plano Real, e a terrível derrota da greve dos petroleiros. Sem vigilância, o aparato burocrático dos sindicatos agigantou-se, monstruosamente, e o aparelho do PT se adaptou, eleitoralmente, ao regime, e ficou irreconhecível. O PT já tinha demonstrado nas prefeituras, governos estaduais e no Congresso Nacional que era uma oposição ao governo de plantão, mas não era inimigo do regime democrático-liberal de tipo presidencialista que vingou depois de 1985. Não era sequer inimigo irreconciliável do estatuto da reeleição, uma deformação antirrepublicana e, especialmente, reacionária. A burguesia já admitia, desde 1994, que o PT pudesse ser um partido de alternância disponível para exercer o governo em um momento de crise econômica e social mais séria. Lula e Zé Dirceu assumiram, publicamente, mais de uma vez, compromissos com a governabilidade das instituições, exercendo pressões controladoras sobre os movimentos sociais sob sua influência. Lula não foi um improviso como Kirchner. Lula não foi uma surpresa como Evo Morales. Lula não foi considerado um inimigo como Hugo Chávez.

    7. É preciso distinguir o que foram os governos do PT, das percepções e ilusões que ainda beneficiam Lula nas pesquisas de opinião para 2018. O crescimento econômico entre 2004 e 2008, interrompido em 2009, porém, recuperado com exuberância em 2010, foi inferior à média do crescimento dos países vizinhos, mas a inflação foi, também, menor. Desde 2011, com Dilma, o Brasil entrou em fase de estagnação econômica e reprimarização produtiva. As medidas contracíclicas foram em vão. Tentou-se um pouco de tudo: (a) a redução da taxa Selic e os financiamentos do BNDES às obras das grandes empreiteiras à frente do PAC (hidroelétricas na Amazônia, as novas refinarias Abreu e Lima e Comperj, as sondas para a exploração do pré-sal); as isenções fiscais; as privatizações generosas de aeroportos; novas e ambiciosas parcerias público-privadas, como os estádios e aeroportos; favorecimento e garantias redobradas aos investimentos estrangeiros; além de sinalização de novas reformas trabalhistas e previdenciárias. A burguesia foi se deslocando, aos poucos, com hesitações, para a oposição.

    8. Eis a chave de explicação do sucesso popular dos governos do PT, até que em 2015 Dilma assumiu o programa do PSDB, e rompeu com a base social do lulismo: reduziu o desemprego a taxas menores que a metade daquelas que o país conheceu ao longo dos anos 90; permitiu a recuperação do salário médio que atingiu em 2011 o valor de 1990; aumentou a mobilidade social, tanto a distribuição pessoal quanto a distribuição funcional da renda, ainda que retornando, somente, aos patamares de 1990, que eram, escandalosamente, injustos; garantiu uma elevação real do salário mínimo acima da inflação; e permitiu a ampliação dos benefícios do Bolsa-Família. Foi um governo quase sem reformas progressivas e muitas reformas reacionárias, porém, com uma governabilidade maior que seus antecessores. Mas estes dez anos não passaram em vão. Uma reorganização sindical e política pela esquerda do governo, e das velhas organizações, como a CUT e o PT começou, ainda que o processo de experiência tenha sido lento. O fortalecimento inequívoco do PSOL nas eleições de 2016 sinaliza o que ainda pode estar por vir, mas ainda está em disputa.

    9. Algo fundamental mudou em 2016 e subverteu a relação social de forças. As manifestações na Paulista a partir março de 2015 deram visibilidade a núcleos quase subterrâneos, e muito divididos entre si, de uma direita errática, e lograram colocar em movimento, na escala de milhões, setores médios e até, minoritariamente, populares (articulados, predominantemente, a partir de Igrejas evangélicas), e levaram a direita institucional a reboque. Abriu-se no Brasil uma situação defensiva do ponto de vista dos interesses dos trabalhadores. O julgamento de Lula será tão político como o de Dilma. Qualquer ilusão na neutralidade da LavaJato será fatal. Portanto, o presumível é que ele vai ser condenado, e não poderá concorrer em 2018. É improvável que seja possível incendiar a classe trabalhadora para ir às ruas contra a condenação de Lula, se não foi possível mobilizá-la para tentar impedir o impeachment. No entanto, ninguém na esquerda deveria permanecer neutro diante da manobra política jurídica que tenta impedir Lula de poder ser candidato. Esta operação é uma continuação da ofensiva que começou em março de 2015, e culminou com o impeachment. Só poderemos criticar o PT diante dos trabalhadores, fazendo o balanço dos seus treze anos no governo, se tivermos a grandeza de defender Lula contra o ataque de nossos inimigos de classe.

    10. A esquerda sindical combativa, os partidos da esquerda socialista, enfim, todas as organizações revolucionárias, ainda que, lamentavelmente, fragmentados, porém, com um espaço importante de diálogo com a juventude e setores mais organizados dos trabalhadores, não deverão apoiar uma candidatura do PT em 2018, seja quem for o candidato. É possível construir desde já uma alternativa nas lutas e nas eleições. É possível superar a etapa das divisões, e abrir uma etapa de reorganização com unificações e blocos. Ficou provado no Rio de Janeiro com a espetacular mobilização de uma nova militância alcançada em torno de Marcelo Freixo. Dizia-se que, com a crise do petismo, seria tão grande a desmoralização que teríamos que esperar o espaço de uma geração, vinte cinco ou até trinta anos, para que uma alternativa ao lulismo pela esquerda pudesse alcançar influência entre os trabalhadores.Esse foi o argumento mais repetido contra a esquerda anticapitalista. Resumia-se a uma lamentação: não adiantava ter razão nas críticas aos governos do PT, mas não conseguir sair da condição de minoria. A resposta a ela não é difícil: sim, é possível, mas há ainda uma grande pré-condição. Só poderá acontecer quando se levantar uma onda de luta no movimento dos trabalhadores e da juventude. Propostas anticapitalistas não ganham influência de massas a não ser em situações revolucionárias, ou pelo menos transitórias. Entretanto, uma avalanche já começou. A ruptura com o petismo não é algo para um futuro incerto. São muitos milhões que já romperam. É toda uma enorme parcela da geração mais jovem da classe trabalhadora que já perdeu esperança no lulismo. O que há de velho, de apodrecido, de corrompido no movimento dos trabalhadores e da juventude precisa ser deslocado, para abrir o caminho. Acontece que o ritmo dos dois processos não é o mesmo: a ruína da influência do petismo tem sido mais rápida que a construção de novos instrumentos de luta. A questão é saber se aqueles que rompem com o lulismo encontrarão ou não, exterior ao PT, e em oposição irreconciliável ao governo Temer, um polo de esquerda unido e, suficientemente, forte que possa ser um ponto de apoio para a defesa dos seus interesses.

