Somos Dandaras, Terezas e Luizas: somos mulheres negras e nossas vidas importam

Por: Elita Isabella, de Maceió, AL

(…) Não fomos vencidas pela anulação social,
Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial
O sistema pode até me transformar em empregada
Mas não pode me fazer raciocinar como criada
Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo
As negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo. (Eduardo Facção Central)

Combater a violência machista significa dar uma batalha sem trégua contra o racismo e o mito da democracia racial 
Nesta semana, temos duas datas importantes de luta contra as opressões, o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra e o dia 25, Dia Latino Americano e Caribenho de Luta Contra a Violência à Mulher. No Brasil, foram assassinadas mais 66,7% mulheres negras do que brancas. Precisamos refletir sobre esses números e sobre o seu significado, não apenas sob o ponto de vista das relações machistas no Brasil, mas a partir da combinação de outro elemento, que é o profundo significado do racismo na história de vida dessas mulheres. O Brasil é o quinto país no mundo com as maiores taxas de feminicídio, ou seja, é o quinto país no mundo com mortes de mulheres pela sua condição de gênero. As mulheres negras são as maiores vítimas da violência feminicida no Brasil, segundo dados já divulgados pelo Mapa da Violência e pelo IPEA.

Estudos recentes do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sobre a mortalidade de mulheres por agressões no Brasil, apontam para o fato de que a Lei Maria da Penha não causou o impacto necessário já que, ao longo dos seus dez anos de existência, a mortalidade de mulheres aumentou, especialmente entre as mulheres negras. Esse aspecto é importante e merece ser destacado porque as principais medidas do governo Temer afetam principalmente os gastos com investimentos em importantes áreas sociais, como os gastos com programas de combate à violência contra a mulher. Portanto, para nós, mulheres negras, o combate à violência machista que mata milhares de mulheres, significa um combate sem trégua ao racismo.

O mito da democracia racial reproduziu a concepção, arraigada até nossos dias, de que as relações raciais no Brasil foram pacíficas, de que somos uma ‘grande mistura de todas as raças’, e de que, sendo assim, não teríamos porque discutir racismo no Brasil. A verdade é que essa ‘mistura de raças’, difundida pelo mito da democracia racial, é apenas mais uma tentativa de anular a nossa história e de impedir uma discussão real e séria sobre o racismo institucional brasileiro. A tal da ‘grande mistura de raças’ tanto apregoada pelas teorias racistas no Brasil, esconde a exploração sexual, a violência do estupro e da objetificação dos corpos das mulheres negras ao longo de todo um processo histórico. Não somos dizimadas apenas pelo machismo. O racismo também nos dizima.

“A carne mais barata do mercado(…)”
Se a violência machista tem como seu principal alvo a mulher negra, no mercado de trabalho e nas relações de emprego isso não seria diferente. As mulheres negras encontram-se nos empregos mais precarizados e recebendo os menores salários. Mesmo com a diminuição das diferenças salariais entre homens e mulheres, no caso da mulher negra essa situação ainda persiste, e, segundo dados divulgados pelo IPEA, as mulheres negras recebem menos de 40% do que homens brancos. A falta de escolas e creches em tempo integral, que proporcione às mulheres melhores condições de participar do mercado de trabalho, torna-se um impeditivo ainda maior para as mulheres negras que são a maioria nas grandes periferias. Sem local para deixar seus filhos, são obrigadas a desistir de estudar, o que interfere diretamente nas suas possibilidades de conseguir espaço no mercado de trabalho e as lançam nos empregos mais precarizados, especialmente os terceirizados.

A crise econômica afeta ainda mais essas mulheres, as negras são maioria na fila dos desempregados. O governo Temer tem imposto medidas que, longe de ter como finalidade combater a crise econômica, tem como finalidade retirar direitos históricos dos trabalhadores e trabalhadoras afim de garantir os lucros da Casa Grande, daqueles de que sempre se beneficiaram da exploração dos negros e negras no Brasil. Nesse sentido, medidas como a PEC 55, que congela por 20 anos os gastos com investimentos sociais, especialmente os gastos com saúde e educação, é um grave ataque aos trabalhadores, mas um golpe ainda mais duro para as mulheres negras, pois significa reduzir ainda mais as possibilidades dessas mulheres de terem acesso à educação e saúde de qualidade. Temer propõe reduzir e congelar gastos sociais por 20 anos, mas não explica como boa parte de toda a riqueza produzida pelo país serve para encher os bolsos dos banqueiros.

A única saída é a luta
Para nós, negros e negras, todos os dias são dia 20, todos os dias são dia e consciência negra. No dia 25 de novembro, um dia de luta contra a violência à mulher, é importante que saibamos que as principais vítimas da violência machista são as mulheres negras. Temos essa certeza porque é a nossa negritude e a força da nossa ancestralidade que nos mantém de pé e resistindo até hoje, e para nós, mulheres negras, as mais afetadas pelas mazelas do sistema capitalista, não há outra saída que não seja a luta diária contra o racismo e toda forma de opressão. Seguiremos resistindo aos ataques de Temer e de todos os governos aos nossos direitos, seguiremos resistindo ao machismo cotidiano que nos massacra e que objetifica nossos corpos. Seguiremos firmes, porque vidas negras importam.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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