  • Raio-X da Odebrecht

    Por: Stephano Azzi, de São Paulo, SP

    Fundada por Norberto Odebrecht, em 1944, a Odebrecht é uma empresa de capital fechado e familiar, a 5ª maior empresa privada do Brasil e a 12ª maior construtora do mundo (Engineering-News Record). Sua história faz parte da história do Estado brasileiro nos últimos 60 anos, tendo como destaques a sua consolidação como grande empresa durante a ditadura civil-militar e o seu avanço de internacionalização durante os governos do PT (ZIBECH, Raúl).

    Nos dois casos, a empresa trabalhou em parceira com os governos obtendo vantagens competitivas como a conquista de licitações para a realização de obras públicas e vultuosos empréstimos do Estado através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Neste artigo, vamos tratar do desenvolvimento da empresa a partir do período de democratização do Estado brasileiro em meados da década de 1980.

    Evolução da Odebrecht da década de 1980 aos anos 2000
    Em 1985, a Odebrecht já era uma construtora consolidada no mercado imobiliário brasileiro e internacional. Neste ano, 30% de seus contratos em carteira representam suas obras fora do Brasil e em 1991 torna-se a primeira empresa a realizar uma obra pública nos EUA.

    Em 1994, a Odebrecht estava presente em 21 países e tinha um quadro de 31 mil funcionários. No contexto das privatizações dos governos FHC, a construtora fez algumas aquisições de empresas públicas e privadas, optando por tomar como um de seus rumos prioritários o setor petroquímico.

    Em 1995, adquiriu a PPH e a Poliolefinas no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (PND) aprovado em 1993. Em 1996, adquire o controle acionário da CPC e da Salgema, fundando em seguida a Trikem.

    Em 2001, torna-se o maior grupo petroquímico da América do Sul, a maior construtora de hidrelétricas e aquedutos do mundo, a maior construtora da América Latina e uma das 30 maiores exportadoras de serviços do mundo. Em 2002, funda a Braskem e expande suas atividades para o Oriente Médio.

    Apesar da manutenção e expansão de suas atividades, a Odebrecht inicia os anos 2000 com leve aumento no quadro de funcionários e com sua participação reduzida no cenário econômico internacional em comparação às duas décadas antecedentes. Em 2004, a Odebrecht chega a  40 mil funcionários atuando em 16 países.

    Os mandatos do PT representam uma mudança significativa no porte e no perfil da empresa. A partir de grandes empréstimos do BNDES, seguidas vitórias em licitações públicas e ampla captação de recursos no mercado financeiro, a Odebrecht traça uma estratégia muito mais agressiva de diversificação produtiva e internacionalização.

    Em 2006, cria a Odebrecht Óleo e Gás, em 2007 cria a Odebrecht Agroindustrial e em 2010 cria a Odebrecht Transport. Neste ano, torna-se a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas. Em 2011, adquire quatro plantas industriais da Dow Chemical, uma das maiores indústrias químicas do mundo, sendo duas plantas nos Estados Unidos e duas na Alemanha.

    Em 2012, cria a Odebrecht Properties para operar ativos imobiliários e a Odebrecht Latinvest para operação logística e de infraestrutura na América Latina. 2013 é o ano de fortes investimentos nas concessões obtidas de dois estádios para a Copa do Mundo de 2014 e na reforma do Maracanã.

    Em 2014, a construtora chega a um nível de diversificação e internacionalização muito distinto do início da década anterior. A Odebrecht está presente em 12 negócios, 3 fundos de investimento, 3 empresas auxiliares e 1 Fundação. Em 2016, a empresa tem programada a construção do maior complexo petroquímico do México, considerado o maior investimento industrial brasileiro da história no exterior.

    Até dezembro de 2015, a empresa estava presente em 25 países e contabilizava 178 mil funcionários (200 mil segundo a Revista Isto É), o que a tornava a empresa brasileira com mais empregos diretos no Brasil e no exterior. Seu crescimento anual de receita bruta nos últimos 15 anos, antes da prisão de Marcelo Odebrecht, era em média de 20%.

    Em 2003, a receita da empresa foi de 17,3 bilhões de reais, saltando para 132 bilhões em 2015. Para se ter uma noção do que era a receita bruta da Odebrecht recentemente, basta compará-la com o PIB nacional. Em 2014, a receita bruta (interna e externa) da empresa foi de R$ 117 bilhões e o PIB foi de R$ 5,5 trilhões, ou seja, a receita do ano citado foi equivalente a 2,1% de tudo que foi produzido no território brasileiro.

    Além da diversificação e do aumento do porte, destaca-se o vertiginoso crescimento de seus investimentos realizados no exterior e do que isso passa a representar para seu faturamento. Em 2015, a carteira da Odebrecht Construção Civil (OEC) contava com 79% de contratos internacionais e apenas 21% de contratos brasileiros.

    Em 2015, o grupo Odebrecht faturou R$ 125 bilhões, sendo que 75% desse dinheiro era oriundo de receitas internacionais. A Fundação Dom Cabral elegeu a Odebrecht como a mais internacional das empresas brasileiras.

    Composição do capital da Odebrecht
    A Odebrecht é uma empresa familiar de capital fechado. Em 2010, em plena expansão da crise mundial, o ranking IMD considerou a Odebrecht como a melhor empresa familiar do mundo.

    A composição do capital de uma empresa deste porte é extremamente complexa e difícil de ser estudada. Um número interessante é a divisão percentual de seu endividamento líquido de R$ 63,3 bilhões junto aos credores. 39% dessa dívida é de recursos captados no mercado financeiro, 23% de organismos multilaterais e bancos de desenvolvimento (15% do BNDES), 25% de bancos comerciais brasileiros e 13% de bancos comerciais internacionais.

    Um estudo mais aprofundado deveria contabilizar a composição do capital dos 12 negócios do grupo. Mas, para termos uma ideia do quanto o grupo tem de participação nas empresas que controla, optamos por levantar dados de duas de suas principais empresas, a Braskem e a Odebrecht Transport. Segundo o jornal Valor Econômico, em referência à Braskem, “do capital total, a Odebrecht tem 38%, a estatal [Petrobrás] possui 36% e os [sócios] minoritários, 25%”. A Odebrecht Transport, por exemplo, tem 30% de sua ações atreladas a fundos de investimentos do FGTS (FI-FGTS).

    Observando esses números podemos afirmar que o capital nacional de origem estatal é parte significativa da composição de pelo menos duas empresas fortes do grupo, com destaque para o BNDES, fundos públicos de investimento e investimento direto de estatais como a Petrobrás. Segundo Caio Bugiato, em sua tese de doutorado sobre a relação do BNDES com a burguesia nacional, defendida em 2016, o BNDES cumpriu um papel central no crescimento da Odebrecht durante os dois mandatos de Lula.

    Operação Lava Jato e nova estratégia empresarial
    Marcelo Odebrecht acaba de assinar o maior acordo de leniência da história do capitalismo moderno, no valor de mais de R$ 6 bilhões. Metade desse acordo penalizará a Braskem e, mesmo assim, não chegará à metade da restituição do prejuízo causado à Petrobrás. Isso representa a entrega direta a organismos nacionais e internacionais, mediante a ameaça de destruição total de seu patrimônio, de mais de 25% do caixa consolidado do grupo em 2014, ou seja,  R$ 25 billhões.

    A estratégia traçada pela empresa no período mais turbulento de sua história é encolher para sobreviver. Além do acordo citado, a empresa demitiu 50 mil funcionários em 2016, reduzindo seu quadro para 128 mil pessoas, vendeu uma hidrelétrica e uma rodovia no Peru, além de um bloco petrolífero em Angola, numa estratégia denominada “alienação de ativos”.

    Em comunicado oficial, a empresa diz: A Odebrecht S.A segue evoluindo em seu plano de alienação de ativos, reestruturação de dívidas e fortalecimento da estrutura de capital de alguns de seus Negócios. O objetivo é garantir liquidez financeira diante da prolongada crise econômica brasileira e da instabilidade de alguns setores onde atua, como o sucroalcooleiro e óleo e gás. Uma das ações deste plano é a venda, até meados de 2017, de ativos avaliados em aproximadamente R$12 bilhões”. *

    É curioso notar que desde o início da crise imobiliária norte-americana, a Odebrecht manteve patamares de crescimento constantes até a prisão de seu principal acionista. As avaliações sobre a prisão de Marcelo e a fase de instabilidade da empresa são semelhantes no seio empresarial. Segundo Sérgio Lazzarini, do Insper, a Operação Lava Jato põe em xeque o modelo que permitiu a ascensão da Odebrecht e de outros grupos nacionais. Oliver Stenkel, da Fundação Getúlio Vargas, afirma que a Operação Lava Jato é a reavaliação da “política dos campeões nacionais”, caracterizada pelo favorecimento explícito dos governos petistas junto a determinadas empresas brasileiras.

    Fontes e Referências bibliográficas:

    Grupo Odebrecht

    Fundação Dom Cabral

    BNDES

    Revista Engineering-News Record

    Jornal Valor Econômico

    ZIBECH, Raúl; Brasil Potencia. Entre la integración regional y un nuevo imperialismo

    MARTINS, Caio Bugiato; A política de financiamento do BNDES e a burguesia brasileira

    Foto: Odebrecht

  • Em defesa das utopias: nada deve parecer impossível de mudar

    Por: Gabriel Santos, de Marechal Deodoro, AL

    Faltam algumas semanas para 2016 chegar ao fim. Esse ano vai embora sem deixar saudades. Existem dias que valem por semanas, assim como existem anos que parecem décadas, e 2016 foi um desses anos. Teve de tudo um pouco, até o Grêmio campeão. Realmente, que ano do cão foi esse?

    No maior país da América do Sul, um presidente eleito democraticamente sofre um Golpe. O governo golpista já mostrou que veio para atacar os direitos dos trabalhadores e fazer com que estes paguem pela crise econômica. Na linha de frente contra os golpistas, milhares de jovens, que vão às ruas e ocupam seus locais de estudo. Existe resistência.

    Do outro lado do mundo, um povo segue com as armas em punho, lutando por liberdade contra uma feroz ditadura. Porém, essa não é a única inimiga. Lutam também contra o imperialismo, que segue bombardeando seu país. E contra um grupo religioso paramilitar, que utiliza métodos fascistas e segue avançando sobre os territórios e conquistando poços de petróleo.

    Falando em fascismo, esse ganha força em vários países do Velho Continente. O discurso xenófobo e conservador tem possibilidades eleitorais na França e já conquistou resultados importantes na Alemanha, Áustria e Hungria.
    No coração do Império, uma figura que lembra um palhaço assassino dos filmes de terror vai comandar o país mais poderoso do mundo, anunciando que pretende construir uma fronteira com o México.

    É, 2016 não foi fácil, mas óbvio, não é fim de tudo. Afinal, 2017 está logo ali. É preciso afirmar que nós estamos em desvantagem. Aqueles que lutam por um mundo mais justo e igualitário estão, até agora, perdendo esse jogo. Vamos ter que correr atrás do placar. Ainda temos tempo para virar a partida.

    Em 2016, também teve coisas animadoras. A já citada luta dos estudantes brasileiros; o levante feminista contra a cultura do estupro em diversos países da América Latina, expressado nas palavras “Ni Uma a Menos”; as manifestações de trabalhadores dos mais diversos povos europeus em solidariedade aos imigrantes, expressados nas palavras “Nenhum ser humano é ilegal”. O ano de 2016 mostrou que não é fim, que a luta de classe segue seu fluxo.

    Após o processo de reestruturação produtiva, o avanço da ideologia neoliberal e o fim dos Estados Operários Deformados, no Leste Europeu, um economista nipo-estadunidense, Francis Fukuyama, afirmou que havíamos chegado no Final da História. Que o capitalismo venceu e agora era tempo do consenso do modelo liberal-democrático. O ano de 2016 mostrou que não existe nada mais falso que a afirmação deste japonês-norte-americano metido. A realidade é bem diferente de um final da história.

    A farsa liberal que vendeu ao mundo o modelo liberal-democrático veio abaixo. Palavras como “revolta”, “revolução”, “rebelião popular”, “insurgência” estão de volta e cada vez mais presentes no linguajar das novas mobilizações sociais. A farsa do fim das utopias foi desmascarada e elas estão voltando com tudo. A campanha de Marcelo Freixo e do PSOL para a Prefeitura do Rio de Janeiro, com o slogan “Sonhos Podem Governar”, foi um exemplo disso.

    O sistema capitalista mostra toda sua irracionalidade. As promessas de paz e estabilidade não podem ser cumpridas no atual modelo de reprodução social. Como falar de liberdade quando vemos uma feroz ditadura reprimindo o povo Sírio? Quando vemos a luta dos palestinos pela autodeterminação nacional, e contra o Estado assassino de Israel? Como falar de igualdade, quando vemos as condições a que os negros estão submetidos no Brasil e nos Estados Unidos? Onde somos assassinados pela polícia numa guerra nada silenciosa?

    A crise financeira de 2008 ainda tem seus ventos soprando cada vez mais fortes. Os governos de todo o mundo socorrem as instituições financeiras responsáveis pela crise econômica. Isso, ao mesmo tempo em que realizam uma sangria e destroem o Serviço Púbico, realizando um festival de privatizações. Em todos os cantos, governos implementam um feroz Ajuste Fiscal que atacam os direitos trabalhistas, a Previdência Social. E tudo isto para garantir o pagamento da dívida pública para enriquecer os bancos.

    A crise econômica escancara que a casta política não está nem aí para o povo. Cada vez mais atoladas na corrupção, os políticos tradicionais implementam um regime de servidão. Os bancos são escolhidos ao invés das pessoas e a austeridade é escolhida como única resposta possível para estancar a crise.

    O governo vende a ideologia, facilmente comprada pela grande mídia, de que o único meio de sair da crise é fazer novos sacrifícios. Sacrifícios esses que somente o povo pobre deve fazer. Tudo aquilo que é público vem sendo privatizado. As políticas públicas e sociais vêm sendo destruídas. Aqui no Brasil, a PEC 55 é a prova disso tudo. Os trabalhadores cada vez mais vêm sendo condenados à fome e ao desemprego.

    Os ricos e poderosos, o 1% da população, causaram esta crise, e agora, querem que nós paguemos por ela. Para realizar isto, eles mudam governos e deixam claro que a democracia atual é cada vez mais vazia de conteúdo. Uma democracia para os ricos, e eles podem quebrá-la, sempre que quiseram. Para nós, resta o voto de quatro em quatro anos. Na verdade, a atual democracia é uma ditadura dos poderosos, eles mandam e desmandam, quando e como quiserem. É uma ditadura do setor financeiro. Para aqueles que se manifestam, restam as bombas e a repressão da polícia.

    É preciso dizer que esta democracia atual não nos serve, é preciso reinventá-la. A atual está controlada pela lógica do setor financeiro. Precisamos de uma democracia real. Uma democracia que responda às necessidades do povo trabalhador. Que realize uma reforma agrária e urbana. Que coloque a democratização da mídia. Que não pague a dívida pública. Que coloque o central em pauta, que é a questão de Poder.

    Afinal, quem tem o Poder? Não somos nós, o povo trabalhador. O poder político esta na mão daqueles que detêm o poder econômico. O Estado é usado para interesses privados, que vão contra a maioria da população. É possível um Estado que sirva ao interesse do povo pobre e trabalhador? Para que este Estado seja possível, e que tenhamos uma democracia real, é preciso reverter a lógica do Poder, tanto político, quanto econômico. Os trabalhadores precisam tomar a rédeas da produção, da economia e da política.

    Diante disso, é preciso dar nomes aos bois. A atual crise econômica é uma expressão da crise do capitalismo, que é a crise da humanidade. Este sistema e sua busca incansável pelo lucro, que fermenta o consumismo e transforma tudo em mercadoria, não serve mais. A fome, o desemprego, as guerras, a destruição de países inteiros, tudo isto é causado pelo capitalismo. Um sistema que coloca os interesses individuais acima dos bens, das necessidades, e dos serviços coletivos, não serve. Um sistema que cria impactos ambientais gigantescos, não serve. Um sistema onde 1% da população explora os outros 99%, não serve. Um sistema que mata, não serve. É preciso superar este sistema, justamente porque ele não serve mais para o desenvolvimento da humanidade.

    Para isso é preciso, antes de tudo, reinventar a utopia. Talvez, a maior de todas, uma sociedade socialista. Não falo aqui da caricatura de uma sociedade socialista, coisa que o stalinismo fez. Socialismo sem Liberdade não é o socialismo. A palavra socialismo, que soa tão bonito nas bocas dos sonhadores, precisa ser colocada em pauta novamente, saindo, assim, da esfera meramente acadêmica. Mas, não que o socialismo vai vir amanha. Um futuro socialista não está na próxima esquina. Mas sim, porque este futuro é, ou deveria ser, o projeto estratégico dos lutadores sociais. Como afirmou Rosa Luxemburgo, o futuro será ou socialismo, ou a barbárie.

    Se todos nossos problemas são oriundos deste sistema capitalista, por que não lutamos para derrubá-lo e trocá-lo por outro?

    Para os trabalhadores, para os jovens, para as negras e negros, para as mulheres, para as LGBTs, para as imigrantes, aquilo que o futuro dentro do capitalismo reserva não é nada animador. É mais e mais ajuste fiscal, mais e mais retiradas de direitos. Para estes, não resta alternativa que não seja seguir em luta contra os governos e restaurar as causas perdidas.

    É preciso criar um movimento anticapitalista, que rompa com as velhas conciliações de classe e unidade nacional, que no fim só serve aos ricos. A saída é pela esquerda. É possível que surja um movimento radical, antiliberal, enraizado nas ruas, praças, locais de trabalho e bairros populares, e que seja capaz de mudar as coisas. Olho sim ao futuro com otimismo, não um otimismo cego. Mas, com um otimismo daqueles que confiam na mudança e na força da mobilização popular. Pois, afinal, amar e mudar as coisas nos interessa mais.

    2017 está logo ali, a luta de classes não vai parar. Os 1% vão querer ficar cada vez mais ricos e jogar a crise econômica para os trabalhadores pagarem. Os governos vão ajudar os poderosos. E quanto a nós, vamos seguir nas ruas, em marcha, sem dar nenhum passo atrás, espero. Cada vez mais será preciso se organizar. Se nos atacam de forma coletiva, precisamos resistir e nos organizar de forma coletiva. Construir coletivos e partidos da esquerda radical.

    Como diria Belchior, esse ano eu morri, mas no próximo não morro. É preciso arrancar alegria ao futuro. De um futuro que seja de luta, revolucionário e socialista.

  • Contra a perseguição política ao deputado Jean Wyllys

    Reproduzimos, abaixo, na íntegra, a nota oficial do MAIS sobre a perseguição ao deputado Jean Wyllys:

    O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados instaurou um processo político e de natureza LGBTfóbica contra o único deputado federal assumidamente LGBT, Jean Wyllys. A ação é baseada no fato ocorrido durante a votação do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, em que Jean Wyllys recebeu vários xingamentos homofóbicos como ‘queima rosca’, ‘sai viado’ e ouviu Jair Bolsonaro dizer ‘tchau querida’ dirigido diretamente contra ele.

    Reagindo aos xingamentos, Jean Wyllys chamou seus agressores de ‘canalhas’. Quando Bolsonaro tentou puxá-lo pelo braço, Jean Wyllys cuspiu nele. No processo, foi também apresentado um vídeo comprovadamente fraudulento em que ele teria afirmado que pretendia cuspir no Bolsonaro.

    Ricardo Izar (PP-SP), membro de um partido que tem 32 nomes envolvidos na Lava Jato, relator do processo, requisitou uma suspensão de 120 dias ao deputado.

    A perseguição de Jair Bolsonaro ao Jean Wyllys é histórica. Há muito tempo que Bolsonaro sente-se à vontade para xingar e ridicularizar Jean Wyllys durante as sessões da Câmara, inclusive com cartazes e falas homofóbicas no microfone. Apesar disso, o deputado defensor da Ditadura Militar no Brasil não foi punido pelo mesmo Conselho de Ética, nem mesmo quando disse que não estupraria a deputada Maria do Rosário “porque ela não merece” (sic). Em entrevista ao jornal Zero Hora, ele disse que “Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria.” A conclusão lógica é: segundo Bolsonaro, se Maria do Rosário fosse ‘boa’ e ‘bonita’, então ela mereceria ser estuprada.

    Raramente o mesmo conselho tem tanta pressa em aplicar uma suspensão, ainda mais uma suspensão tão longa quanto essa. No escândalo de corrupção do Carlinhos Cachoeira, por exemplo, um único deputado foi suspenso por 90 dias. Desde então, nenhuma outra suspensão foi aplicada. Se Jean Wyllys deve receber uma suspensão por uma simples cuspida num momento de tensão contra o seu opressor, centenas de outros deputados também deveriam ser punidos, não só pelos vários escândalos de corrupção, como também pelos xingamentos homofóbicos. LGBTfobia é crime!

    Nós, do MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista), nos solidarizamos com o deputado e defendemos que o processo seja imediatamente retirado, por ser uma afronta aos direitos humanos, à comunidade LGBT e ao direito de legítima defesa dos setores oprimidos. Esse é mais um ataque de um governo que está retirando direito das pessoas trabalhadoras, negras, LGBTs e das mulheres, o governo que está cortando verbas dos serviços públicos mais essenciais como saúde, educação e previdência social, um ataque a todo o povo oprimido e explorado. Exigimos a imediata arquivação desse processo. Todo apoio ao deputado Jean Wyllys!

  • As ocupações estudantis e a resistência aos ataques do Governo Federal

    Publicado originalmente na revista Paideia*

    Desde que assumiu o governo através de um golpe parlamentar o presidente Michel Temer – apoiado por Rodrigo Maia (DEM) na Câmara dos Deputados, Renan Calheiros (PMDB) no Senado além dos grandes representantes do capital como, por exemplo, a Federação das Indústrias de São Paulo (FIEP), Rio de Janeiro (FIERJ), Agronegócio, Bancos e Meios de Comunicação – vem anunciando uma série de ataques aos trabalhadores e seus filhos.

    Para agradar o sistema financeiro e garantir o superávit primário o governo aprofunda o processo de recolonização brasileira que reserva ao nosso país a tarefa de mero exportador de produtos primários (commodities) e plataforma para as multinacionais exportarem para a América Latina, tendo seus lucros remetidos ao exterior.

    Os economistas da burguesia de plantão e charlatões em geral dizem que o Brasil quebrou e que é preciso tornar o país mais atrativo para os investimentos. Bradam aos quatro cantos que é necessário um “remédio amargo”; é preciso privatizar tudo, tornar as leis trabalhistas mais “flexíveis”, parar de gastar, tornar a mão de obra mais eficiente. O problema da crise é imediatamente jogado nas costas dos trabalhadores e da juventude. Dizem que os salários são muito altos, trabalhamos pouco e ainda nos aposentamos cedo demais. Isso tudo garante que os 0,9% dos mais ricos detenham até 68,49% da riqueza total do país.

    Para garantir a acumulação de riquezas em períodos de crise os representantes da burguesia se utilizam de todos os métodos possíveis. É importante ressaltar que o governo Dilma (PT) também desferiu uma série de ataques aos trabalhadores, mas a burguesia sempre quer mais. Foi para isso que Temer foi colocado como presidente.

    Logo no início de seu mandato anunciou uma série de privatizações. Colocou em prática a proposta de Dilma do Projeto de Lei Complementar 257. Foi além e lançou uma proposta de alteração da Constituição limitando por até 20 anos os investimentos públicos, a PEC 241; encomendou uma Reforma da Previdência aumentando a idade de aposentadoria e contribuição e encaminhou por Medida Provisória uma Reforma do Ensino Médio que ataca brutalmente a educação pública, os estudantes e os trabalhadores em educação. Essa Reforma foi a gota que faltava para o copo transbordar. E transbordou…

    O sentimento de indignação e a necessidade de lutar vieram à tona. Acabou a paciência! Os trabalhadores começam a discutir a necessidade de uma greve geral, porém, nem todas as direções estão dispostas a isso. As centrais batem cabeça. Os estudantes mostram o caminho. Mais uma vez o Paraná se torna o epicentro das lutas. No dia 03 de outubro o Colégio Estadual Padre Arnaldo Jansen em São José dos Pinhais é ocupado. Após essa ocupação uma série sacode o Paraná chegando a seu ápice com aproximadamente 900 escolas ocupadas.

    Essa atitude dos estudantes torna-se exemplo para outros estados que começam a ocupar ampliando a pauta para a luta contra todos os ataques e envolvendo não só os secundaristas, mas também os universitários ocupando universidades e institutos. No dia 17 de outubro a educação básica do Paraná entra em greve fortalecendo a luta contra os ataques.

    Os estudantes secundaristas do Paraná demonstraram muita capacidade de organização. As oficinas e os debates organizados diariamente nas ocupas trouxeram o domínio e a amplitude dos ataques organizados pelo governo, além de ampliar a forma de ver o mundo e de se inserir nele como seres transformadores demonstrando qual deve ser realmente a reforma da educação. E os debates não ficaram somente na educação, se estendem a que tipo de sociedade os filhos dos trabalhadores e seus pais precisam.

    Os debates tomavam corpo a cada dia, as manifestações de rua também, a logística de garantia de mantimentos funcionou muito bem, a solidariedade entre os estudantes das diversas escolas e também entre os trabalhadores mostrou que é possível a unidade entre o movimento dos trabalhadores e o movimento estudantil. É possível e necessário unificar as lutas. As várias noites e madrugadas lutando contra a raivosa direita que não se conformava com a luta contra seus planos e tentava desocupar as escolas a todo custo mostrou que temos que debater seriamente a questão de segurança em nossos movimentos. Eles também não estão para brincadeira.

    Os estudantes fizeram sua parte e fizeram muito bem. Deram um grande exemplo ao Brasil e ao mundo. Demonstraram que também aprenderam muito com o 29 de abril e que estão dispostos a resistir sem titubear um só segundo. Organizaram coletivos, cordões, reuniões estudantis reapareceram e a luta está sendo pautada com entusiasmo. Ocuparam Câmaras de Vereadores, Prefeituras, Núcleos de Educação. O governo Temer sentiu a força desse movimento. Mas só os estudantes não bastam.

    A categoria dos trabalhadores em educação não unificou a luta. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) não chamou a greve geral ,o que naquele momento seria mais uma arma para golpear o governo e, ao mesmo tempo, fortalecer as ocupações. As centrais sindicais foram incapazes de acordar uma data em comum. Por fim, no dia 31 de outubro a greve dos educadores é encerrada jogando um balde de água fria nas ocupações e na tentativa de uma unidade na luta. Os dias nacionais de greves, paralisações e mobilizações foram fracos e mostraram novamente que nem todos estão dispostos a construir.

    O PLP 257 é negociado com os governadores e é aprovado. A PEC 241 é aprovada com folga em primeiro e segundo turno na Câmara dos Deputados, vai ao senado com o nome de PEC 55 e também é aprovada com facilidade. A voracidade da burguesia é tanta que o governo manda reprimir brutalmente mais de 30 mil estudantes e trabalhadores que se manifestavam em frente ao Senado. Bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, balas de borracha, cassetetes, cavalaria e helicópteros provam que não é somente Beto Richa (PSDB) que assume o risco de matar para garantir seus ataques. Essa é a lógica do capital.

    Assim como os lutadores do 29 de abril, os manifestantes do 29 de novembro lutaram bravamente com todas as suas forças e enfrentaram de cabeça erguida a brutalidade do Estado. Agora não eram somente paranaenses. Lutadores de norte a sul do país estiveram lado a lado para defender seus direitos. E saíram do campo de batalha com uma única certeza. Só a luta muda a vida!

    Parabéns aos estudantes! Parabéns aos trabalhadores que entenderam a necessidade da luta unificada! Precisamos avançar muito mais e o faremos, pois como diz uma música de uma banda que gosto muito: O futuro nos pertence!

     

    *Por Rodrigo Tomazini, Curitiba, Paraná

    Para o Site e Blog de Filosofia e Sociologia do Colégio Estadual do Paraná

    Endereço da revista Paideia: http://projetopaideia.wixsite.com/projetopaideia/revista-paideia

    Endereço do artigo de opinião: http://media.wix.com/ugd/e84b17_c795a498288240eeb434731dca90c080.pdf

    Foto: Escola ocupada em Curitiba no mês de outubro, retirada em https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Escola_ocupada_em_Curitiba.jpg

  • França: Emmanuel Macron  e sua revolução (neoliberal) em marcha

    Por Renato Fernandes, Campinas, SP

    No último sábado, 10/12, o ex-ministro da Economia do governo do Partido Socialista (PS), Emmanuel Macron fez um ato político com seu movimento En Marche que reuniu entre 12 e 15 mil pessoas em Porte de Versailles, próximo a Paris. Foi uma demonstração de força, já que uma semana antes, a frente eleitoral que sustenta o governo Hollande, a Belle Alliance Populaire, tinha realizado um ato no mesmo local com apenas 2500 pessoas.

    Com o ato, Macron se consolida como um dos principais candidatos na disputa presidencial francesa com uma grande diferença: En Marche é um movimento recente, fundado há 8 meses, logo após a demissão de Macron do Ministério. Até o momento, o movimento En Marche conta com 119 mil aderentes, 2600 comitês locais de campanha e mais de 11 mil doações. Sua campanha está empolgando um setor da juventude francesa – um dos setores mais afetados pela crise econômica.

    En Marche é um movimento por fora dos principais partidos políticos como o PS, Les Républicans (LR – direita tradicional) e a extrema direita de Front National (FN). Em determinado sentido, apesar de já ter sido ministro, Macron combina características tão gerais que possibilitaram outros políticos alcançarem o poder, como o de ser reconhecido mais como um “gestor” do que um “político” e sua campanha também faz uma ampla utilização das redes sociais, um grande trunfo frente aos partidos mais tradicionais.

    Numa última sondagem, no dia 7/12, Macron apareceu nas pesquisas presidenciais em terceiro lugar, empatado tecnicamente com Jean-Luc Mélenchon (Parti de Gauche) e o provável candidato do PS, Manuel Valls. A variação de votos para Macron é entre 14% e 19%. Ele fica atrás dos dois principais candidatos, François Fillon (LR) e Marine Le Pen (FN). Mas, numa eleição na qual o bipartidarismo tende a sumir já que o PS deve despencar nas eleições, será que Macron conseguirá emplacar como uma alternativa?

    Quem é Emmanuel Macron?

    Macron foi por muitos anos funcionário público, mas fez fortuna enquanto banqueiro. Trabalhou na Rothschild & Cie, um grande banco francês especialista em fusões e aquisição de empresas, financiamento para reestruturação de dívidas empresariais e para mercado de capitais. Em 2012, por exemplo, foi o principal banco francês no ramo de fusão e aquisições de empresas (realizou 62 ao total). No Banco Rothschild, Macron foi o “conselheiro”, em 2012, da Nestlé na compra de uma filial da Pfizer, numa negociação de mais de 9 bilhões €. Isso permitiu Macron tornar-se milionário com o rendimento recebido da negociação.

    Em 2014, como forma de se aproximar do principal sindicato patronal, Mouvement des Entreprises de France (MEDEF), o governo do primeiro-ministro Manuel Valls (candidato das primárias presidenciais do PS), nomeou Macron para o Ministério da Economia. Sua principal medida foi a Loi Macron: um conjunto de medidas liberais para “aumentar a produtividade” do país. Entre elas, a privatização de alguns serviços como de transporte entre cidades por carros ou táxis, privatização de aeroportos, privatização do serviço de cartórios; a facilitação de demissões coletivas por razões econômicas e também a ampliação dos domingos trabalhados no ano (de 5 para 12), entre outras medidas. Sua passagem no ministério foi um conjunto de ataques neoliberais e também de “uberização” dos serviços e direitos, transformando tudo em mercadorias.

    Uma revolução em marcha?

     Em seu livro-campanha, uma coisa comum na França para os presidenciáveis, Macron defende a necessidade de fazer uma “revolução democrática profunda” (p. 4). Mas o que significa essa “revolução”?  Como podemos entender a ideia de que um banqueiro, representante direto do capital financeiro, pode realizar uma “revolução” no decadente imperialismo francês?

    A “revolução” de Macron significa, em suas palavras, uma campanha pela “justiça” e pelo “trabalho”. Justiça e trabalho que significam uma redução dos impostos patronais, com diminuição das taxas de contribuição, com o objetivo de aumentar a oferta de emprego. Nada mais, nada menos, do que diminuir a arrecadação do Estado com o objetivo de aumentar a lucratividade das empresas – com uma promessa não detalhada de que isso vai aumentar o emprego.

    Por outro lado, para um Estado altamente centralizado como a França, o candidato Macron promete a “desconcentração” dos poderes públicos, como por exemplo, a “autonomia completa das universidades, dos estabelecimentos escolares e das comunidades pedagógicas”, dando, na sua visão, o poder de “decidir” para quem vive a realidade de cada local.

    Esse discurso não é nada mais do que a repetição do clássico discurso neoliberal: maior autonomia para os locais, inclusive para conseguirem financiamento e sustentação. É dessa forma, que Macron defendeu que não vai alterar as 35 h de trabalho semanal na França, mas que os contratos coletivos negociados entre os sindicatos e as empresas terão “autonomia” para modificar essa jornada ….

    Em relação a União Europeia, Macron é um dos poucos candidatos que não somente defende, mas que quer aprofundar a liberalização econômica em áreas como a política comercial, industrial e agrícola.

    Poderíamos afirmar que a proposta política de Macron é terminar a destruição do Estado de bem-estar social, começada com a presidência de François Mitterrand nos anos 1980. A única coisa que sobraria do lado da “política social” seria o seguro-desemprego que, ao contrário de outros candidatos do establishment, Macron pretende universalizar, incluindo profissionais liberais com a condição que os desempregados aceitem uma proposta de emprego quando lhe for oferecida.

    Ainda que reúna condições para ser um “outsider” na corrida eleitoral, a “revolução” de Macron não é nada mais do que um aprofundamento do neoliberalismo como forma de recuperar a lucratividade das empresas francesas. Em tempos de crise e de fortalecimento de saídas nacionalistas e conservadoras e com uma forte presença da extrema-direita na França, Macron parece mais como uma possibilidade de um último suspiro neoliberal, uma carta na manga da burguesia em um momento de crise, do que uma alternativa imediata

  • Mulheres, por que tentam as silenciar?

    Por: Alinne Brito, de Macapá, AP

    A sociedade hostil em que vivemos usa dos padrões que se estabeleceram culturalmente pela classe que domina, para calar a quem eles julgam incapazes. Não faz muito tempo em que as mulheres conseguiram o direito de escrever e ler, não faz mesmo. Imaginar uma mulher letrada no Brasil, no século XIX, em uma realidade escravocrata, predominantemente rural, era, no mínimo, desequilibrar os esquemas táticos que os grandes latifundiários usavam para se manterem no poder.

    Com a tal da proclamação da “independência”, idealizou­-se que a imagem atribuída ao país mudaria para distanciar-se do caráter colonial, primitivo. Porém, a quem esse papel iria atender senão aos que já estavam na condução deste processo? Aos homens e aos seus grupos sociais, eureca! Caminhamos para outro século e ainda temos um índice de analfabetismo entre o sexo feminino, superior ao masculino e mais ainda quando se refere a mulheres negras.

    As mulheres em seu contexto histórico sempre ocuparam atividades que a sociedade ajuizava não necessitar de conhecimento intelectual e isso era mais frequente com aquelas mais empobrecidas. Eram lavadeiras, cozinheiras, prostitutas. A elas o analfabetismo não era uma opção, não tinham acesso à escola, ou a qualquer meio que oportunizasse a mudança quanto a essa condição. Segundo o critico literário Antônio Candido, no Brasil, em 1890, cerca de 84% da população era analfabeta, de acordo com o livro Literatura e Sociedade: Estudos de Teoria e História Literária: 2002, 50. No Brasil, as mulheres tiveram a ‘permissão’ de se matricularem em escolas em 1827 e apenas 52 anos depois, de cursar uma universidade.

    As que tiveram a ousadia de desafiar este sistema predominantemente masculino, tiveram que se esconder atrás de pseudônimos e tiveram carreiras cheias de dificuldades, marcadas por preconceitos e estigmas. Há quem hoje insista em desqualificar e silenciar aquelas que se ‘atrevam’ a falar, escrever, se manifestar de modo geral. Nossos direitos políticos precisam ser defendidos frequentemente, há pouco a mais de 80 anos foi conquistado esse direito especificamente em 3 de maio de 1933. A luta por esta conquista durou mais de 100 anos, ou seja, se iniciou essa discussão no século XIX com a introdução da dita literatura feminina.

    Muita alegações infundadas foram atribuídas às mulheres, dentre elas a associação de um desequilíbrio às questões de cunho hormonal, chamar de irracional, louca e histérica, por exemplo, e perguntar se você está de TPM são desqualificações e discursos banais. Frase do tipo: “Você é bonita para uma feminista” são clássicos do machismo escondidos supostamente atrás de um “elogio”. Justificados na tipologia da imagem, avaliam o corpo feminino (altura, cabelo, peso) como se fôssemos meros enfeites e penduricalhos de suas necessidades.

    Existe aquele que tenta deslegitimar seu discurso, sua militância, alegando que sua fala feminista é chata, não agrega e que afasta possíveis homens a ingressar em uma organização política. O paternalismo se estende nos desconfiados adjetivos e, por sua vez, são exemplos de homexplicanismo. Outros termos, como “Você é racional demais para uma mulher”, ou “Você precisa é de homem”, ou “É uma mal amada”, ou “Vai lavar uma trocha de roupa” são apenas alguns dentre muitos que a mulher cresce ouvindo. Mulher boa é a mulher calada.

    Infelizmente, tal opressão afeta inclusive nossa militância política. Quando de certa forma acreditamos que somos incapazes de conduzir uma discussão, de construir uma intervenção, um panfleto que seja, lembremos: “O proletariado não pode atingir a liberdade completa sem conquistar a plena liberdade para a mulher” (Lênin). Não podemos mesmo, porém não dá para desvincular a liberdade da mulher apenas com o fim do capitalismo e enquanto isso não ocorre “vou seguir com o machismo”!

    Não adianta se dizer de esquerda se atribui à mulher o vitimismo e alega que somos “mimizentas”. Não adianta falar de revolução se tem práticas opressoras com quem milita lado a lado contigo. Não adianta dizer que não é machista, se utiliza de sua boa oratória e de certo modo do prestigismo para pegar a “carne nova” no partido. Não quero de modo alguns ofender a esquerda e tão pouco aqueles que divido sonhos, mas é preciso avaliar, é preciso ter balanço de nossas ações para que, com um olhar amplo, juntos possamos reescrever a história, respeitando cada camarada, sua fala, seu texto, sua presença na luta. Pois não vamos nos deixar calar. Chega!

    Foto: Paulo Pinto/ AGPT

  • Últimos destaques de São Bernardo do Campo

    Por: Sonia Conti, de São Bernardo do Campo, SP

    Museu do Trabalhador na mira da Polícia Federal
    Devido a irregularidades em obras do Museu do Trabalhador em São Bernardo do Campo, a Polícia Federal levou, na manhã desta terça-feira (13), o vereador José Cloves, ex-secretário de obras (PT), para depor coercitivamente na sede da PF (Polícia Federal) em São Paulo. José Cloves está na lista da PF da Operação Hefesta, que investiga irregularidades na construção do Museu do Trabalho e do Trabalhador. Por volta das 12h, ele foi liberado.

    A Operação Hefesta deflagrou oito mandados de prisão preventiva, entre eles a do secretário Alfredo Buso (Obras), Osvaldo de Oliveira Neto (Cultura) e Sérgio Buster (adjunto de Obras), oito de condução coercitiva e de buscas e apreensões. Segundo a PF, o desvio na obra do Museu do Trabalho e do Trabalhador pode chegar a R$ 13 milhões.
    A investigação aponta desvios de projetos da lei Rouanet e convênios do Ministério da Cultura com a Prefeitura de São Bernardo.

    O Museu do Trabalho e do Trabalhadores seria uma homenagem da prefeitura de Luiz Marinho ao ex-presidente Lula.

    CPI do Imasf pede prisão de Valdir Miraglia
    Ex-superintendente do instituto, Valdir Miraglia está sobre suspeita do desvio de R$ 100 milhões da saúde dos servidores. Nesta segunda-feira (12), a CPI do Instituto Municipal de Assistência à Saúde do Funcionalismo (Imasf), aprovou relatório que pediu a prisão preventiva de Valdir Miraglia.

    Valdir assumiu o Imasf tendo em caixa R$ 60 milhões. Quatro anos depois, registrou déficit de R$ 8,6 milhões.
    O instituto gerencia 20 mil servidores e há anos o funcionalismo vê cair a qualidade do atendimento. Mesmo com aumentos nos valores de suas mensalidades, faltam médicos, hospitais, especialistas, entre outros.

    O conselho do Imasf, com nomes ligados à oposição ao governo de Luiz Marinho (PT), que tomou posse em fevereiro deste ano, vem acompanhando e denunciando as irregularidades no instituto. A má gestão foi a responsável pelo
    descredenciamento de hospitais e recebeu fortes críticas de usuários do plano.

    Se aceitas as denúncias, o relatório será encaminhado ao prefeito, ao conselho de saúde, à promotoria de SBC, ao Ministério Público, ao Ministério da Saúde, ao TCE, ao TCU, à Procuradoria Geral da República e ao GAECO.

    Eleições Sindserv
    No dia 8 de dezembro  ocorreu a quarta eleição para o sindicato do funcionalismo em SBC. O sindicato, comandado pela CUT, foi responsável pelo cancelamento de três eleições anteriores, por suspeita de fraudes por parte da chapa da situação.

    Na primeira eleição, a vitória da chapa dois foi reconhecida pelo presidente do Sindserv à época, mas dias após, por uma manobra suspeita da chapa 1, a eleição foi cancelada.

    Na segunda eleição, houve sumiço de urna dentro do local de apuração. Na terceira, mesmo mediada pelo MP, houve utilização de RGs fraudulentos, o que levou ao seu cancelamento. Na quarta eleição, em que a Chapa 1 venceu por uma diferença de 131 votos, acreditamos que a vitória se deve ao formato da eleição e ao roteiro escolhido para colocação das urnas em locais de difícil acesso para os funcionários da ativa, já que não houve liberação do funcionalismo para votar.

    Final da eleição que envolveu 1.351 votantes de um total de quase 6.000 sindicalizados
    Chapa 1: 732 votos
    Chapa 2: 619 votos

    Acreditamos que a luta não acabou, independente do resultado. Cabe a cada funcionário fiscalizar, acompanhar e participar do sindicato para construirmos os próximos passos.

    Foto: Wikimedia Commons